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Archive for the ‘análise de contos’ Category

Maria Alberta Menéres

Imaginação

Porto, Ed. Asa, 2003

Excertos adaptados

 

 

Algumas leves considerações acerca dos contos de fadas,
da magia e da imaginação, ou talvez não

 

Talvez se oculte dentro da palavra imaginação, a própria magia. Mais do que magia: a imagem recuperada ou inventada. Porque no universo da imaginação há estranhos e ignorados caminhos que levam a terras sonhadas e terras reais.

Onde podemos dizer que começa realmente a fantasia e acaba a realidade? Que memória nos atraiçoa? Que esperança nos desmente? Hoje em dia sabemos como são fundamentais para o crescimento das crianças as histórias de fadas, esses enredos onde a realidade e a fantasia convergem para um ponto de encontro e de compreensão – talvez para a constatação de que o bom e o mau, o feio e o bonito, são nomes de seres ou de objectos ou de situações vivendo lado a lado, inevitavelmente.

Diz Bruno Bettelheim que o conto de fadas tem um efeito terapêutico na medida em que a criança encontra uma solução para as suas dúvidas através da contemplação do que a história parece implicar acerca dos seus conflitos pessoais nesse momento da vida.

O conto de fadas não informa sobre questões do mundo exterior, mas sim sobre processos interiores que ocorrem no âmago do sentir e do pensar.

E as crianças entendem bem a linguagem dos símbolos dos contos. São elas que inventam no seu dia-a-dia o jogo do “faz de conta” e tantos outros que as divertem e distraem em tempos vividos entre a imaginação e a realidade.

São elas que necessitam de contrapontos para situarem a sua própria vivência e o seu equilíbrio. Talvez por isso não se deva “explicar” à criança o sentido dos contos de fadas. As imagens e as acções são “as palavras explicativas” dos contos de fadas.

Quem não se lembra da aflição que sentiu ao ouvir contar que, “de repente, a menina se viu perdida na floresta”? A criança que escuta atentamente a história logo se sente e imagina também perdida naquela mesma floresta imensa e desconhecida.

Quem conta a história vê-se envolvido em todo este processo. Um adulto que goste de contar histórias não escapa ao seu próprio fascínio e descobre a cada momento, a cada pausa, o efeito que as suas palavras e a sua expressão provocam nele mesmo e na criança que ouve, de olhos maravilhados.

As fadas dos contos podem ser fadas boas ou fadas más.

A fada é sempre, para qualquer criança, uma certa imagem da sua própria mãe. Em primeira análise, porque é ela quem a acorda de manhã, lhe dá de comer e de beber, a veste e a embala. Mas esta “fada” que a criança pressente na sua mãe, nem sempre lhe aparece com cara radiante! Quando a criança se porta mal, a mãe zanga-se com ela. E na ansiedade da vida de todos os dias, quantas vezes a mãe, cansada e desiludida, não se zanga com ela um pouco injustamente!

A criança revolta-se. E quando se é criança, qualquer pequena revolta pode ser profundamente violenta. A mãe pode aparecer de repente como a fada má. Fada má e fada boa ao mesmo tempo podem ser imagens projectadas.

Diz ainda Bettelheim que a divisão de uma pessoa em duas, a fim de manter a boa imagem inalterada, surge a muitas crianças como solução para um conjunto de relações demasiado difíceis de digerir ou compreender.

Quando uma criança se irrita com a mãe que ela adora, sabendo muito bem que não deveria irritar-se, está sem o saber a transformá-la em fada má ou em bruxa, ao mesmo tempo que preserva, no seu íntimo, a imagem da sua mãe inteiramente boa ou fada benfazeja. A fantasia da bruxa serviu-lhe para escoar toda a sensação de raiva que sentia, e para deixar liberta a imagem da mãe.

A criança, aliás, “divide” as pessoas que a rodeiam em boas e em más. “Divide-se” a ela própria, quando não se assume como culpada de coisas que fez e que a desgostam: chega a afirmar que não foi ela quem fez isto ou aquilo (que realmente fez).

É a preservação do lado bom contra o lado mau. A fada má, a bruxa, a madrasta das histórias de fadas, são tão necessárias como a fada boa, o pai compreensivo, a mãe adorada, o príncipe encantado.

Os contos de fadas garantem à criança que as dificuldades podem ser vencidas, as florestas atravessadas, os caminhos de espinhos desbravados e os perigos mudados, por mais pequeno e insignificante que seja quem pretende vencer na vida. E a criança, desprotegida por natureza, sente que também ela pode ser capaz de vencer os seus secretos medos, as suas evidentes ignorâncias.

Assim, aprende a aceitar melhor as pequeninas desilusões que vai encontrando no seu dia-a-dia, pois sabe que, à semelhança do que acontece nos contos, os seus esforços por se tornar melhor hão-de ter um dia a desejada recompensa. No seu íntimo, ela entende muito bem que as histórias maravilhosas são irreais – mas não as aceita como falsas, na medida em que descrevem, de um modo imaginário e simbólico, os passos do seu crescimento.

Num mundo já de si perfeitamente antagónico, ela intuitivamente “divide” tudo em bom e mau, para assim encontrar o seu equilíbrio.

E, no entanto, quantas vezes se inquieta: porque será, ela própria, obediente e teimosa, boa e má, valente e medrosa, uma contradição viva?

Através de imagens simples e directas, os contos de fadas, com toda a sua imaginação, ajudam a criança a destrinçar os seus próprios sentimentos complicados, ambivalentes, de modo a desviar cada qual para o seu lugar, evitando as confusões.

O conto de fadas sugere não só o isolamento e a separação dos aspectos disparatados e confusos da experiência da criança em coisas ou situações antagónicas, como também projecta estes em figuras diferentes , conclui Bettelheim.

Para quem escreve, assim como para quem lê para crianças, é essencial nunca escrever ou contar por contar. São de exigir os conflitos, as confrontações, as aventuras – ou seja: sentido e acção. Afinal, o que faz parte da própria vida.

É para nós um desafio escrever as novas histórias destes novos tempos, em que a varinha mágica pode ser muito simplesmente um interruptor de luz; a cabana da floresta; uma tenda de campismo; um cavalo alado; o mais recente foguetão espacial…

Por detrás da imaginação, quantas vezes escondida, está sempre a vontade de criar. O conhecimento dessa vontade não é de hoje, mas de há muito, muito tempo. Para Platão, ela nasceria do poder de um deus ou de um demónio. Ele chegou a falar de inspiração. Aristóteles e Horácio embrenharam-se pelos caminhos do estudo da poesia e da escrita apaixonada. Os antigos também invocavam as musas, essas misteriosas e invisíveis companheiras dos escritores e dos artistas em geral.

A tradição sempre acreditou que, espreitando sobre o ombro de quem escrevia, estava “uma outra vontade” que não a de quem exercia o activo ofício de escrever. Para os românticos, essa outra vontade era evidentemente a própria inspiração. Para Freud, ela morava no inconsciente de cada um. Para os surrealistas, ela existia no próprio acto de escrever e era provocada por ele mesmo.

Vontade, imaginação e criação conjugam-se para que, em cada época, se consiga extrair do mundo a essência dessa mesma época.

