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A importância do conto de fadas PDF 

 

Índice do dossier “Sonhar o passado – A importância do conto de fadas”

Pierre Péju

L’archipel des contes

Paris, Aubier, 1989

Excertos adaptados

 

 

 

O umbigo do conto

 

La Petite Fille dans la Forêt des Contes é um ensaio que faz a apologia de uma prática viva e poética dos contos, e que nos convida a desconfiarmos das interpretações redutoras da moda do momento.

“E depois?” Esta é a pergunta que me apetece sempre fazer quando deparo com as imensas gavetas ideológicas nas quais críticos e intérpretes dos contos colocam as imagens que encontram nas narrativas, mesmo as mais perturbadoras. (Estou a pensar, concretamente, nas 31 funções de Propp e no modelo actancial de Greimas). É que mesmo as explicações mais argutas não conseguem dar conta daquele brilho próprio do conto, que lhe advém dos lugares mais profundos da nossa infância e da noite dos tempos, embora esta continue espantosamente actual. Esses críticos ficam também muito aquém daquilo a que chamo “o umbigo do conto”, esse ponto misterioso que liga uma narrativa aos segredos da nossa vida íntima e aos enigmas da comunidade humana.

Podemos perfeitamente, dentro da modernidade na qual temos de habitar, estudar e ler os contos, contá-los ou escrevê-los, e continuar abertos ao sempiterno trabalho de revelação que nos proporcionam.

Sempre me recusei a medir – em nome de que ideologia? – o “valor” pedagógico ou moralizador de um conto. Não quero estabelecer uma teoria dos contos: apenas pretendo extrair deles o maior número de significados possível e mostrar o vigor do sentido que brota continuamente destas narrativas, sempre disponíveis.

Longe de me lançar numa caça aos símbolos, convido o leitor a considerar os contos, e as suas versões orais ou literárias, como narrativas muito puras, capazes de preservar, na simplicidade aparente da sua forma, verdadeiros enigmas intemporais. Estou persuadido de que o enigma, o texto obscuro sobre o qual nos questionamos, é sempre mais precioso do que a resposta, seja ela qual for. Algumas imagens dos contos equivalem a perguntas jamais respondidas. É este desejo de penumbra que nos leva a considerar a floresta como o espaço por excelência do conto e não como um símbolo entre outros ou como um tema de estudo privilegiado.

O conto interessa-me, primordialmente, porque é um desvio necessário do acto de escrita, porque é um desvio de uma certa forma de vida, à semelhança do que acontece com o sonho. Pretendo agir como um amador, não por modéstia, mas por princípio. Um amadorismo ávido e consciencioso, sem dúvida, mas totalmente oposto a esse desgaste de energia que representam os trabalhos e as pesquisas universitárias dos últimos anos sobre o conto.

O amadorismo é uma liberdade: quando um assunto deixa de proporcionar prazer ao amador, este pode pô-lo de parte, mesmo que continue a nutrir por ele uma certa ternura. O especialista não larga a presa: encarniça-se, esgota-se, e acaba por tornar o seu tema de especialização enfadonho para toda a gente.

Lamento que o “público que se interessa pelo conto”, aquele que encontrei nas conferências que fiz, veja no estudo das “histórias que toda a gente conhece” uma compensação para a sua ignorância, diria até desprezo, em relação à literatura em geral. Este público, por vezes muito decepcionante, agarrado à bóia de salvação do folclore ou da pedagogia, contribui para fazer do conto um género literário marginal ou menor, e acaba por ignorar as vantagens que adviriam de suprimir a barreira entre a oralidade e a escrita, entre a tradição e a modernidade, e mesmo entre mitos, contos, lendas, novelas e romances, quando se trata de compreender de que forma as narrativas nos “marcam” – quer remontem à nossa infância ou ao fundo cultural da humanidade – e de que forma as narrativas constituem os únicos espelhos transfiguradores que tornam a vida visível para nós.

Se os contos me seduziram, não foi por gostar de coisas arcaicas, nem para satisfazer uma qualquer nostalgia dos “bons velhos tempos”, quando as narrativas ainda tinham lugar no seio de uma comunidade ideal. Se os contos são apaixonantes, é porque são narrativas completas e amadurecidas que pairam sobre nós, luminosas como frutos na sombra, sempre disponíveis. Subsistem e persistem enquanto referências flutuantes. Constituem um acervo para sempre aberto.

É pela sua “carne”, e não pelo seu “esqueleto”, que os contos são fascinantes. A sua eficácia e a sua elegância são sempre fonte de espanto para nós: o conto exibe uma economia de meios que torna cada elemento necessário e suficiente.

Maria Alberta Menéres

Imaginação

Porto, Ed. Asa, 2003

Excertos adaptados

 

 

Algumas leves considerações acerca dos contos de fadas,
da magia e da imaginação, ou talvez não

 

Talvez se oculte dentro da palavra imaginação, a própria magia. Mais do que magia: a imagem recuperada ou inventada. Porque no universo da imaginação há estranhos e ignorados caminhos que levam a terras sonhadas e terras reais.

