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Archive for the ‘contos infantis’ Category

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A necessidade de magia na criança

Do ponto de vista dos adultos e em termos da ciência moderna, as respostas que os contos de fadas dão são mais fantásticas do que reais. De facto, estas soluções parecem tão incongruentes a alguns adultos (que se divorciaram já dos caminhos pelos quais as crianças sentem o mundo), que eles se recusam a transmitir às crianças informações tão “falsas”. Contudo, explicações realistas são normalmente incompreensíveis para as crianças, porque lhes falta a compreensão abstracta necessária para lhes dar um sentido.

As explicações científicas exigem um pensamento objectivo. Tanto a investigação teórica como a exploração experimental demonstraram que nenhuma criança em idade pré-escolar pode verdadeiramente aprender estes dois conceitos, sem os quais a reflexão abstracta é impossível. Conheci muitos exemplos em que, especialmente nos últimos tempos da adolescência, foi necessário apelar para os anos de crença na magia para compensar alguém que se viu prematuramente privado dela na sua infância, depois de lhe terem imposto (em vão!) a estreita realidade. É como se estes jovens sentissem estar agora perante a última oportunidade para compensar uma grave lacuna nas suas vidas; ou que, sem terem passado por esse período de crença na magia, não se achavam aptos a enfrentar os rigores da vida adulta.

Muitos jovens que procuram hoje a evasão súbita através dos sonhos proporcionados por drogas, são iniciados por gurus, acreditam na astrologia, praticam “magia negra” ou, por outra qualquer forma, se escapam da realidade através de devaneios sobre experiências mágicas que melhorarão as suas vidas, foram prematuramente pressionados a encarar a realidade de uma forma adulta. A tentativa de evasão da realidade por estas vias tem as suas causas mais profundas nas primeiras experiências formativas, que os impediram de se convencer pessoalmente de que a vida pode ser dominada por meios realistas.

Satisfação indirecta versus reconhecimento consciente

 

A criança sente quais dos muitos contos de fadas são a verdade para a sua situação interior de momento (a qual ela não sabe, por si só, manejar), e sente também em que ponto da história esta lhe dá uma achega para poder enfrentar um problema difícil. Mas isso não é imediatamente resolvido, nem se consegue quando se ouve um conto de fadas pela primeira vez. Alguns dos elementos do conto são demasiado estranhos – como têm de sê-lo, a fim de se dirigirem a emoções profundamente escondidas.

Só com a repetição frequente do conto, e quando tenha tido tempo suficiente e oportunidade para se debruçar sobre ele, é que a criança pode aproveitar plenamente o que a história tem para lhe oferecer no tocante à compreensão de si própria e do mundo. Só então as livres associações da criança produzem o sentido mais pessoal do conto; só então o conto a ajuda a resolver os problemas que a oprimem. Por exemplo, quando ouve a história pela primeira vez, a criança não pode projectar-se no papel de uma figura do sexo oposto. É preciso que haja certa distância e colaboração pessoal, durante algum tempo, antes de uma rapariga se poder identificar com o João de João e o Pé de Feijão ou um rapaz com Rapunzel.

Conheci pais cujos filhos reagiam a um conto de fadas dizendo “Gostei”, e assim apressavam-se a contar-lhes outro conto, pensando que mais um conto aumentaria o prazer da criança. Mas o comentário do filho exprimia provavelmente um vago sentimento de que a história tem qualquer coisa de importante para lhe comunicar – qualquer coisa que se perderá se não se ler à criança de novo a história, e se não se lhe der tempo para a aprender. Desviando os pensamentos da criança prematuramente para uma segunda história, poder-se-á desfazer o impacto da primeira, ao passo que, fazendo-se isso mais tarde, se poderá antes aumentá-lo.

Quando se lêem contos de fadas a crianças, numa aula ou em bibliotecas durante a hora de recreio, as crianças parecem fascinadas. Mas, muitas vezes, não se lhes dá a oportunidade para contemplarem os contos ou para reagirem; elas são imediatamente arrebanhadas, ou para outra actividade ou para outra história diferente da que lhes contaram antes, o que dilui ou destrói a impressão que o conto criou. Falando com crianças depois de uma experiência destas, parece que tanto fazia que a história fosse contada como não, pelo efeito nulo que foi obtido. Mas quando o narrador da história dá às crianças tempo suficiente para reflectirem sobre ela, para se submergirem na atmosfera que a narrativa cria, e quando elas são encorajadas a falar no assunto, então conversas posteriores revelam que, emocional e intelectualmente, a história lhes oferece muito.

Tal como os pacientes dos curandeiros hindus eram solicitados a contemplarem um conto de fadas para encontrarem uma saída para a escuridão interior que encobria os seus espíritos, também à criança se deve dar a oportunidade de – vagarosamente – assimilar um conto de fadas, fazendo a junção das suas próprias associações com o conto.

Diga-se de passagem que esta é a razão por que os livros ilustrados, hoje tão preferidos por adultos e crianças, não são o melhor serviço que se pode prestar à criança. As ilustrações distraem em vez de ajudarem. O estudo dos livros ilustrados demonstra que as gravuras desviam o processo de aprendizagem em vez de o fomentarem, porque as ilustrações afastam a imaginação da criança daquilo que, por si próprias, e sem ajuda, elas sentiriam graças à história. A história ilustrada perde muito do conteúdo pessoal que poderia trazer à criança que lhe aplicasse somente as suas próprias associações visuais, em vez das de quem as desenhou.

Também Tolkien pensava que, por melhores que sejam, as ilustrações pouco bem fazem aos contos de fadas… Se a história diz: “Ele trepou a colina e viu o rio no vale, lá em baixo”, o desenhador poderá apreender, ou quase apreender, a sua própria visão da cena, mas cada ouvinte terá formado o seu próprio quadro, que será feito de todas as montanhas e rios e vales que jamais viu, mas especialmente a Colina, o Rio, o Vale que foram para ele a primeira representação da palavra. Eis por que um conto de fadas perde muito do seu sentido próprio quando as figuras e as ocorrências têm a substância dada pelo desenhador e não pela imaginação da criança. Os pormenores, sem igual, derivados da sua vida individual, com os quais o espírito do ouvinte retrata a história que lhe contam ou que lhe lêem, transformam-na numa experiência muito mais pessoal. Tanto os adultos como as crianças preferem frequentemente o caminho fácil de alguém que, por eles, assume a tarefa de imaginar o cenário do conto. Contudo, se deixarmos o desenhador determinar a nossa imaginação, ela será menos nossa e o conto perde muito do significado pessoal.

Perguntar a crianças, por exemplo, como era o monstro de que ouviram falar na história que lhes contaram, dá lugar às mais variadas formas de personificação: enormes figuras pseudo-humanas, pseudo-animais, figuras que combinam certos traços humanos com outros animais, etc. –, e cada um destes pormenores tem enorme sentido para a pessoa que, no seu espírito, criou determinada realização pictórica. Por outro lado, ver o monstro pintado pelo artista, conformemente à imaginação dele, que é bem mais completa se a compararmos com a nossa própria imagem vaga e fugidia, defrauda-nos um pouco. A ideia do monstro poderá então deixar-nos totalmente indiferentes, sem nada de importante para nos dizer, ou poderá amedrontar-nos, não tendo qualquer significado para além da angústia.

