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Archive for the ‘contos’ Category

Pierre Péju

L’archipel des contes

Paris, Aubier, 1989

Excertos adaptados

 

 

 

O umbigo do conto

 

La Petite Fille dans la Forêt des Contes é um ensaio que faz a apologia de uma prática viva e poética dos contos, e que nos convida a desconfiarmos das interpretações redutoras da moda do momento.

“E depois?” Esta é a pergunta que me apetece sempre fazer quando deparo com as imensas gavetas ideológicas nas quais críticos e intérpretes dos contos colocam as imagens que encontram nas narrativas, mesmo as mais perturbadoras. (Estou a pensar, concretamente, nas 31 funções de Propp e no modelo actancial de Greimas). É que mesmo as explicações mais argutas não conseguem dar conta daquele brilho próprio do conto, que lhe advém dos lugares mais profundos da nossa infância e da noite dos tempos, embora esta continue espantosamente actual. Esses críticos ficam também muito aquém daquilo a que chamo “o umbigo do conto”, esse ponto misterioso que liga uma narrativa aos segredos da nossa vida íntima e aos enigmas da comunidade humana.

Podemos perfeitamente, dentro da modernidade na qual temos de habitar, estudar e ler os contos, contá-los ou escrevê-los, e continuar abertos ao sempiterno trabalho de revelação que nos proporcionam.

Sempre me recusei a medir – em nome de que ideologia? – o “valor” pedagógico ou moralizador de um conto. Não quero estabelecer uma teoria dos contos: apenas pretendo extrair deles o maior número de significados possível e mostrar o vigor do sentido que brota continuamente destas narrativas, sempre disponíveis.

Longe de me lançar numa caça aos símbolos, convido o leitor a considerar os contos, e as suas versões orais ou literárias, como narrativas muito puras, capazes de preservar, na simplicidade aparente da sua forma, verdadeiros enigmas intemporais. Estou persuadido de que o enigma, o texto obscuro sobre o qual nos questionamos, é sempre mais precioso do que a resposta, seja ela qual for. Algumas imagens dos contos equivalem a perguntas jamais respondidas. É este desejo de penumbra que nos leva a considerar a floresta como o espaço por excelência do conto e não como um símbolo entre outros ou como um tema de estudo privilegiado.

O conto interessa-me, primordialmente, porque é um desvio necessário do acto de escrita, porque é um desvio de uma certa forma de vida, à semelhança do que acontece com o sonho. Pretendo agir como um amador, não por modéstia, mas por princípio. Um amadorismo ávido e consciencioso, sem dúvida, mas totalmente oposto a esse desgaste de energia que representam os trabalhos e as pesquisas universitárias dos últimos anos sobre o conto.

O amadorismo é uma liberdade: quando um assunto deixa de proporcionar prazer ao amador, este pode pô-lo de parte, mesmo que continue a nutrir por ele uma certa ternura. O especialista não larga a presa: encarniça-se, esgota-se, e acaba por tornar o seu tema de especialização enfadonho para toda a gente.

Lamento que o “público que se interessa pelo conto”, aquele que encontrei nas conferências que fiz, veja no estudo das “histórias que toda a gente conhece” uma compensação para a sua ignorância, diria até desprezo, em relação à literatura em geral. Este público, por vezes muito decepcionante, agarrado à bóia de salvação do folclore ou da pedagogia, contribui para fazer do conto um género literário marginal ou menor, e acaba por ignorar as vantagens que adviriam de suprimir a barreira entre a oralidade e a escrita, entre a tradição e a modernidade, e mesmo entre mitos, contos, lendas, novelas e romances, quando se trata de compreender de que forma as narrativas nos “marcam” – quer remontem à nossa infância ou ao fundo cultural da humanidade – e de que forma as narrativas constituem os únicos espelhos transfiguradores que tornam a vida visível para nós.

Se os contos me seduziram, não foi por gostar de coisas arcaicas, nem para satisfazer uma qualquer nostalgia dos “bons velhos tempos”, quando as narrativas ainda tinham lugar no seio de uma comunidade ideal. Se os contos são apaixonantes, é porque são narrativas completas e amadurecidas que pairam sobre nós, luminosas como frutos na sombra, sempre disponíveis. Subsistem e persistem enquanto referências flutuantes. Constituem um acervo para sempre aberto.

É pela sua “carne”, e não pelo seu “esqueleto”, que os contos são fascinantes. A sua eficácia e a sua elegância são sempre fonte de espanto para nós: o conto exibe uma economia de meios que torna cada elemento necessário e suficiente.

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Maria Alberta Menéres

Imaginação

Porto, Ed. Asa, 2003

Excertos adaptados

 

 

Algumas leves considerações acerca dos contos de fadas,
da magia e da imaginação, ou talvez não

 

Talvez se oculte dentro da palavra imaginação, a própria magia. Mais do que magia: a imagem recuperada ou inventada. Porque no universo da imaginação há estranhos e ignorados caminhos que levam a terras sonhadas e terras reais.

Onde podemos dizer que começa realmente a fantasia e acaba a realidade? Que memória nos atraiçoa? Que esperança nos desmente? Hoje em dia sabemos como são fundamentais para o crescimento das crianças as histórias de fadas, esses enredos onde a realidade e a fantasia convergem para um ponto de encontro e de compreensão – talvez para a constatação de que o bom e o mau, o feio e o bonito, são nomes de seres ou de objectos ou de situações vivendo lado a lado, inevitavelmente.

Diz Bruno Bettelheim que o conto de fadas tem um efeito terapêutico na medida em que a criança encontra uma solução para as suas dúvidas através da contemplação do que a história parece implicar acerca dos seus conflitos pessoais nesse momento da vida.

O conto de fadas não informa sobre questões do mundo exterior, mas sim sobre processos interiores que ocorrem no âmago do sentir e do pensar.

E as crianças entendem bem a linguagem dos símbolos dos contos. São elas que inventam no seu dia-a-dia o jogo do “faz de conta” e tantos outros que as divertem e distraem em tempos vividos entre a imaginação e a realidade.

São elas que necessitam de contrapontos para situarem a sua própria vivência e o seu equilíbrio. Talvez por isso não se deva “explicar” à criança o sentido dos contos de fadas. As imagens e as acções são “as palavras explicativas” dos contos de fadas.

Quem não se lembra da aflição que sentiu ao ouvir contar que, “de repente, a menina se viu perdida na floresta”? A criança que escuta atentamente a história logo se sente e imagina também perdida naquela mesma floresta imensa e desconhecida.

Quem conta a história vê-se envolvido em todo este processo. Um adulto que goste de contar histórias não escapa ao seu próprio fascínio e descobre a cada momento, a cada pausa, o efeito que as suas palavras e a sua expressão provocam nele mesmo e na criança que ouve, de olhos maravilhados.

As fadas dos contos podem ser fadas boas ou fadas más.

A fada é sempre, para qualquer criança, uma certa imagem da sua própria mãe. Em primeira análise, porque é ela quem a acorda de manhã, lhe dá de comer e de beber, a veste e a embala. Mas esta “fada” que a criança pressente na sua mãe, nem sempre lhe aparece com cara radiante! Quando a criança se porta mal, a mãe zanga-se com ela. E na ansiedade da vida de todos os dias, quantas vezes a mãe, cansada e desiludida, não se zanga com ela um pouco injustamente!

A criança revolta-se. E quando se é criança, qualquer pequena revolta pode ser profundamente violenta. A mãe pode aparecer de repente como a fada má. Fada má e fada boa ao mesmo tempo podem ser imagens projectadas.