Onde podemos dizer que começa realmente a fantasia e acaba a realidade? Que memória nos atraiçoa? Que esperança nos desmente? Hoje em dia sabemos como são fundamentais para o crescimento das crianças as histórias de fadas, esses enredos onde a realidade e a fantasia convergem para um ponto de encontro e de compreensão – talvez para a constatação de que o bom e o mau, o feio e o bonito, são nomes de seres ou de objectos ou de situações vivendo lado a lado, inevitavelmente.

Diz Bruno Bettelheim que o conto de fadas tem um efeito terapêutico na medida em que a criança encontra uma solução para as suas dúvidas através da contemplação do que a história parece implicar acerca dos seus conflitos pessoais nesse momento da vida.

O conto de fadas não informa sobre questões do mundo exterior, mas sim sobre processos interiores que ocorrem no âmago do sentir e do pensar.

E as crianças entendem bem a linguagem dos símbolos dos contos. São elas que inventam no seu dia-a-dia o jogo do “faz de conta” e tantos outros que as divertem e distraem em tempos vividos entre a imaginação e a realidade.

São elas que necessitam de contrapontos para situarem a sua própria vivência e o seu equilíbrio. Talvez por isso não se deva “explicar” à criança o sentido dos contos de fadas. As imagens e as acções são “as palavras explicativas” dos contos de fadas.

Quem não se lembra da aflição que sentiu ao ouvir contar que, “de repente, a menina se viu perdida na floresta”? A criança que escuta atentamente a história logo se sente e imagina também perdida naquela mesma floresta imensa e desconhecida.

Quem conta a história vê-se envolvido em todo este processo. Um adulto que goste de contar histórias não escapa ao seu próprio fascínio e descobre a cada momento, a cada pausa, o efeito que as suas palavras e a sua expressão provocam nele mesmo e na criança que ouve, de olhos maravilhados.

As fadas dos contos podem ser fadas boas ou fadas más.

A fada é sempre, para qualquer criança, uma certa imagem da sua própria mãe. Em primeira análise, porque é ela quem a acorda de manhã, lhe dá de comer e de beber, a veste e a embala. Mas esta “fada” que a criança pressente na sua mãe, nem sempre lhe aparece com cara radiante! Quando a criança se porta mal, a mãe zanga-se com ela. E na ansiedade da vida de todos os dias, quantas vezes a mãe, cansada e desiludida, não se zanga com ela um pouco injustamente!

A criança revolta-se. E quando se é criança, qualquer pequena revolta pode ser profundamente violenta. A mãe pode aparecer de repente como a fada má. Fada má e fada boa ao mesmo tempo podem ser imagens projectadas.

Diz ainda Bettelheim que a divisão de uma pessoa em duas, a fim de manter a boa imagem inalterada, surge a muitas crianças como solução para um conjunto de relações demasiado difíceis de digerir ou compreender.

Quando uma criança se irrita com a mãe que ela adora, sabendo muito bem que não deveria irritar-se, está sem o saber a transformá-la em fada má ou em bruxa, ao mesmo tempo que preserva, no seu íntimo, a imagem da sua mãe inteiramente boa ou fada benfazeja. A fantasia da bruxa serviu-lhe para escoar toda a sensação de raiva que sentia, e para deixar liberta a imagem da mãe.

A criança, aliás, “divide” as pessoas que a rodeiam em boas e em más. “Divide-se” a ela própria, quando não se assume como culpada de coisas que fez e que a desgostam: chega a afirmar que não foi ela quem fez isto ou aquilo (que realmente fez).

É a preservação do lado bom contra o lado mau. A fada má, a bruxa, a madrasta das histórias de fadas, são tão necessárias como a fada boa, o pai compreensivo, a mãe adorada, o príncipe encantado.

Os contos de fadas garantem à criança que as dificuldades podem ser vencidas, as florestas atravessadas, os caminhos de espinhos desbravados e os perigos mudados, por mais pequeno e insignificante que seja quem pretende vencer na vida. E a criança, desprotegida por natureza, sente que também ela pode ser capaz de vencer os seus secretos medos, as suas evidentes ignorâncias.

Assim, aprende a aceitar melhor as pequeninas desilusões que vai encontrando no seu dia-a-dia, pois sabe que, à semelhança do que acontece nos contos, os seus esforços por se tornar melhor hão-de ter um dia a desejada recompensa. No seu íntimo, ela entende muito bem que as histórias maravilhosas são irreais – mas não as aceita como falsas, na medida em que descrevem, de um modo imaginário e simbólico, os passos do seu crescimento.

Num mundo já de si perfeitamente antagónico, ela intuitivamente “divide” tudo em bom e mau, para assim encontrar o seu equilíbrio.

E, no entanto, quantas vezes se inquieta: porque será, ela própria, obediente e teimosa, boa e má, valente e medrosa, uma contradição viva?

Através de imagens simples e directas, os contos de fadas, com toda a sua imaginação, ajudam a criança a destrinçar os seus próprios sentimentos complicados, ambivalentes, de modo a desviar cada qual para o seu lugar, evitando as confusões.

O conto de fadas sugere não só o isolamento e a separação dos aspectos disparatados e confusos da experiência da criança em coisas ou situações antagónicas, como também projecta estes em figuras diferentes , conclui Bettelheim.