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas – A importância da exteriorização

Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

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A importância da exteriorização: personagens e acontecimentos fantásticos

 

O espírito de uma criança contém uma colecção (que rapidamente se enriquece) de impressões frequentemente mal agrupadas e só parcialmente integradas: alguns aspectos correctamente apreendidos da realidade, mas muito mais elementos completamente dominados pela fantasia. Esta preenche enormes hiatos no entendimento da criança, devido à imaturidade do seu pensar e à sua falta de informações pertinentes. Outras distorções são consequência de pressões interiores que conduzem aos contra-sensos das percepções da criança.

A criança normal começa a fantasiar com um segmento da realidade mais ou menos bem observado, o que poderá evocar nela necessidades e angústias tão fortes que pode deixar-se arrastar por elas. Muitas vezes as coisas tornam-se tão confusas no seu espírito que ela não consegue apartá-las umas das outras. Mas é necessário um certo ordenamento para que a criança regresse à realidade, não enfraquecida nem vencida, mas antes fortalecida por esta excursão pelas suas fantasias.

Os contos de fadas ajudam‑na, mostrando-lhe como uma claridade superior pode emergir, e emerge mesmo, de todas as suas fantasias. Estes contos começam geralmente de uma forma bastante realista: uma mãe que diz à filha para ir sozinha visitar a avó ( A Menina do Capuchinho Vermelho); as dificuldades que um pobre casal tem para sustentar os filhos (Hansel e Gretel); um pescador que não apanha nenhum peixe na sua rede ( O Pescador e o Génio). Isto é, a história começa com uma situação real, mas de certo modo problemática.

Uma criança, perante os problemas e acontecimentos que, no dia-a-dia, a deixam perplexa, é estimulada pela sua educação a compreender o como e o porquê destas situações e a procurar soluções. Contudo, uma vez que o raciocínio tem, então, um fraco controle sobre o seu inconsciente, a imaginação da criança foge da pressão das emoções e dos conflitos não resolvidos. A habilidade do raciocínio emergente da criança é depressa subjugada por angústias, esperanças, receios, desejos, simpatias e ódios que se entrelaçam com o que quer que seja que a criança tenha começado a pensar.

O conto de fadas, não obstante começar pelo estado psicológico da criança – tais como sentimentos de rejeição quando comparada com os irmãos, como em A Gata Borralheira – nunca principia com a sua realidade física. Nenhuma criança tem de sentar-se sobre cinzas, como a Gata Borralheira, ou ser deliberadamente abandonada num bosque denso, como Hansel e Gretel, porque uma semelhança física seria demasiado assustadora para a criança e “acertaria perto de mais no alvo, para seu conforto”, exactamente quando confortar é um dos propósitos dos contos de fadas.

Uma criança familiarizada com os contos de fadas compreende que eles lhe falam numa linguagem de símbolos e não na da realidade de todos os dias. O conto de fadas diz-nos, a partir do seu intróito, através do seu enredo e pelo seu desfecho, que aquilo de que nos fala não são factos tangíveis ou pessoas e lugares reais. Os acontecimentos reais só se tornam importantes para a criança através do sentido simbólico que ela lhes dá ou que ela neles encontra.

Era uma vez, Num certo país, Há mil anos ou mais, No tempo em que os animais falavam, Uma vez, num velho castelo, no meio de uma grande e densa floresta – estes intróitos sugerem que o que se vai seguir não pertence ao “aqui e agora” que conhecemos. Esta imprecisão deliberada, no princípio dos contos de fadas, simboliza que estamos a deixar o mundo concreto da realidade quotidiana. Os velhos castelos, as cavernas escuras, as portas fechadas à chave onde é proibido entrar, os bosques impenetráveis, todos sugerem que alguma coisa normalmente escondida virá a ser revelada, enquanto o há muito tempo implica que vamos lidar com acontecimentos arcaicos.

Depois dos cinco anos – a idade em que os contos de fadas se tornam verdadeiramente plenos de sentido –, nenhuma criança normal toma estas histórias como a verdade da realidade exterior. A pequenita que imagina ser a princesa que vive num castelo e desfia fantasias complicadas sabe, quando a mãe a chama para jantar, que não é uma princesa. E, se bem que o arvoredo de um parque possa ser visto, às vezes, como uma floresta densa e profunda, cheia de segredos escondidos, a criança sabe que na realidade é somente um arvoredo – exactamente como a pequenita sabe que a sua boneca não é na verdade o seu bebé, por muito que ela a trate como tal.

Os contos que comecem mais próximos da realidade, na sala de estar ou no pátio da criança, em vez de evocarem a cabana de um lenhador junto de uma grande floresta, e que contenham gente muito parecida com os pais da criança, e não com lenhadores pobres ou reis e rainhas (mas que misturem estes elementos realistas com componentes fantásticos, que satisfazem todos os desejos), são capazes de levar a criança a confundir o real com o que não o é. Estas histórias, sem estarem de acordo com a realidade interior da criança, por mais fiéis que sejam à realidade exterior, alargam o fosso que separa a experiência interior e exterior da criança. Elas separam-na ainda dos seus pais, porque a criança começa a sentir que ela e eles vivem em mundos espirituais diferentes; por muito próximo que eles se encontrem no espaço “real”, emocionalmente parecem viver, temporariamente, em continentes diferentes. Isto contribui para uma descontinuidade entre as gerações, o que é doloroso tanto para os pais como para a criança.

Se contarem a uma criança histórias “verdadeiras como a realidade” (o que quer dizer falsas para partes importantes da sua realidade interior), ela pode concluir que muito dessa realidade interior é inaceitável para os seus pais. Assim, há muita criança que se afasta da sua vida interior, e isso depaupera-a. Consequentemente, ela pode depois, já adolescente e, fora da ascendência emocional dos seus pais, vir a detestar o mundo racional e escapar-se completamente para um mundo de fantasia, como que para se desforrar do que perdeu na infância.

Quando for mais velha, isso poderá implicar uma severa quebra com a realidade, com todas as perigosas consequências para o indivíduo e para a sociedade. Ou, menos seriamente, a pessoa poderá continuar esta clausura do seu “eu” interior toda a sua vida, e não se sentir nunca plenamente satisfeita com o mundo, porque, alienada dos processos inconscientes, ela não pode usá-los para enriquecer a sua vida na realidade das coisas. A vida deixa então de ser “um prazer” ou “uma espécie de privilégio excêntrico”. Com tal separação, o que quer que aconteça na realidade deixa de oferecer satisfação apropriada às necessidades inconscientes. O resultado é que a pessoa sente sempre que a sua vida é incompleta.

Quando uma criança não é subjugada pelos seus processos mentais interiores e é bem tratada em todos os aspectos importantes, pode então dirigir a sua vida de maneira apropriada relativamente à sua idade. Nessas ocasiões, ela pode resolver os problemas que se levantem. Mas, se observarmos as crianças nos seus receios, por exemplo, verificaremos como esses períodos são limitados.

Assim que as pressões interiores da criança estão na mó de cima – o que acontece frequentemente –, a única esperança que ela tem de ter algum controle sobre elas é exteriorizá‑las. Mas o problema é como fazê-lo sem deixar que as exteriorizações se apoderem dela. Pôr ordem nas diversas facetas da sua experiência exterior é tarefa muito difícil para uma criança; e, a não ser que consiga ajuda, torna-se impossível desde que as experiências exteriores se baralhem com as suas experiências interiores.

