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Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

 

 

 

A luta pelo sentido

 

Se queremos viver não somente de momento a momento, mas na plena consciência da existência, então a nossa maior necessidade e a nossa mais difícil realização é encontrarmos um sentido para a vida. É sabido que muitos perderam a vontade de viver e que cessaram até de tentar fazê-lo porque a vida deixou de fazer sentido para eles. A compreensão do sentido da vida de cada um não se adquire de repente, em determinada idade, nem mesmo quando já tivermos chegado à maturidade cronológica. Pelo contrário, a maturidade psicológica consiste na aquisição de uma segura compreensão do que pode ou deve ser o sentido da nossa vida. E esta realização é o resultado final de uma longa evolução: em cada estádio procuramos, e temos de encontrar, um mínimo de sentido, adequado à forma como o nosso espírito e a nossa compreensão já evoluíram.

Hoje, como em tempos idos, a mais importante e a mais difícil tarefa na educação de um filho é ajudá-lo a encontrar um sentido para a vida. Para se conseguir isso são precisas muitas experiências de crescimento. Enquanto se desenvolve, a criança tem de aprender, passo a passo, a compreender-se a si própria; com isso ficará apta a compreender os outros e, eventualmente, a relacionar-se com eles por vias mutuamente satisfatórias e significativas.

Como educador e terapeuta de crianças com severas perturbações, a minha principal tarefa era restituir-lhes um sentido para as suas vidas. Se as crianças são educadas de forma a que a vida para elas tenha significado, não precisam de uma ajuda especial. Vi-me confrontado com o problema de deduzir quais as experiências que, na vida de uma criança, eram mais adequadas para promoverem a sua capacidade para encontrar um sentido na vida; para dotar a vida em geral de maior sentido. Relativamente a esta tarefa, nada é mais importante do que o impacto dos pais e dos que tomam conta das crianças; a seguir, em importância, vem a nossa herança cultural, quando transmitida à criança de forma acertada. Quando as crianças são pequenas, é a literatura que da melhor maneira contém essa informação.

Sendo assim, tornei-me profundamente desgostoso com muita da literatura destinada a desenvolver o espírito e a personalidade da criança, porque não estimula nem alimenta os recursos de que ela mais necessita para enfrentar os difíceis problemas interiores. A esmagadora maioria da “literatura infantil” tenta divertir ou informar, ou ambas as coisas. Mas a maior parte destes livros são tão frívolos de substância que muito pouco de significativo se aprende com eles. A aquisição de habilidades, incluindo a capacidade de leitura, perde o valor quando o que se aprende não acrescenta nada de importante à nossa vida.

Nestes e noutros aspectos, em toda a “literatura infantil”, com raras excepções, nada é mais enriquecedor e satisfatório, quer para a criança quer para o adulto, do que o popular conto de fadas. É verdade que, a um nível inicial, os contos de fadas ensinam pouco sobre as condições específicas da vida da sociedade moderna de massas; estes contos foram criados muito antes desta sociedade aparecer. Mas podemos aprender mais coisas com estes contos – sobre os problemas interiores dos seres humanos e as soluções acertadas para as suas exigências, do que em qualquer outro tipo de história que esteja dentro do âmbito da compreensão das crianças.

Exactamente porque a sua vida é muitas vezes desconcertante, a criança precisa mais do que ninguém que lhe dêem a possibilidade de se compreender a si própria neste complexo mundo que vai enfrentar. Para poder fazê-lo, tem de ser ajudada a criar um sentido coerente no meio do turbilhão dos seus sentimentos. A criança precisa de ideias sobre como pôr a casa interior em ordem e, nessa base, conseguir dar um certo sentido à sua vida. Precisa – e quase não é necessário dar ênfase a isto – de uma educação moral em que, com subtileza, se lhe transmitam as vantagens de um comportamento moral, não através de conceitos éticos abstractos mas através do que parece palpavelmente acertado e, portanto, com sentido para ela.

Ora, os contos de fadas são portadores de mensagens importantes para o psiquismo consciente, pré-consciente ou inconsciente, qualquer que seja o nível em que funcionem. Lidando com problemas humanos universais, especialmente com os que preocupam o espírito da criança, as histórias falam ao seu ego nascente, encorajando o seu desenvolvimento e, ao mesmo tempo, aliviam tensões pré-conscientes ou inconscientes.

Quanto mais eu tentava compreender porque têm estas histórias tanto êxito no enriquecimento da vida interior da criança, mais intuía que elas, num sentido mais profundo do que qualquer outra leitura, “atingem” a criança no seu núcleo psicológico e emocional. Falam das severas tensões interiores de uma maneira que a criança inconscientemente compreende e – sem menosprezar as sérias lutas internas que o crescimento implica – proporcionam exemplos de soluções, tanto temporárias como permanentes, para as dificuldades mais prementes.

A minha esperança é de que uma compreensão apropriada dos méritos ímpares dos contos de fadas possa levar pais e professores a conferir-lhes outra vez o papel central que eles desempenharam durante séculos na vida da criança.

 

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas II – Os contos de fadas e o dilema existencial

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Anterior: Psicanálise dos contos de fadas I

  

Os contos de fadas e o dilema existencial

Na criança ou no adulto, o inconsciente é um poderoso determinante do comportamento. Quando o inconsciente é reprimido e ao seu conteúdo é negada a consciencialização, então o espírito consciente da pessoa acabará finalmente por ficar em parte esmagado pelos derivativos desses elementos inconscientes. Ou então, ela ver-se-á forçada a manter um controle tão rígido e compulsivo sobre os mesmos que a sua personalidade pode vir a ser gravemente afectada. Mas quando se permite que esse material inconsciente atinja em certa medida a consciência, e possa ser elaborado através da imaginação, o seu potencial para fazer o mal – a nós próprios e aos outros – torna-se muito reduzido; algumas das suas forças podem então ser dirigidas para fins mais positivos. Contudo, a crença paternal dominante é que a criança tem de ser poupada àquilo que mais a perturba: as suas angústias sem forma e nome, as suas fantasias caóticas, enfurecidas ou mesmo violentas. Muitos pais acreditam que só a realidade consciente ou as imagens agradáveis que satisfaçam os desejos é que devem ser oferecidas à criança – que ela deve ser exposta somente ao lado belo das coisas. Porém, um tal alimento unilateral nutre o espírito também só unilateralmente, e a vida real não é bela na totalidade.