Para quem escreve, assim como para quem lê para crianças, é essencial nunca escrever ou contar por contar. São de exigir os conflitos, as confrontações, as aventuras – ou seja: sentido e acção. Afinal, o que faz parte da própria vida.

É para nós um desafio escrever as novas histórias destes novos tempos, em que a varinha mágica pode ser muito simplesmente um interruptor de luz; a cabana da floresta; uma tenda de campismo; um cavalo alado; o mais recente foguetão espacial…

Por detrás da imaginação, quantas vezes escondida, está sempre a vontade de criar. O conhecimento dessa vontade não é de hoje, mas de há muito, muito tempo. Para Platão, ela nasceria do poder de um deus ou de um demónio. Ele chegou a falar de inspiração. Aristóteles e Horácio embrenharam-se pelos caminhos do estudo da poesia e da escrita apaixonada. Os antigos também invocavam as musas, essas misteriosas e invisíveis companheiras dos escritores e dos artistas em geral.

A tradição sempre acreditou que, espreitando sobre o ombro de quem escrevia, estava “uma outra vontade” que não a de quem exercia o activo ofício de escrever. Para os românticos, essa outra vontade era evidentemente a própria inspiração. Para Freud, ela morava no inconsciente de cada um. Para os surrealistas, ela existia no próprio acto de escrever e era provocada por ele mesmo.

Vontade, imaginação e criação conjugam-se para que, em cada época, se consiga extrair do mundo a essência dessa mesma época.

O Perfume do Sonho, na Tarde

O perfume do sonho envolvia-a, debaixo do docel de folhas da árvore, que emborralhava já a sonolência, ronronante, do bichano – seu companheiro – e que só com ela se aventurava a sair do aconchego da casa.

Que bom! Não havia aulas, nem deveres, naquela tarde de sábado! Podia gastar o tempo à vontade… Boa altura para um pincho no sonho. Como se lhe adivinhasse o desejo, e mais lesto do que parecia natural num ronronar, preguiçoso, já o gato ia a cavalo numa vassoura de bruxa, sem o consentimento dela!

― Sape, daí já!

Bruxas não eram da sua predilecção. Convinha pensar um pouco, antes de se meterem, às cegas, em aventuras… E se tirasse, da arca encantada, os seus vestidos mágicos? Mas qual? O de princesa de diadema, à espera de um noivo, que lhe decifrasse o enigma do amor? O de pastora, adormecida, de romeirinha e de coração esperançoso, a sonhar que um príncipe perdido numa caçada a encontraria?

O de menina-malmequer, pronta também a florir e a partilhar o merendeiro com um beijo de boas-tardes? Qual escolher?

E o de Xerazade [1]? Esse, esse. Nada lhe agradava mais do que ser a que, diligentemente, emudecia com o surgir da manhã e, depois de mil e uma noites de encantamento, havia de conseguir conquistar o amor, graças ao feitiço da sua palavra. O de Xerazade servia-lhe, como uma luva. E, então, perante o bichano-companheiro, que assistia atento e segurava as fitas do sonho, envergou as suas calças tufadas, de gomos de seda colorida às pintas, vestiu o seu corpete que encaixava só as laranjinhas, adolescentes, dos seios e lhe deixava a descoberto o pescoço e a ondulação do corpo até à cintura. Com todo o cuidado colocou o seu turbante com pena de pavão e só deixou de fora da sua farta cabeleira dois caracóis, que lhe emolduravam a luz, maliciosa, dos olhos. O que faltava? Ah! as suas pulseiras a serpentear pelo braço, o leque de plumas para esconder o sorriso, trocista, de quem se sabe de antemão vencedora. E ainda o anel que o seu senhor lhe tinha oferecido, para florir o alado dos gestos, enquanto contava as suas histórias. Tudo a postos. Na sua imaginação a noite, que tão benéfica lhe era como indicava o seu nome, que significava filha da Lua, não tardaria a descer sobre os minaretes do palácio. Do jardim, já subiam os perfumes que o morrer da tarde acentuava e a envolviam. E gozava, de antemão, a surpresa do marido, quando lhe começasse a contar do califa Haroun al-Raschid [2], que gostava de percorrer Bagdad incógnito e era capaz de aprender a justiça com as crianças, ou as sete viagens de Sindbad, o marinheiro [3] e o muito que a sua imaginação ainda sabia e era capaz de desembaraçar, sem perder o fio à meada. Estava certa não apenas de se fazer amar, mas até de ajudá-lo na governação do reino e mostrar-lhe que uma mulher, mesmo quando escrava como Morgiana [4], pode ser de grande ajuda e não apenas e só uma flor de prazer. Confiante, sentia-se desejosa de mais uma noite a vir. E assim a deixou a rapariga, desejosa também ela doutras paragens, doutras aventuras e doutros sonhos. Nem precisou de tapete mágico, como Aladino [5].

― A mim, meus cavalos de vento e pensamento!

Ali estavam, às ordens para partir para os longes – até onde?