Por si só, a criança ainda não é capaz de ordenar e dar sentido aos seus processos interiores. Os contos de fadas oferecem personagens nas quais ela pode exteriorizar o que se passa no seu espírito, por meios controláveis. Os contos de fadas mostram à criança como ela pode personalizar os seus desejos destrutivos numa só figura, ir buscar satisfações desejadas a outra, identificar-se com uma terceira, ter ligações com uma quarta, e assim por diante, conforme as suas necessidades de momento.

Quando todos os devaneios da criança se personalizam numa fada bondosa, todos os seus desejos destrutivos numa bruxa má, todos os seus receios num lobo voraz, todas as ciências da sua consciência num homem sábio encontrado numa aventura, toda a sua zanga ciumenta nalgum animal que dê bicadas nos olhos dos seus rivais detestados – então a criança pode finalmente começar a pôr ordem nas suas tendências contraditórias. Iniciado este facto, a criança será cada vez menos submergida por um caos incontrolável.

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas VI – Transformações

Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

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 Anterior: Psicanálise dos contos de fadas V – A importância da exteriorização

Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

Transformações

 

Há uma altura certa para as experiências de crescimento, e a infância é a altura para aprender a transpor a imensa brecha entre as experiências interiores e o mundo real. Os contos de fadas podem parecer absurdos, fantásticos, assustadores e totalmente inacreditáveis para o adulto desprovido da fantasia dos contos de fadas na sua infância ou que tenha reprimido essas lembranças. Um adulto que não tenha conseguido uma integração satisfatória dos dois mundos, da realidade e da imaginação, fica desconcertado com estes contos. Mas um adulto que na sua vida tenha sido capaz de integrar uma ordem racional com a lógica do seu inconsciente será receptivo à maneira como os contos de fadas ajudam a criança na sua integração. Para a criança e para o adulto que, como Sócrates, sabe que ainda há uma criança no mais sábio dos homens, os contos de fadas revelam verdades sobre a humanidade e sobre cada um de nós.

À sua maneira, o conto de fadas adverte contra o facto de a criança levar longe e depressa demais os seus sentimentos de raiva. Uma criança cede facilmente ao seu aborrecimento com alguém que ela estima ou à impaciência quando a fazem esperar; ela tende a albergar sentimentos de raiva e a deixar-se embalar por desejos furiosos, pouco se importando com as consequências, caso estes desejos se transformem em realidade. Muitos contos de fadas realçam o trágico desfecho de tão irreflectidos desejos em que nos empenhamos, porque desejamos demasiadamente algo ou porque não podemos esperar até que as coisas aconteçam no seu devido tempo. Ambos os estádios mentais são típicos da criança. Duas histórias dos irmãos Grimm podem ilustrar o caso.

Em Hans, o meu porco-espinho, um homem zanga-se quando o seu grande desejo de ter filhos é frustrado pela incapacidade de a mulher os ter. Fica tão contrariado que acaba por exclamar: “Quero um filho, nem que seja um porco-espinho.” O seu desejo é satisfeito: a mulher tem um filho, cuja parte superior do corpo é a de um porco-espinho e a inferior a de um rapaz. [1]

Em Os sete corvos, uma criança recém-nascida afecta de tal forma as emoções do pai que este, zangado, se vira contra os seus filhos mais velhos. Manda um dos sete filhos buscar água baptismal para baptizar a filha, incumbência a que se juntam os outros seis irmãos. O pai, furioso por ter de esperar, grita: “Gostaria que todos os rapazes se transformassem em corvos!” O que imediatamente acontece.

Se estes contos de fadas, em que desejos ditados pela cólera se transformam em verdades, acabassem aí, eles não passariam de contos de advertência, prevenindo-nos de que nos não devemos deixar levar pelas nossas emoções negativas – coisa que a criança não é capaz de evitar. Mas o conto de fadas sabe que não pode esperar o impossível de uma criança, e que não pode fazê-la evitar ter desejos ditados pela cólera, porque não está nas mãos desta não os ter. Enquanto o conto de fadas realisticamente nos previne que deixarmo-nos levar pela zanga ou pela impaciência é metermo-nos em apuros, também nos sossega advertindo que as consequências são temporárias e que a boa vontade ou as boas acções podem desfazer todo o mal provocado por desejos maus.

Hans, o porco-espinho, ajuda um rei perdido na floresta a regressar são e salvo a casa. O rei promete dar a Hans, em recompensa, a primeira coisa que encontrar no seu regresso a casa, e que é a sua filha única. Apesar da aparência de Hans, a princesa cumpre a promessa do pai, e casa-se com Hans. Depois do casamento, no leito marital, Hans toma finalmente a figura humana e herda o reino. Em Os sete corvos, a rapariga, que fora a causa inocente de os seus irmãos se terem transformado em corvos, viaja até ao fim do mundo e faz um grande sacrifício para desfazer o feitiço lançado sobre eles. Os corvos retomam a forma humana e a felicidade é recuperada.

Estas histórias dizem que, não obstante as más consequências que os desejos do mal acarretam, com boa vontade e esforço as coisas podem arranjar-se. Há outros contos que vão muito mais longe e dizem à criança que não receie esses desejos, porque, apesar de haver consequências momentâneas, nada muda permanentemente; depois de satisfeitos todos os desejos, as coisas ficam exactamente como antes de os desejos começarem. Estas histórias existem com muitas variantes no mundo inteiro.

No mundo ocidental, Os três desejos é provavelmente a história sobre desejos mais conhecida. Na sua forma mais simples, o motivo consiste em satisfazer, a um homem ou a uma mulher, alguns desejos, geralmente três, por um estranho ou um animal, em resultado de alguma boa acção. Um homem recebe esse favor em Os três desejos, mas não lhe dá grande importância. De volta a casa, a mulher dá-lhe o seu prato diário de sopa. “Outra vez sopa? Queria era um doce para variar”, diz ele, e imediatamente o doce aparece. A mulher quer saber como foi que isso aconteceu e o marido conta-lhe a sua aventura. Furiosa por ter desperdiçado um dos seus desejos numa ninharia, ela exclama: “Gostaria que o doce caísse em cima da tua cabeça”, e o desejo foi imediatamente satisfeito. “Já se foram dois desejos! Queria era que o doce saísse de cima da minha cabeça”, diz o homem mais irritado ainda. E assim se foram os três desejos.

Todas juntas, estas histórias previnem a criança das possíveis consequências indesejáveis ao formular desejos de uma forma precipitada, e garantem-lhe ao mesmo tempo que esses desejos são de poucas consequências, especialmente se formos sinceros nos nossos esforços para desfazer os maus resultados. O facto mais importante ainda parece-me ser o de que me não recordo de um único conto de fadas em que os desejos raivosos de uma criança tenham qualquer consequência; só a têm os dos adultos. O corolário é que os adultos são responsáveis pelo que fazem nos seus momentos de zanga ou de estupidez, mas as crianças não o são. Se as crianças têm desejos num conto de fadas, geralmente só desejam coisas boas; e a sorte ou algum espírito bom satisfá-los, muitas vezes para além das suas mais apetecidas esperanças.

É como se o conto de fadas, admitindo embora quão humano é uma pessoa zangar-se, esperasse somente que os adultos tenham suficiente auto-controle para se não deixarem levar pela zanga, uma vez que os seus exóticos desejos se realizam – mas os contos acentuam as maravilhosas consequências para uma criança se ela se entrega a desejos e pensamentos positivos. A desolação não induz a criança dos contos de fadas a entregar-se a desejos de vingança. A criança deseja só coisas boas, mesmo quando tenha razões de sobra para desejar que coisas más aconteçam àqueles que a perseguem. Branca de Neve não abriga desejos raivosos contra a rainha maldosa. A Gata Borralheira, que tem boas razões para desejar que as suas meias-irmãs sejam castigadas pelas suas maldades, deseja, pelo contrário, que elas vão ao grande baile.