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Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

 

 

 

A luta pelo sentido

 

Se queremos viver não somente de momento a momento, mas na plena consciência da existência, então a nossa maior necessidade e a nossa mais difícil realização é encontrarmos um sentido para a vida. É sabido que muitos perderam a vontade de viver e que cessaram até de tentar fazê-lo porque a vida deixou de fazer sentido para eles. A compreensão do sentido da vida de cada um não se adquire de repente, em determinada idade, nem mesmo quando já tivermos chegado à maturidade cronológica. Pelo contrário, a maturidade psicológica consiste na aquisição de uma segura compreensão do que pode ou deve ser o sentido da nossa vida. E esta realização é o resultado final de uma longa evolução: em cada estádio procuramos, e temos de encontrar, um mínimo de sentido, adequado à forma como o nosso espírito e a nossa compreensão já evoluíram.

Hoje, como em tempos idos, a mais importante e a mais difícil tarefa na educação de um filho é ajudá-lo a encontrar um sentido para a vida. Para se conseguir isso são precisas muitas experiências de crescimento. Enquanto se desenvolve, a criança tem de aprender, passo a passo, a compreender-se a si própria; com isso ficará apta a compreender os outros e, eventualmente, a relacionar-se com eles por vias mutuamente satisfatórias e significativas.

Como educador e terapeuta de crianças com severas perturbações, a minha principal tarefa era restituir-lhes um sentido para as suas vidas. Se as crianças são educadas de forma a que a vida para elas tenha significado, não precisam de uma ajuda especial. Vi-me confrontado com o problema de deduzir quais as experiências que, na vida de uma criança, eram mais adequadas para promoverem a sua capacidade para encontrar um sentido na vida; para dotar a vida em geral de maior sentido. Relativamente a esta tarefa, nada é mais importante do que o impacto dos pais e dos que tomam conta das crianças; a seguir, em importância, vem a nossa herança cultural, quando transmitida à criança de forma acertada. Quando as crianças são pequenas, é a literatura que da melhor maneira contém essa informação.

Sendo assim, tornei-me profundamente desgostoso com muita da literatura destinada a desenvolver o espírito e a personalidade da criança, porque não estimula nem alimenta os recursos de que ela mais necessita para enfrentar os difíceis problemas interiores. A esmagadora maioria da “literatura infantil” tenta divertir ou informar, ou ambas as coisas. Mas a maior parte destes livros são tão frívolos de substância que muito pouco de significativo se aprende com eles. A aquisição de habilidades, incluindo a capacidade de leitura, perde o valor quando o que se aprende não acrescenta nada de importante à nossa vida.

Nestes e noutros aspectos, em toda a “literatura infantil”, com raras excepções, nada é mais enriquecedor e satisfatório, quer para a criança quer para o adulto, do que o popular conto de fadas. É verdade que, a um nível inicial, os contos de fadas ensinam pouco sobre as condições específicas da vida da sociedade moderna de massas; estes contos foram criados muito antes desta sociedade aparecer. Mas podemos aprender mais coisas com estes contos – sobre os problemas interiores dos seres humanos e as soluções acertadas para as suas exigências, do que em qualquer outro tipo de história que esteja dentro do âmbito da compreensão das crianças.

Exactamente porque a sua vida é muitas vezes desconcertante, a criança precisa mais do que ninguém que lhe dêem a possibilidade de se compreender a si própria neste complexo mundo que vai enfrentar. Para poder fazê-lo, tem de ser ajudada a criar um sentido coerente no meio do turbilhão dos seus sentimentos. A criança precisa de ideias sobre como pôr a casa interior em ordem e, nessa base, conseguir dar um certo sentido à sua vida. Precisa – e quase não é necessário dar ênfase a isto – de uma educação moral em que, com subtileza, se lhe transmitam as vantagens de um comportamento moral, não através de conceitos éticos abstractos mas através do que parece palpavelmente acertado e, portanto, com sentido para ela.

Ora, os contos de fadas são portadores de mensagens importantes para o psiquismo consciente, pré-consciente ou inconsciente, qualquer que seja o nível em que funcionem. Lidando com problemas humanos universais, especialmente com os que preocupam o espírito da criança, as histórias falam ao seu ego nascente, encorajando o seu desenvolvimento e, ao mesmo tempo, aliviam tensões pré-conscientes ou inconscientes.

Quanto mais eu tentava compreender porque têm estas histórias tanto êxito no enriquecimento da vida interior da criança, mais intuía que elas, num sentido mais profundo do que qualquer outra leitura, “atingem” a criança no seu núcleo psicológico e emocional. Falam das severas tensões interiores de uma maneira que a criança inconscientemente compreende e – sem menosprezar as sérias lutas internas que o crescimento implica – proporcionam exemplos de soluções, tanto temporárias como permanentes, para as dificuldades mais prementes.

A minha esperança é de que uma compreensão apropriada dos méritos ímpares dos contos de fadas possa levar pais e professores a conferir-lhes outra vez o papel central que eles desempenharam durante séculos na vida da criança.

 

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas II – Os contos de fadas e o dilema existencial

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Anterior: Psicanálise dos contos de fadas I

  

Os contos de fadas e o dilema existencial

Na criança ou no adulto, o inconsciente é um poderoso determinante do comportamento. Quando o inconsciente é reprimido e ao seu conteúdo é negada a consciencialização, então o espírito consciente da pessoa acabará finalmente por ficar em parte esmagado pelos derivativos desses elementos inconscientes. Ou então, ela ver-se-á forçada a manter um controle tão rígido e compulsivo sobre os mesmos que a sua personalidade pode vir a ser gravemente afectada. Mas quando se permite que esse material inconsciente atinja em certa medida a consciência, e possa ser elaborado através da imaginação, o seu potencial para fazer o mal – a nós próprios e aos outros – torna-se muito reduzido; algumas das suas forças podem então ser dirigidas para fins mais positivos. Contudo, a crença paternal dominante é que a criança tem de ser poupada àquilo que mais a perturba: as suas angústias sem forma e nome, as suas fantasias caóticas, enfurecidas ou mesmo violentas. Muitos pais acreditam que só a realidade consciente ou as imagens agradáveis que satisfaçam os desejos é que devem ser oferecidas à criança – que ela deve ser exposta somente ao lado belo das coisas. Porém, um tal alimento unilateral nutre o espírito também só unilateralmente, e a vida real não é bela na totalidade.

Há uma recusa generalizada em deixar as crianças saberem que a fonte de muito do que vai mal no mundo tem a ver com a nossa própria natureza – com a propensão que todo o homem tem para agir agressivamente, associalmente, egoistamente, por raiva ou angústia. Em vez disso, queremos que os nossos filhos acreditem que todos os homens são bons por natureza. Mas as crianças sabem que eles nem sempre são bons; e muitas vezes, mesmo quando o são, prefeririam não o ser. Isto vem contradizer o que os pais lhes dizem, o que faz com que a criança se veja a si própria como um monstro.

A cultura dominante deseja aparentar, especialmente no que diz respeito às crianças, que o lado sombrio do homem não existe, afirmando acreditar num “melhorismo” optimista. A própria psicanálise é encarada como tendo por fim tornar a vida mais fácil – mas isso não foi a intenção do seu fundador. A psicanálise foi criada para habilitar o homem a aceitar a natureza problemática da sua vida sem ser vencido por ela ou sem se entregar à fuga sistemática.

É esta exactamente a mensagem que os contos de fadas trazem à criança, de múltiplas formas: que a luta contra graves dificuldades na vida é inevitável, faz parte intrínseca da existência humana – mas que se o homem se não furtar a ela, e com coragem e determinação enfrentar as dificuldades, muitas vezes inesperadas e injustas, acabará por dominar todos os obstáculos e sair vitorioso.