Até ao palácio da Rainha das Neves [6], que tanto a tinha fascinado, quando tinha lido a história. Mas o palácio ficava para lá dos vales brancos de neve da Finlândia, no grande Norte. Tinha de se preparar. Precisava de luvas, cachecol e também para o pobre bichano. Já estava pronta ela e o companheiro, quando se achou, mesmo assim, pouco preparada para gelos tão eternos. Podiam constipar-se, não convinha arriscar. Resolveu trocar os sapatos por umas botas, vestir um casacão debruado a pele, aconchegante, providenciar um regalo, um gorro que não lhe deixasse gelar as tranças e um cachecol de lã, mais quente, para o seu companheiro. Agora, sim. Bem preparados, podiam partir e até tinham uma chave-coração para abrir as portas do sonho desejado.

― A caminho!

E à medida que avançava no meio da neve e do gelo, começou a pensar como é que Gerda [7] tinha sido capaz de caminhar com os pés nus sobre aquela frialdade, glaciar, só aquecida pelo desejo de ter de volta o seu companheirinho de brincadeiras, e livrá-lo do esquecimento em que o tinha mergulhado a Rainha das Neves. Ah! a amizade verdadeira era um grande mistério!

Brr… que frio! Tinham, finalmente, chegado. Ali estava o palácio com as paredes feitas de poeiras de neve, de portas e vidros de ventos agrestes, salas vazias e cintilantes, iluminadas por auroras boreais e no meio de um lago, gelado, o trono da Rainha das Neves, onde ela se sentava, quando não viajava no seu trenó. Sentia as suas trancinhas inteiriçadas, como pingentes de sincelo, debaixo do gorro de pele.

― Vamos regressar! Vamos regressar!

E, em menos de um ai, ela e o bichano, montados num cavalo de pensamento, muito mais rápido do que os cavalos de vento, estavam a salvo, outra vez debaixo da sombra, protectora e quente, da árvore.

Aquilo de ser sempre rapariga também a aborrecia um pouco. Em sonhos, estava ao seu alcance ser rapaz. Por que não? Robin dos bosques, já que gostava tanto de subir às árvores?

Gnomo, para poder descer às profundezas da terra e das águas e ajudar princesas, aflitas e desmioladas, que tinham perdido anéis? Não se sentia muito tentada… E pirata? Ah! pirata era melhor forma para o seu pé, aventureiro, e trazia-lhe o bom cheiro da maresia, sempre colado à sua pele, de tal maneira o mar era grato ao seu coração. Estava decidido. Seria pirata, escorreito, sem perna de pau e com uma pala para tapar, a fingir, não o olho cego, mas o olhinho, guincho e esperto, de sondar os longes.

Com um pulo, ágil, logo o bichano se enredou no cordame de mais aquele sonho, para não perder, ele também, mais aquela aventura. E ambos se atracaram ao pirata de “Era uma vez…” Justamente na tarde em que, feliz, ele tinha descoberto que os verdadeiros tesouros, pelos quais tinha espadeirado e combatido, em abordagens perigosas, estavam afinal, ali, sem sangue, nem combates, ao alcance da mão e do olhar. Onde? Onde? Na natureza. Quem podia duvidar? Que ouro mais valioso do que o das estrelas? Ou de mais puro quilate do que o do sol, quando incendiava a manhã, nascente? Que jóias mais lucilantes do que as miríades de brilhos espelhados no mar? Que rubis mais maduros do que os do coração das romãs? Que verdes de esmeralda podiam competir com os das folhinhas, lavadas pela chuva? Que diamantes mais cheios de luz do que os das gotas do orvalho, na renda, preciosa, das teias de aranha? Tudo ali ao alcance da mão e do olhar. Agora que tudo se tinha aclarado no seu espírito estava disposto a desistir da pirataria. O seu trabalho seria outro. O de procurar alguém que como ele gostasse de nadar e com quem pudesse partilhar aquela verdade: os verdadeiros tesouros estavam ali ao alcance da mão, na água cristalina da nascente, onde matava a sede, nos frutos da terra e na imensidão do mar – que servia de espelho ao sol, à lua e às estrelas. E pôs-se a sonhar com uma nadadora de touca nenúfar-pompom com antenas para repartir com ela o seu coração e aquela verdade.

A história do pirata estava já encaminhada para um final feliz e a rapariga, como quem salta poldras de um regato, estava pronta para outra aventura. Mas o mar ainda a chamava. Ah! o mar, que difícil livrar-se do seu apelo! E decidiu tornar-se sereia. Sim, seria a que se tinha apaixonado pelo príncipe, que salvara da morte, durante a tempestade [8]. Era o que mais lhe agradava. E logo começou a sentir o seu corpo axadrezar-se de escamas, verdes-cinza e azuis, que iam do claro transparente ao quase negro das profundezas dos jardins do mar, onde tinha o seu, ao pé do das suas irmãs. Ai dela! Vinha, agora, cada vez mais à superfície das águas, com o seu toucado de algas e enfeitada numa das faces, que as raparigas da terra tinham coradas, com uma estrela vermelha. Tentava vê-lo, aproximava-se o mais possível do palácio, mas ele não sabia que fora ela a salvá-lo, nem podia apaixonar-se por uma sereia. Tinha de arranjar duas pernas. Pela história, tão amada, sabia que ela estava disposta a dar à feiticeira do mar o que de mais precioso tinha – a sua voz e o seu canto, que enfeitiçavam, em troca de duas pernas. Queria aproximar-se dele, dançar para ele, mesmo sabendo que seria como caminhar sobre espadas cortantes. Mas o que era uma dor física em relação ao apelo do amor? Um mistério ainda mais exigente do que a amizade, era isso… E foi quando uns miados, rabiosos e insistentes, lhe interromperam o sonho. Claro, era o bichano que não gostava das profundezas do mar.