 

 

 

A arte de contar histórias de fadas

Nunca devemos “explicar” à criança o sentido dos contos de fadas. Contudo, a compreensão por parte do narrador da mensagem do conto é importante para o espírito pré-consciente da criança. A compreensão por parte do narrador dos diferentes níveis do sentido do conto facilita à criança extrair dele a chave para melhor se compreender a si própria. Isso favorece a sensibilidade do adulto para a selecção das histórias mais adequadas ao estado de desenvolvimento da criança e para as dificuldades psicológicas específicas que a confrontam de momento.

Os contos de fadas descrevem os estados íntimos do espírito, por meio de imagens e acções. Tal como uma criança reconhece a infelicidade e o desgosto quando alguém chora, assim o conto de fadas não precisa de se espraiar sobre o facto de que alguém é infeliz. Quando a mãe da Gata Borralheira morre, não nos dizem que a órfã penava por ela ou pranteava a sua perda e se sentia só, abandonada, desesperada, mas simplesmente que “todos os dias ia até ao seu túmulo e chorava”.

Nos contos de fadas, os processos interiores são traduzidos por imagens visuais. Quando o herói enfrenta difíceis problemas interiores, que parece não terem solução, não se descreve o seu estado psicológico; o conto de fadas mostra-o perdido numa floresta densa, impenetrável, sem saber para que lado se virar, desesperado por encontrar uma saída. Para toda a gente que tenha ouvido contos de fadas, a imagem e o sentimento de se estar perdido numa floresta profunda e escura é inesquecível.

Infelizmente, alguns modernos rejeitam os contos de fadas porque aplicam a este género de literatura padrões que são totalmente impróprios. Se tomarmos estes contos como descrições da realidade, então eles são de facto excessivos, sob todos os pontos de vista – cruéis, sádicos e sabe-se lá o que mais. Mas, como símbolos e ocorrências ou problemas psicológicos, estes contos são bastante verdadeiros.

Eis a razão por que depende, em grande medida, dos sentimentos do narrador acerca do conto, o facto de o efeito ser um malogro ou, pelo contrário, qualquer coisa de adorável. A avó terna que conta a história ao neto que, sentado no seu colo, a ouve embevecido, comunicará qualquer coisa de muito diferente do que podem comunicar o pai ou a mãe que, aborrecidos com a história, a lêem aos filhos só por obrigação. O sentido de participação activa (o modo como o conto é transmitido) constitui um factor vital, que grandemente enriquece a experiência que a criança dela retira. Implica uma afirmação da sua personalidade através de determinada experiência, compartilhada com outro ser humano, o qual, embora adulto, pode apreciar plenamente os sentimentos e as reacções da criança.


[1] O motivo de os pais que desejam com demasiada impaciência ter filhos serem castigados com o nascimento de misturas estranhas de seres humanos com animais é antigo e largamente espalhado. Por exemplo, é o tópico de um conto turco em que o rei Salomão efectua a restituição de uma criança à plena humanidade. Nestas histórias, se os pais tratam bem e com paciência um filho insuficientemente desenvolvido, este é eventualmente recuperado como um ser humano atraente. A sabedoria psicológica destes contos é notável: a ausência de controle sobre as emoções por parte dos pais cria uma criança que é inadaptada. Nos contos de fadas e nos sonhos, a deformação física significa frequentemente deficiente desenvolvimento psicológico. Nestas histórias, a parte superior do corpo, incluindo a cabeça, é geralmente parecida com a de um animal, enquanto a parte inferior é a de um ser humano normal. Isto indica que as coisas estão mal quanto à cabeça – isto é, no espírito da criança, e não quanto ao corpo. As histórias dizem também que os danos causados à criança por sentimentos negativos podem ser corrigidos pelo impacto de emoções positivas que se lhe prodigalizarem, se os pais forem suficientemente pacientes e seguros. Os filhos de pais coléricos portam-se frequentemente como porcos-espinhos: só têm espinhos, de forma que a imagem da criança, que é particularmente um porco-espinho, está certa.

Há também contos com palavras de advertência: “Não concebam um filho enquanto zangados; não recebam com zanga e impaciência a sua vinda.” Mas, como em todos os bons contos de fadas, estas histórias indicam os remédios certos para corrigir o mal, e a prescrição está de acordo com as melhores compreensões de hoje.

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 Anterior: O aliado interior

A criança interior encontra-se com o eu ampliado

 

Antes de despedir-se da adolescência e saltar, com uma confiança cega, para a idade adulta, é útil estabelecer contacto com a criança interior para compreender a nossa continuidade e responsabilidade para com o futuro. Quando temos a oportunidade de reviver o amor e a aceitação que experimentamos como crianças, ou a falta disso, lembramo-nos de quem somos. Saber de onde viemos ajuda-nos a escolher para onde ir, e através das imagens mentais dirigidas podemos sanar qualquer conduta irregular que tenha raízes na tenra infância.

“A criança interior” pode fazer o adolescente lembrar-se do mistério, da maravilha e da beleza da vida, e da curiosidade, da liberdade e da criatividade da infância. Um sonho do passado pode reacender-se; uma relação pode ser compreendida e restabelecida; um problema de personalidade pode apresentar-se para ser solucionado. Para realizar todo o nosso potencial, cada um de nós deve chegar a um acordo com o passado, aprendendo com ele, e avaliar como cada parte da nossa história pessoal influencia o nosso presente e futuro colectivos.

Somos mais do que os nossos corpos, mentes, emoções, necessidades, desejos e sonhos pessoais. Temos uma natureza superior e transcendente e fazemos parte de uma espécie que está paulatinamente a evoluir no sentido da totalidade. A criança pequena não está separada desse eu transcendente, mas o adolescente, em busca do conhecimento racional e intelectual do mundo, acaba por se distanciar da sua natureza espiritual. As imagens mentais dirigidas dão aos adolescentes uma oportunidade valiosa de sanar esta dicotomia entre mente e coração.

Através do contacto com o eu ampliado, é possível lançar um olhar para o futuro e ter uma ideia geral do nosso lugar no todo. O eu ampliado é a parte do eu que já alcançou o seu potencial pleno, o projecto que se converteu em realidade. Realizar o exercício do “Eu Ampliado” pode dar origem a uma percepção capaz de modificar as atitudes dos adolescentes em relação a si mesmos e ao mundo à sua volta. Depois disso, eles podem ver a realidade de modo diferente, valorizar a vida a partir de uma nova perspectiva e perder o medo do futuro.