Diz ainda Bettelheim que a divisão de uma pessoa em duas, a fim de manter a boa imagem inalterada, surge a muitas crianças como solução para um conjunto de relações demasiado difíceis de digerir ou compreender.

Quando uma criança se irrita com a mãe que ela adora, sabendo muito bem que não deveria irritar-se, está sem o saber a transformá-la em fada má ou em bruxa, ao mesmo tempo que preserva, no seu íntimo, a imagem da sua mãe inteiramente boa ou fada benfazeja. A fantasia da bruxa serviu-lhe para escoar toda a sensação de raiva que sentia, e para deixar liberta a imagem da mãe.

A criança, aliás, “divide” as pessoas que a rodeiam em boas e em más. “Divide-se” a ela própria, quando não se assume como culpada de coisas que fez e que a desgostam: chega a afirmar que não foi ela quem fez isto ou aquilo (que realmente fez).

É a preservação do lado bom contra o lado mau. A fada má, a bruxa, a madrasta das histórias de fadas, são tão necessárias como a fada boa, o pai compreensivo, a mãe adorada, o príncipe encantado.

Os contos de fadas garantem à criança que as dificuldades podem ser vencidas, as florestas atravessadas, os caminhos de espinhos desbravados e os perigos mudados, por mais pequeno e insignificante que seja quem pretende vencer na vida. E a criança, desprotegida por natureza, sente que também ela pode ser capaz de vencer os seus secretos medos, as suas evidentes ignorâncias.

Assim, aprende a aceitar melhor as pequeninas desilusões que vai encontrando no seu dia-a-dia, pois sabe que, à semelhança do que acontece nos contos, os seus esforços por se tornar melhor hão-de ter um dia a desejada recompensa. No seu íntimo, ela entende muito bem que as histórias maravilhosas são irreais – mas não as aceita como falsas, na medida em que descrevem, de um modo imaginário e simbólico, os passos do seu crescimento.

Num mundo já de si perfeitamente antagónico, ela intuitivamente “divide” tudo em bom e mau, para assim encontrar o seu equilíbrio.

E, no entanto, quantas vezes se inquieta: porque será, ela própria, obediente e teimosa, boa e má, valente e medrosa, uma contradição viva?

Através de imagens simples e directas, os contos de fadas, com toda a sua imaginação, ajudam a criança a destrinçar os seus próprios sentimentos complicados, ambivalentes, de modo a desviar cada qual para o seu lugar, evitando as confusões.

O conto de fadas sugere não só o isolamento e a separação dos aspectos disparatados e confusos da experiência da criança em coisas ou situações antagónicas, como também projecta estes em figuras diferentes , conclui Bettelheim.

Para quem escreve, assim como para quem lê para crianças, é essencial nunca escrever ou contar por contar. São de exigir os conflitos, as confrontações, as aventuras – ou seja: sentido e acção. Afinal, o que faz parte da própria vida.

É para nós um desafio escrever as novas histórias destes novos tempos, em que a varinha mágica pode ser muito simplesmente um interruptor de luz; a cabana da floresta; uma tenda de campismo; um cavalo alado; o mais recente foguetão espacial…

Por detrás da imaginação, quantas vezes escondida, está sempre a vontade de criar. O conhecimento dessa vontade não é de hoje, mas de há muito, muito tempo. Para Platão, ela nasceria do poder de um deus ou de um demónio. Ele chegou a falar de inspiração. Aristóteles e Horácio embrenharam-se pelos caminhos do estudo da poesia e da escrita apaixonada. Os antigos também invocavam as musas, essas misteriosas e invisíveis companheiras dos escritores e dos artistas em geral.

A tradição sempre acreditou que, espreitando sobre o ombro de quem escrevia, estava “uma outra vontade” que não a de quem exercia o activo ofício de escrever. Para os românticos, essa outra vontade era evidentemente a própria inspiração. Para Freud, ela morava no inconsciente de cada um. Para os surrealistas, ela existia no próprio acto de escrever e era provocada por ele mesmo.

Vontade, imaginação e criação conjugam-se para que, em cada época, se consiga extrair do mundo a essência dessa mesma época.

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O Perfume do Sonho, na Tarde

O perfume do sonho envolvia-a, debaixo do docel de folhas da árvore, que emborralhava já a sonolência, ronronante, do bichano – seu companheiro – e que só com ela se aventurava a sair do aconchego da casa.

Que bom! Não havia aulas, nem deveres, naquela tarde de sábado! Podia gastar o tempo à vontade… Boa altura para um pincho no sonho. Como se lhe adivinhasse o desejo, e mais lesto do que parecia natural num ronronar, preguiçoso, já o gato ia a cavalo numa vassoura de bruxa, sem o consentimento dela!

― Sape, daí já!

Bruxas não eram da sua predilecção. Convinha pensar um pouco, antes de se meterem, às cegas, em aventuras… E se tirasse, da arca encantada, os seus vestidos mágicos? Mas qual? O de princesa de diadema, à espera de um noivo, que lhe decifrasse o enigma do amor? O de pastora, adormecida, de romeirinha e de coração esperançoso, a sonhar que um príncipe perdido numa caçada a encontraria?

O de menina-malmequer, pronta também a florir e a partilhar o merendeiro com um beijo de boas-tardes? Qual escolher?

E o de Xerazade [1]? Esse, esse. Nada lhe agradava mais do que ser a que, diligentemente, emudecia com o surgir da manhã e, depois de mil e uma noites de encantamento, havia de conseguir conquistar o amor, graças ao feitiço da sua palavra. O de Xerazade servia-lhe, como uma luva. E, então, perante o bichano-companheiro, que assistia atento e segurava as fitas do sonho, envergou as suas calças tufadas, de gomos de seda colorida às pintas, vestiu o seu corpete que encaixava só as laranjinhas, adolescentes, dos seios e lhe deixava a descoberto o pescoço e a ondulação do corpo até à cintura. Com todo o cuidado colocou o seu turbante com pena de pavão e só deixou de fora da sua farta cabeleira dois caracóis, que lhe emolduravam a luz, maliciosa, dos olhos. O que faltava? Ah! as suas pulseiras a serpentear pelo braço, o leque de plumas para esconder o sorriso, trocista, de quem se sabe de antemão vencedora. E ainda o anel que o seu senhor lhe tinha oferecido, para florir o alado dos gestos, enquanto contava as suas histórias. Tudo a postos. Na sua imaginação a noite, que tão benéfica lhe era como indicava o seu nome, que significava filha da Lua, não tardaria a descer sobre os minaretes do palácio. Do jardim, já subiam os perfumes que o morrer da tarde acentuava e a envolviam. E gozava, de antemão, a surpresa do marido, quando lhe começasse a contar do califa Haroun al-Raschid [2], que gostava de percorrer Bagdad incógnito e era capaz de aprender a justiça com as crianças, ou as sete viagens de Sindbad, o marinheiro [3] e o muito que a sua imaginação ainda sabia e era capaz de desembaraçar, sem perder o fio à meada. Estava certa não apenas de se fazer amar, mas até de ajudá-lo na governação do reino e mostrar-lhe que uma mulher, mesmo quando escrava como Morgiana [4], pode ser de grande ajuda e não apenas e só uma flor de prazer. Confiante, sentia-se desejosa de mais uma noite a vir. E assim a deixou a rapariga, desejosa também ela doutras paragens, doutras aventuras e doutros sonhos. Nem precisou de tapete mágico, como Aladino [5].

― A mim, meus cavalos de vento e pensamento!

Ali estavam, às ordens para partir para os longes – até onde?