Os contos modernos para crianças evitam sobretudo os problemas existenciais, ainda que estes representem questões cruciais para todos nós. A criança precisa muito especialmente de sugestões, em forma simbólica, sobre como lidar com estes obstáculos para chegar sem riscos à maturidade. As histórias “inócuas” não mencionam a morte ou a velhice, nem os limites da nossa existência ou o desejo de uma vida eterna. O conto de fadas, pelo contrário, confronta-nos, sem rodeios, com as exigências básicas do homem.

Por exemplo, muitos contos de fadas começam com a morte da mãe ou do pai; nestes contos, a morte cria problemas angustiantes, como a própria morte ou o medo dela o fazem na vida real. Outros contos falam de um pai idoso que decide que chegou a altura de a nova geração tomar as rédeas. Contudo, antes que isso aconteça, o sucessor tem de provar ser capaz e digno. O conto dos irmãos Grimm As três penas começa assim: Era uma vez um rei que tinha três filhos… Quando o rei já estava velho e fraco, pensando no seu fim, não sabia qual dos filhos deveria herdar o trono. Para se decidir, o rei dá aos filhos uma tarefa difícil; o filho que melhor a desempenhar será rei depois da minha morte.

É característico dos contos de fadas expor um dilema existencial, concisa e directamente. Isto permite que a criança enfrente o problema na sua forma mais essencial, ao passo que um enredo mais complexo seria para ela mais confuso. O conto de fadas simplifica todas as situações. As suas personagens são definidas com clareza e os pormenores, a não ser que sejam muito importantes, são eliminados. Todos os caracteres são mais típicos do que invulgares.

Contrariamente ao que acontece nos modernos contos para crianças, tanto a maldade como a virtude encontram-se omnipresentes nos contos de fadas tradicionais. Em praticamente todos eles, o bem e o mal aparecem sob a forma de personagens e acções, pois o bem e o mal são omnipresentes na vida de cada um de nós. Aliás, a propensão para ambos encontra-se em cada ser. É esta dualidade que coloca um problema moral e que exige uma luta para a resolver.

O mal não deixa de ter os seus atractivos – simbolizados pelo poderoso gigante ou pelo dragão, pelo poder da bruxa, pelo da astuta rainha em Branca de Neve – e muitas vezes está temporariamente em ascensão. Em muitos contos de fadas o usurpador consegue, por algum tempo, apoderar-se do lugar que, por direito, pertence ao herói – como as maldosas irmãs n’ A Gata Borralheira. Não é o facto de o malfeitor ser castigado no fim da história que faz com que os contos de fadas sejam uma experiência de educação moral, ainda que isso também seja uma parte da questão.

Nos contos de fadas, como na vida, o castigo (ou o medo dele) é somente uma dissuasão limitada para o crime. A convicção de que o crime não compensa é uma dissuasão muito mais eficaz, e é por isso que nos contos de fadas os maus perdem sempre. Não é o facto de a virtude ganhar no fim que promove a moralidade, mas sim o facto de que o herói é extremamente simpático para a criança, a qual se identifica com ele em todas as suas lutas. Por causa dessa identificação, a criança imagina que sofre com o herói, que vive todas as suas provações e tribulações, triunfando com ele quando a virtude triunfa também. A criança faz tais identificações por si própria, e são as lutas interiores e exteriores do herói que gravam nela a moralidade.

As personagens dos contos de fadas não são ambivalentes – não são boas e más ao mesmo tempo –, como na realidade o somos. Mas uma vez que a polarização domina o espírito da criança, ela domina também os contos de fadas. Uma pessoa é boa ou má, sem meio‑termo. Um irmão é estúpido, outro inteligente. Uma irmã é virtuosa e trabalhadora, a outra, vil e preguiçosa. Uma é bela, as outras feias. Um dos pais é todo bondade, o outro maldade. A justaposição de personagens opostas não tem por fim dar ênfase ao “bom” comportamento, como seria o caso nos contos de advertência. (Há alguns contos de fadas amorais em que o bem e o mal, a beleza e a fealdade não têm qualquer papel.)

Mas estas personagens polarizadas permitem à criança compreender facilmente a diferença entre ambos os pólos, coisa que ela não poderia fazer facilmente se os protagonistas fossem desenhados mais próximos da realidade, com todas as complexidades que caracterizam as pessoas reais. As ambiguidades têm de esperar até que se tenha estabelecido uma personalidade relativamente firme com base em identificações positivas. Só então é que a criança tem bases para compreender que há grandes diferenças entre as pessoas e que, portanto, tem de fazer uma opção sobre aquilo que quer ser. Esta decisão básica, sobre a qual todo o desenvolvimento posterior da personalidade será erigido, é facilitada pela polarização dos contos de fadas.

As crianças de hoje já não crescem na segurança de uma grande família ou de uma comunidade bem integrada. Assim, mais ainda do que no tempo em que foram “inventados” os contos de fadas, é importante fornecer à criança moderna imagens de heróis que têm de se lançar no mundo sozinhos e que, apesar de não saberem à partida como é que as coisas se vão resolver, encontram lugares seguros, seguindo em frente com profunda confiança interior.

O herói dos contos de fadas tem um percurso solitário durante uns tempos, tal como a criança moderna que frequentemente se sente isolada. O herói recebe ajuda porque está em contacto com coisas primitivas – uma árvore, um animal, a natureza – tal como a criança se sente em contacto com estas coisas, mais do que a maioria dos adultos. O destino destes heróis convence a criança de que, como eles, se pode sentir abandonada no mundo, tacteando no escuro; mas, como eles, no decorrer da sua vida será guiada passo a passo, e receberá ajuda quando necessário. Hoje, mais do que noutros tempos, a criança precisa da confiança oferecida pela imagem do homem isolado, que todavia é capaz de estabelecer relações significativas e compensadoras com o mundo que o rodeia.

Ao mesmo tempo que distrai a criança, o conto de fadas elucida-a sobre ela própria e promove o desenvolvimento da sua personalidade. Tem tantas significações, em tantos níveis diferentes, enriquece a existência da criança de tantas maneiras, que nenhum outro livro é capaz de igualar a quantidade e diversidade de contributos que estes contos trazem à criança.

A maioria dos contos de fadas teve origem em períodos em que a religião era a parte mais importante da vida; assim, eles lidam directamente, ou por dedução, com temas religiosos. As histórias d’As Mil e Uma Noites estão cheias de referências à religião islâmica. Muitos contos de fadas ocidentais têm conteúdo religioso; mas a maior parte destas histórias é hoje desprezada e desconhecida do grande público, porque, para muitos, estes temas religiosos já não despertam, universal e pessoalmente, associações significativas.

O esquecimento em que caiu O filho de Nossa Senhora, uma das mais lindas histórias dos irmãos Grimm, é disso exemplo. Começa exactamente como em Hansel e Gretel: Junto de uma grande floresta vivia um lenhador com a sua mulher. Tal como em Hansel e Gretel, o casal é tão pobre que não pode alimentar-se a si próprio nem à filha de três anos. Comovida com a sua desgraça, a Virgem Maria aparece-lhes e oferece-se para tomar conta da pequena, que leva consigo para o Céu. A pequena vive uma vida maravilhosa até à idade dos catorze anos. Nessa altura, como em variadas versões de Barba Azul, a Virgem confia à pequena as chaves de treze portas, doze das quais ela pode abrir, mas não a décima terceira.