A minha conversa com o meu eu ampliado tem sido, para mim, uma fonte de beleza, de inspiração e de energia, especialmente durante os períodos em que duvido de mim mesma:

Uma senhora idosa caminhou na minha direcção a sorrir, com os cabelos brancos presos no alto da cabeça. A minha primeira impressão foi a da sua força. Ela tocou-me no rosto com a mão forte e enrugada e senti, mais do que vi, uma profunda compaixão nos seus olhos. Observei a sala, semelhante a um atelier de tecto alto e paredes de adobe branco. Era tudo muito simples. Da parede pendia uma bonita tapeçaria de tonalidades delicadas que ela tecera no tear. Mostrou-me vasos de cerâmica translúcida, fina como papel, que acabara de cozer. Resplandeciam. Estava a resgatar um antigo processo alquímico. Os vasos eram frágeis como cascas de ovo, delicados embora firmes, à semelhança do equilíbrio que todos devemos ter para caminhar na vida. Ela aproximou-se de mim e disse-‑me que havia ainda muito trabalho para fazer. Mostrou-me muitos grupos de pessoas que esperavam do lado de fora. Formavam ondas iguais aos anéis de água num lago depois de nele ter sido arremessada uma pedra. Quando parti, ela pôs uma pequena pedra branca na minha mão. Enquanto voltava, ainda sentia a sua mão no meu rosto.

Finalmente, se de facto é verdade que ensinamos aquilo que precisamos de aprender, então ainda preciso de me concentrar, relaxar o meu corpo, tranquilizar a minha mente diante das distracções da vida diária, levar-me menos a sério e penetrar mais fundo na esfera de sabedoria e conhecimentos universais onde há esperança, harmonia e unidade cósmica.

Este é apenas o começo. Lembremo-nos de que ensinamos aquilo que somos, e, quando fazemos estes exercícios com os nossos filhos, alunos, família e outros adultos, tornamo-nos todos como crianças, recuperando o milagre, o mistério e a alegria de tudo isso.

IDADE: de 15 anos à idade adulta

EXERCÍCIO: 10 minutos

CONTINUAÇÃO: 15 minutos

Fecha os olhos e começa a concentrar a atenção na respiração, observando o ar que entra e sai das tuas narinas. Dá a ti mesmo a sugestão de que, a cada expiração, o teu corpo fica cada vez mais relaxado. (Pausa) Muito bem. Agora imagina que estás a viajar através do tempo e do espaço para um lugar que é, para ti, um santuário. O santuário é seguro, simples e belo. Pode estar localizado na natureza, nas colinas ou perto do mar, pode estar no quarto da tua casa ou em qualquer outro lugar à tua escolha, onde te sintas seguro e protegido. Vai lá agora e sente as cores, as texturas, os cheiros, os sons, os sabores. Como é que o teu corpo fica nesse lugar. Terás alguns minutos contados no relógio, que é todo o tempo de que precisas para relaxar neste santuário. (Pausa de três minutos)

Agora é hora de voltares para cá, trazendo contigo a sensação de segurança e protecção que sentiste no santuário, pronto para o desenhares ou escreveres sobre ele. Contarei até cinco. Abre os olhos quando eu disser cinco, sentindo-te relaxado e alerta. Um… dois… três… quatro… cinco.

 

Reacções ao exercício do santuário

Eis o que disse Matt, de 18 anos:

O meu santuário é uma clareira fechada, cercada de palmeiras e de outras plantas verdes e cortada por um regato; algumas pedras grandes formam um local de repouso perto do regato. O lugar é silencioso, a não ser pelo rumor dos pássaros e do regato. Um pequeno pagode de pedra está situado do outro lado do regato. O meu aliado, a raposa, está deitado ao meu lado. Circula uma brisa fresca. O céu azul é visível, bem como algumas nuvens brancas, encapeladas e claras acima da abertura no alto das árvores. Parece a fusão perfeita da natureza com um jardim feito pelo homem.

A criança interior

IDADE: de 15 anos à idade adulta

EXERCÍCIO: 10-15 minutos

CONTINUAÇÃO: 15 minutos

Fecha os olhos e começa a acompanhar a tua inspiração e expiração, através das tuas narinas. Enquanto segues o movimento da respiração, deixa o teu corpo relaxar. (Pausa) Agora, prepara-te para acolher a tua criança quando ela surgir. Pode ter cinco, oito ou dez anos, ou qualquer outra idade. Também pode mudar de idade durante a visita. Ei-la que chega. Pousa a tua mão que escreve na mão da criança quando ela chegar. Sente o contacto de ambas as mãos e começa a interagir com ela, deixando-a assumir o comando. Sê o amigo mais velho da tua criança, o amigo que ela sempre quis. Se ela quiser levar-te para o esconderijo secreto, para um jardim ou para o quarto para brincares com ela, acompanha-a. Ela pode querer conversar contigo ou pedir-te que pegues nela ao colo. Sê atencioso com as necessidades e desejos dela e aprende o que ela tem para te ensinar. Terás 5 minutos contados no relógio, que é o tempo de que precisas para ficar com ela. Podes começar. (Pausa de 5 minutos) Agora, é o momento de dizer adeus, por enquanto. Agradece à tua criança o tempo que passaram juntos e diz-lhe que em breve lhe pedirás que volte outra vez. (Pausa)

Contarei até dez. Junta-te a mim quando eu disser seis, sentindo-te bem relaxado e alerta, e pronto para escrever sobre o teu encontro. Um… dois… três… quatro… cinco… seis… sete… oito… nove… dez.

Maureen Murdock

Giro Interior

S.Paulo, Cultrix, 1987

Excertos adaptados

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 O aliado interior

IDADE: de 5 anos à idade adulta

EXERCÍCIO: 5-10 minutos

CONTINUAÇÃO: 15 minutos

Fecha os olhos e concentra a atenção na inspiração e na expiração das tuas narinas. Continuando a respirar no teu ritmo, imagina que estás a passar por um caminho numa floresta muito densa. À tua volta há belas árvores verdes, e esse caminho desce em direcção a um murmúrio de água. Chegas a um pequeno curso e aproximas-te dele, até ver o teu reflexo na água. (Pausa)

Logo percebes outra presença próxima de ti mas sentes-te inteiramente seguro. Vês outro reflexo junto do teu na água. Essa outra presença pode ser a de um velho sábio, a de um animal ou a de um ser imaginário que sentes como teu aliado, alguém que já conheces há muito tempo, alguém em quem podes confiar. O teu aliado faz um sinal para que o sigas através de uma pequena ponte que cruza o rio. Vais e vês-te a subir um morro que leva a uma gruta. O aliado entra na gruta, senta-se e faz um gesto para que o sigas. (Pausa de um minuto)

É possível que tenhas uma pergunta especial para fazer ao teu aliado e fá-la neste momento. Ouve atentamente a resposta. (Pausa de um minuto)

O teu aliado diz-te que podes voltar à hora que quiseres. Ele estará sempre à tua espera para o ajudares em tudo o que precisar. Agradeces-lhe e fazes o caminho de volta pela ponte, tornando a olhar o teu reflexo na água. Vais percebendo como te sentes enquanto sobes o caminho. Sais da floresta e tornas-te consciente de estar sentado aqui, plenamente presente. Conta para ti mesmo até três e, lentamente, abre os olhos.

 ***   ***   ***

Reacções ao exercício “o aliado interior”

 

 

Eis o que disse Bekki, de 16 anos:

 

O meu índio voltou para mim, em intervalos, durante anos. Ele tem estado sobretudo aqui e ali desde que me mudei para Los Angeles. Nunca me fala verbalmente, mas posso ouvir os seus pensamentos. Sugere coisas e diz-me o que pensa que eu devo fazer quando estou perdido ou confuso. Foi a minha mãe que me deu a ideia do índio. Às vezes, não posso interagir fisicamente com ele na minha mente. Às vezes, limitamo-nos a sentar-nos juntos e a fumar um cachimbo. Geralmente vejo-o a fazer várias coisas e a pensar por mim. Por vezes nem sequer o vislumbro ou penso nele, mas ele ajuda-me a racionalizar e a interpretar os meus sentimentos e as minhas acções. Ele é muito simples e está sempre perto de uma tenda. Calça mocassins e veste calças de camurça e uma camisa. Tem longas tranças negras, e em volta da cabeça uma tira feita com penas e contas. Usa em redor do pescoço uma fieira de contas castanhas, brancas, azuis e pretas. Os mocassins são ornados de contas. Parece sempre tranquilo.