Até ao palácio da Rainha das Neves [6], que tanto a tinha fascinado, quando tinha lido a história. Mas o palácio ficava para lá dos vales brancos de neve da Finlândia, no grande Norte. Tinha de se preparar. Precisava de luvas, cachecol e também para o pobre bichano. Já estava pronta ela e o companheiro, quando se achou, mesmo assim, pouco preparada para gelos tão eternos. Podiam constipar-se, não convinha arriscar. Resolveu trocar os sapatos por umas botas, vestir um casacão debruado a pele, aconchegante, providenciar um regalo, um gorro que não lhe deixasse gelar as tranças e um cachecol de lã, mais quente, para o seu companheiro. Agora, sim. Bem preparados, podiam partir e até tinham uma chave-coração para abrir as portas do sonho desejado.

― A caminho!

E à medida que avançava no meio da neve e do gelo, começou a pensar como é que Gerda [7] tinha sido capaz de caminhar com os pés nus sobre aquela frialdade, glaciar, só aquecida pelo desejo de ter de volta o seu companheirinho de brincadeiras, e livrá-lo do esquecimento em que o tinha mergulhado a Rainha das Neves. Ah! a amizade verdadeira era um grande mistério!

Brr… que frio! Tinham, finalmente, chegado. Ali estava o palácio com as paredes feitas de poeiras de neve, de portas e vidros de ventos agrestes, salas vazias e cintilantes, iluminadas por auroras boreais e no meio de um lago, gelado, o trono da Rainha das Neves, onde ela se sentava, quando não viajava no seu trenó. Sentia as suas trancinhas inteiriçadas, como pingentes de sincelo, debaixo do gorro de pele.

― Vamos regressar! Vamos regressar!

E, em menos de um ai, ela e o bichano, montados num cavalo de pensamento, muito mais rápido do que os cavalos de vento, estavam a salvo, outra vez debaixo da sombra, protectora e quente, da árvore.

Aquilo de ser sempre rapariga também a aborrecia um pouco. Em sonhos, estava ao seu alcance ser rapaz. Por que não? Robin dos bosques, já que gostava tanto de subir às árvores?

Gnomo, para poder descer às profundezas da terra e das águas e ajudar princesas, aflitas e desmioladas, que tinham perdido anéis? Não se sentia muito tentada… E pirata? Ah! pirata era melhor forma para o seu pé, aventureiro, e trazia-lhe o bom cheiro da maresia, sempre colado à sua pele, de tal maneira o mar era grato ao seu coração. Estava decidido. Seria pirata, escorreito, sem perna de pau e com uma pala para tapar, a fingir, não o olho cego, mas o olhinho, guincho e esperto, de sondar os longes.

Com um pulo, ágil, logo o bichano se enredou no cordame de mais aquele sonho, para não perder, ele também, mais aquela aventura. E ambos se atracaram ao pirata de “Era uma vez…” Justamente na tarde em que, feliz, ele tinha descoberto que os verdadeiros tesouros, pelos quais tinha espadeirado e combatido, em abordagens perigosas, estavam afinal, ali, sem sangue, nem combates, ao alcance da mão e do olhar. Onde? Onde? Na natureza. Quem podia duvidar? Que ouro mais valioso do que o das estrelas? Ou de mais puro quilate do que o do sol, quando incendiava a manhã, nascente? Que jóias mais lucilantes do que as miríades de brilhos espelhados no mar? Que rubis mais maduros do que os do coração das romãs? Que verdes de esmeralda podiam competir com os das folhinhas, lavadas pela chuva? Que diamantes mais cheios de luz do que os das gotas do orvalho, na renda, preciosa, das teias de aranha? Tudo ali ao alcance da mão e do olhar. Agora que tudo se tinha aclarado no seu espírito estava disposto a desistir da pirataria. O seu trabalho seria outro. O de procurar alguém que como ele gostasse de nadar e com quem pudesse partilhar aquela verdade: os verdadeiros tesouros estavam ali ao alcance da mão, na água cristalina da nascente, onde matava a sede, nos frutos da terra e na imensidão do mar – que servia de espelho ao sol, à lua e às estrelas. E pôs-se a sonhar com uma nadadora de touca nenúfar-pompom com antenas para repartir com ela o seu coração e aquela verdade.

A história do pirata estava já encaminhada para um final feliz e a rapariga, como quem salta poldras de um regato, estava pronta para outra aventura. Mas o mar ainda a chamava. Ah! o mar, que difícil livrar-se do seu apelo! E decidiu tornar-se sereia. Sim, seria a que se tinha apaixonado pelo príncipe, que salvara da morte, durante a tempestade [8]. Era o que mais lhe agradava. E logo começou a sentir o seu corpo axadrezar-se de escamas, verdes-cinza e azuis, que iam do claro transparente ao quase negro das profundezas dos jardins do mar, onde tinha o seu, ao pé do das suas irmãs. Ai dela! Vinha, agora, cada vez mais à superfície das águas, com o seu toucado de algas e enfeitada numa das faces, que as raparigas da terra tinham coradas, com uma estrela vermelha. Tentava vê-lo, aproximava-se o mais possível do palácio, mas ele não sabia que fora ela a salvá-lo, nem podia apaixonar-se por uma sereia. Tinha de arranjar duas pernas. Pela história, tão amada, sabia que ela estava disposta a dar à feiticeira do mar o que de mais precioso tinha – a sua voz e o seu canto, que enfeitiçavam, em troca de duas pernas. Queria aproximar-se dele, dançar para ele, mesmo sabendo que seria como caminhar sobre espadas cortantes. Mas o que era uma dor física em relação ao apelo do amor? Um mistério ainda mais exigente do que a amizade, era isso… E foi quando uns miados, rabiosos e insistentes, lhe interromperam o sonho. Claro, era o bichano que não gostava das profundezas do mar.

― Bichaninho! Bichaninho! — e passava-lhe a mão pelo pêlo a sossegá-lo. ― Nada de aflições!

Estava disposta a providenciar um escafandro, se necessário, para que ele pudesse passear com ela pelos jardins submersos. Mas ele, pelos vistos, não se deixava convencer pelas suas festas, miava desesperadamente. O que teria?! Só então reparou que o sol ia morrendo e a sombra arrefecia. Tinha-se esquecido do seu lanche e do leitinho dele. Era isso. O bichano reclamava, com fome, o seu pratinho de leite. Pronto, pronto. Teria de fechar, à pressa, o seu baú de sonhos e de lá meter, rápido, rápido, os fatos que não tinha chegado a usar. Que pena! Tão apropriados para um baile de máscaras!

O de menina-alforreca,

o de menina-balão,

o de arlequim,

o de toucado-coração-de-lira, para arpoar um coração gémeo

e o dos anos-vinte com bolsinha e todo franjado, como os antigos candeeiros de vidrilhos. Tão próprio para dançar o charlston! Para outra vez seria…

O bichano já ia longe, numa corrida de afoiteza, acelerada, que a fome é negra. Teve de se resignar. E também ela correu para casa.

Luísa Dacosta, entre Junho e Setembro de 2002

Luísa Dacosta

O Perfume do Sonho, na Tarde

Porto, Ed. Asa, 2004


[1] A contadora de todas as histórias de As Mil e Uma Noites.

[2] Personagem principal de algumas das histórias de As Mil e Uma Noites.

[3] Personagem principal das sete viagens referidas.

[4] Uma das personagens femininas de uma das histórias: Ali-Babá e os Quarenta Ladrões.

[5] Personagem principal de Aladino e a lâmpada maravilhosa.

[6] A Rainha das Neves – título de um conto do escritor dinamarquês H. C. Andersen.

[7] Principal personagem feminina de A Rainha das Neves.

[8] A Sereiazinha – conto de H. C. Andersen.

