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A importância do conto de fadas PDF 

 

Índice do dossier “Sonhar o passado – A importância do conto de fadas”

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Um punhado de magia: a vida adivinhada por dentro

A Menina do Capuchinho Vermelho foi o meu primeiro amor. Sentia que se pudesse ter-me casado com ela, teria conhecido a verdadeira felicidade. Esta afirmação de Charles Dickens indica que ele, como incontáveis milhões de crianças por esse mundo fora, também foi encantado pelos contos de fadas. Mesmo já célebre, Dickens reconheceu o impacto formativo que as fantásticas personagens e as diversas ocorrências dos contos tiveram nele e no seu génio criador. Exprimiu muitas vezes desprezo pelos que, em nome de uma racionalidade desinformada e mesquinha, insistiam em racionalizar, expurgar ou proscrever estas histórias, roubando assim às crianças as importantes contribuições que os contos de fadas podem trazer às suas vidas. Dickens compreendeu que as imagens dos contos de fadas ajudam as crianças, mais do que tudo, na sua muito difícil e todavia importante e satisfatória tarefa: a conquista de uma consciencialização mais madura que ponha ordem nas pressões caóticas do seu inconsciente.

Durante a maior parte da história do homem, a vida intelectual da criança (além das experiências mais imediatas no seio da família) dependia de histórias míticas ou religiosas e de contos de fadas. Esta literatura tradicional alimentava a imaginação da criança e estimulava a sua fantasia. Simultaneamente, uma vez que estas histórias respondiam às perguntas mais importantes da criança, constituíam o principal agente da sua socialização. Mitos e lendas religiosas (que com eles estão intimamente relacionados) ofereciam material com o qual as crianças formavam os seus conceitos sobre a origem e a finalidade do mundo e sobre os ideais sociais que poderiam imitar. Tais eram as imagens do invicto herói Aquiles e do astuto Ulisses; de Hércules, cuja história mostrava que não era indigno, mesmo para o mais forte dos homens, limpar a mais repugnante das cavalariças; de São Martinho, que cortou ao meio a sua capa para vestir um mendigo.

Nos contos de fadas, os processos internos são exteriorizados e tornam‑se compreensíveis porque são representados por personagens da história e pelas suas ocorrências. Por isso é que, na medicina tradicional hindu, um conto de fadas, que punha em jogo o seu problema particular, era oferecido a uma pessoa psiquicamente perturbada, para meditação. Admitia-se que, através da contemplação da história, a pessoa perturbada seria levada a uma visão da natureza do impasse que vivia na altura e entreveria a possibilidade da sua resolução. Aquilo que determinado conto contivesse sobre o desespero, as esperanças e os métodos de vencer as tribulações, permitia ao paciente descobrir uma saída para a sua aflição e encontrar-se a si próprio, à imagem do herói da história.

Mas a importância suprema dos contos de fadas para o indivíduo em crescimento é qualquer coisa de diferente dos ensinamentos sobre as formas correctas de viver neste mundo (esta sabedoria é bastante suprida pela religião, pelos mitos e pelas fábulas). Os contos de fadas não têm a pretensão de descrever o mundo tal como ele é nem aconselham o que cada um deve fazer. Se o fizessem, o doente hindu seria levado a seguir um padrão de comportamento imposto – o que seria não só má terapêutica, mas o contrário da terapia.

O conto de fadas é terapêutico porque o paciente encontra a sua própria solução, contemplando o que a história parece conter a seu respeito e a respeito dos seus conflitos interiores nesse momento da sua vida. O conteúdo do conto escolhido não tem nada a ver com a vida exterior do doente, mas antes com os seus problemas internos, que parecem incompreensíveis e, portanto, insolúveis. O conto de fadas não se refere claramente ao mundo exterior, ainda que comece de forma bastante realista e contenha temas do quotidiano. A natureza irrealista destes contos (a que tacanhos espíritos racionalistas se opõem) é importante, porque torna óbvio que o objectivo dos contos de fadas não é dar informação útil sobre o mundo exterior, mas sim sobre os processos psicológicos interiores que têm lugar num indivíduo.

As personagens e as ocorrências dos contos de fadas também personificam e ilustram conflitos internos, mas sugerem com extrema subtileza como resolver esses conflitos e quais os passos a dar em direcção a uma humanidade mais nobre. O conto de fadas é apresentado de forma simples, familiar; não se fazem exigências ao ouvinte – o que evita até à mais pequenina das crianças o sentir-se compelida a actuar de uma maneira específica – e nunca faz sentir à criança que ela é inferior. Longe de fazer exigências, o conto de fadas sossega, dá esperanças quanto ao futuro e contém a promessa de um desfecho feliz.

Para compreendermos como é que uma criança julga os contos de fadas, consideremos, por exemplo, os muitos contos em que o jovem herói engana o gigante que o aterra ou até ameaça a sua vida. Que as crianças sabem por intuição o que estes “gigantes” representam, vê-se logo pela seguinte reacção espontânea de uma criança de cinco anos. Animada pela discussão acerca da importância que têm os contos de fadas para as crianças, uma mãe venceu a hesitação em contar ao seu filho histórias “tão sangrentas e ameaçadoras”. Assim, contou-lhe a história de Jack, o mata-gigantes. No final, a resposta do filho foi: “Os gigantes não existem, pois não?”