Há uma recusa generalizada em deixar as crianças saberem que a fonte de muito do que vai mal no mundo tem a ver com a nossa própria natureza – com a propensão que todo o homem tem para agir agressivamente, associalmente, egoistamente, por raiva ou angústia. Em vez disso, queremos que os nossos filhos acreditem que todos os homens são bons por natureza. Mas as crianças sabem que eles nem sempre são bons; e muitas vezes, mesmo quando o são, prefeririam não o ser. Isto vem contradizer o que os pais lhes dizem, o que faz com que a criança se veja a si própria como um monstro.

A cultura dominante deseja aparentar, especialmente no que diz respeito às crianças, que o lado sombrio do homem não existe, afirmando acreditar num “melhorismo” optimista. A própria psicanálise é encarada como tendo por fim tornar a vida mais fácil – mas isso não foi a intenção do seu fundador. A psicanálise foi criada para habilitar o homem a aceitar a natureza problemática da sua vida sem ser vencido por ela ou sem se entregar à fuga sistemática.

É esta exactamente a mensagem que os contos de fadas trazem à criança, de múltiplas formas: que a luta contra graves dificuldades na vida é inevitável, faz parte intrínseca da existência humana – mas que se o homem se não furtar a ela, e com coragem e determinação enfrentar as dificuldades, muitas vezes inesperadas e injustas, acabará por dominar todos os obstáculos e sair vitorioso.

Os contos modernos para crianças evitam sobretudo os problemas existenciais, ainda que estes representem questões cruciais para todos nós. A criança precisa muito especialmente de sugestões, em forma simbólica, sobre como lidar com estes obstáculos para chegar sem riscos à maturidade. As histórias “inócuas” não mencionam a morte ou a velhice, nem os limites da nossa existência ou o desejo de uma vida eterna. O conto de fadas, pelo contrário, confronta-nos, sem rodeios, com as exigências básicas do homem.

Por exemplo, muitos contos de fadas começam com a morte da mãe ou do pai; nestes contos, a morte cria problemas angustiantes, como a própria morte ou o medo dela o fazem na vida real. Outros contos falam de um pai idoso que decide que chegou a altura de a nova geração tomar as rédeas. Contudo, antes que isso aconteça, o sucessor tem de provar ser capaz e digno. O conto dos irmãos Grimm As três penas começa assim: Era uma vez um rei que tinha três filhos… Quando o rei já estava velho e fraco, pensando no seu fim, não sabia qual dos filhos deveria herdar o trono. Para se decidir, o rei dá aos filhos uma tarefa difícil; o filho que melhor a desempenhar será rei depois da minha morte.

É característico dos contos de fadas expor um dilema existencial, concisa e directamente. Isto permite que a criança enfrente o problema na sua forma mais essencial, ao passo que um enredo mais complexo seria para ela mais confuso. O conto de fadas simplifica todas as situações. As suas personagens são definidas com clareza e os pormenores, a não ser que sejam muito importantes, são eliminados. Todos os caracteres são mais típicos do que invulgares.

Contrariamente ao que acontece nos modernos contos para crianças, tanto a maldade como a virtude encontram-se omnipresentes nos contos de fadas tradicionais. Em praticamente todos eles, o bem e o mal aparecem sob a forma de personagens e acções, pois o bem e o mal são omnipresentes na vida de cada um de nós. Aliás, a propensão para ambos encontra-se em cada ser. É esta dualidade que coloca um problema moral e que exige uma luta para a resolver.

O mal não deixa de ter os seus atractivos – simbolizados pelo poderoso gigante ou pelo dragão, pelo poder da bruxa, pelo da astuta rainha em Branca de Neve – e muitas vezes está temporariamente em ascensão. Em muitos contos de fadas o usurpador consegue, por algum tempo, apoderar-se do lugar que, por direito, pertence ao herói – como as maldosas irmãs n’ A Gata Borralheira. Não é o facto de o malfeitor ser castigado no fim da história que faz com que os contos de fadas sejam uma experiência de educação moral, ainda que isso também seja uma parte da questão.

Nos contos de fadas, como na vida, o castigo (ou o medo dele) é somente uma dissuasão limitada para o crime. A convicção de que o crime não compensa é uma dissuasão muito mais eficaz, e é por isso que nos contos de fadas os maus perdem sempre. Não é o facto de a virtude ganhar no fim que promove a moralidade, mas sim o facto de que o herói é extremamente simpático para a criança, a qual se identifica com ele em todas as suas lutas. Por causa dessa identificação, a criança imagina que sofre com o herói, que vive todas as suas provações e tribulações, triunfando com ele quando a virtude triunfa também. A criança faz tais identificações por si própria, e são as lutas interiores e exteriores do herói que gravam nela a moralidade.

As personagens dos contos de fadas não são ambivalentes – não são boas e más ao mesmo tempo –, como na realidade o somos. Mas uma vez que a polarização domina o espírito da criança, ela domina também os contos de fadas. Uma pessoa é boa ou má, sem meio‑termo. Um irmão é estúpido, outro inteligente. Uma irmã é virtuosa e trabalhadora, a outra, vil e preguiçosa. Uma é bela, as outras feias. Um dos pais é todo bondade, o outro maldade. A justaposição de personagens opostas não tem por fim dar ênfase ao “bom” comportamento, como seria o caso nos contos de advertência. (Há alguns contos de fadas amorais em que o bem e o mal, a beleza e a fealdade não têm qualquer papel.)