 

 

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Um esqueleto no armário…

Conhecemos os nossos filhos como a palma da mão. O formato das unhas, o recorte das orelhas, as risadas deles, os caprichos e as cóleras… É natural. No fim de contas fomos nós que os “fizemos”… No entanto, algo começa a escapar-nos desde muito cedo – pela simples razão de que a vida, a verdadeira vida, sempre nos escapa…

Eles têm os seus segredos, os seus “esqueletos no armário”, as suas angústias e perguntas: “Por que é que eu gosto dela e ela não gosta de mim?”, “E o papá, como é que ele se sentirá lá em cima? Estará bem, ao menos?”, “E Deus? Achas mesmo que ele existe?”

E nós, que os imaginávamos ainda na idade dos chupas-chupas, dos escorregões, damos com eles carregados de perguntas, de segredos. Nós, as “mamãs-corujas”, sentimos por vezes um assomo de nostalgia e pensamos: “Ainda tão novo… e já vem com estas perguntas!”

Sim, é verdade. É inútil esperarmos que ele calce 39 para o vermos interrogar-se sobre o curso do mundo. As crianças não se deixam enganar pelos nossos sorrisos postiços nem pelas nossas tentativas para as protegermos do mal. Não estão ao abrigo das pequenas feridas da existência e das questões metafísicas.

Também são picadas pelas urtigas do mundo, mesmo que, a cada dia que passa, nós, pais, tal como o Principezinho, tentemos aplanar os nossos pequenos mundos e expurgá-los de todos os embondeiros que possam vir a feri-las. Não nos deixemos enganar pelo seu silêncio. Mesmo antes do cataclismo da adolescência, os nossos filhos não vivem em nenhum mundo cor-de-rosa.

Aos 3-4 anos começam a ter consciência da morte. Por volta dos 10, sabem que ela é definitiva. Por isso, como falar-lhes da morte, da sexualidade, da amizade, do dinheiro, da tristeza e da angústia, da solidão e da camaradagem? Do divórcio e dos conflitos?

 

 

A criança cósmica

 

Filósofa lá no fundo de si mesma, a criança passa os dias num local, a escola, que responde a tudo… excepto às suas interrogações. Entre as aulas de Geografia, de Matemática ou de Formação Cívica, não há lugar para filosofias!

Cuidado para não sufocarmos à nascença a centelha de filosofia que existe nela. Por vezes, temos muita pressa em fazer das crianças pequenos adultos, cem por cento adaptados ao mundo real, verdadeiros campeões de adaptação, que trazem boas notas e correm do judo para as lições de violino, sempre a sorrir (mesmo que o sorriso seja postiço).

Cuidado com aquelas pressões que, conforme escreve Pierre Péju, mantêm a criança no que é infantil, para depois a precipitarem nos problemas da pré-adolescência, sem nunca terem deixado aflorar as grandes questões . E se deixássemos de a amordaçar… E se nos esforçássemos desde o início por a abrirmos às grandes questões?

 

Período de latência, período de silêncio

A idade da razão é denominada pelos especialistas de “período de latência”. É um momento muito especial. Pressupõe-se que os nossos “ex-pequenos” tenham interiorizado os interditos. Já não choram nem gritam a plenos pulmões. Quando muito, queixam-se de alguma dificuldade em adormecer. Os pais respiram de alívio.

Este período abençoado, depois da fase dos “caprichos ao rubro” e antes da fase conturbada da adolescência, decorre de forma sub-reptícia. E, como não faz barulho, é fatalmente esquecido.

Mas não é pelo facto de a nossa “criança” ter hoje seis ou sete anos que ela se tornou mais sossegada. Pelo contrário: de acordo com os especialistas, a inquietação é o traço dominante deste famoso período. Embora menos espectacular do que o dos quatro anos.

Temos de reconhecer que a escola e a sociedade contribuem para “amordaçar” a criança. A partir da primária, tem de se dizer adeus à fantasia, aos joguinhos e aos escorregões no recreio. E coitados daqueles que não se põem na linha.

Mas as crianças adaptam-se a tudo. Adaptam-se ao papá que chega tarde, à mamã que não tem tempo para lhes responder, ao ritmo escolar que não é o adequado. É quase assustador, se pensarmos bem.

 

 

E a criança lunar?

 

Não critiquemos a escola. Também nós, pais, passamos o melhor do nosso tempo a lisonjear a criança real, a criança “solar”. E que tipo de discurso é o nosso? “O que fizeste nas aulas? Arruma o teu quarto, vai escovar os dentes (pelo menos durante três minutos), come os legumes e despacha-te!”

Uma espécie de “voz de síntese”, um tudo-nada metálica, que soa como um eco longínquo e nos lembra afinal o que detestamos: a repetição inexorável e arcaica dos “deveres” da existência. Mas, e a verdadeira vida? Por que a esquecemos tantas vezes?

Sem dúvida, devido à falta de tempo. Porque é preciso andar depressa! Porque, obcecados pelo desempenho, pelas boas notas e pela visibilidade das coisas, acabamos por só nos dirigirmos ao seu lado menos bom: a criança solar, que dorme, come, trabalha e aprende. E a criança lunar, o poeta que sonha, que pensa, que sofre em segredo? Muitas vezes fica esquecida. Talvez não saibamos como falar com ela…

 

Não ao cerco das perguntas!

 

Ao chegarmos a casa à noite, o que pretendemos é retomar um diálogo que não teve lugar durante o dia.

O nosso filho estava na escola, nós, no escritório. Temos de conversar. O que fazemos então? Recorremos a um interrogatório cerrado, do género: “Então, querido(a)? Como passaste o dia? Comeste bem?” Até ao inevitável: “Tiveste boas notas?”

Claro que tudo é feito com boa intenção. Mas isto soa a interrogatório policial, do género: “Nós temos meios de vos fazer falar!” De resto, os resultados são quase sempre decepcionantes. E o nosso pequeno entrevistado fecha-se no seu mutismo.

A solidão da criança é mais secreta do que a do adulto diz Bachelard na sua Poética do devaneio [1].

É verdade, senhor poeta, é tão verdade que nós, mães, ficamos irritadas com os segredos dos filhos. Nós que, ao chegarmos a casa, gostaríamos tanto de, integralmente, “recuperar o nosso rebento”, de o ouvirmos contar como foi o seu dia. Só que… o rebento oferece resistência. E a comunicação demora a estabelecer-se.

As crianças detestam a intromissão, a curiosidade dos adultos. São exímias a escapulir-se às nossas perguntas. Fazem lembrar as enguias. Uma expressão de contrariedade, um suspiro: “Chega de perguntas”, “Deixa-me em paz”… “Está bem, desculpa”.

 

As histórias criam laços…

 

É aqui que entra a história contada à hora de dormir. A história cria laços entre os pais e os filhos, sobretudo numa época em que passamos o melhor do nosso tempo longe deles. Através da história contada ao deitar, não lhes falamos com todo o nosso poder de mães dominadoras, mas “comungamos” com eles, deste ou daquele problema.

Por meio do “deslocamento poético” e da distanciação, a história fala-lhes de um outro eu: uma personagem que não os angustia e que os encoraja a falar. Sente o seu filho triste, deprimido? Comece por: “Era uma vez”, uma distanciação no tempo que o “desangustia” e desinibe. Porque a personagem, o coelhinho, o pequeno ratinho, o principezinho ou a fada, é ele e um outro.

Quando ele ouvir a história da princesinha que se tinha fechado na sua torre, de tão triste que estava, ficará tranquilo – era tão longe, foi há tanto tempo – e a distância faz desaparecer a angústia.