― Bichaninho! Bichaninho! — e passava-lhe a mão pelo pêlo a sossegá-lo. ― Nada de aflições!

Estava disposta a providenciar um escafandro, se necessário, para que ele pudesse passear com ela pelos jardins submersos. Mas ele, pelos vistos, não se deixava convencer pelas suas festas, miava desesperadamente. O que teria?! Só então reparou que o sol ia morrendo e a sombra arrefecia. Tinha-se esquecido do seu lanche e do leitinho dele. Era isso. O bichano reclamava, com fome, o seu pratinho de leite. Pronto, pronto. Teria de fechar, à pressa, o seu baú de sonhos e de lá meter, rápido, rápido, os fatos que não tinha chegado a usar. Que pena! Tão apropriados para um baile de máscaras!

O de menina-alforreca,

o de menina-balão,

o de arlequim,

o de toucado-coração-de-lira, para arpoar um coração gémeo

e o dos anos-vinte com bolsinha e todo franjado, como os antigos candeeiros de vidrilhos. Tão próprio para dançar o charlston! Para outra vez seria…

O bichano já ia longe, numa corrida de afoiteza, acelerada, que a fome é negra. Teve de se resignar. E também ela correu para casa.

Luísa Dacosta, entre Junho e Setembro de 2002

Luísa Dacosta

O Perfume do Sonho, na Tarde

Porto, Ed. Asa, 2004



[1] A contadora de todas as histórias de As Mil e Uma Noites.

[2] Personagem principal de algumas das histórias de As Mil e Uma Noites.

[3] Personagem principal das sete viagens referidas.

[4] Uma das personagens femininas de uma das histórias: Ali-Babá e os Quarenta Ladrões.

[5] Personagem principal de Aladino e a lâmpada maravilhosa.

[6] A Rainha das Neves – título de um conto do escritor dinamarquês H. C. Andersen.

[7] Principal personagem feminina de A Rainha das Neves.

[8] A Sereiazinha – conto de H. C. Andersen.

 

 

Um esqueleto no armário…

Conhecemos os nossos filhos como a palma da mão. O formato das unhas, o recorte das orelhas, as risadas deles, os caprichos e as cóleras… É natural. No fim de contas fomos nós que os “fizemos”… No entanto, algo começa a escapar-nos desde muito cedo – pela simples razão de que a vida, a verdadeira vida, sempre nos escapa…

Eles têm os seus segredos, os seus “esqueletos no armário”, as suas angústias e perguntas: “Por que é que eu gosto dela e ela não gosta de mim?”, “E o papá, como é que ele se sentirá lá em cima? Estará bem, ao menos?”, “E Deus? Achas mesmo que ele existe?”

E nós, que os imaginávamos ainda na idade dos chupas-chupas, dos escorregões, damos com eles carregados de perguntas, de segredos. Nós, as “mamãs-corujas”, sentimos por vezes um assomo de nostalgia e pensamos: “Ainda tão novo… e já vem com estas perguntas!”

Sim, é verdade. É inútil esperarmos que ele calce 39 para o vermos interrogar-se sobre o curso do mundo. As crianças não se deixam enganar pelos nossos sorrisos postiços nem pelas nossas tentativas para as protegermos do mal. Não estão ao abrigo das pequenas feridas da existência e das questões metafísicas.

Também são picadas pelas urtigas do mundo, mesmo que, a cada dia que passa, nós, pais, tal como o Principezinho, tentemos aplanar os nossos pequenos mundos e expurgá-los de todos os embondeiros que possam vir a feri-las. Não nos deixemos enganar pelo seu silêncio. Mesmo antes do cataclismo da adolescência, os nossos filhos não vivem em nenhum mundo cor-de-rosa.

Aos 3-4 anos começam a ter consciência da morte. Por volta dos 10, sabem que ela é definitiva. Por isso, como falar-lhes da morte, da sexualidade, da amizade, do dinheiro, da tristeza e da angústia, da solidão e da camaradagem? Do divórcio e dos conflitos?

 

 

A criança cósmica

 

Filósofa lá no fundo de si mesma, a criança passa os dias num local, a escola, que responde a tudo… excepto às suas interrogações. Entre as aulas de Geografia, de Matemática ou de Formação Cívica, não há lugar para filosofias!

Cuidado para não sufocarmos à nascença a centelha de filosofia que existe nela. Por vezes, temos muita pressa em fazer das crianças pequenos adultos, cem por cento adaptados ao mundo real, verdadeiros campeões de adaptação, que trazem boas notas e correm do judo para as lições de violino, sempre a sorrir (mesmo que o sorriso seja postiço).