Antes que a mãe pudesse dar ao filho a resposta tranquilizadora que lhe estava na ponta da língua – e que estragaria o valor da história para ele – o pequeno continuou: “Mas há pessoas crescidas que são como os gigantes.” Com os seus cinco anos, ele compreendeu a encorajadora mensagem da história: apesar de os adultos poderem parecer gigantes assustadores, um rapazinho esperto pode vencê-los.


 

 

 

 

Criança de fronte sem nuvens

E olhos cheios de sonhos e encantos,

Apesar do tempo veloz

E de estarmos separados por meia vida, eu e tu,

O teu amoroso sorriso certamente acolherá

A prenda de amor de um conto de fadas.

C. L. Dodgson (Lewis Carroll) in

Through the Looking Glass

 

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas IV – A necessidade de magia na criança

Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

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A importância da exteriorização: personagens e acontecimentos fantásticos

 

O espírito de uma criança contém uma colecção (que rapidamente se enriquece) de impressões frequentemente mal agrupadas e só parcialmente integradas: alguns aspectos correctamente apreendidos da realidade, mas muito mais elementos completamente dominados pela fantasia. Esta preenche enormes hiatos no entendimento da criança, devido à imaturidade do seu pensar e à sua falta de informações pertinentes. Outras distorções são consequência de pressões interiores que conduzem aos contra-sensos das percepções da criança.

A criança normal começa a fantasiar com um segmento da realidade mais ou menos bem observado, o que poderá evocar nela necessidades e angústias tão fortes que pode deixar-se arrastar por elas. Muitas vezes as coisas tornam-se tão confusas no seu espírito que ela não consegue apartá-las umas das outras. Mas é necessário um certo ordenamento para que a criança regresse à realidade, não enfraquecida nem vencida, mas antes fortalecida por esta excursão pelas suas fantasias.

Os contos de fadas ajudam‑na, mostrando-lhe como uma claridade superior pode emergir, e emerge mesmo, de todas as suas fantasias. Estes contos começam geralmente de uma forma bastante realista: uma mãe que diz à filha para ir sozinha visitar a avó ( A Menina do Capuchinho Vermelho); as dificuldades que um pobre casal tem para sustentar os filhos (Hansel e Gretel); um pescador que não apanha nenhum peixe na sua rede ( O Pescador e o Génio). Isto é, a história começa com uma situação real, mas de certo modo problemática.

Uma criança, perante os problemas e acontecimentos que, no dia-a-dia, a deixam perplexa, é estimulada pela sua educação a compreender o como e o porquê destas situações e a procurar soluções. Contudo, uma vez que o raciocínio tem, então, um fraco controle sobre o seu inconsciente, a imaginação da criança foge da pressão das emoções e dos conflitos não resolvidos. A habilidade do raciocínio emergente da criança é depressa subjugada por angústias, esperanças, receios, desejos, simpatias e ódios que se entrelaçam com o que quer que seja que a criança tenha começado a pensar.

O conto de fadas, não obstante começar pelo estado psicológico da criança – tais como sentimentos de rejeição quando comparada com os irmãos, como em A Gata Borralheira – nunca principia com a sua realidade física. Nenhuma criança tem de sentar-se sobre cinzas, como a Gata Borralheira, ou ser deliberadamente abandonada num bosque denso, como Hansel e Gretel, porque uma semelhança física seria demasiado assustadora para a criança e “acertaria perto de mais no alvo, para seu conforto”, exactamente quando confortar é um dos propósitos dos contos de fadas.

Uma criança familiarizada com os contos de fadas compreende que eles lhe falam numa linguagem de símbolos e não na da realidade de todos os dias. O conto de fadas diz-nos, a partir do seu intróito, através do seu enredo e pelo seu desfecho, que aquilo de que nos fala não são factos tangíveis ou pessoas e lugares reais. Os acontecimentos reais só se tornam importantes para a criança através do sentido simbólico que ela lhes dá ou que ela neles encontra.

Era uma vez, Num certo país, Há mil anos ou mais, No tempo em que os animais falavam, Uma vez, num velho castelo, no meio de uma grande e densa floresta – estes intróitos sugerem que o que se vai seguir não pertence ao “aqui e agora” que conhecemos. Esta imprecisão deliberada, no princípio dos contos de fadas, simboliza que estamos a deixar o mundo concreto da realidade quotidiana. Os velhos castelos, as cavernas escuras, as portas fechadas à chave onde é proibido entrar, os bosques impenetráveis, todos sugerem que alguma coisa normalmente escondida virá a ser revelada, enquanto o há muito tempo implica que vamos lidar com acontecimentos arcaicos.

Depois dos cinco anos – a idade em que os contos de fadas se tornam verdadeiramente plenos de sentido –, nenhuma criança normal toma estas histórias como a verdade da realidade exterior. A pequenita que imagina ser a princesa que vive num castelo e desfia fantasias complicadas sabe, quando a mãe a chama para jantar, que não é uma princesa. E, se bem que o arvoredo de um parque possa ser visto, às vezes, como uma floresta densa e profunda, cheia de segredos escondidos, a criança sabe que na realidade é somente um arvoredo – exactamente como a pequenita sabe que a sua boneca não é na verdade o seu bebé, por muito que ela a trate como tal.