Perante um diálogo mais difícil, a história permite recolher confidências de uma forma mais eficaz do que se se abordar os assuntos de uma maneira frontal. Recebe-se mais quando “se dá” do que quando se pretende tirar à força.

Da boca do adulto ao ouvido da criança, os contos são as primeiras confidências filosóficas. Pela primeira vez, a criança vive a experiência do universal: ultrapassa as fronteiras estreitas do “eu”, o gueto do “ego”… As histórias criam uma ponte entre nós e os outros e fazem-nos sair do casulo do nosso pequeno mundo.

Tornar-se adulto, escreve acertadamente Albert Jacquart no prefácio de Qui a lu petit lira grand [2], é ser-se introduzido num novelo de encontros. Sim, a leitura, aberta ao outro, cria um extraordinário mundo de encontros, porque convida à empatia e à emoção.

 

Emoção… e ideias

É a palavra-chave: emoção. E também aquela que diferencia a história do discurso moralizador. Não se imagina a que ponto o livro é capaz de transmitir emoção. À medida que as crianças o vão folheando, sentem a revolta da Cinderela, o medo de Branca de Neve, choram ao ouvirem o que diz a menina dos fósforos (que lhes fala também de Deus e do que está para além da morte).

Deliciosa leitura, aquela que é experimentada pelos primeiríssimos leitores. Daniel Pennac evoca esta maré viva em Comme un roman [3]:  Satisfação imediata e exclusiva das nossas sensações: a imaginação expande-se, os nervos vibram, o coração bate apressado, a adrenalina sobe…

As histórias falam também de subconsciente a subconsciente, e não do córtex ao neo-córtex! A emoção que as crianças sentem diante da leitura de uma história abre nelas como que uma brecha…

Os olhos brilham, os sorrisos abrem-se, o rosto ilumina-se, o queixo treme. Algo se passa, diz o poeta, alguma coisa oscila. Porque a emoção é um inevitável vector de ideias, de longe bem mais eficaz do que qualquer discurso racional!

E, de repente, nesta íntima “oscilação” do ser, sentimo-nos prontos para compreender tudo: as pequenas feridas, as questões sérias, os sofrimentos dos outros. E os nossos. A emoção é uma extraordinária chave de acesso às ideias.

 

Um amorzinho em vez de outro…

 

Aos 5, 6, 7 anos, o nosso filho deixa progressivamente a sua babete, o seu paninho de estimação, o seu velho ursinho de pelúcia. Deixa o mundo do amorzinho exclusivo, para entrar no dos amorzinhos múltiplos, por outras palavras, no da filosofia, no da história, no dos outros. Mas não terão também as histórias a função de permitir uma transição?

Vejam os mais pequenos, que chegam orgulhosamente ao infantário ou à escola, de manhã, trazendo na mão um pequeno livro, uma história que lhes fala deles próprios, uma história com que, durante todo o dia, se deleitarão – mesmo sem saberem ler. E vasculhemos também as nossas sacolas: há sempre um velho livro, de folhas já gastas, ao lado de uma fotografia de férias ou de um pequeno caderno.

A história da noite tem também uma função terapêutica e transicional. Saboreamo-la como uma guloseima, antes de adormecermos. Como uma luz de presença no corredor, que nos une aos outros antes do mergulho na noite.

 

 

O ritual da história da noite

 

Estas histórias da noite são um momento de magia roubado à vida. Instalamo-nos confortavelmente, esquecemos tudo. As discussões, as pequenas feridas, as censuras, os dentes não lavados. Pais e filhos vêem-se pouco? É preciso manter vivo o ritual da história contada antes de adormecer: minimum vital, pausa indispensável.

Lemos à noite: a criança sente-se protegida por múltiplos rituais. Daí as crises de lágrimas quando se vê privada da história da noite – é pior do que ser privada de sobremesa. Adoptamos rituais relacionados com a história, procurando criar um ambiente apropriado: apaga-se a luz, acende-se uma pequena lâmpada, faz-se silêncio.

Apanhamos o tom, modificando a voz. Uma voz muito grossa, uma muito fininha para os ratinhos, etc. Sobretudo, deixar aflorar a emoção… Em suma: é preciso empenho. Já repararam que, quando lêem uma história “em cima do joelho”, os nossos filhos podem pedir outra, e depois outra? Mas, quando ficam realmente satisfeitos, não costumam pedir mais…

 

 

Pequenas pedrinhas brancas… para pequenos polegares pensantes!

A história é a guloseima, antes da longa separação da noite. É como uma lampadazinha que a criança poderá meter debaixo do travesseiro. Uma ideia, uma imagem para afagar, para chuchar, para remexer em todos os sentidos. É o que os bebés pressentem quando se lhes dá um livro, que eles viram de pernas para o ar vezes sem conta! “Sim”, dizem na sua linguagem. “Há alguma coisa de essencial e de misterioso. O livro é mágico.”

Lendo uma história aos nossos filhos, fornecemos-lhes uma mão cheia de pedrinhas brancas – que os pássaros não comerão. Levá-las-ão consigo, ao longo do caminho, rumo à floresta obscura. Perdidos no escuro, assolados de perguntas, dúvidas e angústias, saberão desenvencilhar-se. E tirar proveito delas.

 


[1] Gaston Bachelard, Poética do Devaneio, São Paulo, Ed. Martins Fontes, 1988.

[2] Causse Rolande, Qui a lu petit lira grand , Paris, Plon, 2000.

[3] Daniel Pennac, Comme un roman, Paris, Gallimard, 1995.

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Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

 

 

 

A luta pelo sentido

 

Se queremos viver não somente de momento a momento, mas na plena consciência da existência, então a nossa maior necessidade e a nossa mais difícil realização é encontrarmos um sentido para a vida. É sabido que muitos perderam a vontade de viver e que cessaram até de tentar fazê-lo porque a vida deixou de fazer sentido para eles. A compreensão do sentido da vida de cada um não se adquire de repente, em determinada idade, nem mesmo quando já tivermos chegado à maturidade cronológica. Pelo contrário, a maturidade psicológica consiste na aquisição de uma segura compreensão do que pode ou deve ser o sentido da nossa vida. E esta realização é o resultado final de uma longa evolução: em cada estádio procuramos, e temos de encontrar, um mínimo de sentido, adequado à forma como o nosso espírito e a nossa compreensão já evoluíram.

Hoje, como em tempos idos, a mais importante e a mais difícil tarefa na educação de um filho é ajudá-lo a encontrar um sentido para a vida. Para se conseguir isso são precisas muitas experiências de crescimento. Enquanto se desenvolve, a criança tem de aprender, passo a passo, a compreender-se a si própria; com isso ficará apta a compreender os outros e, eventualmente, a relacionar-se com eles por vias mutuamente satisfatórias e significativas.

Como educador e terapeuta de crianças com severas perturbações, a minha principal tarefa era restituir-lhes um sentido para as suas vidas. Se as crianças são educadas de forma a que a vida para elas tenha significado, não precisam de uma ajuda especial. Vi-me confrontado com o problema de deduzir quais as experiências que, na vida de uma criança, eram mais adequadas para promoverem a sua capacidade para encontrar um sentido na vida; para dotar a vida em geral de maior sentido. Relativamente a esta tarefa, nada é mais importante do que o impacto dos pais e dos que tomam conta das crianças; a seguir, em importância, vem a nossa herança cultural, quando transmitida à criança de forma acertada. Quando as crianças são pequenas, é a literatura que da melhor maneira contém essa informação.