Mas estas personagens polarizadas permitem à criança compreender facilmente a diferença entre ambos os pólos, coisa que ela não poderia fazer facilmente se os protagonistas fossem desenhados mais próximos da realidade, com todas as complexidades que caracterizam as pessoas reais. As ambiguidades têm de esperar até que se tenha estabelecido uma personalidade relativamente firme com base em identificações positivas. Só então é que a criança tem bases para compreender que há grandes diferenças entre as pessoas e que, portanto, tem de fazer uma opção sobre aquilo que quer ser. Esta decisão básica, sobre a qual todo o desenvolvimento posterior da personalidade será erigido, é facilitada pela polarização dos contos de fadas.

As crianças de hoje já não crescem na segurança de uma grande família ou de uma comunidade bem integrada. Assim, mais ainda do que no tempo em que foram “inventados” os contos de fadas, é importante fornecer à criança moderna imagens de heróis que têm de se lançar no mundo sozinhos e que, apesar de não saberem à partida como é que as coisas se vão resolver, encontram lugares seguros, seguindo em frente com profunda confiança interior.

O herói dos contos de fadas tem um percurso solitário durante uns tempos, tal como a criança moderna que frequentemente se sente isolada. O herói recebe ajuda porque está em contacto com coisas primitivas – uma árvore, um animal, a natureza – tal como a criança se sente em contacto com estas coisas, mais do que a maioria dos adultos. O destino destes heróis convence a criança de que, como eles, se pode sentir abandonada no mundo, tacteando no escuro; mas, como eles, no decorrer da sua vida será guiada passo a passo, e receberá ajuda quando necessário. Hoje, mais do que noutros tempos, a criança precisa da confiança oferecida pela imagem do homem isolado, que todavia é capaz de estabelecer relações significativas e compensadoras com o mundo que o rodeia.

Ao mesmo tempo que distrai a criança, o conto de fadas elucida-a sobre ela própria e promove o desenvolvimento da sua personalidade. Tem tantas significações, em tantos níveis diferentes, enriquece a existência da criança de tantas maneiras, que nenhum outro livro é capaz de igualar a quantidade e diversidade de contributos que estes contos trazem à criança.

A maioria dos contos de fadas teve origem em períodos em que a religião era a parte mais importante da vida; assim, eles lidam directamente, ou por dedução, com temas religiosos. As histórias d’As Mil e Uma Noites estão cheias de referências à religião islâmica. Muitos contos de fadas ocidentais têm conteúdo religioso; mas a maior parte destas histórias é hoje desprezada e desconhecida do grande público, porque, para muitos, estes temas religiosos já não despertam, universal e pessoalmente, associações significativas.

O esquecimento em que caiu O filho de Nossa Senhora, uma das mais lindas histórias dos irmãos Grimm, é disso exemplo. Começa exactamente como em Hansel e Gretel: Junto de uma grande floresta vivia um lenhador com a sua mulher. Tal como em Hansel e Gretel, o casal é tão pobre que não pode alimentar-se a si próprio nem à filha de três anos. Comovida com a sua desgraça, a Virgem Maria aparece-lhes e oferece-se para tomar conta da pequena, que leva consigo para o Céu. A pequena vive uma vida maravilhosa até à idade dos catorze anos. Nessa altura, como em variadas versões de Barba Azul, a Virgem confia à pequena as chaves de treze portas, doze das quais ela pode abrir, mas não a décima terceira.

A pequena não resiste à tentação: mente e, em consequência, é mandada de volta para a Terra, muda. Sofre provações severas e está prestes a ser queimada viva quando, desejando confessar a sua má acção, recupera a voz para o fazer. É-lhe dada então pela Virgem a felicidade para toda a vida. A lição da história é esta: uma voz habituada a mentir só nos leva à perdição; é melhor sermos privados dela, como a heroína da história. Mas uma voz habituada a arrepender-se para admitir os erros e dizer a verdade, redime-nos.

Como não é possível saber exactamente em que idade um determinado conto de fadas é importante para uma determinada criança, não podemos decidir qual dos muitos contos deverá ser contado em determinado tempo ou porquê. Só a criança pode determinar isso, através da força das emoções com que reage ao que um conto evoca no seu consciente ou inconsciente.

Naturalmente, os pais começarão por contar ou ler ao filho um conto de que eles próprios gostaram em pequeninos ou de que gostam ainda hoje. Se a criança não mostra entusiasmo pela história, isso significa que os motivos e temas não evocaram nela uma resposta significativa nessa altura da sua vida. Será então melhor contar‑lhe outra história na noite seguinte. Depressa se saberá que determinada história se tornou importante para ela, quer pela sua resposta imediata à mesma, quer por pedir que lha contem mais e mais vezes. Se tudo correr bem, o entusiasmo da criança por essa história tornar-se-á contagioso e a história será importante para os pais, quanto mais não seja porque faz tanto sentido para o filho.

Finalmente, virá o dia em que a criança retirou já tudo quanto podia da sua história preferida, porque os problemas que a tinham feito procurar a história foram substituídos por outros, que encontram melhor expressão num outro conto. Ela pode então perder, temporariamente, interesse por este conto, e gostar muito mais de outro. Para contar contos de fadas é sempre melhor seguir a indicação da criança.

Mesmo que os pais adivinhem correctamente as razões por que o filho se envolveu emocionalmente com determinado conto, deve ser guardada só para si essa descoberta. As experiências e as reacções de uma criança são extremamente importantes e em grande parte inconscientes, devendo permanecer assim até que ela chegue a uma idade em que uma compreensão mais madura seja possível. É sempre inoportuno interpretar os pensamentos inconscientes de uma pessoa, tornar consciente o que ela deseja conservar pré-consciente, e isto é especialmente verdade no caso de uma criança. É tão importante para o bem-estar da criança sentir que os seus pais compartilham as suas emoções, através do gosto pelo mesmo conto, como sentir que os seus pensamentos íntimos não são conhecidos deles até que ela se decida a revelá-los.