A busca da identidade

Nesta sociedade, temos poucos rituais para assinalar o fim da infância e o início da idade adulta. Queremos que os nossos adolescentes assumam cada vez mais a responsabilidade pelas suas vidas, na escolha de empregos, de namorados e de colégios, mas não deixamos de os tratar como crianças. Castigamo-los, negando-lhes regalias, quando pensamos que não estão a comportar-se como adultos responsáveis.

Os adolescentes são principiantes. Estão a enfrentar, pela primeira vez, muitas experiências e problemas de adultos. Subitamente, vêem-se diante de problemas tão diferentes como o significado dos papéis masculino e feminino, a identidade e a actividade sexual, preocupações financeiras, seguro de automóvel, candidatar-se a empregos, decisões sobre a escola e sobre sair de casa e tentar entender quem são. Além disso, ainda queremos que vão deitar o lixo fora e que façam todos os deveres sem demora. Eles precisam de toda a nossa compreensão, orientação, paciência e estímulo e, naturalmente, também queremos a sua cooperação e respeito. O que em geral ocorre é uma luta emocional pela supremacia.

Para encontrar a sua própria identidade, os adolescentes repelem frequentemente as figuras dos pais e de outras autoridades e contam com o apoio e conforto dos amigos. Na adolescência, dos 16 aos 19 anos, a busca da própria identidade intensifica-se. É esta mesma busca que atemoriza pais e professores e os torna mais restritivos.

O adolescente defronta-se com a necessidade de afirmar a sua vontade de conhecer a própria identidade, e receia que, se o fizer, possa perder o amor dos pais. A mensagem por detrás disto é: “Posso correr o risco de afirmar quem sou, ou tenho de me conformar em ser amado por vocês?” Como disse Brett, de dezassete anos: “Quero que o meu pai compreenda que sou jovem apenas uma vez e que preciso de experimentar. Não estou a tentar exasperá-lo. Apenas tenho necessidade de procurar.”

Outros adolescentes sentem-se culpados em relação à dicotomia entre o eu que mostram aos pais e professores e o eu que está a estudar diferentes papéis com os amigos. Tim, de dezoito anos, diz: “Quero que os meus pais saibam quem realmente sou. Eles pensam que sou bonzinho.” Os pais não estão menos confusos do que os filhos. Primeiro queremos prendê-los e, momentos depois, não vemos a hora de os soltar.

Eu mesma dei comigo a transformar-me numa mãe cada vez mais exigente quando o meu filho se preparava para ir para a faculdade. Durante o último ano que passou na escola secundária, tentei impor uma lei marcial cada vez mais rigorosa em relação a chegar cedo, até que Brendan me chamou a atenção para o facto de que podia ficar fora até mais tarde quando estava no nono ano! Compreendi, então, que estava apreensiva não apenas em relação ao comportamento que ele e os amigos estavam a adoptar, mas também em relação ao seu crescimento e afastamento da família.

Dizer adeus a uma relação dependente e tentar encontrar uma nova maneira de se relacionar baseada na independência são as tarefas do adolescente mais velho, assim como dos pais ou do professor. E não é fácil. Este é um período de muitas emoções mescladas. Para os filhos, a alegria, as expectativas e a liberdade que associam à passagem para a idade adulta estão misturadas com o medo de se afastar da segurança e da protecção do lar.

Os pais perguntam-se se incutiram todos os valores “certos” e se prepararam o filho ou filha de maneira suficientemente boa para a vida. Os professores preocupam-se em saber se prepararam os alunos de modo adequado para os estudos futuros ou os deveres profissionais. Pais e professores têm também que se haver com sentimentos de perda quando os adolescentes amadurecem e se afastam do seu convívio diário.

Esta é uma fase difícil para o adulto que não tem consciência do necessário distanciamento pelo qual o adolescente deve passar. Os adultos podem, muitas vezes, sentir-se rejeitados, impotentes e não-amados, e perguntam-se o que aconteceu com a relação afectuosa que existia entre a criança e o adulto.

Lembre-se de que esta é uma fase de desenvolvimento e não durará para sempre. Quanto mais espaço der às crianças para encontrarem a sua própria identidade, mais elas quererão compartilhá-la consigo – no momento certo.

Continuação: A criança interior encontra-se com o seu eu ampliado

Maureen Murdock

Giro Interior

S.Paulo, Cultrix, 1987

Excertos adaptados

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Aventura com a fada das flores

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IDADE: de 3 a 12 anos

EXERCÍCIO: 5 minutos

CONTINUAÇÃO: 5-15 minutos

Às vezes pode criar-se um exercício de imagens mentais dirigidas com base numa história escrita pelas crianças. Depois de ler a história da minha filha Heather, de 9 anos, que acompanha este exercício, usei o tema dela para criar este exercício sobre as fadas das flores. Estas imagens mentais permitem que as crianças satisfaçam plenamente o seu sentido de magia e de aventura.

Fecha os olhos e concentra a atenção na respiração. Suavemente, inspira… e expira. Enquanto respiras calmamente, o teu corpo torna-se cada vez mais relaxado. Imagina agora que estás sentado ao ar livre na relva, num belo dia de sol quente. Estás a deleitar-te ao contemplar o desabrochar de novas flores. Sentes prazer nas suas cores e aromas. De repente, vês um ser diminuto à tua frente, subindo pela haste de uma linda margarida. Esse ser não é maior do que o teu dedo médio; ao voltar-se para ti, faz um sinal de que deves segui-lo. Percebes que também te tornaste pequeno e apressas-te a acompanhar a tua nova amiga. Tens agora três minutos contados no relógio, que é todo o tempo de que necessitas para realizar uma aventura com esta fada das flores.

(Passados três minutos) Agora é hora de te despedires da tua amiga e de voltares para cá, repleto de lembranças da tua aventura. Contarei até dez. Junta-te a mim quando eu contar seis, e abre os olhos, sentindo-te alerta e revigorado, quando eu chegar ao dez. Um… dois… três… quatro… cinco… seis… sete… oito… nove… dez.

As fadas das flores

Numa pequena aldeia da Irlanda, vivia uma menina chamada Mindy. Ela morava num lindo chalezinho. Do lado de fora do chalé havia todo o tipo de flores que se possa imaginar, e a margear as flores havia caminhos de tijolos. As flores cresciam a toda a volta do chalé num carreiro de quase dois metros de largura. Para lá dos caminhos e das flores, havia um relvado onde Mindy gostava de brincar. Mindy tinha dez anos e cabelos louros compridos. Morava com a mãe, o pai e a sua irmãzinha, Holly.

Um dia Mindy estava sentada no relvado, a olhar para todas as flores, quando percebeu um diminuto ser alado de quase dois centímetros e meio de altura, sentado numa graciosa flor branca, a conversar com uma joaninha. Dizia: “Ninguém quer brincar comigo, joaninha. Estão todos muito ocupados.” Mindy assustou a joaninha e a menina quando disse: “Eu brinco contigo; afinal de contas, quem és tu?” A menina disse: “O meu nome é Emília. Sou uma fada das flores.” Mindy brincou com Emília o resto do dia até que a chamaram para jantar. Depois do jantar, leu para Holly e, em seguida, foi dormir.