Sendo assim, tornei-me profundamente desgostoso com muita da literatura destinada a desenvolver o espírito e a personalidade da criança, porque não estimula nem alimenta os recursos de que ela mais necessita para enfrentar os difíceis problemas interiores. A esmagadora maioria da “literatura infantil” tenta divertir ou informar, ou ambas as coisas. Mas a maior parte destes livros são tão frívolos de substância que muito pouco de significativo se aprende com eles. A aquisição de habilidades, incluindo a capacidade de leitura, perde o valor quando o que se aprende não acrescenta nada de importante à nossa vida.

Nestes e noutros aspectos, em toda a “literatura infantil”, com raras excepções, nada é mais enriquecedor e satisfatório, quer para a criança quer para o adulto, do que o popular conto de fadas. É verdade que, a um nível inicial, os contos de fadas ensinam pouco sobre as condições específicas da vida da sociedade moderna de massas; estes contos foram criados muito antes desta sociedade aparecer. Mas podemos aprender mais coisas com estes contos – sobre os problemas interiores dos seres humanos e as soluções acertadas para as suas exigências, do que em qualquer outro tipo de história que esteja dentro do âmbito da compreensão das crianças.

Exactamente porque a sua vida é muitas vezes desconcertante, a criança precisa mais do que ninguém que lhe dêem a possibilidade de se compreender a si própria neste complexo mundo que vai enfrentar. Para poder fazê-lo, tem de ser ajudada a criar um sentido coerente no meio do turbilhão dos seus sentimentos. A criança precisa de ideias sobre como pôr a casa interior em ordem e, nessa base, conseguir dar um certo sentido à sua vida. Precisa – e quase não é necessário dar ênfase a isto – de uma educação moral em que, com subtileza, se lhe transmitam as vantagens de um comportamento moral, não através de conceitos éticos abstractos mas através do que parece palpavelmente acertado e, portanto, com sentido para ela.

Ora, os contos de fadas são portadores de mensagens importantes para o psiquismo consciente, pré-consciente ou inconsciente, qualquer que seja o nível em que funcionem. Lidando com problemas humanos universais, especialmente com os que preocupam o espírito da criança, as histórias falam ao seu ego nascente, encorajando o seu desenvolvimento e, ao mesmo tempo, aliviam tensões pré-conscientes ou inconscientes.

Quanto mais eu tentava compreender porque têm estas histórias tanto êxito no enriquecimento da vida interior da criança, mais intuía que elas, num sentido mais profundo do que qualquer outra leitura, “atingem” a criança no seu núcleo psicológico e emocional. Falam das severas tensões interiores de uma maneira que a criança inconscientemente compreende e – sem menosprezar as sérias lutas internas que o crescimento implica – proporcionam exemplos de soluções, tanto temporárias como permanentes, para as dificuldades mais prementes.

A minha esperança é de que uma compreensão apropriada dos méritos ímpares dos contos de fadas possa levar pais e professores a conferir-lhes outra vez o papel central que eles desempenharam durante séculos na vida da criança.

 

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas II – Os contos de fadas e o dilema existencial

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Anterior: Psicanálise dos contos de fadas I

  

Os contos de fadas e o dilema existencial

Na criança ou no adulto, o inconsciente é um poderoso determinante do comportamento. Quando o inconsciente é reprimido e ao seu conteúdo é negada a consciencialização, então o espírito consciente da pessoa acabará finalmente por ficar em parte esmagado pelos derivativos desses elementos inconscientes. Ou então, ela ver-se-á forçada a manter um controle tão rígido e compulsivo sobre os mesmos que a sua personalidade pode vir a ser gravemente afectada. Mas quando se permite que esse material inconsciente atinja em certa medida a consciência, e possa ser elaborado através da imaginação, o seu potencial para fazer o mal – a nós próprios e aos outros – torna-se muito reduzido; algumas das suas forças podem então ser dirigidas para fins mais positivos. Contudo, a crença paternal dominante é que a criança tem de ser poupada àquilo que mais a perturba: as suas angústias sem forma e nome, as suas fantasias caóticas, enfurecidas ou mesmo violentas. Muitos pais acreditam que só a realidade consciente ou as imagens agradáveis que satisfaçam os desejos é que devem ser oferecidas à criança – que ela deve ser exposta somente ao lado belo das coisas. Porém, um tal alimento unilateral nutre o espírito também só unilateralmente, e a vida real não é bela na totalidade.

Há uma recusa generalizada em deixar as crianças saberem que a fonte de muito do que vai mal no mundo tem a ver com a nossa própria natureza – com a propensão que todo o homem tem para agir agressivamente, associalmente, egoistamente, por raiva ou angústia. Em vez disso, queremos que os nossos filhos acreditem que todos os homens são bons por natureza. Mas as crianças sabem que eles nem sempre são bons; e muitas vezes, mesmo quando o são, prefeririam não o ser. Isto vem contradizer o que os pais lhes dizem, o que faz com que a criança se veja a si própria como um monstro.

A cultura dominante deseja aparentar, especialmente no que diz respeito às crianças, que o lado sombrio do homem não existe, afirmando acreditar num “melhorismo” optimista. A própria psicanálise é encarada como tendo por fim tornar a vida mais fácil – mas isso não foi a intenção do seu fundador. A psicanálise foi criada para habilitar o homem a aceitar a natureza problemática da sua vida sem ser vencido por ela ou sem se entregar à fuga sistemática.

É esta exactamente a mensagem que os contos de fadas trazem à criança, de múltiplas formas: que a luta contra graves dificuldades na vida é inevitável, faz parte intrínseca da existência humana – mas que se o homem se não furtar a ela, e com coragem e determinação enfrentar as dificuldades, muitas vezes inesperadas e injustas, acabará por dominar todos os obstáculos e sair vitorioso.

Os contos modernos para crianças evitam sobretudo os problemas existenciais, ainda que estes representem questões cruciais para todos nós. A criança precisa muito especialmente de sugestões, em forma simbólica, sobre como lidar com estes obstáculos para chegar sem riscos à maturidade. As histórias “inócuas” não mencionam a morte ou a velhice, nem os limites da nossa existência ou o desejo de uma vida eterna. O conto de fadas, pelo contrário, confronta-nos, sem rodeios, com as exigências básicas do homem.

Por exemplo, muitos contos de fadas começam com a morte da mãe ou do pai; nestes contos, a morte cria problemas angustiantes, como a própria morte ou o medo dela o fazem na vida real. Outros contos falam de um pai idoso que decide que chegou a altura de a nova geração tomar as rédeas. Contudo, antes que isso aconteça, o sucessor tem de provar ser capaz e digno. O conto dos irmãos Grimm As três penas começa assim: Era uma vez um rei que tinha três filhos… Quando o rei já estava velho e fraco, pensando no seu fim, não sabia qual dos filhos deveria herdar o trono. Para se decidir, o rei dá aos filhos uma tarefa difícil; o filho que melhor a desempenhar será rei depois da minha morte.

É característico dos contos de fadas expor um dilema existencial, concisa e directamente. Isto permite que a criança enfrente o problema na sua forma mais essencial, ao passo que um enredo mais complexo seria para ela mais confuso. O conto de fadas simplifica todas as situações. As suas personagens são definidas com clareza e os pormenores, a não ser que sejam muito importantes, são eliminados. Todos os caracteres são mais típicos do que invulgares.

Contrariamente ao que acontece nos modernos contos para crianças, tanto a maldade como a virtude encontram-se omnipresentes nos contos de fadas tradicionais. Em praticamente todos eles, o bem e o mal aparecem sob a forma de personagens e acções, pois o bem e o mal são omnipresentes na vida de cada um de nós. Aliás, a propensão para ambos encontra-se em cada ser. É esta dualidade que coloca um problema moral e que exige uma luta para a resolver.