Além disso, explicar a uma criança por que razão um conto de fadas é para ela tão cativante destrói o encantamento da história, que depende em grande parte do facto de a criança não saber ao certo porque ficou tão deliciada com ela. E com a perda deste poder de encantamento, vai-se também o potencial da história para ajudar a criança a lutar por si própria e resolver sem ajuda o problema que, em sua opinião, deu sentido à história. As interpretações dos adultos, por mais correctas que sejam, tiram à criança a oportunidade de sentir que foi ela, sozinha, por ouvir e ruminar repetidamente a história, que conseguiu resolver com êxito uma situação difícil. Nós crescemos, encontramos o sentido da vida e confiança em nós próprios por termos compreendido e resolvido os nossos problemas pessoais, e não porque outros no-los explicaram.

Os temas dos contos de fadas não são sintomas neuróticos, algo que importa compreendermos de forma racional, para mais depressa nos vermos livres deles. Esses temas são sentidos como autênticas maravilhas pela criança, porque através deles se sente compreendida e apreciada no seu âmago, nos seus sentimentos, nas suas esperanças e angústias, sem que seja preciso trazer tudo isso à superfície para ser investigado à luz crua de uma racionalidade que ainda está para além da compreensão infantil. Os contos de fadas enriquecem a vida da criança e apresentam‑se com uma qualidade de encantamento, exactamente porque ela não sabe como é que as histórias produziram em si semelhante prodígio.

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas III – Um punhado de magia 

Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

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Anterior: Psicanálise dos contos de fadas III – Um punhado de magia

A necessidade de magia na criança

Do ponto de vista dos adultos e em termos da ciência moderna, as respostas que os contos de fadas dão são mais fantásticas do que reais. De facto, estas soluções parecem tão incongruentes a alguns adultos (que se divorciaram já dos caminhos pelos quais as crianças sentem o mundo), que eles se recusam a transmitir às crianças informações tão “falsas”. Contudo, explicações realistas são normalmente incompreensíveis para as crianças, porque lhes falta a compreensão abstracta necessária para lhes dar um sentido.

As explicações científicas exigem um pensamento objectivo. Tanto a investigação teórica como a exploração experimental demonstraram que nenhuma criança em idade pré-escolar pode verdadeiramente aprender estes dois conceitos, sem os quais a reflexão abstracta é impossível. Conheci muitos exemplos em que, especialmente nos últimos tempos da adolescência, foi necessário apelar para os anos de crença na magia para compensar alguém que se viu prematuramente privado dela na sua infância, depois de lhe terem imposto (em vão!) a estreita realidade. É como se estes jovens sentissem estar agora perante a última oportunidade para compensar uma grave lacuna nas suas vidas; ou que, sem terem passado por esse período de crença na magia, não se achavam aptos a enfrentar os rigores da vida adulta.

Muitos jovens que procuram hoje a evasão súbita através dos sonhos proporcionados por drogas, são iniciados por gurus, acreditam na astrologia, praticam “magia negra” ou, por outra qualquer forma, se escapam da realidade através de devaneios sobre experiências mágicas que melhorarão as suas vidas, foram prematuramente pressionados a encarar a realidade de uma forma adulta. A tentativa de evasão da realidade por estas vias tem as suas causas mais profundas nas primeiras experiências formativas, que os impediram de se convencer pessoalmente de que a vida pode ser dominada por meios realistas.

Satisfação indirecta versus reconhecimento consciente

 

A criança sente quais dos muitos contos de fadas são a verdade para a sua situação interior de momento (a qual ela não sabe, por si só, manejar), e sente também em que ponto da história esta lhe dá uma achega para poder enfrentar um problema difícil. Mas isso não é imediatamente resolvido, nem se consegue quando se ouve um conto de fadas pela primeira vez. Alguns dos elementos do conto são demasiado estranhos – como têm de sê-lo, a fim de se dirigirem a emoções profundamente escondidas.

Só com a repetição frequente do conto, e quando tenha tido tempo suficiente e oportunidade para se debruçar sobre ele, é que a criança pode aproveitar plenamente o que a história tem para lhe oferecer no tocante à compreensão de si própria e do mundo. Só então as livres associações da criança produzem o sentido mais pessoal do conto; só então o conto a ajuda a resolver os problemas que a oprimem. Por exemplo, quando ouve a história pela primeira vez, a criança não pode projectar-se no papel de uma figura do sexo oposto. É preciso que haja certa distância e colaboração pessoal, durante algum tempo, antes de uma rapariga se poder identificar com o João de João e o Pé de Feijão ou um rapaz com Rapunzel.

Conheci pais cujos filhos reagiam a um conto de fadas dizendo “Gostei”, e assim apressavam-se a contar-lhes outro conto, pensando que mais um conto aumentaria o prazer da criança. Mas o comentário do filho exprimia provavelmente um vago sentimento de que a história tem qualquer coisa de importante para lhe comunicar – qualquer coisa que se perderá se não se ler à criança de novo a história, e se não se lhe der tempo para a aprender. Desviando os pensamentos da criança prematuramente para uma segunda história, poder-se-á desfazer o impacto da primeira, ao passo que, fazendo-se isso mais tarde, se poderá antes aumentá-lo.

Quando se lêem contos de fadas a crianças, numa aula ou em bibliotecas durante a hora de recreio, as crianças parecem fascinadas. Mas, muitas vezes, não se lhes dá a oportunidade para contemplarem os contos ou para reagirem; elas são imediatamente arrebanhadas, ou para outra actividade ou para outra história diferente da que lhes contaram antes, o que dilui ou destrói a impressão que o conto criou. Falando com crianças depois de uma experiência destas, parece que tanto fazia que a história fosse contada como não, pelo efeito nulo que foi obtido. Mas quando o narrador da história dá às crianças tempo suficiente para reflectirem sobre ela, para se submergirem na atmosfera que a narrativa cria, e quando elas são encorajadas a falar no assunto, então conversas posteriores revelam que, emocional e intelectualmente, a história lhes oferece muito.