A meio da noite uma torrente de luz brilhou nos seus olhos. Quando acordou, viu-se num pequeno leito de pétalas de rosa em lugar do cobertor. Mindy olhou para si e viu que tinha asas. Levantou-se e olhou em redor. Estava num lugarzinho onde havia uma escada que subia até a uma porta. Galgou-a e bateu na porta. Emília abriu. “Bom dia”, disse. Mindy perguntou: “Por que estou tão pequena quanto tu?” Emília replicou: “Não há tempo para explicar. Quero que conheças o rei e a rainha das fadas das flores.” Saíram e estavam numa aldeia onde todas as casas e lojas eram feitas de cogumelos. Foi numa casa de cogumelo que Mindy acordou. Nunca as tinha visto quando estava a brincar, porque elas ficam muito bem escondidas debaixo das flores.

Foram para o palácio de cogumelo. De início, andavam, mas depois Mindy aprendeu a voar, de modo que fizeram um voo até chegar ao grande e imponente cogumelo. Ao ver como Emília era pequena comparada com o rei e a rainha, Mindy espantou-se; eles tinham quase dez centímetros e Emília apenas uns dois e meio. Mas, por outro lado, Emília não tinha a idade do rei e da rainha. Estes ficaram muito contentes em ter Mindy como uma fada das flores. Elas não se demoraram muito porque Emília estava ansiosa por mostrar tudo à sua nova amiga. Ao voltarem à aldeia, ela apresentou Mindy ao pai, cujo nome era Tom, à irmã, Elizabete, e à mãe, Maureen. Moravam todos com Emília, mas não estavam em casa de manhã.

Emília e Mindy brincaram uma com a outra todos os dias e divertiram-se imenso até que, um dia, Mindy ouviu a sua mãe a chorar porque pensava que ela tinha ido embora. Dali a alguns dias, Mindy sentiu saudades e quis voltar para casa, mas nenhuma das fadas sabia como fazê-la voltar ao tamanho normal. Um dia, Emília saiu de manhã bem cedo para descobrir como fazer Mindy voltar ao tamanho normal. No caminho encontrou o seu amigo gafanhoto, “Gafanhoto, como posso fazer a minha amiga voltar ao tamanho normal?” “Emília, deves saber que podes ter tudo o que quiseres, se disseres o que queres à flor branca silvestre.” “Muito obrigada, gafanhoto, adeus”, disse Emília. E foi a correr para casa contar tudo a Mindy.

Quando Mindy ouviu isto, disse adeus a todos e foi falar com a flor branca silvestre. Murmurava: “Eu gostaria de voltar ao meu tamanho normal, se tu deixasses, minha linda flor.” Imediatamente se viu de volta à sua confortável cama. Somente ela e as fadas das flores se lembrarão do maravilhoso passeio de Mindy ao país das fadas.

 

 

Uma imagem positiva de si mesmo

 

Um dos mais importantes efeitos secundários do uso de imagens mentais dirigidas é o desenvolvimento de uma imagem positiva de si mesmo. As crianças aprendem melhor quando crêem que podem fazê-lo. Essa atitude positiva comunica-se a tudo o que fazem. A maioria das crianças vale-se das outras para se tranquilizar quanto às próprias capacidades. As crianças que desenvolveram uma imagem de si mesmas como pessoas criativas e capazes não têm constante necessidade de reconhecimento dos outros. Elas sabem que são capazes!

A criança que se imagina a melhorar determinada habilidade, a realizar bem uma prova ou a aprender com facilidade algo de novo, começa a acreditar que isso é, de facto, possível. À medida que a habilidade desejada se aprimora ou a nota desejada num exame é alcançada, a confiança da criança em si mesma fortalece-se. Ela aprende a ter confiança em si, na sua capacidade de aprender e de ser bem-sucedida.

Um facto importante a lembrar é que, quando estamos felizes, tornamos óptima a nossa capacidade de aprender. Devido à maneira como é estruturado o cérebro, é impossível separar as emoções da aprendizagem. Os caminhos neurais entre o neocórtex (o cérebro cognitivo) e o sistema límbico (o cérebro emocional) estão sempre abertos, mesmo nas pessoas que crêem que as suas acções são dirigidas exclusivamente pelo intelecto. Por conseguinte, a primeira coisa que temos a fazer para preparar uma criança a fim de que aprenda é criar uma adequada estrutura mental.

Percebi isto quando coordenei um exercício de imagens mentais dirigidas sobre a ideia de si mesmo com um grupo de índios norte-americanos, do sétimo ano, em British Columbia. No final do exercício, perguntei ao grupo em que habilidades imaginavam que estavam a melhorar. Um dos jovens alunos viu-se a apanhar mais peixe; outra viu-se a pintar com mais destreza; outro viu-se a melhorar em matemática. Uma menina veio no final da aula e, com uma voz quase sussurrada, disse: “Eu não me vi a melhorar na escola ou no desporto. Apenas me vi como alguém feliz.”

O avô dela, de setenta e oito anos, um ancião da tribo e professor da escola, estava presente durante o exercício e ouviu a resposta da neta. Numa reunião de professores, naquela tarde, discutimos os efeitos das imagens mentais sobre a aprendizagem. Ele disse ao grupo que esta era a coisa mais importante que a neta tinha a aprender na vida: ser feliz. Às vezes estamos tão preocupados em encher os nossos filhos de conhecimentos que esquecemos as coisas mais importantes.

 

Enfrentando a tensão

 

A crença de que aprendemos melhor sob tensão não é verdadeira. Quem quer que tenha experimentado a “ansiedade de um exame” sabe como a tensão e o esforço interferem na aprendizagem, assim como na memória. Um simples exercício de relaxamento pode aliviar a angústia que muitas vezes acompanha uma tarefa difícil, seja a representar, a falar em público ou a realizar um exame. A criança pode adquirir controle sobre as desagradáveis emoções de ansiedade através da respiração e do relaxamento muscular.

Num projecto financiado pelo governo federal e realizado na Bell High School, em Los Angeles, alunos do nono ano que estudavam Inglês como segunda língua alcançaram notas significativamente mais altas em testes de competência linguística do que aqueles que tinham o inglês como primeira língua. Isto ocorreu como resultado dos exercícios de relaxamento e do uso de imagens mentais. Visto que se imaginavam como alunos calmos e bem-sucedidos, aprendiam mais depressa e retinham na memória mais informações.

Na sala de aula ou em casa, o uso de um breve exercício de relaxamento pode ser particularmente eficaz antes de uma reunião para resolver problemas de relações interpessoais. As crianças, assim como os adultos, ficam suficientemente relaxadas para falar dos sentimentos de mágoa com bons resultados. Elas aprendem a identificar os seus próprios sentimentos negativos e a dizer como a atitude negativa dos outros as afecta. E as soluções tornam-se mais criativas.

O diálogo que vamos transcrever ocorreu entre duas alunas do jardim de infância. Essas meninas faziam parte de um triângulo cujos membros estavam constantemente a manipular-se uns aos outros. Fizemos um breve exercício de relaxamento antes de discutir o problema em questão. Talvez concordem comigo: este nível de conversa é extraordinariamente maduro para quem tem cinco anos.