Cuidado com aquelas pressões que, conforme escreve Pierre Péju, mantêm a criança no que é infantil, para depois a precipitarem nos problemas da pré-adolescência, sem nunca terem deixado aflorar as grandes questões . E se deixássemos de a amordaçar… E se nos esforçássemos desde o início por a abrirmos às grandes questões?

 

Período de latência, período de silêncio

A idade da razão é denominada pelos especialistas de “período de latência”. É um momento muito especial. Pressupõe-se que os nossos “ex-pequenos” tenham interiorizado os interditos. Já não choram nem gritam a plenos pulmões. Quando muito, queixam-se de alguma dificuldade em adormecer. Os pais respiram de alívio.

Este período abençoado, depois da fase dos “caprichos ao rubro” e antes da fase conturbada da adolescência, decorre de forma sub-reptícia. E, como não faz barulho, é fatalmente esquecido.

Mas não é pelo facto de a nossa “criança” ter hoje seis ou sete anos que ela se tornou mais sossegada. Pelo contrário: de acordo com os especialistas, a inquietação é o traço dominante deste famoso período. Embora menos espectacular do que o dos quatro anos.

Temos de reconhecer que a escola e a sociedade contribuem para “amordaçar” a criança. A partir da primária, tem de se dizer adeus à fantasia, aos joguinhos e aos escorregões no recreio. E coitados daqueles que não se põem na linha.

Mas as crianças adaptam-se a tudo. Adaptam-se ao papá que chega tarde, à mamã que não tem tempo para lhes responder, ao ritmo escolar que não é o adequado. É quase assustador, se pensarmos bem.

 

 

E a criança lunar?

 

Não critiquemos a escola. Também nós, pais, passamos o melhor do nosso tempo a lisonjear a criança real, a criança “solar”. E que tipo de discurso é o nosso? “O que fizeste nas aulas? Arruma o teu quarto, vai escovar os dentes (pelo menos durante três minutos), come os legumes e despacha-te!”

Uma espécie de “voz de síntese”, um tudo-nada metálica, que soa como um eco longínquo e nos lembra afinal o que detestamos: a repetição inexorável e arcaica dos “deveres” da existência. Mas, e a verdadeira vida? Por que a esquecemos tantas vezes?

Sem dúvida, devido à falta de tempo. Porque é preciso andar depressa! Porque, obcecados pelo desempenho, pelas boas notas e pela visibilidade das coisas, acabamos por só nos dirigirmos ao seu lado menos bom: a criança solar, que dorme, come, trabalha e aprende. E a criança lunar, o poeta que sonha, que pensa, que sofre em segredo? Muitas vezes fica esquecida. Talvez não saibamos como falar com ela…

 

Não ao cerco das perguntas!

 

Ao chegarmos a casa à noite, o que pretendemos é retomar um diálogo que não teve lugar durante o dia.

O nosso filho estava na escola, nós, no escritório. Temos de conversar. O que fazemos então? Recorremos a um interrogatório cerrado, do género: “Então, querido(a)? Como passaste o dia? Comeste bem?” Até ao inevitável: “Tiveste boas notas?”

Claro que tudo é feito com boa intenção. Mas isto soa a interrogatório policial, do género: “Nós temos meios de vos fazer falar!” De resto, os resultados são quase sempre decepcionantes. E o nosso pequeno entrevistado fecha-se no seu mutismo.

A solidão da criança é mais secreta do que a do adulto diz Bachelard na sua Poética do devaneio [1].

É verdade, senhor poeta, é tão verdade que nós, mães, ficamos irritadas com os segredos dos filhos. Nós que, ao chegarmos a casa, gostaríamos tanto de, integralmente, “recuperar o nosso rebento”, de o ouvirmos contar como foi o seu dia. Só que… o rebento oferece resistência. E a comunicação demora a estabelecer-se.

As crianças detestam a intromissão, a curiosidade dos adultos. São exímias a escapulir-se às nossas perguntas. Fazem lembrar as enguias. Uma expressão de contrariedade, um suspiro: “Chega de perguntas”, “Deixa-me em paz”… “Está bem, desculpa”.

 

As histórias criam laços…

 

É aqui que entra a história contada à hora de dormir. A história cria laços entre os pais e os filhos, sobretudo numa época em que passamos o melhor do nosso tempo longe deles. Através da história contada ao deitar, não lhes falamos com todo o nosso poder de mães dominadoras, mas “comungamos” com eles, deste ou daquele problema.

Por meio do “deslocamento poético” e da distanciação, a história fala-lhes de um outro eu: uma personagem que não os angustia e que os encoraja a falar. Sente o seu filho triste, deprimido? Comece por: “Era uma vez”, uma distanciação no tempo que o “desangustia” e desinibe. Porque a personagem, o coelhinho, o pequeno ratinho, o principezinho ou a fada, é ele e um outro.

Quando ele ouvir a história da princesinha que se tinha fechado na sua torre, de tão triste que estava, ficará tranquilo – era tão longe, foi há tanto tempo – e a distância faz desaparecer a angústia.

Perante um diálogo mais difícil, a história permite recolher confidências de uma forma mais eficaz do que se se abordar os assuntos de uma maneira frontal. Recebe-se mais quando “se dá” do que quando se pretende tirar à força.