A pequena não resiste à tentação: mente e, em consequência, é mandada de volta para a Terra, muda. Sofre provações severas e está prestes a ser queimada viva quando, desejando confessar a sua má acção, recupera a voz para o fazer. É-lhe dada então pela Virgem a felicidade para toda a vida. A lição da história é esta: uma voz habituada a mentir só nos leva à perdição; é melhor sermos privados dela, como a heroína da história. Mas uma voz habituada a arrepender-se para admitir os erros e dizer a verdade, redime-nos.

Como não é possível saber exactamente em que idade um determinado conto de fadas é importante para uma determinada criança, não podemos decidir qual dos muitos contos deverá ser contado em determinado tempo ou porquê. Só a criança pode determinar isso, através da força das emoções com que reage ao que um conto evoca no seu consciente ou inconsciente.

Naturalmente, os pais começarão por contar ou ler ao filho um conto de que eles próprios gostaram em pequeninos ou de que gostam ainda hoje. Se a criança não mostra entusiasmo pela história, isso significa que os motivos e temas não evocaram nela uma resposta significativa nessa altura da sua vida. Será então melhor contar‑lhe outra história na noite seguinte. Depressa se saberá que determinada história se tornou importante para ela, quer pela sua resposta imediata à mesma, quer por pedir que lha contem mais e mais vezes. Se tudo correr bem, o entusiasmo da criança por essa história tornar-se-á contagioso e a história será importante para os pais, quanto mais não seja porque faz tanto sentido para o filho.

Finalmente, virá o dia em que a criança retirou já tudo quanto podia da sua história preferida, porque os problemas que a tinham feito procurar a história foram substituídos por outros, que encontram melhor expressão num outro conto. Ela pode então perder, temporariamente, interesse por este conto, e gostar muito mais de outro. Para contar contos de fadas é sempre melhor seguir a indicação da criança.

Mesmo que os pais adivinhem correctamente as razões por que o filho se envolveu emocionalmente com determinado conto, deve ser guardada só para si essa descoberta. As experiências e as reacções de uma criança são extremamente importantes e em grande parte inconscientes, devendo permanecer assim até que ela chegue a uma idade em que uma compreensão mais madura seja possível. É sempre inoportuno interpretar os pensamentos inconscientes de uma pessoa, tornar consciente o que ela deseja conservar pré-consciente, e isto é especialmente verdade no caso de uma criança. É tão importante para o bem-estar da criança sentir que os seus pais compartilham as suas emoções, através do gosto pelo mesmo conto, como sentir que os seus pensamentos íntimos não são conhecidos deles até que ela se decida a revelá-los.

Além disso, explicar a uma criança por que razão um conto de fadas é para ela tão cativante destrói o encantamento da história, que depende em grande parte do facto de a criança não saber ao certo porque ficou tão deliciada com ela. E com a perda deste poder de encantamento, vai-se também o potencial da história para ajudar a criança a lutar por si própria e resolver sem ajuda o problema que, em sua opinião, deu sentido à história. As interpretações dos adultos, por mais correctas que sejam, tiram à criança a oportunidade de sentir que foi ela, sozinha, por ouvir e ruminar repetidamente a história, que conseguiu resolver com êxito uma situação difícil. Nós crescemos, encontramos o sentido da vida e confiança em nós próprios por termos compreendido e resolvido os nossos problemas pessoais, e não porque outros no-los explicaram.

Os temas dos contos de fadas não são sintomas neuróticos, algo que importa compreendermos de forma racional, para mais depressa nos vermos livres deles. Esses temas são sentidos como autênticas maravilhas pela criança, porque através deles se sente compreendida e apreciada no seu âmago, nos seus sentimentos, nas suas esperanças e angústias, sem que seja preciso trazer tudo isso à superfície para ser investigado à luz crua de uma racionalidade que ainda está para além da compreensão infantil. Os contos de fadas enriquecem a vida da criança e apresentam‑se com uma qualidade de encantamento, exactamente porque ela não sabe como é que as histórias produziram em si semelhante prodígio.

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas III – Um punhado de magia 

Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

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Um punhado de magia: a vida adivinhada por dentro

A Menina do Capuchinho Vermelho foi o meu primeiro amor. Sentia que se pudesse ter-me casado com ela, teria conhecido a verdadeira felicidade. Esta afirmação de Charles Dickens indica que ele, como incontáveis milhões de crianças por esse mundo fora, também foi encantado pelos contos de fadas. Mesmo já célebre, Dickens reconheceu o impacto formativo que as fantásticas personagens e as diversas ocorrências dos contos tiveram nele e no seu génio criador. Exprimiu muitas vezes desprezo pelos que, em nome de uma racionalidade desinformada e mesquinha, insistiam em racionalizar, expurgar ou proscrever estas histórias, roubando assim às crianças as importantes contribuições que os contos de fadas podem trazer às suas vidas. Dickens compreendeu que as imagens dos contos de fadas ajudam as crianças, mais do que tudo, na sua muito difícil e todavia importante e satisfatória tarefa: a conquista de uma consciencialização mais madura que ponha ordem nas pressões caóticas do seu inconsciente.

Durante a maior parte da história do homem, a vida intelectual da criança (além das experiências mais imediatas no seio da família) dependia de histórias míticas ou religiosas e de contos de fadas. Esta literatura tradicional alimentava a imaginação da criança e estimulava a sua fantasia. Simultaneamente, uma vez que estas histórias respondiam às perguntas mais importantes da criança, constituíam o principal agente da sua socialização. Mitos e lendas religiosas (que com eles estão intimamente relacionados) ofereciam material com o qual as crianças formavam os seus conceitos sobre a origem e a finalidade do mundo e sobre os ideais sociais que poderiam imitar. Tais eram as imagens do invicto herói Aquiles e do astuto Ulisses; de Hércules, cuja história mostrava que não era indigno, mesmo para o mais forte dos homens, limpar a mais repugnante das cavalariças; de São Martinho, que cortou ao meio a sua capa para vestir um mendigo.

Nos contos de fadas, os processos internos são exteriorizados e tornam‑se compreensíveis porque são representados por personagens da história e pelas suas ocorrências. Por isso é que, na medicina tradicional hindu, um conto de fadas, que punha em jogo o seu problema particular, era oferecido a uma pessoa psiquicamente perturbada, para meditação. Admitia-se que, através da contemplação da história, a pessoa perturbada seria levada a uma visão da natureza do impasse que vivia na altura e entreveria a possibilidade da sua resolução. Aquilo que determinado conto contivesse sobre o desespero, as esperanças e os métodos de vencer as tribulações, permitia ao paciente descobrir uma saída para a sua aflição e encontrar-se a si próprio, à imagem do herói da história.

Mas a importância suprema dos contos de fadas para o indivíduo em crescimento é qualquer coisa de diferente dos ensinamentos sobre as formas correctas de viver neste mundo (esta sabedoria é bastante suprida pela religião, pelos mitos e pelas fábulas). Os contos de fadas não têm a pretensão de descrever o mundo tal como ele é nem aconselham o que cada um deve fazer. Se o fizessem, o doente hindu seria levado a seguir um padrão de comportamento imposto – o que seria não só má terapêutica, mas o contrário da terapia.