O mal não deixa de ter os seus atractivos – simbolizados pelo poderoso gigante ou pelo dragão, pelo poder da bruxa, pelo da astuta rainha em Branca de Neve – e muitas vezes está temporariamente em ascensão. Em muitos contos de fadas o usurpador consegue, por algum tempo, apoderar-se do lugar que, por direito, pertence ao herói – como as maldosas irmãs n’ A Gata Borralheira. Não é o facto de o malfeitor ser castigado no fim da história que faz com que os contos de fadas sejam uma experiência de educação moral, ainda que isso também seja uma parte da questão.

Nos contos de fadas, como na vida, o castigo (ou o medo dele) é somente uma dissuasão limitada para o crime. A convicção de que o crime não compensa é uma dissuasão muito mais eficaz, e é por isso que nos contos de fadas os maus perdem sempre. Não é o facto de a virtude ganhar no fim que promove a moralidade, mas sim o facto de que o herói é extremamente simpático para a criança, a qual se identifica com ele em todas as suas lutas. Por causa dessa identificação, a criança imagina que sofre com o herói, que vive todas as suas provações e tribulações, triunfando com ele quando a virtude triunfa também. A criança faz tais identificações por si própria, e são as lutas interiores e exteriores do herói que gravam nela a moralidade.

As personagens dos contos de fadas não são ambivalentes – não são boas e más ao mesmo tempo –, como na realidade o somos. Mas uma vez que a polarização domina o espírito da criança, ela domina também os contos de fadas. Uma pessoa é boa ou má, sem meio‑termo. Um irmão é estúpido, outro inteligente. Uma irmã é virtuosa e trabalhadora, a outra, vil e preguiçosa. Uma é bela, as outras feias. Um dos pais é todo bondade, o outro maldade. A justaposição de personagens opostas não tem por fim dar ênfase ao “bom” comportamento, como seria o caso nos contos de advertência. (Há alguns contos de fadas amorais em que o bem e o mal, a beleza e a fealdade não têm qualquer papel.)

Mas estas personagens polarizadas permitem à criança compreender facilmente a diferença entre ambos os pólos, coisa que ela não poderia fazer facilmente se os protagonistas fossem desenhados mais próximos da realidade, com todas as complexidades que caracterizam as pessoas reais. As ambiguidades têm de esperar até que se tenha estabelecido uma personalidade relativamente firme com base em identificações positivas. Só então é que a criança tem bases para compreender que há grandes diferenças entre as pessoas e que, portanto, tem de fazer uma opção sobre aquilo que quer ser. Esta decisão básica, sobre a qual todo o desenvolvimento posterior da personalidade será erigido, é facilitada pela polarização dos contos de fadas.

As crianças de hoje já não crescem na segurança de uma grande família ou de uma comunidade bem integrada. Assim, mais ainda do que no tempo em que foram “inventados” os contos de fadas, é importante fornecer à criança moderna imagens de heróis que têm de se lançar no mundo sozinhos e que, apesar de não saberem à partida como é que as coisas se vão resolver, encontram lugares seguros, seguindo em frente com profunda confiança interior.

O herói dos contos de fadas tem um percurso solitário durante uns tempos, tal como a criança moderna que frequentemente se sente isolada. O herói recebe ajuda porque está em contacto com coisas primitivas – uma árvore, um animal, a natureza – tal como a criança se sente em contacto com estas coisas, mais do que a maioria dos adultos. O destino destes heróis convence a criança de que, como eles, se pode sentir abandonada no mundo, tacteando no escuro; mas, como eles, no decorrer da sua vida será guiada passo a passo, e receberá ajuda quando necessário. Hoje, mais do que noutros tempos, a criança precisa da confiança oferecida pela imagem do homem isolado, que todavia é capaz de estabelecer relações significativas e compensadoras com o mundo que o rodeia.

Ao mesmo tempo que distrai a criança, o conto de fadas elucida-a sobre ela própria e promove o desenvolvimento da sua personalidade. Tem tantas significações, em tantos níveis diferentes, enriquece a existência da criança de tantas maneiras, que nenhum outro livro é capaz de igualar a quantidade e diversidade de contributos que estes contos trazem à criança.

A maioria dos contos de fadas teve origem em períodos em que a religião era a parte mais importante da vida; assim, eles lidam directamente, ou por dedução, com temas religiosos. As histórias d’As Mil e Uma Noites estão cheias de referências à religião islâmica. Muitos contos de fadas ocidentais têm conteúdo religioso; mas a maior parte destas histórias é hoje desprezada e desconhecida do grande público, porque, para muitos, estes temas religiosos já não despertam, universal e pessoalmente, associações significativas.

O esquecimento em que caiu O filho de Nossa Senhora, uma das mais lindas histórias dos irmãos Grimm, é disso exemplo. Começa exactamente como em Hansel e Gretel: Junto de uma grande floresta vivia um lenhador com a sua mulher. Tal como em Hansel e Gretel, o casal é tão pobre que não pode alimentar-se a si próprio nem à filha de três anos. Comovida com a sua desgraça, a Virgem Maria aparece-lhes e oferece-se para tomar conta da pequena, que leva consigo para o Céu. A pequena vive uma vida maravilhosa até à idade dos catorze anos. Nessa altura, como em variadas versões de Barba Azul, a Virgem confia à pequena as chaves de treze portas, doze das quais ela pode abrir, mas não a décima terceira.

A pequena não resiste à tentação: mente e, em consequência, é mandada de volta para a Terra, muda. Sofre provações severas e está prestes a ser queimada viva quando, desejando confessar a sua má acção, recupera a voz para o fazer. É-lhe dada então pela Virgem a felicidade para toda a vida. A lição da história é esta: uma voz habituada a mentir só nos leva à perdição; é melhor sermos privados dela, como a heroína da história. Mas uma voz habituada a arrepender-se para admitir os erros e dizer a verdade, redime-nos.

Como não é possível saber exactamente em que idade um determinado conto de fadas é importante para uma determinada criança, não podemos decidir qual dos muitos contos deverá ser contado em determinado tempo ou porquê. Só a criança pode determinar isso, através da força das emoções com que reage ao que um conto evoca no seu consciente ou inconsciente.

Naturalmente, os pais começarão por contar ou ler ao filho um conto de que eles próprios gostaram em pequeninos ou de que gostam ainda hoje. Se a criança não mostra entusiasmo pela história, isso significa que os motivos e temas não evocaram nela uma resposta significativa nessa altura da sua vida. Será então melhor contar‑lhe outra história na noite seguinte. Depressa se saberá que determinada história se tornou importante para ela, quer pela sua resposta imediata à mesma, quer por pedir que lha contem mais e mais vezes. Se tudo correr bem, o entusiasmo da criança por essa história tornar-se-á contagioso e a história será importante para os pais, quanto mais não seja porque faz tanto sentido para o filho.

Finalmente, virá o dia em que a criança retirou já tudo quanto podia da sua história preferida, porque os problemas que a tinham feito procurar a história foram substituídos por outros, que encontram melhor expressão num outro conto. Ela pode então perder, temporariamente, interesse por este conto, e gostar muito mais de outro. Para contar contos de fadas é sempre melhor seguir a indicação da criança.

Mesmo que os pais adivinhem correctamente as razões por que o filho se envolveu emocionalmente com determinado conto, deve ser guardada só para si essa descoberta. As experiências e as reacções de uma criança são extremamente importantes e em grande parte inconscientes, devendo permanecer assim até que ela chegue a uma idade em que uma compreensão mais madura seja possível. É sempre inoportuno interpretar os pensamentos inconscientes de uma pessoa, tornar consciente o que ela deseja conservar pré-consciente, e isto é especialmente verdade no caso de uma criança. É tão importante para o bem-estar da criança sentir que os seus pais compartilham as suas emoções, através do gosto pelo mesmo conto, como sentir que os seus pensamentos íntimos não são conhecidos deles até que ela se decida a revelá-los.