Juliana: Ania, feriste de facto os meus sentimentos quando não me deixaste brincar contigo, com a Jennifer e a Michelle.

Ania: Não queria ferir os teus sentimentos; apenas não estava com vontade de brincar contigo.

Juliana: Mas tu disseste que eu podia brincar contigo quando saíssemos e isso fez-me realmente sentir excluída.

Ania: Esqueci-me. Podes brincar connosco na hora do lanche.

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Maureen Murdock

Giro Interior

S.Paulo, Cultrix, 1987

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As artes da linguagem e da leitura

 

As crianças gostam de ler as suas próprias histórias e as dos seus companheiros de turma. Aprendem a ler melhor quando lêem algo com implicações pessoais. Depois de um exercício de imagens mentais, podemos sugerir aos nossos filhos mais novos ou à turma que desenhem as figuras que viram na sua imaginação. Podem ditar-lhe as histórias a si ou a uma pessoa mais velha que possa escrever as palavras.

Em seguida, as crianças lêem as histórias em voz alta. Que orgulho sentem ao escrever e ler em voz alta as suas próprias histórias! Pode-se, além disso, aumentar o seu conhecimento do vocabulário, usando as palavras que aparecem na história para ilustrar regras fonéticas e ortográficas.

Depois de um exercício de imagens mentais, a história seguinte foi desenhada e ditada a mim por Taro, um menino de sete anos classificado pelo professor como “incapaz de ler”. Em seguida, ele leu a sua história em voz alta para o grupo, surpreendido pela recém-adquirida capacidade de ler e orgulhoso dela:

Quando olhei para os espelhos, vi um arco-íris a formar-se e no próprio círculo interior do arco-íris havia uma lista preta que estava a ser puxada para baixo. Quando chegou ao centro, transformou-se num pequeno ponto e lentamente desapareceu. Compreendi então que aquele era o ponto dentro de mim onde me faltava a confiança. E quando soube disso, senti-me a sair do chão e pus-me a voar como Jonathan Livingstone Seagull. Comecei então a aprender a controlar o meu corpo, e podia voar rápido ou devagar e de cabeça para baixo. Depois, comecei a sentir como se estivesse a transformar-me numa outra pessoa.

 

A redacção criativa

 

Depois de experimentar uma rica imagem visual, uma criança, Jessica, pôde descrevê-la com as seguintes palavras:

 

A Folha do Ácer

A cor da folha

é como um pôr-do-sol laranja

A textura da folha

é como as pedras redondas da estrada

O aroma da folha

é ainda o mais doce

Mas o gosto da folha

é celestial.

Este poema foi precedido por um exercício de imagens mentais que realizei com a minha turma da terceira classe, levando os alunos a conhecer os prazeres que as folhas de Outono provocam nos sentidos. Numa viagem à Costa Leste, reuni folhas de muitas variedades, cores, formas e tamanhos. Os alunos da minha turma tinham crescido no Sul da Califórnia e nunca tinham visto o magnífico espectáculo das cores outonais. Sem lhes mostrar as folhas, pedi às crianças que fechassem os olhos e usassem todos os sentidos quando examinassem o que estava prestes a oferecer-lhes.

 

Senta-te numa posição confortável e fecha os olhos. Põe as mãos nas coxas, com as palmas para cima. Concentra a atenção na respiração e quando respirares, o corpo e a mente ficarão cada vez mais relaxados. (Pausa) Imagina que estás sentado debaixo da tua árvore predilecta e que começa a soprar uma brisa suave. (Pausa) Sentes as folhas que caem da árvore. (Deixe cair as folhas lentamente sobre as crianças.) Ainda com os olhos fechados, pega numa folha e segura-a nas mãos. Sente as nervuras da folha e percebe a sua forma e tamanho. Imagina de que cor pode ser. Esfrega-a no rosto e repara na sua textura. Cheira-a… O que é que ela te faz lembrar? Imagina qual é o seu gosto. Podes-te levantar, se quiseres, e move-te imitando a queda suave das folhas no Outono. (Pausa) Quando estiveres pronto, abre os olhos devagar.

A reacção a este exercício serviu-me para saber como é importante o uso dos sentidos na aprendizagem. E um aluno disse:

Vejo folhas a dançar na brisa

Algumas são amarelas, verdes e vermelhas,

Outras parecem-se com coisas que jamais vimos antes.

A minha tem cheiro de carvalho e, com certeza, é a melhor.

A textura da folha cheira a vermelho

A forma da folha lembra-me uma mão,

Quando a levanto, posso ver a sombra das nervuras.

Neste poema, a textura cheira a vermelho. Este menino cruzou o sentido táctil com o olfacto e a visão. Este dom, chamado sinestesia, é um instrumento eficaz na ampliação da memória. Este aluno, em particular, apresentava a melhor memória da turma e estava adiantado um ano em matemática.

 As imagens mentais dirigidas são um meio excelente para criar, de acordo com um ponto de vista diferente, as personagens de uma narrativa. As crianças relacionam-se de modo muito intenso com os animais e criam empatia com os seus sentimentos. Elas revelam muito do que têm dentro de si mesmas quando assumem o papel de um animal favorito.

Histórias extraordinárias surgem quando a criança adquire as características e atitudes físicas de uma personagem que encontrou no exercício de imagens mentais. Estas personagens tornam-se multidimensionais, e não meras caricaturas monótonas e estereotipadas. Num exercício de imagens mentais em que os alunos foram instruídos para se transformarem nos seus animais favoritos, uma criança (Jenny, de 10 anos) escreveu a seguinte história:

 

Eu estava a descer um caminho pedregoso. Tinha calor e sede. A minha boca estava cheia de água. De repente, vi surgir um tanque e corri rapidamente na sua direcção. Fui tão depressa que nem reparei que andava sobre quatro pés. E os meus bigodes estavam a fazer cócegas nas minhas bochechas. Ao chegar ao tanque, imediatamente vi que me tinha transformado num dos meus animais favoritos. Um gato! Um gato com longos pêlos castanhos.

Molhei a pata no tanque e lambi-a com a ponta da minha áspera língua cor-de-rosa. Depois de um certo tempo, imaginei que o gato em que me tinha transformado era exactamente como eu. Com a unha, desenhei um gato. Até como gato eu podia desenhar gatos melhor do que ninguém.

Justamente nesse instante senti alguém tocar de leve na minha pata. “Olá”, disse uma vozinha. Olhei em volta e não vi nada nem ninguém. “Olha para baixo”, disse novamente a voz. Olhei para baixo e vi uma joaninha. “Fico contente por alguém me encontrar”, disse a joaninha. “Estou perdida no nevoeiro e preciso de um lar. Quero ser tua amiga”, disse a joaninha. Pensei: gosto de fazer amigos. Sempre gostei. O facto de ser um gato não deve mudar nada. “Se eu for teu amigo, tu serás minha amiga?”

“Naturalmente”, disse a joaninha. “Teremos um longo dia amanhã, Jenny”, disse a joaninha. “Como sou uma joaninha pequena, vais-me contar uma história para dormir.” Eu contei-a porque gosto de inventar histórias. Quando acordei de manhã, já não tinha bigodes. Não tinha longos pêlos castanhos. Era a menina comum de cabelos vermelhos e sardas. Sabia que estava na hora de ir embora. E assim peguei na joaninha e voltei para a sala de aula.

Continuação: Aventura com a fada das flores

Maureen Murdock

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Excertos adaptados

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