Os contos que comecem mais próximos da realidade, na sala de estar ou no pátio da criança, em vez de evocarem a cabana de um lenhador junto de uma grande floresta, e que contenham gente muito parecida com os pais da criança, e não com lenhadores pobres ou reis e rainhas (mas que misturem estes elementos realistas com componentes fantásticos, que satisfazem todos os desejos), são capazes de levar a criança a confundir o real com o que não o é. Estas histórias, sem estarem de acordo com a realidade interior da criança, por mais fiéis que sejam à realidade exterior, alargam o fosso que separa a experiência interior e exterior da criança. Elas separam-na ainda dos seus pais, porque a criança começa a sentir que ela e eles vivem em mundos espirituais diferentes; por muito próximo que eles se encontrem no espaço “real”, emocionalmente parecem viver, temporariamente, em continentes diferentes. Isto contribui para uma descontinuidade entre as gerações, o que é doloroso tanto para os pais como para a criança.

Se contarem a uma criança histórias “verdadeiras como a realidade” (o que quer dizer falsas para partes importantes da sua realidade interior), ela pode concluir que muito dessa realidade interior é inaceitável para os seus pais. Assim, há muita criança que se afasta da sua vida interior, e isso depaupera-a. Consequentemente, ela pode depois, já adolescente e, fora da ascendência emocional dos seus pais, vir a detestar o mundo racional e escapar-se completamente para um mundo de fantasia, como que para se desforrar do que perdeu na infância.

Quando for mais velha, isso poderá implicar uma severa quebra com a realidade, com todas as perigosas consequências para o indivíduo e para a sociedade. Ou, menos seriamente, a pessoa poderá continuar esta clausura do seu “eu” interior toda a sua vida, e não se sentir nunca plenamente satisfeita com o mundo, porque, alienada dos processos inconscientes, ela não pode usá-los para enriquecer a sua vida na realidade das coisas. A vida deixa então de ser “um prazer” ou “uma espécie de privilégio excêntrico”. Com tal separação, o que quer que aconteça na realidade deixa de oferecer satisfação apropriada às necessidades inconscientes. O resultado é que a pessoa sente sempre que a sua vida é incompleta.

Quando uma criança não é subjugada pelos seus processos mentais interiores e é bem tratada em todos os aspectos importantes, pode então dirigir a sua vida de maneira apropriada relativamente à sua idade. Nessas ocasiões, ela pode resolver os problemas que se levantem. Mas, se observarmos as crianças nos seus receios, por exemplo, verificaremos como esses períodos são limitados.

Assim que as pressões interiores da criança estão na mó de cima – o que acontece frequentemente –, a única esperança que ela tem de ter algum controle sobre elas é exteriorizá‑las. Mas o problema é como fazê-lo sem deixar que as exteriorizações se apoderem dela. Pôr ordem nas diversas facetas da sua experiência exterior é tarefa muito difícil para uma criança; e, a não ser que consiga ajuda, torna-se impossível desde que as experiências exteriores se baralhem com as suas experiências interiores.

Por si só, a criança ainda não é capaz de ordenar e dar sentido aos seus processos interiores. Os contos de fadas oferecem personagens nas quais ela pode exteriorizar o que se passa no seu espírito, por meios controláveis. Os contos de fadas mostram à criança como ela pode personalizar os seus desejos destrutivos numa só figura, ir buscar satisfações desejadas a outra, identificar-se com uma terceira, ter ligações com uma quarta, e assim por diante, conforme as suas necessidades de momento.

Quando todos os devaneios da criança se personalizam numa fada bondosa, todos os seus desejos destrutivos numa bruxa má, todos os seus receios num lobo voraz, todas as ciências da sua consciência num homem sábio encontrado numa aventura, toda a sua zanga ciumenta nalgum animal que dê bicadas nos olhos dos seus rivais detestados – então a criança pode finalmente começar a pôr ordem nas suas tendências contraditórias. Iniciado este facto, a criança será cada vez menos submergida por um caos incontrolável.

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas VI – Transformações

Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

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Anterior: Aventura com a fada das flores e Uma imagem positiva de si mesmo

 O aliado interior

IDADE: de 5 anos à idade adulta

EXERCÍCIO: 5-10 minutos

CONTINUAÇÃO: 15 minutos

Fecha os olhos e concentra a atenção na inspiração e na expiração das tuas narinas. Continuando a respirar no teu ritmo, imagina que estás a passar por um caminho numa floresta muito densa. À tua volta há belas árvores verdes, e esse caminho desce em direcção a um murmúrio de água. Chegas a um pequeno curso e aproximas-te dele, até ver o teu reflexo na água. (Pausa)

Logo percebes outra presença próxima de ti mas sentes-te inteiramente seguro. Vês outro reflexo junto do teu na água. Essa outra presença pode ser a de um velho sábio, a de um animal ou a de um ser imaginário que sentes como teu aliado, alguém que já conheces há muito tempo, alguém em quem podes confiar. O teu aliado faz um sinal para que o sigas através de uma pequena ponte que cruza o rio. Vais e vês-te a subir um morro que leva a uma gruta. O aliado entra na gruta, senta-se e faz um gesto para que o sigas. (Pausa de um minuto)

É possível que tenhas uma pergunta especial para fazer ao teu aliado e fá-la neste momento. Ouve atentamente a resposta. (Pausa de um minuto)

O teu aliado diz-te que podes voltar à hora que quiseres. Ele estará sempre à tua espera para o ajudares em tudo o que precisar. Agradeces-lhe e fazes o caminho de volta pela ponte, tornando a olhar o teu reflexo na água. Vais percebendo como te sentes enquanto sobes o caminho. Sais da floresta e tornas-te consciente de estar sentado aqui, plenamente presente. Conta para ti mesmo até três e, lentamente, abre os olhos.