Além disso, explicar a uma criança por que razão um conto de fadas é para ela tão cativante destrói o encantamento da história, que depende em grande parte do facto de a criança não saber ao certo porque ficou tão deliciada com ela. E com a perda deste poder de encantamento, vai-se também o potencial da história para ajudar a criança a lutar por si própria e resolver sem ajuda o problema que, em sua opinião, deu sentido à história. As interpretações dos adultos, por mais correctas que sejam, tiram à criança a oportunidade de sentir que foi ela, sozinha, por ouvir e ruminar repetidamente a história, que conseguiu resolver com êxito uma situação difícil. Nós crescemos, encontramos o sentido da vida e confiança em nós próprios por termos compreendido e resolvido os nossos problemas pessoais, e não porque outros no-los explicaram.

Os temas dos contos de fadas não são sintomas neuróticos, algo que importa compreendermos de forma racional, para mais depressa nos vermos livres deles. Esses temas são sentidos como autênticas maravilhas pela criança, porque através deles se sente compreendida e apreciada no seu âmago, nos seus sentimentos, nas suas esperanças e angústias, sem que seja preciso trazer tudo isso à superfície para ser investigado à luz crua de uma racionalidade que ainda está para além da compreensão infantil. Os contos de fadas enriquecem a vida da criança e apresentam‑se com uma qualidade de encantamento, exactamente porque ela não sabe como é que as histórias produziram em si semelhante prodígio.

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas III – Um punhado de magia 

Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

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Um punhado de magia: a vida adivinhada por dentro

A Menina do Capuchinho Vermelho foi o meu primeiro amor. Sentia que se pudesse ter-me casado com ela, teria conhecido a verdadeira felicidade. Esta afirmação de Charles Dickens indica que ele, como incontáveis milhões de crianças por esse mundo fora, também foi encantado pelos contos de fadas. Mesmo já célebre, Dickens reconheceu o impacto formativo que as fantásticas personagens e as diversas ocorrências dos contos tiveram nele e no seu génio criador. Exprimiu muitas vezes desprezo pelos que, em nome de uma racionalidade desinformada e mesquinha, insistiam em racionalizar, expurgar ou proscrever estas histórias, roubando assim às crianças as importantes contribuições que os contos de fadas podem trazer às suas vidas. Dickens compreendeu que as imagens dos contos de fadas ajudam as crianças, mais do que tudo, na sua muito difícil e todavia importante e satisfatória tarefa: a conquista de uma consciencialização mais madura que ponha ordem nas pressões caóticas do seu inconsciente.

Durante a maior parte da história do homem, a vida intelectual da criança (além das experiências mais imediatas no seio da família) dependia de histórias míticas ou religiosas e de contos de fadas. Esta literatura tradicional alimentava a imaginação da criança e estimulava a sua fantasia. Simultaneamente, uma vez que estas histórias respondiam às perguntas mais importantes da criança, constituíam o principal agente da sua socialização. Mitos e lendas religiosas (que com eles estão intimamente relacionados) ofereciam material com o qual as crianças formavam os seus conceitos sobre a origem e a finalidade do mundo e sobre os ideais sociais que poderiam imitar. Tais eram as imagens do invicto herói Aquiles e do astuto Ulisses; de Hércules, cuja história mostrava que não era indigno, mesmo para o mais forte dos homens, limpar a mais repugnante das cavalariças; de São Martinho, que cortou ao meio a sua capa para vestir um mendigo.

Nos contos de fadas, os processos internos são exteriorizados e tornam‑se compreensíveis porque são representados por personagens da história e pelas suas ocorrências. Por isso é que, na medicina tradicional hindu, um conto de fadas, que punha em jogo o seu problema particular, era oferecido a uma pessoa psiquicamente perturbada, para meditação. Admitia-se que, através da contemplação da história, a pessoa perturbada seria levada a uma visão da natureza do impasse que vivia na altura e entreveria a possibilidade da sua resolução. Aquilo que determinado conto contivesse sobre o desespero, as esperanças e os métodos de vencer as tribulações, permitia ao paciente descobrir uma saída para a sua aflição e encontrar-se a si próprio, à imagem do herói da história.

Mas a importância suprema dos contos de fadas para o indivíduo em crescimento é qualquer coisa de diferente dos ensinamentos sobre as formas correctas de viver neste mundo (esta sabedoria é bastante suprida pela religião, pelos mitos e pelas fábulas). Os contos de fadas não têm a pretensão de descrever o mundo tal como ele é nem aconselham o que cada um deve fazer. Se o fizessem, o doente hindu seria levado a seguir um padrão de comportamento imposto – o que seria não só má terapêutica, mas o contrário da terapia.

O conto de fadas é terapêutico porque o paciente encontra a sua própria solução, contemplando o que a história parece conter a seu respeito e a respeito dos seus conflitos interiores nesse momento da sua vida. O conteúdo do conto escolhido não tem nada a ver com a vida exterior do doente, mas antes com os seus problemas internos, que parecem incompreensíveis e, portanto, insolúveis. O conto de fadas não se refere claramente ao mundo exterior, ainda que comece de forma bastante realista e contenha temas do quotidiano. A natureza irrealista destes contos (a que tacanhos espíritos racionalistas se opõem) é importante, porque torna óbvio que o objectivo dos contos de fadas não é dar informação útil sobre o mundo exterior, mas sim sobre os processos psicológicos interiores que têm lugar num indivíduo.

As personagens e as ocorrências dos contos de fadas também personificam e ilustram conflitos internos, mas sugerem com extrema subtileza como resolver esses conflitos e quais os passos a dar em direcção a uma humanidade mais nobre. O conto de fadas é apresentado de forma simples, familiar; não se fazem exigências ao ouvinte – o que evita até à mais pequenina das crianças o sentir-se compelida a actuar de uma maneira específica – e nunca faz sentir à criança que ela é inferior. Longe de fazer exigências, o conto de fadas sossega, dá esperanças quanto ao futuro e contém a promessa de um desfecho feliz.

Para compreendermos como é que uma criança julga os contos de fadas, consideremos, por exemplo, os muitos contos em que o jovem herói engana o gigante que o aterra ou até ameaça a sua vida. Que as crianças sabem por intuição o que estes “gigantes” representam, vê-se logo pela seguinte reacção espontânea de uma criança de cinco anos. Animada pela discussão acerca da importância que têm os contos de fadas para as crianças, uma mãe venceu a hesitação em contar ao seu filho histórias “tão sangrentas e ameaçadoras”. Assim, contou-lhe a história de Jack, o mata-gigantes. No final, a resposta do filho foi: “Os gigantes não existem, pois não?”

Antes que a mãe pudesse dar ao filho a resposta tranquilizadora que lhe estava na ponta da língua – e que estragaria o valor da história para ele – o pequeno continuou: “Mas há pessoas crescidas que são como os gigantes.” Com os seus cinco anos, ele compreendeu a encorajadora mensagem da história: apesar de os adultos poderem parecer gigantes assustadores, um rapazinho esperto pode vencê-los.


 

 

 

 

Criança de fronte sem nuvens

E olhos cheios de sonhos e encantos,

Apesar do tempo veloz

E de estarmos separados por meia vida, eu e tu,

O teu amoroso sorriso certamente acolherá

A prenda de amor de um conto de fadas.

C. L. Dodgson (Lewis Carroll) in

Through the Looking Glass

 

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas IV – A necessidade de magia na criança

Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

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