O conto de fadas é terapêutico porque o paciente encontra a sua própria solução, contemplando o que a história parece conter a seu respeito e a respeito dos seus conflitos interiores nesse momento da sua vida. O conteúdo do conto escolhido não tem nada a ver com a vida exterior do doente, mas antes com os seus problemas internos, que parecem incompreensíveis e, portanto, insolúveis. O conto de fadas não se refere claramente ao mundo exterior, ainda que comece de forma bastante realista e contenha temas do quotidiano. A natureza irrealista destes contos (a que tacanhos espíritos racionalistas se opõem) é importante, porque torna óbvio que o objectivo dos contos de fadas não é dar informação útil sobre o mundo exterior, mas sim sobre os processos psicológicos interiores que têm lugar num indivíduo.

As personagens e as ocorrências dos contos de fadas também personificam e ilustram conflitos internos, mas sugerem com extrema subtileza como resolver esses conflitos e quais os passos a dar em direcção a uma humanidade mais nobre. O conto de fadas é apresentado de forma simples, familiar; não se fazem exigências ao ouvinte – o que evita até à mais pequenina das crianças o sentir-se compelida a actuar de uma maneira específica – e nunca faz sentir à criança que ela é inferior. Longe de fazer exigências, o conto de fadas sossega, dá esperanças quanto ao futuro e contém a promessa de um desfecho feliz.

Para compreendermos como é que uma criança julga os contos de fadas, consideremos, por exemplo, os muitos contos em que o jovem herói engana o gigante que o aterra ou até ameaça a sua vida. Que as crianças sabem por intuição o que estes “gigantes” representam, vê-se logo pela seguinte reacção espontânea de uma criança de cinco anos. Animada pela discussão acerca da importância que têm os contos de fadas para as crianças, uma mãe venceu a hesitação em contar ao seu filho histórias “tão sangrentas e ameaçadoras”. Assim, contou-lhe a história de Jack, o mata-gigantes. No final, a resposta do filho foi: “Os gigantes não existem, pois não?”

Antes que a mãe pudesse dar ao filho a resposta tranquilizadora que lhe estava na ponta da língua – e que estragaria o valor da história para ele – o pequeno continuou: “Mas há pessoas crescidas que são como os gigantes.” Com os seus cinco anos, ele compreendeu a encorajadora mensagem da história: apesar de os adultos poderem parecer gigantes assustadores, um rapazinho esperto pode vencê-los.


 

 

 

 

Criança de fronte sem nuvens

E olhos cheios de sonhos e encantos,

Apesar do tempo veloz

E de estarmos separados por meia vida, eu e tu,

O teu amoroso sorriso certamente acolherá

A prenda de amor de um conto de fadas.

C. L. Dodgson (Lewis Carroll) in

Through the Looking Glass

 

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas IV – A necessidade de magia na criança

Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

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Anterior: Psicanálise dos contos de fadas III – Um punhado de magia

A necessidade de magia na criança

Do ponto de vista dos adultos e em termos da ciência moderna, as respostas que os contos de fadas dão são mais fantásticas do que reais. De facto, estas soluções parecem tão incongruentes a alguns adultos (que se divorciaram já dos caminhos pelos quais as crianças sentem o mundo), que eles se recusam a transmitir às crianças informações tão “falsas”. Contudo, explicações realistas são normalmente incompreensíveis para as crianças, porque lhes falta a compreensão abstracta necessária para lhes dar um sentido.

As explicações científicas exigem um pensamento objectivo. Tanto a investigação teórica como a exploração experimental demonstraram que nenhuma criança em idade pré-escolar pode verdadeiramente aprender estes dois conceitos, sem os quais a reflexão abstracta é impossível. Conheci muitos exemplos em que, especialmente nos últimos tempos da adolescência, foi necessário apelar para os anos de crença na magia para compensar alguém que se viu prematuramente privado dela na sua infância, depois de lhe terem imposto (em vão!) a estreita realidade. É como se estes jovens sentissem estar agora perante a última oportunidade para compensar uma grave lacuna nas suas vidas; ou que, sem terem passado por esse período de crença na magia, não se achavam aptos a enfrentar os rigores da vida adulta.

Muitos jovens que procuram hoje a evasão súbita através dos sonhos proporcionados por drogas, são iniciados por gurus, acreditam na astrologia, praticam “magia negra” ou, por outra qualquer forma, se escapam da realidade através de devaneios sobre experiências mágicas que melhorarão as suas vidas, foram prematuramente pressionados a encarar a realidade de uma forma adulta. A tentativa de evasão da realidade por estas vias tem as suas causas mais profundas nas primeiras experiências formativas, que os impediram de se convencer pessoalmente de que a vida pode ser dominada por meios realistas.

Satisfação indirecta versus reconhecimento consciente

 

A criança sente quais dos muitos contos de fadas são a verdade para a sua situação interior de momento (a qual ela não sabe, por si só, manejar), e sente também em que ponto da história esta lhe dá uma achega para poder enfrentar um problema difícil. Mas isso não é imediatamente resolvido, nem se consegue quando se ouve um conto de fadas pela primeira vez. Alguns dos elementos do conto são demasiado estranhos – como têm de sê-lo, a fim de se dirigirem a emoções profundamente escondidas.

Só com a repetição frequente do conto, e quando tenha tido tempo suficiente e oportunidade para se debruçar sobre ele, é que a criança pode aproveitar plenamente o que a história tem para lhe oferecer no tocante à compreensão de si própria e do mundo. Só então as livres associações da criança produzem o sentido mais pessoal do conto; só então o conto a ajuda a resolver os problemas que a oprimem. Por exemplo, quando ouve a história pela primeira vez, a criança não pode projectar-se no papel de uma figura do sexo oposto. É preciso que haja certa distância e colaboração pessoal, durante algum tempo, antes de uma rapariga se poder identificar com o João de João e o Pé de Feijão ou um rapaz com Rapunzel.

Conheci pais cujos filhos reagiam a um conto de fadas dizendo “Gostei”, e assim apressavam-se a contar-lhes outro conto, pensando que mais um conto aumentaria o prazer da criança. Mas o comentário do filho exprimia provavelmente um vago sentimento de que a história tem qualquer coisa de importante para lhe comunicar – qualquer coisa que se perderá se não se ler à criança de novo a história, e se não se lhe der tempo para a aprender. Desviando os pensamentos da criança prematuramente para uma segunda história, poder-se-á desfazer o impacto da primeira, ao passo que, fazendo-se isso mais tarde, se poderá antes aumentá-lo.

Quando se lêem contos de fadas a crianças, numa aula ou em bibliotecas durante a hora de recreio, as crianças parecem fascinadas. Mas, muitas vezes, não se lhes dá a oportunidade para contemplarem os contos ou para reagirem; elas são imediatamente arrebanhadas, ou para outra actividade ou para outra história diferente da que lhes contaram antes, o que dilui ou destrói a impressão que o conto criou. Falando com crianças depois de uma experiência destas, parece que tanto fazia que a história fosse contada como não, pelo efeito nulo que foi obtido. Mas quando o narrador da história dá às crianças tempo suficiente para reflectirem sobre ela, para se submergirem na atmosfera que a narrativa cria, e quando elas são encorajadas a falar no assunto, então conversas posteriores revelam que, emocional e intelectualmente, a história lhes oferece muito.