 ***   ***   ***

Reacções ao exercício “o aliado interior”

 

 

Eis o que disse Bekki, de 16 anos:

 

O meu índio voltou para mim, em intervalos, durante anos. Ele tem estado sobretudo aqui e ali desde que me mudei para Los Angeles. Nunca me fala verbalmente, mas posso ouvir os seus pensamentos. Sugere coisas e diz-me o que pensa que eu devo fazer quando estou perdido ou confuso. Foi a minha mãe que me deu a ideia do índio. Às vezes, não posso interagir fisicamente com ele na minha mente. Às vezes, limitamo-nos a sentar-nos juntos e a fumar um cachimbo. Geralmente vejo-o a fazer várias coisas e a pensar por mim. Por vezes nem sequer o vislumbro ou penso nele, mas ele ajuda-me a racionalizar e a interpretar os meus sentimentos e as minhas acções. Ele é muito simples e está sempre perto de uma tenda. Calça mocassins e veste calças de camurça e uma camisa. Tem longas tranças negras, e em volta da cabeça uma tira feita com penas e contas. Usa em redor do pescoço uma fieira de contas castanhas, brancas, azuis e pretas. Os mocassins são ornados de contas. Parece sempre tranquilo.

A busca da identidade

Nesta sociedade, temos poucos rituais para assinalar o fim da infância e o início da idade adulta. Queremos que os nossos adolescentes assumam cada vez mais a responsabilidade pelas suas vidas, na escolha de empregos, de namorados e de colégios, mas não deixamos de os tratar como crianças. Castigamo-los, negando-lhes regalias, quando pensamos que não estão a comportar-se como adultos responsáveis.

Os adolescentes são principiantes. Estão a enfrentar, pela primeira vez, muitas experiências e problemas de adultos. Subitamente, vêem-se diante de problemas tão diferentes como o significado dos papéis masculino e feminino, a identidade e a actividade sexual, preocupações financeiras, seguro de automóvel, candidatar-se a empregos, decisões sobre a escola e sobre sair de casa e tentar entender quem são. Além disso, ainda queremos que vão deitar o lixo fora e que façam todos os deveres sem demora. Eles precisam de toda a nossa compreensão, orientação, paciência e estímulo e, naturalmente, também queremos a sua cooperação e respeito. O que em geral ocorre é uma luta emocional pela supremacia.

Para encontrar a sua própria identidade, os adolescentes repelem frequentemente as figuras dos pais e de outras autoridades e contam com o apoio e conforto dos amigos. Na adolescência, dos 16 aos 19 anos, a busca da própria identidade intensifica-se. É esta mesma busca que atemoriza pais e professores e os torna mais restritivos.

O adolescente defronta-se com a necessidade de afirmar a sua vontade de conhecer a própria identidade, e receia que, se o fizer, possa perder o amor dos pais. A mensagem por detrás disto é: “Posso correr o risco de afirmar quem sou, ou tenho de me conformar em ser amado por vocês?” Como disse Brett, de dezassete anos: “Quero que o meu pai compreenda que sou jovem apenas uma vez e que preciso de experimentar. Não estou a tentar exasperá-lo. Apenas tenho necessidade de procurar.”

Outros adolescentes sentem-se culpados em relação à dicotomia entre o eu que mostram aos pais e professores e o eu que está a estudar diferentes papéis com os amigos. Tim, de dezoito anos, diz: “Quero que os meus pais saibam quem realmente sou. Eles pensam que sou bonzinho.” Os pais não estão menos confusos do que os filhos. Primeiro queremos prendê-los e, momentos depois, não vemos a hora de os soltar.

Eu mesma dei comigo a transformar-me numa mãe cada vez mais exigente quando o meu filho se preparava para ir para a faculdade. Durante o último ano que passou na escola secundária, tentei impor uma lei marcial cada vez mais rigorosa em relação a chegar cedo, até que Brendan me chamou a atenção para o facto de que podia ficar fora até mais tarde quando estava no nono ano! Compreendi, então, que estava apreensiva não apenas em relação ao comportamento que ele e os amigos estavam a adoptar, mas também em relação ao seu crescimento e afastamento da família.

Dizer adeus a uma relação dependente e tentar encontrar uma nova maneira de se relacionar baseada na independência são as tarefas do adolescente mais velho, assim como dos pais ou do professor. E não é fácil. Este é um período de muitas emoções mescladas. Para os filhos, a alegria, as expectativas e a liberdade que associam à passagem para a idade adulta estão misturadas com o medo de se afastar da segurança e da protecção do lar.

Os pais perguntam-se se incutiram todos os valores “certos” e se prepararam o filho ou filha de maneira suficientemente boa para a vida. Os professores preocupam-se em saber se prepararam os alunos de modo adequado para os estudos futuros ou os deveres profissionais. Pais e professores têm também que se haver com sentimentos de perda quando os adolescentes amadurecem e se afastam do seu convívio diário.