Tal como os pacientes dos curandeiros hindus eram solicitados a contemplarem um conto de fadas para encontrarem uma saída para a escuridão interior que encobria os seus espíritos, também à criança se deve dar a oportunidade de – vagarosamente – assimilar um conto de fadas, fazendo a junção das suas próprias associações com o conto.

Diga-se de passagem que esta é a razão por que os livros ilustrados, hoje tão preferidos por adultos e crianças, não são o melhor serviço que se pode prestar à criança. As ilustrações distraem em vez de ajudarem. O estudo dos livros ilustrados demonstra que as gravuras desviam o processo de aprendizagem em vez de o fomentarem, porque as ilustrações afastam a imaginação da criança daquilo que, por si próprias, e sem ajuda, elas sentiriam graças à história. A história ilustrada perde muito do conteúdo pessoal que poderia trazer à criança que lhe aplicasse somente as suas próprias associações visuais, em vez das de quem as desenhou.

Também Tolkien pensava que, por melhores que sejam, as ilustrações pouco bem fazem aos contos de fadas… Se a história diz: “Ele trepou a colina e viu o rio no vale, lá em baixo”, o desenhador poderá apreender, ou quase apreender, a sua própria visão da cena, mas cada ouvinte terá formado o seu próprio quadro, que será feito de todas as montanhas e rios e vales que jamais viu, mas especialmente a Colina, o Rio, o Vale que foram para ele a primeira representação da palavra. Eis por que um conto de fadas perde muito do seu sentido próprio quando as figuras e as ocorrências têm a substância dada pelo desenhador e não pela imaginação da criança. Os pormenores, sem igual, derivados da sua vida individual, com os quais o espírito do ouvinte retrata a história que lhe contam ou que lhe lêem, transformam-na numa experiência muito mais pessoal. Tanto os adultos como as crianças preferem frequentemente o caminho fácil de alguém que, por eles, assume a tarefa de imaginar o cenário do conto. Contudo, se deixarmos o desenhador determinar a nossa imaginação, ela será menos nossa e o conto perde muito do significado pessoal.

Perguntar a crianças, por exemplo, como era o monstro de que ouviram falar na história que lhes contaram, dá lugar às mais variadas formas de personificação: enormes figuras pseudo-humanas, pseudo-animais, figuras que combinam certos traços humanos com outros animais, etc. –, e cada um destes pormenores tem enorme sentido para a pessoa que, no seu espírito, criou determinada realização pictórica. Por outro lado, ver o monstro pintado pelo artista, conformemente à imaginação dele, que é bem mais completa se a compararmos com a nossa própria imagem vaga e fugidia, defrauda-nos um pouco. A ideia do monstro poderá então deixar-nos totalmente indiferentes, sem nada de importante para nos dizer, ou poderá amedrontar-nos, não tendo qualquer significado para além da angústia.

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas – A importância da exteriorização

Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

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Pierre Péju

La petite fille dans la forêt des contes

Paris, Robert Laffont, 1997

Excertos adaptados

O livro estrelado

 

Entre as onze e as doze horas de uma noite de lua cheia, uma menina de cabelos negros desliza até debaixo de uma forca. Um cão preto, de aspecto terrível, segue a jovem em silêncio. Ao chegar ao local onde os enforcados deixam cair as derradeiras lágrimas sobre a terra, a criança de belos caracóis começa a procurar algo, esgaravatando o solo com as mãos. Sente em breve, entre os seus dedos, uma raiz estranha, com uma forma quase humana…           
É uma mandrágora, e é isso mesmo que procura. Sozinha, decidida, a criança cigana sabe antecipadamente que a raiz vai gemer e gritar de uma forma terrível, na imensidão da noite. Sabe também o que é preciso fazer: colocar à volta da mandrágora um cordelinho feito com os seus próprios cabelos, esperar que o cão se aproxime, e depois…

 

Vamos abrir um outro livro:

… o dia começa a despontar e uma jovem, esgotada por uma longa errância através de montanhas e florestas, acorda entre rochedos. Os primeiros raios de sol acariciam a sua face. Silêncio. Cega por eles, com os cabelos em desalinho, a menina sobe até ao cimo de um rochedo parecido com aquele em que dormira e descobre, um pouco por todo lado, uma imensidão caótica de pedras. Sente-se perdida. Uma vaga bruma cobre as formas minerais inquietantes. Algures no tempo, numa manhã já distante, a criança tinha fugido de casa, aterrorizada por um pai pobre e cruel. Toda a noite chorara. Por fim, tinha aberto a porta e desatado a fugir. Atravessou colinas, montanhas, florestas. Sem parar, e sem sentir fadiga, percorreu léguas e léguas. Em breve encontra uma velha de aspecto tenebroso, apoiada numa bengala, vivendo sozinha em companhia de uma ave mágica e de um cão com um nome estranho….

E o conto desliza, fascinante…

Por toda a parte, à nossa volta, há belos livros que se abrem e que se fecham. Livros de contos. E as suas páginas desfolham-se sem cessar, ao sabor do vento da memória… Quantas histórias pontuam as nossas próprias histórias! E sabemos que jamais vamos esquecer aquela voz ou aquela narrativa, aquela emoção, todas unidas no imenso novelo da nossa infância…

Os contos são uma espécie de disjuntores, portas que se abrem para as nossas fugas, a oportunidade única para viagens mentais no decurso das quais se vêem abolidas as fronteiras entre o humano, o animal e o vegetal, e entre o desejo e a realidade. Quer sejam contos tradicionais ou anónimos, quer tenham sido reescritos ou (re)inventados por poetas a partir de fragmentos maravilhosos, os contos rejeitam quaisquer limites.