Tal como os pacientes dos curandeiros hindus eram solicitados a contemplarem um conto de fadas para encontrarem uma saída para a escuridão interior que encobria os seus espíritos, também à criança se deve dar a oportunidade de – vagarosamente – assimilar um conto de fadas, fazendo a junção das suas próprias associações com o conto.

Diga-se de passagem que esta é a razão por que os livros ilustrados, hoje tão preferidos por adultos e crianças, não são o melhor serviço que se pode prestar à criança. As ilustrações distraem em vez de ajudarem. O estudo dos livros ilustrados demonstra que as gravuras desviam o processo de aprendizagem em vez de o fomentarem, porque as ilustrações afastam a imaginação da criança daquilo que, por si próprias, e sem ajuda, elas sentiriam graças à história. A história ilustrada perde muito do conteúdo pessoal que poderia trazer à criança que lhe aplicasse somente as suas próprias associações visuais, em vez das de quem as desenhou.

Também Tolkien pensava que, por melhores que sejam, as ilustrações pouco bem fazem aos contos de fadas… Se a história diz: “Ele trepou a colina e viu o rio no vale, lá em baixo”, o desenhador poderá apreender, ou quase apreender, a sua própria visão da cena, mas cada ouvinte terá formado o seu próprio quadro, que será feito de todas as montanhas e rios e vales que jamais viu, mas especialmente a Colina, o Rio, o Vale que foram para ele a primeira representação da palavra. Eis por que um conto de fadas perde muito do seu sentido próprio quando as figuras e as ocorrências têm a substância dada pelo desenhador e não pela imaginação da criança. Os pormenores, sem igual, derivados da sua vida individual, com os quais o espírito do ouvinte retrata a história que lhe contam ou que lhe lêem, transformam-na numa experiência muito mais pessoal. Tanto os adultos como as crianças preferem frequentemente o caminho fácil de alguém que, por eles, assume a tarefa de imaginar o cenário do conto. Contudo, se deixarmos o desenhador determinar a nossa imaginação, ela será menos nossa e o conto perde muito do significado pessoal.

Perguntar a crianças, por exemplo, como era o monstro de que ouviram falar na história que lhes contaram, dá lugar às mais variadas formas de personificação: enormes figuras pseudo-humanas, pseudo-animais, figuras que combinam certos traços humanos com outros animais, etc. –, e cada um destes pormenores tem enorme sentido para a pessoa que, no seu espírito, criou determinada realização pictórica. Por outro lado, ver o monstro pintado pelo artista, conformemente à imaginação dele, que é bem mais completa se a compararmos com a nossa própria imagem vaga e fugidia, defrauda-nos um pouco. A ideia do monstro poderá então deixar-nos totalmente indiferentes, sem nada de importante para nos dizer, ou poderá amedrontar-nos, não tendo qualquer significado para além da angústia.

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas – A importância da exteriorização

Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

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A importância da exteriorização: personagens e acontecimentos fantásticos

 

O espírito de uma criança contém uma colecção (que rapidamente se enriquece) de impressões frequentemente mal agrupadas e só parcialmente integradas: alguns aspectos correctamente apreendidos da realidade, mas muito mais elementos completamente dominados pela fantasia. Esta preenche enormes hiatos no entendimento da criança, devido à imaturidade do seu pensar e à sua falta de informações pertinentes. Outras distorções são consequência de pressões interiores que conduzem aos contra-sensos das percepções da criança.

A criança normal começa a fantasiar com um segmento da realidade mais ou menos bem observado, o que poderá evocar nela necessidades e angústias tão fortes que pode deixar-se arrastar por elas. Muitas vezes as coisas tornam-se tão confusas no seu espírito que ela não consegue apartá-las umas das outras. Mas é necessário um certo ordenamento para que a criança regresse à realidade, não enfraquecida nem vencida, mas antes fortalecida por esta excursão pelas suas fantasias.

Os contos de fadas ajudam‑na, mostrando-lhe como uma claridade superior pode emergir, e emerge mesmo, de todas as suas fantasias. Estes contos começam geralmente de uma forma bastante realista: uma mãe que diz à filha para ir sozinha visitar a avó ( A Menina do Capuchinho Vermelho); as dificuldades que um pobre casal tem para sustentar os filhos (Hansel e Gretel); um pescador que não apanha nenhum peixe na sua rede ( O Pescador e o Génio). Isto é, a história começa com uma situação real, mas de certo modo problemática.

Uma criança, perante os problemas e acontecimentos que, no dia-a-dia, a deixam perplexa, é estimulada pela sua educação a compreender o como e o porquê destas situações e a procurar soluções. Contudo, uma vez que o raciocínio tem, então, um fraco controle sobre o seu inconsciente, a imaginação da criança foge da pressão das emoções e dos conflitos não resolvidos. A habilidade do raciocínio emergente da criança é depressa subjugada por angústias, esperanças, receios, desejos, simpatias e ódios que se entrelaçam com o que quer que seja que a criança tenha começado a pensar.

O conto de fadas, não obstante começar pelo estado psicológico da criança – tais como sentimentos de rejeição quando comparada com os irmãos, como em A Gata Borralheira – nunca principia com a sua realidade física. Nenhuma criança tem de sentar-se sobre cinzas, como a Gata Borralheira, ou ser deliberadamente abandonada num bosque denso, como Hansel e Gretel, porque uma semelhança física seria demasiado assustadora para a criança e “acertaria perto de mais no alvo, para seu conforto”, exactamente quando confortar é um dos propósitos dos contos de fadas.

Uma criança familiarizada com os contos de fadas compreende que eles lhe falam numa linguagem de símbolos e não na da realidade de todos os dias. O conto de fadas diz-nos, a partir do seu intróito, através do seu enredo e pelo seu desfecho, que aquilo de que nos fala não são factos tangíveis ou pessoas e lugares reais. Os acontecimentos reais só se tornam importantes para a criança através do sentido simbólico que ela lhes dá ou que ela neles encontra.

Era uma vez, Num certo país, Há mil anos ou mais, No tempo em que os animais falavam, Uma vez, num velho castelo, no meio de uma grande e densa floresta – estes intróitos sugerem que o que se vai seguir não pertence ao “aqui e agora” que conhecemos. Esta imprecisão deliberada, no princípio dos contos de fadas, simboliza que estamos a deixar o mundo concreto da realidade quotidiana. Os velhos castelos, as cavernas escuras, as portas fechadas à chave onde é proibido entrar, os bosques impenetráveis, todos sugerem que alguma coisa normalmente escondida virá a ser revelada, enquanto o há muito tempo implica que vamos lidar com acontecimentos arcaicos.

Depois dos cinco anos – a idade em que os contos de fadas se tornam verdadeiramente plenos de sentido –, nenhuma criança normal toma estas histórias como a verdade da realidade exterior. A pequenita que imagina ser a princesa que vive num castelo e desfia fantasias complicadas sabe, quando a mãe a chama para jantar, que não é uma princesa. E, se bem que o arvoredo de um parque possa ser visto, às vezes, como uma floresta densa e profunda, cheia de segredos escondidos, a criança sabe que na realidade é somente um arvoredo – exactamente como a pequenita sabe que a sua boneca não é na verdade o seu bebé, por muito que ela a trate como tal.