Esta é uma fase difícil para o adulto que não tem consciência do necessário distanciamento pelo qual o adolescente deve passar. Os adultos podem, muitas vezes, sentir-se rejeitados, impotentes e não-amados, e perguntam-se o que aconteceu com a relação afectuosa que existia entre a criança e o adulto.

Lembre-se de que esta é uma fase de desenvolvimento e não durará para sempre. Quanto mais espaço der às crianças para encontrarem a sua própria identidade, mais elas quererão compartilhá-la consigo – no momento certo.

Continuação: A criança interior encontra-se com o seu eu ampliado

Maureen Murdock

Giro Interior

S.Paulo, Cultrix, 1987

Excertos adaptados

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Anterior:  Qual o melhor ambiente?

Na sala de aula

Embora as técnicas de visualização e de imagens mentais tenham obtido ampla aceitação e uso no desporto, nos cuidados com a saúde e nos negócios, muitos estudantes não tiveram contacto com esses recursos de ensino na sala de aula.

Explique aos seus alunos e aos pais deles que o objectivo desses exercícios é diminuir a tensão, aumentar a aprendizagem e melhorar as aptidões da memória. Saliente que a atenção é o requisito preliminar para ouvir e aprender, e que as imagens mentais auxiliam o aluno a concentrar-se e a prestar atenção. Digo sempre aos meus alunos que elas constituem um instrumento que valorizo na minha vida pessoal, de modo a permanecer calma e centrada.

Sugiro-lhes que fechem ou baixem os olhos com um olhar “suave” ou com as pálpebras semicerradas. Fixo duas regras antes de começar: não falar ou cochichar durante o exercício nem estorvar o outro. Compreendo que, devido à estranheza da técnica, nem todos os alunos participem inicialmente, mas todos devem aprender a respeitar a escolha dos outros.

É possível que se passem algumas semanas até que professor e alunos se sintam à vontade com o processo. Recomendo aos professores que dêem um prazo de seis semanas antes de esperar resultados positivos. No início, esperem risos abafados. Os alunos podem sentir-se embaraçados, preocupados pelo facto de outros estarem a olhar para eles, ou considerar tola a ideia de ter, na escola, uma hora para exercitar o cérebro. Notei que as risadas desaparecem se os alunos não forem alvo de atenção por isso.

O mais surpreendente para mim é que os próprios alunos pedem aos que os interrompem que parem. Não querem que a sua hora de imagens mentais seja interrompida. Quando ensinava a terceira classe, os meus alunos pediam aos retardatários que esperassem fora da sala até que a nossa “hora de tranquilidade” terminasse. Em breve deixou de haver retardatários!

Às vezes há resistência dos pais dos alunos. Na minha turma, alguns pais eram inicialmente cépticos; por isso convidei-os a participar na nossa hora matinal de tranquilidade. Sem excepção, todos gostaram dela. E vários pais passaram a unir-se a nós para a “hora de tranquilidade” no momento em que trazem os filhos à escola. Queriam começar o trabalho ou outras actividades quotidianas relaxados e concentrados.

Uma mãe disse-me que a filha se queixava de ter de fechar os olhos. Isso assustava-a. Sugeri que mantivesse os olhos abertos, e isso aliviou-lhe o medo. Um menino do terceiro ano e a sua mãe pediram que ele não fosse incluído nos exercícios. Ele achava-os ridículos, mas gostava de ouvir o que os colegas tinham a dizer. Permiti que escolhesse entre juntar-se a nós no tapete e ouvir ou sentar-se e ler no canto destinado à leitura. A maior parte do tempo sentava-se do lado de fora do círculo, ouvindo as outras crianças descreverem as suas imagens.

Continuação

 

Depois de um exercício de imagens mentais dirigidas, algumas crianças gostam de comentar como o seu corpo se sentiu ou que imagens lhes ocorreram. Outras preferem desenhar ou pintar as imagens que surgiram, escrever sobre elas, ou expressá-las em movimento. Vá devagar no começo e respeite o momento de cada um. As crianças estão muito mais próximas das suas imagens interiores do que os adultos. Dê-lhes o tempo que desejarem para revelar as suas experiências. Não se pode forçar uma orquídea a florir; podemos, no entanto, deleitar-nos com o processo do desabrochar.

Confiança no processo

 

Uma coisa que aprendi com os anos de uso dos exercícios de imagens mentais com crianças e adultos, é que não se deve ter esperanças definidas de como e de quando as pessoas reagirão. Tenho, porém, de facto, plena confiança em que este processo tem grande valor para aqueles que se servem dele. Descubra os exercícios que são úteis para si e para os seus filhos; improvise; invente novos exercícios. Dê livre curso à sua imaginação.

Talvez julgue que o relaxamento sentado seja ineficaz para si e para uma criança hiperactiva. Talvez queira ficar de pé ou deitar-se. Muitos pais e professores mantêm as crianças pequenas ao colo, esfregando-lhes suavemente as costas, enquanto dirigem um exercício de relaxamento. Isto tem um efeito calmante e tranquilizador. Outra sugestão é dar à criança uma pequena bola de argila para segurar enquanto faz o exercício. Isto é particularmente útil para alunos cinestésicos.