As histórias populares que respeitosamente foram preservadas pelos Irmãos Grimm vão ao encontro da infância que há em nós, à semelhança do que acontece com os contos outrora inventados por alguns românticos alemães, como Achim von Arnum, Clemens Brentano, Ludwig Tieck ou E.T.A. Hoffmann, e por toda uma geração de autores que manteve bem vivo o sentido da infância, da viagem e da narração.

Uma ficção absolutamente livre de qualquer entrave, uma extrema concisão, a rápida sucessão de acções e ideias fazem dos contos um género aberto, extremamente permeável às mutações. Através dos contos e através dessa redescoberta imensamente criadora das possibilidades do conto que teve lugar na Alemanha nos primeiros anos do século XIX, algo se pôde salvar que diz respeito a cada um de nós: a unidade da infância e a chave que nos permite para sempre a evasão.

Porque o conto será sempre essa ave estranha sobre o dorso da qual podemos voar, subir bem alto no céu, partir para muito longe em direcção ao norte, onde…? Gostaria de escrever sobre os contos um livro que permitisse a sua interpretação, sem no entanto os transformar em modelos áridos e silenciosos.

Até que ponto se pode ir ao seu encontro, até que ponto podemos mergulhar nas histórias como se fossem rios narrativos, sem querer, a qualquer preço, reduzir os seus elementos – rainhas, castelos, ogros, feiticeiras, florestas, lobos, grutas, metais preciosos, príncipes, anões, génios, e meninas – ao “o que quer isto dizer?”

Poder-se-á amplificar os contos, ouvir com toda a atenção os sons que eles fazem nascer em nós, alcançar uma compreensão das histórias maravilhosas ou estranhas que seja cumplicidade e não mera interrogação?

Poder-se-á escrever sobre os contos um livro de prazer? A compreensão não é,   necessariamente, um desmembrar e, de qualquer forma, nada impede que as palavras se transformem em bola de neve e que rolem, sobre um tempo em inclinação permanente, como histórias que se contam, como mitos que se repetem, como fábulas que se amplificam. Bola de neve, bola de fogo, a efabulação permite ceder, imaginariamente, às mil tentações de fazer mil tentativas com a mente.

Há toda uma dialéctica feliz da narração e da escuta e, na sua essência, os contos não têm o fim preciso de educar, nem de socializar nem sequer o de moralizar, nem são uma estrutura bem delimitada na qual muitas vezes queremos fechá-los, simplificando-os. Deixemos que eles nos levem, acordemos o nosso ao seu próprio ritmo…

Seria possível pois criar esse livro ideal, um livro que seria um com os contos (em vez de se debruçar de uma forma quase cirúrgica sobre eles), um livro que os atravessasse e que por sua vez se deixasse atravessar por eles, integrando-se na sua própria vida, porque, apesar de tudo, “os livros fazem parte da vida tal como as árvores, as estrelas ou o estrume” ?

Um livro sempre aberto, como o exemplar da Bela Adormecida que eu tinha quando era criança, e que se podia desdobrar como uma estrela ao juntar a primeira à última página, o que permitia que o meu olhar de criança mergulhasse na profundidade das ilustrações recortadas.

Um livro ideal, o livro estrelado, um livro que fosse uma oferta ao vento, à floresta e à noite; desenrolar-se-ia numa espécie de indiferença face ao sentido e, no entanto, afirmar-se-ia preocupado em compreender e seguir as linhas de força que atravessam, ao mesmo tempo, o que há de mais íntimo em nós e no mito.

Importa, é certo, analisar, mas sem pretensões de desvendar o esqueleto estrutural ou a engrenagem funcional; analisar, é óbvio, mas seguindo pistas, indo à procura de caminhos que, inevitavelmente, se perdem e nos fazem perder; analisar, mas desenhando mapas em que muitas zonas permanecerão para sempre em branco.

Num conto de Grimm intitulado O Corvo, um homem sem nome procura, sem grande convicção, “o castelo dourado de Stromberg”. Tem de libertar uma jovem que nele se encontra prisioneira e que foi transformada em corvo. O homem caminha ao acaso através de uma floresta sombria.

O caminho é longo e, num dado momento, encontra dois gigantes com um aspecto estranho mas jovial. Esses gigantes têm mapas que o podem ajudar a encontrar o castelo desconhecido. Eis que lhe apresentam mapas cada vez maiores, mas que de nada servem; depois, mostram-lhe outros mapas ainda mais antigos que tiram de um armário.

Também eles procuram, deixando que o seu olhar se passeie sobre os mapas enormes e já bastante usados. Irão finalmente descobrir onde se situa o castelo mas já pouco interessa pois que, independentemente do sentido global do conto, o episódio dos grandes mapas que se desdobram na cabana dos gigantes, na orla de uma floresta, mantém-se até hoje como uma imagem viva, impressionante e valendo por ela mesma.

Poder-se-ia transformar um livro sobre os contos numa espécie de mapa de lugares maravilhosos de operações mágicas, de metamorfoses sujeitas a diversas intensidades imaginárias?