Os contos que comecem mais próximos da realidade, na sala de estar ou no pátio da criança, em vez de evocarem a cabana de um lenhador junto de uma grande floresta, e que contenham gente muito parecida com os pais da criança, e não com lenhadores pobres ou reis e rainhas (mas que misturem estes elementos realistas com componentes fantásticos, que satisfazem todos os desejos), são capazes de levar a criança a confundir o real com o que não o é. Estas histórias, sem estarem de acordo com a realidade interior da criança, por mais fiéis que sejam à realidade exterior, alargam o fosso que separa a experiência interior e exterior da criança. Elas separam-na ainda dos seus pais, porque a criança começa a sentir que ela e eles vivem em mundos espirituais diferentes; por muito próximo que eles se encontrem no espaço “real”, emocionalmente parecem viver, temporariamente, em continentes diferentes. Isto contribui para uma descontinuidade entre as gerações, o que é doloroso tanto para os pais como para a criança.

Se contarem a uma criança histórias “verdadeiras como a realidade” (o que quer dizer falsas para partes importantes da sua realidade interior), ela pode concluir que muito dessa realidade interior é inaceitável para os seus pais. Assim, há muita criança que se afasta da sua vida interior, e isso depaupera-a. Consequentemente, ela pode depois, já adolescente e, fora da ascendência emocional dos seus pais, vir a detestar o mundo racional e escapar-se completamente para um mundo de fantasia, como que para se desforrar do que perdeu na infância.

Quando for mais velha, isso poderá implicar uma severa quebra com a realidade, com todas as perigosas consequências para o indivíduo e para a sociedade. Ou, menos seriamente, a pessoa poderá continuar esta clausura do seu “eu” interior toda a sua vida, e não se sentir nunca plenamente satisfeita com o mundo, porque, alienada dos processos inconscientes, ela não pode usá-los para enriquecer a sua vida na realidade das coisas. A vida deixa então de ser “um prazer” ou “uma espécie de privilégio excêntrico”. Com tal separação, o que quer que aconteça na realidade deixa de oferecer satisfação apropriada às necessidades inconscientes. O resultado é que a pessoa sente sempre que a sua vida é incompleta.

Quando uma criança não é subjugada pelos seus processos mentais interiores e é bem tratada em todos os aspectos importantes, pode então dirigir a sua vida de maneira apropriada relativamente à sua idade. Nessas ocasiões, ela pode resolver os problemas que se levantem. Mas, se observarmos as crianças nos seus receios, por exemplo, verificaremos como esses períodos são limitados.

Assim que as pressões interiores da criança estão na mó de cima – o que acontece frequentemente –, a única esperança que ela tem de ter algum controle sobre elas é exteriorizá‑las. Mas o problema é como fazê-lo sem deixar que as exteriorizações se apoderem dela. Pôr ordem nas diversas facetas da sua experiência exterior é tarefa muito difícil para uma criança; e, a não ser que consiga ajuda, torna-se impossível desde que as experiências exteriores se baralhem com as suas experiências interiores.

Por si só, a criança ainda não é capaz de ordenar e dar sentido aos seus processos interiores. Os contos de fadas oferecem personagens nas quais ela pode exteriorizar o que se passa no seu espírito, por meios controláveis. Os contos de fadas mostram à criança como ela pode personalizar os seus desejos destrutivos numa só figura, ir buscar satisfações desejadas a outra, identificar-se com uma terceira, ter ligações com uma quarta, e assim por diante, conforme as suas necessidades de momento.

Quando todos os devaneios da criança se personalizam numa fada bondosa, todos os seus desejos destrutivos numa bruxa má, todos os seus receios num lobo voraz, todas as ciências da sua consciência num homem sábio encontrado numa aventura, toda a sua zanga ciumenta nalgum animal que dê bicadas nos olhos dos seus rivais detestados – então a criança pode finalmente começar a pôr ordem nas suas tendências contraditórias. Iniciado este facto, a criança será cada vez menos submergida por um caos incontrolável.

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas VI – Transformações

Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

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Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

Transformações

 

Há uma altura certa para as experiências de crescimento, e a infância é a altura para aprender a transpor a imensa brecha entre as experiências interiores e o mundo real. Os contos de fadas podem parecer absurdos, fantásticos, assustadores e totalmente inacreditáveis para o adulto desprovido da fantasia dos contos de fadas na sua infância ou que tenha reprimido essas lembranças. Um adulto que não tenha conseguido uma integração satisfatória dos dois mundos, da realidade e da imaginação, fica desconcertado com estes contos. Mas um adulto que na sua vida tenha sido capaz de integrar uma ordem racional com a lógica do seu inconsciente será receptivo à maneira como os contos de fadas ajudam a criança na sua integração. Para a criança e para o adulto que, como Sócrates, sabe que ainda há uma criança no mais sábio dos homens, os contos de fadas revelam verdades sobre a humanidade e sobre cada um de nós.

À sua maneira, o conto de fadas adverte contra o facto de a criança levar longe e depressa demais os seus sentimentos de raiva. Uma criança cede facilmente ao seu aborrecimento com alguém que ela estima ou à impaciência quando a fazem esperar; ela tende a albergar sentimentos de raiva e a deixar-se embalar por desejos furiosos, pouco se importando com as consequências, caso estes desejos se transformem em realidade. Muitos contos de fadas realçam o trágico desfecho de tão irreflectidos desejos em que nos empenhamos, porque desejamos demasiadamente algo ou porque não podemos esperar até que as coisas aconteçam no seu devido tempo. Ambos os estádios mentais são típicos da criança. Duas histórias dos irmãos Grimm podem ilustrar o caso.

Em Hans, o meu porco-espinho, um homem zanga-se quando o seu grande desejo de ter filhos é frustrado pela incapacidade de a mulher os ter. Fica tão contrariado que acaba por exclamar: “Quero um filho, nem que seja um porco-espinho.” O seu desejo é satisfeito: a mulher tem um filho, cuja parte superior do corpo é a de um porco-espinho e a inferior a de um rapaz. [1]

Em Os sete corvos, uma criança recém-nascida afecta de tal forma as emoções do pai que este, zangado, se vira contra os seus filhos mais velhos. Manda um dos sete filhos buscar água baptismal para baptizar a filha, incumbência a que se juntam os outros seis irmãos. O pai, furioso por ter de esperar, grita: “Gostaria que todos os rapazes se transformassem em corvos!” O que imediatamente acontece.

Se estes contos de fadas, em que desejos ditados pela cólera se transformam em verdades, acabassem aí, eles não passariam de contos de advertência, prevenindo-nos de que nos não devemos deixar levar pelas nossas emoções negativas – coisa que a criança não é capaz de evitar. Mas o conto de fadas sabe que não pode esperar o impossível de uma criança, e que não pode fazê-la evitar ter desejos ditados pela cólera, porque não está nas mãos desta não os ter. Enquanto o conto de fadas realisticamente nos previne que deixarmo-nos levar pela zanga ou pela impaciência é metermo-nos em apuros, também nos sossega advertindo que as consequências são temporárias e que a boa vontade ou as boas acções podem desfazer todo o mal provocado por desejos maus.

Hans, o porco-espinho, ajuda um rei perdido na floresta a regressar são e salvo a casa. O rei promete dar a Hans, em recompensa, a primeira coisa que encontrar no seu regresso a casa, e que é a sua filha única. Apesar da aparência de Hans, a princesa cumpre a promessa do pai, e casa-se com Hans. Depois do casamento, no leito marital, Hans toma finalmente a figura humana e herda o reino. Em Os sete corvos, a rapariga, que fora a causa inocente de os seus irmãos se terem transformado em corvos, viaja até ao fim do mundo e faz um grande sacrifício para desfazer o feitiço lançado sobre eles. Os corvos retomam a forma humana e a felicidade é recuperada.