Alunos e adultos de mais idade podem adormecer se ficarem deitados enquanto fazem os exercícios de imagens mentais, e o seu ressonar pode perturbar a turma! Pode sugerir-lhes que se sentem numa posição cómoda, com as costas apoiadas na parede ou numa cadeira. Algumas crianças e adultos preferem movimentar-se enquanto trabalham com as imagens mentais. Um senhor movimenta constantemente as mãos durante o processo, desenhando no ar as imagens que vê na mente. É engenheiro e inventor e utiliza as imagens mentais para activar a sua imaginação fértil.

Alguns exercícios físicos de alongamento antes das imagens mentais dirigidas podem preparar o corpo e a mente para imagens mais vívidas.

Como facilitar a expressão de si mesmo

Não há limites para a criatividade com que as crianças escrevem quando inspiradas pela sua própria imaginação. Elas podem deslocar-se para o futuro, rever o passado e criar invenções para fazer os deveres. Se sugerimos um exercício de imagens mentais no qual elas tenham que resolver problemas ambientais ou negociar um acordo pacífico para uma guerra, não há limites para as soluções criativas que ouviremos. Nunca mais nos depararemos com um “Não tenho nada sobre que escrever”.

As crianças sabem naturalmente contar histórias, e um exercício de imagens mentais possibilita a expressão de sonhos e de visões coloridas. É um modo de pôr a trabalhar as fantasias: dá-se efectivamente à criança permissão para devanear, durante um período de tempo definido, e depois para expressar essas imagens em palavras, desenhos ou movimentos. As imagens mentais dirigidas são muito eficazes no ensino da redacção porque permitem que as crianças exprimam em palavras as suas experiências imediatas.

As imagens mentais também estimulam a criança com menor capacidade verbal a expressar as suas ideias. Às vezes, as crianças sentem que não têm nada que valha a pena dizer, ou que outros o dizem melhor. Janine era uma aluna assim. Com oito anos, canhota, era relutante em expressar as suas ideias na sala de aula. Quando falava, a voz era tão discreta que era difícil ouvi-la. Tinha grande dificuldade em ler em voz alta num grupo. Trocava muitas letras, tanto no trabalho escrito como na leitura.

Depois de um exercício de imagens mentais, no qual fizemos um passeio a um planeta imaginário, ela tornou-se verbalmente mais expressiva. Enquanto estivessem nesse planeta, as crianças deveriam agir como exploradores, observando como era a vida ali, como comunicavam entre si as diferentes formas de vida, como viviam, em que consistiam as suas estruturas familiares ou sociais. As crianças tinham dois minutos para, de olhos fechados, soltar a imaginação e fazer a sua inspecção.

Quando terminamos a nossa viagem, Janine fez o seguinte relato:

O meu barco à vela levou-me até perto dessa terra distante e, depois, tive de fazer o resto do percurso montada num golfinho. Lá, as pessoas eram muito pequenas, mas tinham mães e pais grandes. As pessoas pequenas viram-me chegar e prepararam uma grande refeição. As comidas eram todas geleias de sabores diferentes. Eles também tinham salões cor de laranja. Dos salões cor de laranja podia ver-se tudo lá para fora, mas ninguém conseguia ver o lado de dentro. Então, fui conhecer a mãe e o pai das pessoas pequenas. Acharam-me esquisita porque eu não era nem grande como a mãe e o pai delas, nem pequena como elas. Vestiram-me com uma roupa especial, igual às que usavam.

Um mês depois, repetimos o mesmo exercício. Janine voltou a visitar a terra das pessoas pequeninas e continuou as suas aventuras:

Hoje voltei à terra das pessoas pequeninas. Resolvi perguntar qual o nome do planeta delas para não ter de dizer “terra dos pequeninos”. Disseram-me que não tinha um nome e que eu podia inventar um. Levei algumas horas para me decidir. Durante esse tempo, disseram-me que me mostrariam o jardim da Primavera. Havia lá uma porção de coisinhas redondas, esverdeadas e acastanhadas, que brotavam da terra. Próximo delas, mantinham pequenos copos d’água. Eu disse: “Estas não são flores, são apenas bolinhas.” Então eles mergulharam uma das bolas na água e todos gritaram “rosa”. Tiraram-na da água e secaram-na e tinham nas mãos uma bela rosa. E podiam fazer isso com qualquer espécie de flor ou de arbusto. Sentei-me então para imaginar um nome para o planeta. Pensei que seria bom se fosse um nome que tivesse uma relação com eles. Bem, havia muitas flores e árvores e todos eram felizes. Então eu podia misturar as palavras “flor” (flower) e “árvore” (tree) e isso daria “Livre” (free). Assim faria sentido porque eles são felizes e livres. Decidi-me por ela e, quando lhes disse, todos gostaram do nome. Depois tive que ir embora. Foi uma aventura maravilhosa.

Passados dois meses Janine tinha melhorado tanto a sua capacidade de falar quanto a de escrever. Tendo adquirido confiança na manifestação das suas próprias imagens, entrava mais livremente nas discussões da aula. O volume e o tom da sua voz mudaram e a leitura oral tornou‑se nítida e confiante. Deixou de trocar a posição das letras na leitura e na escrita.

