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A importância do conto de fadas

O mundo mágico dos contos face à rotina do quotidiano.

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O umbigo do conto

Setembro 14, 2007 por materialdidactico

Pierre Péju

L’archipel des contes

Paris, Aubier, 1989

Excertos adaptados

 

 

 

O umbigo do conto

 

La Petite Fille dans la Forêt des Contes é um ensaio que faz a apologia de uma prática viva e poética dos contos, e que nos convida a desconfiarmos das interpretações redutoras da moda do momento.

“E depois?” Esta é a pergunta que me apetece sempre fazer quando deparo com as imensas gavetas ideológicas nas quais críticos e intérpretes dos contos colocam as imagens que encontram nas narrativas, mesmo as mais perturbadoras. (Estou a pensar, concretamente, nas 31 funções de Propp e no modelo actancial de Greimas). É que mesmo as explicações mais argutas não conseguem dar conta daquele brilho próprio do conto, que lhe advém dos lugares mais profundos da nossa infância e da noite dos tempos, embora esta continue espantosamente actual. Esses críticos ficam também muito aquém daquilo a que chamo “o umbigo do conto”, esse ponto misterioso que liga uma narrativa aos segredos da nossa vida íntima e aos enigmas da comunidade humana.

Podemos perfeitamente, dentro da modernidade na qual temos de habitar, estudar e ler os contos, contá-los ou escrevê-los, e continuar abertos ao sempiterno trabalho de revelação que nos proporcionam.

Sempre me recusei a medir – em nome de que ideologia? – o “valor” pedagógico ou moralizador de um conto. Não quero estabelecer uma teoria dos contos: apenas pretendo extrair deles o maior número de significados possível e mostrar o vigor do sentido que brota continuamente destas narrativas, sempre disponíveis.

Longe de me lançar numa caça aos símbolos, convido o leitor a considerar os contos, e as suas versões orais ou literárias, como narrativas muito puras, capazes de preservar, na simplicidade aparente da sua forma, verdadeiros enigmas intemporais. Estou persuadido de que o enigma, o texto obscuro sobre o qual nos questionamos, é sempre mais precioso do que a resposta, seja ela qual for. Algumas imagens dos contos equivalem a perguntas jamais respondidas. É este desejo de penumbra que nos leva a considerar a floresta como o espaço por excelência do conto e não como um símbolo entre outros ou como um tema de estudo privilegiado.

O conto interessa-me, primordialmente, porque é um desvio necessário do acto de escrita, porque é um desvio de uma certa forma de vida, à semelhança do que acontece com o sonho. Pretendo agir como um amador, não por modéstia, mas por princípio. Um amadorismo ávido e consciencioso, sem dúvida, mas totalmente oposto a esse desgaste de energia que representam os trabalhos e as pesquisas universitárias dos últimos anos sobre o conto.

O amadorismo é uma liberdade: quando um assunto deixa de proporcionar prazer ao amador, este pode pô-lo de parte, mesmo que continue a nutrir por ele uma certa ternura. O especialista não larga a presa: encarniça-se, esgota-se, e acaba por tornar o seu tema de especialização enfadonho para toda a gente.

Lamento que o “público que se interessa pelo conto”, aquele que encontrei nas conferências que fiz, veja no estudo das “histórias que toda a gente conhece” uma compensação para a sua ignorância, diria até desprezo, em relação à literatura em geral. Este público, por vezes muito decepcionante, agarrado à bóia de salvação do folclore ou da pedagogia, contribui para fazer do conto um género literário marginal ou menor, e acaba por ignorar as vantagens que adviriam de suprimir a barreira entre a oralidade e a escrita, entre a tradição e a modernidade, e mesmo entre mitos, contos, lendas, novelas e romances, quando se trata de compreender de que forma as narrativas nos “marcam” – quer remontem à nossa infância ou ao fundo cultural da humanidade – e de que forma as narrativas constituem os únicos espelhos transfiguradores que tornam a vida visível para nós.

Se os contos me seduziram, não foi por gostar de coisas arcaicas, nem para satisfazer uma qualquer nostalgia dos “bons velhos tempos”, quando as narrativas ainda tinham lugar no seio de uma comunidade ideal. Se os contos são apaixonantes, é porque são narrativas completas e amadurecidas que pairam sobre nós, luminosas como frutos na sombra, sempre disponíveis. Subsistem e persistem enquanto referências flutuantes. Constituem um acervo para sempre aberto.

É pela sua “carne”, e não pelo seu “esqueleto”, que os contos são fascinantes. A sua eficácia e a sua elegância são sempre fonte de espanto para nós: o conto exibe uma economia de meios que torna cada elemento necessário e suficiente.

Publicado em contadores, contos, contos infantis, crianças, educação, escola, pedagogia, psicologia, simbologia, sonho | Sem comentários ainda

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