Um mapa semeado de nomes – nem nomes próprios nem comuns –, que em si encerrem inúmeros desejos: ali, um castelo feito de casca de ovo, além, um homem com pele de urso, aqui, uma mandrágora com dois olhos atrás da cabeça, ratos e ratos a seguirem um tocador de flauta, um lobo entre lençóis brancos, um autómato parecido com uma jovem; e, mais além, uma janela misteriosa atrás da qual se agita uma mão; lá longe ainda uma fada ou um hipnotizador de olhos sombrios, rãs, galos cruéis, um baile de máscaras, e ainda uma terra selvagem onde uma velha lança sortilégios…

… e a jovem coberta de lágrimas, depois de se ter por momentos sentado nas pedras para morrer, de novo retoma o caminho; já noite, crê ouvir o barulho de um moinho…

 

Vamos partir…

Era, é, será sempre uma vez…

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 A importância do conto de fadas PDF

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O Avô Lop

No fundo da floresta dos sonhos há uma densa moita. Os ramos entrelaçam-se bem no alto e formam um guarda-chuva verde e viçoso, que protege dos aguaceiros de cristal do início de Abril e de Maio todos os seres que ali vivem. A chuva cai durante uma ou duas horas e, depois, o sol, com os seus raios dourados, escorre pelas folhas até ao chão.

Foi nesta moita que brincaram e viveram os coelhos da floresta durante toda a vida. Havia coelhos com grandes rabos fofinhos, coelhos quase sem rabo – pequenos, gordos, magros, peludos – e um coelho muito velhinho chamado Avô Lop.

O Avô Lop era tão velho que há já muito tempo o seu pêlo embranquecera. Usava um cachecol andrajoso à volta do pescoço e andava sempre com um pau nodoso que lhe servia de bengala.

Todas as tardes, por volta das duas ou três horas, o Avô Lop sentava-se no seu tronco preferido a desfrutar do calor do sol. Sentava-se em silêncio até que – sem que se apercebesse – todos os coelhinhos pequenos se juntavam aos seus pés. Eles bem tentavam ficar calados, mas era-lhes tão difícil que alguns até tinham de meter as orelhas na boca para não se rirem.

O Avô Lop recostava-se no tronco, olhava em volta e começava, numa voz muito suave e baixa:

― Em tempos que já lá vão, no país da névoa e das coisas mágicas, havia uma floresta encantada…

À medida que ia contando a história, muito devagar, algo de estranho e maravilhoso acontecia. O Avô Lop começava a endireitar-se cada vez mais. A luz do sol incidia nos seus olhos castanhos e deles emanava, em raios cintilantes, para toda a floresta. Até o seu pêlo reluzia.

Enquanto ele contava a história, os coelhinhos ficavam completamente deslumbrados, porque, de um momento para o outro, o velho Avô Lop transformava-se no Mago da Floresta. Os coelhinhos estavam tão fascinados pela história, que nem davam conta de ela chegar ao fim. O Avô tinha de dizer:

― Agora é tempo de irem, coelhinhos.

E lá regressavam eles, aos saltinhos, à moita da floresta.

Mas os coelhos mais velhos foram ficando cada vez mais preocupados com os pequeninos. Certo dia, depois de eles terem desaparecido como de costume, os coelhos mais velhos reuniram-se.

― Aonde é que eles irão? — perguntavam uns aos outros. ― Desaparecem todos os dias à mesma hora.

― Aposto que saem para ir ver aquele velho e inútil Avô Lop — disse um deles. ― Só sei que não andam a fazer coisa boa!

Conversaram e frasearam durante algum tempo e decidiram que, mal os coelhinhos voltassem nessa tarde, iriam descobrir exactamente o que estava a acontecer.

À hora do costume, os coelhinhos regressaram e, como combinado, os coelhos mais velhos perguntaram-lhes onde tinham estado.

― Bem — disse um ― fomos à floresta ver o Avô Lop e ele contou-nos a mais maravilhosa história da floresta. E enquanto a contava, aconteceu a coisa mais mágica e maravilhosa: o Avô Lop transformou-se no Mago da Floresta!

― Eu sabia! — disse um dos coelhos mais velhos, encolerizado. ― Aquele coelho velho só conta mentiras aos miúdos.

― Mas é verdade! — protestaram os coelhinhos em coro. ― Quando ele nos conta histórias, aparecem sempre estrelas e faíscas. É magia!

Os coelhos mais velhos pularam para o lado e falaram em surdina uns com os outros, olhando de vez em quando por cima do ombro. Finalmente, regressaram, zangados, para junto dos mais novos e disseram:

― Achamos que vocês estão a mentir, porque não existe magia. Por isso, vão já para a cama sem jantar e daqui para a frente estão proibidos de tornar a ver esse Avô Lop!

Com as lágrimas a correrem dos olhos, os coelhinhos arrastaram-se até às suas camas. Tinham o coração pesado e o estômago muito vazio.

No dia seguinte, como de costume, o Avô Lop sentou-se no seu tronco preferido a apanhar sol e à espera de que os coelhinhos aparecessem. Fartou-se de esperar e deve ter mesmo passado pelo sono, porque acordou, sobressaltado, quando o sol estava já a pôr-se. Para seu espanto, não havia coelhinhos nenhuns à sua volta.

“Se calhar esqueceram-se”, pensou, “mas de certeza que amanhã se vão lembrar”. Dito isto, partiu a manquejar em direcção à sua toca na floresta.

No dia seguinte, e no outro, foi um Avô Lop entristecido que esperou e esperou pelas crianças, que nunca mais apareciam. Por fim, já desesperado, foi, aos saltos, até à grande moita do bosque, à procura de algum sinal dos coelhinhos.

À medida que caminhava pelo carreiro sinuoso, fortemente apoiado na bengala, encontrou um dos coelhos mais velhos.

― Bom dia! — saudou, inclinando a cabeça hirtamente. ― Ando à procura dos coelhinhos do bosque. Costumava contar-lhes histórias, sabe, mas eles deixaram de vir.

― Pois ainda bem! — grunhiu o coelho grande. ― Tudo o que aqueles coelhinhos aprenderam consigo foi a mentir e a inventar histórias.

O Avô Lop ficou chocado.

― Mas eu nunca lhes ensinei a mentir — disse. ― Só lhes contei as maravilhosas e mágicas histórias do bosque!

― Pois já não vai contar mais nenhuma — disse, irritado, o coelho, enquanto saltava de novo para dentro da moita.