Estas histórias dizem que, não obstante as más consequências que os desejos do mal acarretam, com boa vontade e esforço as coisas podem arranjar-se. Há outros contos que vão muito mais longe e dizem à criança que não receie esses desejos, porque, apesar de haver consequências momentâneas, nada muda permanentemente; depois de satisfeitos todos os desejos, as coisas ficam exactamente como antes de os desejos começarem. Estas histórias existem com muitas variantes no mundo inteiro.

No mundo ocidental, Os três desejos é provavelmente a história sobre desejos mais conhecida. Na sua forma mais simples, o motivo consiste em satisfazer, a um homem ou a uma mulher, alguns desejos, geralmente três, por um estranho ou um animal, em resultado de alguma boa acção. Um homem recebe esse favor em Os três desejos, mas não lhe dá grande importância. De volta a casa, a mulher dá-lhe o seu prato diário de sopa. “Outra vez sopa? Queria era um doce para variar”, diz ele, e imediatamente o doce aparece. A mulher quer saber como foi que isso aconteceu e o marido conta-lhe a sua aventura. Furiosa por ter desperdiçado um dos seus desejos numa ninharia, ela exclama: “Gostaria que o doce caísse em cima da tua cabeça”, e o desejo foi imediatamente satisfeito. “Já se foram dois desejos! Queria era que o doce saísse de cima da minha cabeça”, diz o homem mais irritado ainda. E assim se foram os três desejos.

Todas juntas, estas histórias previnem a criança das possíveis consequências indesejáveis ao formular desejos de uma forma precipitada, e garantem-lhe ao mesmo tempo que esses desejos são de poucas consequências, especialmente se formos sinceros nos nossos esforços para desfazer os maus resultados. O facto mais importante ainda parece-me ser o de que me não recordo de um único conto de fadas em que os desejos raivosos de uma criança tenham qualquer consequência; só a têm os dos adultos. O corolário é que os adultos são responsáveis pelo que fazem nos seus momentos de zanga ou de estupidez, mas as crianças não o são. Se as crianças têm desejos num conto de fadas, geralmente só desejam coisas boas; e a sorte ou algum espírito bom satisfá-los, muitas vezes para além das suas mais apetecidas esperanças.

É como se o conto de fadas, admitindo embora quão humano é uma pessoa zangar-se, esperasse somente que os adultos tenham suficiente auto-controle para se não deixarem levar pela zanga, uma vez que os seus exóticos desejos se realizam – mas os contos acentuam as maravilhosas consequências para uma criança se ela se entrega a desejos e pensamentos positivos. A desolação não induz a criança dos contos de fadas a entregar-se a desejos de vingança. A criança deseja só coisas boas, mesmo quando tenha razões de sobra para desejar que coisas más aconteçam àqueles que a perseguem. Branca de Neve não abriga desejos raivosos contra a rainha maldosa. A Gata Borralheira, que tem boas razões para desejar que as suas meias-irmãs sejam castigadas pelas suas maldades, deseja, pelo contrário, que elas vão ao grande baile.

 

 

 

A arte de contar histórias de fadas

Nunca devemos “explicar” à criança o sentido dos contos de fadas. Contudo, a compreensão por parte do narrador da mensagem do conto é importante para o espírito pré-consciente da criança. A compreensão por parte do narrador dos diferentes níveis do sentido do conto facilita à criança extrair dele a chave para melhor se compreender a si própria. Isso favorece a sensibilidade do adulto para a selecção das histórias mais adequadas ao estado de desenvolvimento da criança e para as dificuldades psicológicas específicas que a confrontam de momento.

Os contos de fadas descrevem os estados íntimos do espírito, por meio de imagens e acções. Tal como uma criança reconhece a infelicidade e o desgosto quando alguém chora, assim o conto de fadas não precisa de se espraiar sobre o facto de que alguém é infeliz. Quando a mãe da Gata Borralheira morre, não nos dizem que a órfã penava por ela ou pranteava a sua perda e se sentia só, abandonada, desesperada, mas simplesmente que “todos os dias ia até ao seu túmulo e chorava”.

Nos contos de fadas, os processos interiores são traduzidos por imagens visuais. Quando o herói enfrenta difíceis problemas interiores, que parece não terem solução, não se descreve o seu estado psicológico; o conto de fadas mostra-o perdido numa floresta densa, impenetrável, sem saber para que lado se virar, desesperado por encontrar uma saída. Para toda a gente que tenha ouvido contos de fadas, a imagem e o sentimento de se estar perdido numa floresta profunda e escura é inesquecível.

Infelizmente, alguns modernos rejeitam os contos de fadas porque aplicam a este género de literatura padrões que são totalmente impróprios. Se tomarmos estes contos como descrições da realidade, então eles são de facto excessivos, sob todos os pontos de vista – cruéis, sádicos e sabe-se lá o que mais. Mas, como símbolos e ocorrências ou problemas psicológicos, estes contos são bastante verdadeiros.

Eis a razão por que depende, em grande medida, dos sentimentos do narrador acerca do conto, o facto de o efeito ser um malogro ou, pelo contrário, qualquer coisa de adorável. A avó terna que conta a história ao neto que, sentado no seu colo, a ouve embevecido, comunicará qualquer coisa de muito diferente do que podem comunicar o pai ou a mãe que, aborrecidos com a história, a lêem aos filhos só por obrigação. O sentido de participação activa (o modo como o conto é transmitido) constitui um factor vital, que grandemente enriquece a experiência que a criança dela retira. Implica uma afirmação da sua personalidade através de determinada experiência, compartilhada com outro ser humano, o qual, embora adulto, pode apreciar plenamente os sentimentos e as reacções da criança.


[1] O motivo de os pais que desejam com demasiada impaciência ter filhos serem castigados com o nascimento de misturas estranhas de seres humanos com animais é antigo e largamente espalhado. Por exemplo, é o tópico de um conto turco em que o rei Salomão efectua a restituição de uma criança à plena humanidade. Nestas histórias, se os pais tratam bem e com paciência um filho insuficientemente desenvolvido, este é eventualmente recuperado como um ser humano atraente. A sabedoria psicológica destes contos é notável: a ausência de controle sobre as emoções por parte dos pais cria uma criança que é inadaptada. Nos contos de fadas e nos sonhos, a deformação física significa frequentemente deficiente desenvolvimento psicológico. Nestas histórias, a parte superior do corpo, incluindo a cabeça, é geralmente parecida com a de um animal, enquanto a parte inferior é a de um ser humano normal. Isto indica que as coisas estão mal quanto à cabeça – isto é, no espírito da criança, e não quanto ao corpo. As histórias dizem também que os danos causados à criança por sentimentos negativos podem ser corrigidos pelo impacto de emoções positivas que se lhe prodigalizarem, se os pais forem suficientemente pacientes e seguros. Os filhos de pais coléricos portam-se frequentemente como porcos-espinhos: só têm espinhos, de forma que a imagem da criança, que é particularmente um porco-espinho, está certa.

Há também contos com palavras de advertência: “Não concebam um filho enquanto zangados; não recebam com zanga e impaciência a sua vinda.” Mas, como em todos os bons contos de fadas, estas histórias indicam os remédios certos para corrigir o mal, e a prescrição está de acordo com as melhores compreensões de hoje.

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