Não estou a atribuir esses progressos exclusivamente ao uso das imagens mentais dirigidas, mas ficou claro que a expressão verbal de Janine melhorou muito devido ao uso dos exercícios.

Continuação: As artes da linguagem e da leitura

Maureen Murdock

Giro Interior

S.Paulo, Cultrix, 1987

Excertos adaptados

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Beatrice Alemagna

Le trésor de Clara

Paris, Autrement Jeunesse, 2000

O tesouro da Clara

 

A Clara vive no Brasil.

Não tem quase nada. Tem uma pele de âmbar e cabelos pretos. Veste uma t-shirt grande e, nos pés, traz sandálias de borracha, faça chuva ou sol.

A Clara tem doze anos. Trabalha num orfanato. Tem de limpar a cozinha e, de vez em quando, pode fazer de mãe dos mais pequeninos. E gosta muito disso.

À quinta-feira, é o dia de descanso da Clara. É então que sai…

A cinquenta metros, perto de um banco que está fechado, estão todos juntos à espera dela. Olham uns para os outros, sorriem, regalam-se de antemão. São os seus amigos: a Lúcia, o Ângelo e a Ana. Não têm casa e dormem onde calha, nas ruas do Rio.

A Lúcia tem oito anos. Os seus cabelos são como ninhos de andorinha. As mãos e os pés mexem-se constantemente e ela está sempre a rir.

O Ângelo é pequeno mas muito forte para os seus onze anos. Um dia, conseguiu mesmo levantar uma bicicleta. Está sempre descalço. Caminha sem problemas sobre as pedras. Canta as canções escritas por aqueles que viajaram e viram muitos países. Canta muito bem, o Ângelo.

A Ana é a mais bem comportada. Não fala muito. Tem doze anos, tal como a Clara, que conheceu há muitos anos, naquele sítio, diante do banco.

Por vezes, a Lúcia, o Ângelo e a Ana vão trabalhar na produção do algodão. Outras vezes, varrem as ruas. Ou então, os pescadores chamam-nos à praia para puxar as redes. Depois, encontram-se, sonham em conjunto, com o nariz no ar, a olhar para as nuvens e a contar os dias até quinta-feira.

O Ângelo, a Lúcia e a Ana têm muitos amigos na rua. Alguns respiram uma cola contida em garrafas de plástico, o que os faz sorrir sem razão nenhuma.

Quando a Clara encontra os amigos, vão todos a correr para a praia. Atiram areia à cara uns dos outros. Cantam Pescadores dos três mares e comem o pão que os turistas lhes dão. A Lúcia, o Ângelo e a Ana não querem daquela cola que faz esquecer os problemas.

Eles têm a Clara. A Clara é a mercadora de sonhos. Não é que os venda realmente; em vez disso, dá-os de prenda.

A Clara sonha muito alto com lugares maravilhosos. Praias compridas e douradas com barcos, papagaios de papel e papagaios de verdade. Montanhas encantadas cobertas de gelo e criaturas estranhas, onde sopra um vento mágico, do norte, que te adormece e te acorda cem anos mais tarde. Cidades futuras cheias de luz. De carros que voam e de parques de estacionamento floridos. E de um fogo de artifício feito de pequenos comboios brilhantes, de pizzarias e de arranha-céus espelhados.

E a Clara fala-lhes de um Rio sem adultos, onde só há crianças, gentis e alegres, que têm os dentes todos. Saltam sobre os carros e invadem as lojas de bombons. Ela oferece-lhes vales inteiros de árvores carregadas de frutos, com quatro sóis amarelos no meio do céu e com camponeses ricos, vestidos como comerciantes. E a Clara transforma os monumentos antigos da cidade em palácios das Mil e Uma Noites, e os gatos que passam em tigres da Malásia.

A Clara conta os seus sonhos durante horas. Ela estudou quatro anos na escola e lê todos os livros que encontra.

Agora, é tarde. A Clara levanta-se, sacode a areia das mãos e volta para o orfanato. Os amigos escutaram-na, de boca aberta. Riram e choraram. E os olhos deles arregalar-se-ão de novo na próxima quinta-feira. Para eles, não há cola.

Eles têm a Clara.

E muitos sonhos bons para viver ainda…

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Rosa Mª Badillo Baena

Contos para “delfins”. Auto-estima e crescimento pessoal. A Didáctica do Ser

Porto, Asa Editores, 2003

Excertos

E fazei aquilo que a vós

não houve quem fizesse para que em cada

geração as árvores cresçam mais direitas.

            Cayetano Arroyo

As folhas da tília

 

 

Quero explicar-vos, amigos, por que motivo escrevo contos. Até há muito pouco tempo não me apercebera da magia que ficou presa às minhas mãos quando, em menina, brincava com as folhas da tília. Não podia guardar por mais tempo este maravilhoso segredo e por isso aqui deixo a minha história.