Da boca do adulto ao ouvido da criança, os contos são as primeiras confidências filosóficas. Pela primeira vez, a criança vive a experiência do universal: ultrapassa as fronteiras estreitas do “eu”, o gueto do “ego”… As histórias criam uma ponte entre nós e os outros e fazem-nos sair do casulo do nosso pequeno mundo.

Tornar-se adulto, escreve acertadamente Albert Jacquart no prefácio de Qui a lu petit lira grand [2], é ser-se introduzido num novelo de encontros. Sim, a leitura, aberta ao outro, cria um extraordinário mundo de encontros, porque convida à empatia e à emoção.

 

Emoção… e ideias

É a palavra-chave: emoção. E também aquela que diferencia a história do discurso moralizador. Não se imagina a que ponto o livro é capaz de transmitir emoção. À medida que as crianças o vão folheando, sentem a revolta da Cinderela, o medo de Branca de Neve, choram ao ouvirem o que diz a menina dos fósforos (que lhes fala também de Deus e do que está para além da morte).

Deliciosa leitura, aquela que é experimentada pelos primeiríssimos leitores. Daniel Pennac evoca esta maré viva em Comme un roman [3]:  Satisfação imediata e exclusiva das nossas sensações: a imaginação expande-se, os nervos vibram, o coração bate apressado, a adrenalina sobe…

As histórias falam também de subconsciente a subconsciente, e não do córtex ao neo-córtex! A emoção que as crianças sentem diante da leitura de uma história abre nelas como que uma brecha…

Os olhos brilham, os sorrisos abrem-se, o rosto ilumina-se, o queixo treme. Algo se passa, diz o poeta, alguma coisa oscila. Porque a emoção é um inevitável vector de ideias, de longe bem mais eficaz do que qualquer discurso racional!

E, de repente, nesta íntima “oscilação” do ser, sentimo-nos prontos para compreender tudo: as pequenas feridas, as questões sérias, os sofrimentos dos outros. E os nossos. A emoção é uma extraordinária chave de acesso às ideias.

 

Um amorzinho em vez de outro…

 

Aos 5, 6, 7 anos, o nosso filho deixa progressivamente a sua babete, o seu paninho de estimação, o seu velho ursinho de pelúcia. Deixa o mundo do amorzinho exclusivo, para entrar no dos amorzinhos múltiplos, por outras palavras, no da filosofia, no da história, no dos outros. Mas não terão também as histórias a função de permitir uma transição?

Vejam os mais pequenos, que chegam orgulhosamente ao infantário ou à escola, de manhã, trazendo na mão um pequeno livro, uma história que lhes fala deles próprios, uma história com que, durante todo o dia, se deleitarão – mesmo sem saberem ler. E vasculhemos também as nossas sacolas: há sempre um velho livro, de folhas já gastas, ao lado de uma fotografia de férias ou de um pequeno caderno.

A história da noite tem também uma função terapêutica e transicional. Saboreamo-la como uma guloseima, antes de adormecermos. Como uma luz de presença no corredor, que nos une aos outros antes do mergulho na noite.

 

 

O ritual da história da noite

 

Estas histórias da noite são um momento de magia roubado à vida. Instalamo-nos confortavelmente, esquecemos tudo. As discussões, as pequenas feridas, as censuras, os dentes não lavados. Pais e filhos vêem-se pouco? É preciso manter vivo o ritual da história contada antes de adormecer: minimum vital, pausa indispensável.

Lemos à noite: a criança sente-se protegida por múltiplos rituais. Daí as crises de lágrimas quando se vê privada da história da noite – é pior do que ser privada de sobremesa. Adoptamos rituais relacionados com a história, procurando criar um ambiente apropriado: apaga-se a luz, acende-se uma pequena lâmpada, faz-se silêncio.

Apanhamos o tom, modificando a voz. Uma voz muito grossa, uma muito fininha para os ratinhos, etc. Sobretudo, deixar aflorar a emoção… Em suma: é preciso empenho. Já repararam que, quando lêem uma história “em cima do joelho”, os nossos filhos podem pedir outra, e depois outra? Mas, quando ficam realmente satisfeitos, não costumam pedir mais…

 

 

Pequenas pedrinhas brancas… para pequenos polegares pensantes!

A história é a guloseima, antes da longa separação da noite. É como uma lampadazinha que a criança poderá meter debaixo do travesseiro. Uma ideia, uma imagem para afagar, para chuchar, para remexer em todos os sentidos. É o que os bebés pressentem quando se lhes dá um livro, que eles viram de pernas para o ar vezes sem conta! “Sim”, dizem na sua linguagem. “Há alguma coisa de essencial e de misterioso. O livro é mágico.”

Lendo uma história aos nossos filhos, fornecemos-lhes uma mão cheia de pedrinhas brancas – que os pássaros não comerão. Levá-las-ão consigo, ao longo do caminho, rumo à floresta obscura. Perdidos no escuro, assolados de perguntas, dúvidas e angústias, saberão desenvencilhar-se. E tirar proveito delas.

 



[1] Gaston Bachelard, Poética do Devaneio, São Paulo, Ed. Martins Fontes, 1988.

[2] Causse Rolande, Qui a lu petit lira grand , Paris, Plon, 2000.