Foi um Avô Lop muito mais triste e envelhecido que regressou à sua toca na floresta, com uma lágrima a descer-lhe pelas bochechas.

Sem nada com que ocupar agora os dias, o Avô Lop vagueava sem destino pela floresta. Ainda chegou a ir uma ou duas vezes à grande moita da floresta, mas, assim que aparecia, os coelhos mais velhos conduziam os coelhinhos para o lado oposto.

― Vai-te embora! — gritavam-lhe então. ― Não queremos coelhos velhos na nossa moita.

E, com isto, todos os coelhos fugiam precipitadamente para as suas tocas.

Completamente sozinho, o Avô Lop deixava a moita e voltava para o seu canto do bosque.

Os coelhinhos bebés fizeram o que lhes mandaram, mas não conseguiam esquecer os sortilégios do Mago da Floresta. Às vezes, quando estavam todos sozinhos, costumavam segredar o quanto tinha sido divertido. Mas, a maior parte das vezes, arrastavam-se pela moita, levantando a poeira e sentindo-se muito tristes.

Os coelhos mais velhos tentavam animá-los e até lhes contavam uma história ou outra, mas não era a mesma coisa.

As coisas pioraram tanto que os coelhinhos começaram a discutir uns com os outros. Começavam por um encontrão mas acabavam sempre num emaranhado de braços, pernas e orelhas a lutar no chão.

A certa altura, como alguns dos coelhos mais velhos já não aguentavam mais, reuniram os coelhos todos.

― Isto tem de acabar — disseram. ― Com lamúrias e disputas não se consegue fazer mais nada. Já não se vai buscar comida, já não se constroem novas tocas e o Inverno está a chegar.

― Se ao menos pudéssemos ouvir as histórias mágicas do Avô Lop — disse um dos coelhinhos — já não arranjávamos mais problemas.

― Mas a magia não existe! — disseram, zangados, os coelhos mais velhos. ― Vocês mentiram.

― Nós não mentimos! Nós dissemos a verdade e, se tivessem vindo connosco,
ter-lhes-íamos mostrado que a magia existe mesmo.

Os coelhos mais velhos pensaram por uns instantes e decidiram:

― Vamos convosco visitar esse Mago da Floresta, só para vos provar que a magia não existe.

E lá seguiram todos, aos saltinhos, pelo longo e sinuoso carreiro da floresta, até chegarem ao tronco onde o Avô Lop esperava sentado. Estava, como sempre, a apanhar sol, e a contemplar tranquilamente o céu. Os coelhinhos sentaram-se aos seus pés, num ápice, enquanto os coelhos mais velhos se acomodavam, cépticos, num cepo velho e apodrecido.

O Avô Lop reclinou-se para trás e, com um brilho nos olhos, começou, numa voz suave e baixa:

― Há muito tempo, numa terra de névoa e magia, havia uma floresta encantada…

Os coelhos mais velhos arregalaram os olhos de espanto ao verem o Avô Lop endireitar-‑se cada vez mais. À medida que ia contando a história, a luz do sol como que emanava dos seus olhos castanhos e faíscas de magia começavam a cintilar por toda a floresta. Enquanto contava a história, o seu pêlo passou de branco a prateado e transformou-se no verdadeiro Mago da Floresta.

Quando a história chegou ao fim, um maravilhoso fim, todos os coelhos, novos e velhos, estavam completamente encantados. A beleza do momento era tal que alguns dos coelhos mais velhos tinham lágrimas nos olhos.

Ninguém disse uma única palavra com o medo de quebrar aquele encanto. Mas, um a um, todos se aproximaram do Avô Lop e abraçaram-no com todo o amor que tinham no coração.

Os coelhos mais velhos nunca pediram desculpa pelo mal que tinham feito aos coelhinhos e ao Avô Lop, porque todos sabiam que, às vezes, até os mais velhos cometem erros. Mas agora, todos os dias, à mesma hora, os coelhos saltam da moita e correm a ouvir o Avô Lop tornar-se no Mago da Floresta.

Escutem os mais velhos,

E as suas histórias douradas;

E lembrem-se do Avô Lop

E das magias reveladas.

Stephen Cosgrove

Grampa-Lop

Los Angeles, Sloan Publishers Inc., 1981

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Luísa Dacosta

Infância e Palavra

Porto, Ed. Asa, 2001

 

Um livro

Desejas um tapete mágico que, num abrir e fechar de olhos, te leve aos confins da Terra?

Uma máquina de viajar no tempo, para o futuro a haver, desconhecido, para o passado histórico ou para aquele em que os animais falavam?

Companheiros para correrem contigo a aventura de mares ignorados e de ilhas que os mapas não registam?

Conhecer mundos para além do nosso sistema solar, a anos-luz da nossa galáxia, sem necessidade de foguetão?

Saber a idade de uma pedra ou os mistérios da realidade, das águas, dos bichos, dos pássaros e das estrelas?

Descobrir a arca encantada, onde se guardam os vestidos “cor do tempo”, das princesas de “era uma vez”, aquelas que se transformavam em pombas ou dormiam em caixões de cristal, à espera que o príncipe viesse despertá-las?

Desfolhar as pétalas do sonho no país da noite?

Abre um livro.

Um livro é tudo isso de cada vez e, às vezes, ao mesmo tempo. Um livro permite-te contactar com outras imaginações, outras sensibilidades.

É a possibilidade de estares noutros lugares, sem abandonares o teu chão, de ouvires pulsar outros corações, de vestires a pele humana de outro ou outros. Sem deixares de ser tu.

E com o livro a varinha de condão não está na mão das fadas, está em teu poder.

É do teu olhar, de cada vez que te dispões a ler, que nascem aqueles mundos, caleidoscópicos, de maravilha – e só desaparecem quando fechas o livro.

Mas, a um gesto do teu querer, voltarão a surgir sempre, sempre, sempre…

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