Havia na minha escola uma árvore gigante e frondosa cujos ramos cresciam ao longo do grande muro do pátio onde jogávamos nos recreios. O seu tronco era pequeno, mas a sua força era imensa, pois conseguira chegar ao céu. Era pelo menos o que me parecia a mim, que a ia contemplar, enquanto lanchava, para em seguida brincar com as suas folhas. Recordo como me esticava para colher a mais bela das suas folhas, tão larga e verde, de tão requintado perfume, que para meus olhos ela continha em si todo um bosque. Devo dizer que foi esta a única árvore da minha infância, pois cresci numa rua órfã de amigos verdes. Logo que conseguia colher uma folha, acariciava-a por trás e pela frente, consolava-me ao tocar a sua superfície rugosa, depois cheirava-a profundamente, diria mesmo que a escutava através do meu nariz, e um pouco depois começava o ritual. Lentamente, muito lentamente, ia-a despojando da sua carne até lhe deixar apenas as veias que sulcavam a sua enorme superfície. Faziam-me lembrar grandes rios e pequenos afluentes que iam ficando sem o verde-mar dos seus vales e ribeiras para entretenimento de uma menina que brincava a ser feliz sem o saber. Acabado o ritual, a fragrância líquida daquela árvore impregnava as minhas mãos como uma oferenda anónima da vida ardente que palpitava dentro dela.

Cresci e nunca mais tive notícias da árvore da minha infância. Andei no instituto, na universidade, comecei a escrever coisas muito sérias e difíceis de entender para uma criança. Também eu me converti numa mulher muito séria que dava conferências, ensinava, escrevia artigos de carácter social e conhecia muita gente. Fui andando pela vida sem saber que algo despertava em mim, um mistério profundo que me acompanhara desde a infância. Esse mesmo que começou a florescer quando escrevi o primeiro conto. Até eu própria me admirava ao ver a forma como das minhas mãos fluíam as histórias fantásticas de muitos seres que como personagens nasciam do meu coração. Não conformada com isto, comecei também a escrever poesia, e foi exactamente uma amiga poetisa que me deu a primeira pista do que seria o grande segredo da minha vida. A minha amiga Alícia Wagner falou-me um dia de uma árvore venerada pelos alemães, que crescia junto das fontes e das escolas, e que era a tília. Cantou-me depois uma canção sobre ela, cheia de saudade; e despertou em mim uma estranha curiosidade de conhecer essa árvore que inspirava assim tão belos sentimentos.

Foi, sem dúvida, uma porta que se abriu para me dar a conhecer a origem da magia que impregnava as minhas mãos. Um dia, sem contar, abri um livro sobre árvores e deparei com uma grande tília com as folhas desenhadas em ponto grande. A minha memória, que permanecera adormecida, recordou finalmente a árvore que havia impregnado a minha infância de verde esperança. Senti um imenso amor por quem tinha sido a minha companheira de jogos, mas o que eu não sabia é que ia ficar impressionada ao ler as pequenas letras daquela página onde se apresentava a sua silhueta.

Dizia aí que aquela árvore era a favorita das fadas, que nela habitavam desde tempos imemoriais, por um motivo: deixar impressa em cada uma das suas folhas a fórmula mágica que iria impedir que os contos se acabassem no Mundo. Porque a criança que tocasse uma das suas folhas receberia o dom de escrever contos sobre as coisas sagradas deste planeta. E mais, mesmo que não quisesse escrevê-los, mais tarde ou mais cedo, acabaria por contá-los, pois a seiva havia de estimulá-la a imaginar histórias que teria irremediavelmente de parir se não quisesse morrer de tristeza por estar tão prenhe de contos e de lendas e não poder dá-los à luz.

Olhei para as minhas mãos e fiquei apaixonada pelo segredo que elas continham; por ter brincado com as maravilhosas folhas da tília quando era criança tinha agora a profissão mais formosa e luminosa: descobrir a magia sagrada que impregna todas as coisas, o profundo mistério que anima a vida e escrever isso, depois, em forma de conto. Senti-me deveras uma fada, porque agora aquela árvore mágica que crescia dentro de mim podia contar com todas as minhas forças para poder dar fruto. E escreveria um conto por cada uma das folhas com que brinquei.

Posso, pois, afirmar que os contos são um dos maiores tesouros da humanidade. Desde tempos remotos que nos têm ajudado a viver, dando-nos forças para superar os conflitos e encontrar a luz na escuridão. Foram os canais de transmissão de uma sabedoria tão profunda que acabaram por tornar possível passar através dos tempos o calor da humanidade e a importância de continuarmos vivos de geração em geração.

Creio que devemos dar especial atenção aos contos que nos revelam a problemática da existência, embora de forma simbólica, e nos oferecem alternativas; porque hoje, mais do que nunca, há que acreditar no poder da vida. Nós, adultos, sabemos que as condições sociais não oferecem horizontes às novas gerações. Vemos como boa parte da juventude se destrói, absorvida pela espiral do consumismo, da droga e da violência. E perguntamos: que sucederá aos nossos filhos, aos nossos alunos? Como educá-los para o mundo que lhes coube em sorte?

A sociedade exige profundas mudanças e lança-nos importantes desafios no sentido de evoluirmos através dos grandes conflitos que surgem diariamente. A escola e a família também têm de evoluir para uma educação mais consciente. É necessário que comecem a transmitir auto-estima às crianças, de forma a que, quando crescidas, possam enfrentar e transformar a realidade. A meu ver, o valor da auto-estima é o bem mais apreciado dos nossos tempos; permite à pessoa acreditar em si mesma e conhecer os seus recursos, a fim de criar o seu lugar no mundo.

 

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