[3] Daniel Pennac, Comme un roman, Paris, Gallimard, 1995.

Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

 

 

 

A luta pelo sentido

 

Se queremos viver não somente de momento a momento, mas na plena consciência da existência, então a nossa maior necessidade e a nossa mais difícil realização é encontrarmos um sentido para a vida. É sabido que muitos perderam a vontade de viver e que cessaram até de tentar fazê-lo porque a vida deixou de fazer sentido para eles. A compreensão do sentido da vida de cada um não se adquire de repente, em determinada idade, nem mesmo quando já tivermos chegado à maturidade cronológica. Pelo contrário, a maturidade psicológica consiste na aquisição de uma segura compreensão do que pode ou deve ser o sentido da nossa vida. E esta realização é o resultado final de uma longa evolução: em cada estádio procuramos, e temos de encontrar, um mínimo de sentido, adequado à forma como o nosso espírito e a nossa compreensão já evoluíram.

Hoje, como em tempos idos, a mais importante e a mais difícil tarefa na educação de um filho é ajudá-lo a encontrar um sentido para a vida. Para se conseguir isso são precisas muitas experiências de crescimento. Enquanto se desenvolve, a criança tem de aprender, passo a passo, a compreender-se a si própria; com isso ficará apta a compreender os outros e, eventualmente, a relacionar-se com eles por vias mutuamente satisfatórias e significativas.

Como educador e terapeuta de crianças com severas perturbações, a minha principal tarefa era restituir-lhes um sentido para as suas vidas. Se as crianças são educadas de forma a que a vida para elas tenha significado, não precisam de uma ajuda especial. Vi-me confrontado com o problema de deduzir quais as experiências que, na vida de uma criança, eram mais adequadas para promoverem a sua capacidade para encontrar um sentido na vida; para dotar a vida em geral de maior sentido. Relativamente a esta tarefa, nada é mais importante do que o impacto dos pais e dos que tomam conta das crianças; a seguir, em importância, vem a nossa herança cultural, quando transmitida à criança de forma acertada. Quando as crianças são pequenas, é a literatura que da melhor maneira contém essa informação.

Sendo assim, tornei-me profundamente desgostoso com muita da literatura destinada a desenvolver o espírito e a personalidade da criança, porque não estimula nem alimenta os recursos de que ela mais necessita para enfrentar os difíceis problemas interiores. A esmagadora maioria da “literatura infantil” tenta divertir ou informar, ou ambas as coisas. Mas a maior parte destes livros são tão frívolos de substância que muito pouco de significativo se aprende com eles. A aquisição de habilidades, incluindo a capacidade de leitura, perde o valor quando o que se aprende não acrescenta nada de importante à nossa vida.

Nestes e noutros aspectos, em toda a “literatura infantil”, com raras excepções, nada é mais enriquecedor e satisfatório, quer para a criança quer para o adulto, do que o popular conto de fadas. É verdade que, a um nível inicial, os contos de fadas ensinam pouco sobre as condições específicas da vida da sociedade moderna de massas; estes contos foram criados muito antes desta sociedade aparecer. Mas podemos aprender mais coisas com estes contos – sobre os problemas interiores dos seres humanos e as soluções acertadas para as suas exigências, do que em qualquer outro tipo de história que esteja dentro do âmbito da compreensão das crianças.

Exactamente porque a sua vida é muitas vezes desconcertante, a criança precisa mais do que ninguém que lhe dêem a possibilidade de se compreender a si própria neste complexo mundo que vai enfrentar. Para poder fazê-lo, tem de ser ajudada a criar um sentido coerente no meio do turbilhão dos seus sentimentos. A criança precisa de ideias sobre como pôr a casa interior em ordem e, nessa base, conseguir dar um certo sentido à sua vida. Precisa – e quase não é necessário dar ênfase a isto – de uma educação moral em que, com subtileza, se lhe transmitam as vantagens de um comportamento moral, não através de conceitos éticos abstractos mas através do que parece palpavelmente acertado e, portanto, com sentido para ela.

Ora, os contos de fadas são portadores de mensagens importantes para o psiquismo consciente, pré-consciente ou inconsciente, qualquer que seja o nível em que funcionem. Lidando com problemas humanos universais, especialmente com os que preocupam o espírito da criança, as histórias falam ao seu ego nascente, encorajando o seu desenvolvimento e, ao mesmo tempo, aliviam tensões pré-conscientes ou inconscientes.

Quanto mais eu tentava compreender porque têm estas histórias tanto êxito no enriquecimento da vida interior da criança, mais intuía que elas, num sentido mais profundo do que qualquer outra leitura, “atingem” a criança no seu núcleo psicológico e emocional. Falam das severas tensões interiores de uma maneira que a criança inconscientemente compreende e – sem menosprezar as sérias lutas internas que o crescimento implica – proporcionam exemplos de soluções, tanto temporárias como permanentes, para as dificuldades mais prementes.

A minha esperança é de que uma compreensão apropriada dos méritos ímpares dos contos de fadas possa levar pais e professores a conferir-lhes outra vez o papel central que eles desempenharam durante séculos na vida da criança.

 

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas II – Os contos de fadas e o dilema existencial

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