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Archive for the ‘psicologia’ Category

Pierre Péju

L’archipel des contes

Paris, Aubier, 1989

Excertos adaptados

 

 

 

O umbigo do conto

 

La Petite Fille dans la Forêt des Contes é um ensaio que faz a apologia de uma prática viva e poética dos contos, e que nos convida a desconfiarmos das interpretações redutoras da moda do momento.

“E depois?” Esta é a pergunta que me apetece sempre fazer quando deparo com as imensas gavetas ideológicas nas quais críticos e intérpretes dos contos colocam as imagens que encontram nas narrativas, mesmo as mais perturbadoras. (Estou a pensar, concretamente, nas 31 funções de Propp e no modelo actancial de Greimas). É que mesmo as explicações mais argutas não conseguem dar conta daquele brilho próprio do conto, que lhe advém dos lugares mais profundos da nossa infância e da noite dos tempos, embora esta continue espantosamente actual. Esses críticos ficam também muito aquém daquilo a que chamo “o umbigo do conto”, esse ponto misterioso que liga uma narrativa aos segredos da nossa vida íntima e aos enigmas da comunidade humana.

Podemos perfeitamente, dentro da modernidade na qual temos de habitar, estudar e ler os contos, contá-los ou escrevê-los, e continuar abertos ao sempiterno trabalho de revelação que nos proporcionam.

Sempre me recusei a medir – em nome de que ideologia? – o “valor” pedagógico ou moralizador de um conto. Não quero estabelecer uma teoria dos contos: apenas pretendo extrair deles o maior número de significados possível e mostrar o vigor do sentido que brota continuamente destas narrativas, sempre disponíveis.

Longe de me lançar numa caça aos símbolos, convido o leitor a considerar os contos, e as suas versões orais ou literárias, como narrativas muito puras, capazes de preservar, na simplicidade aparente da sua forma, verdadeiros enigmas intemporais. Estou persuadido de que o enigma, o texto obscuro sobre o qual nos questionamos, é sempre mais precioso do que a resposta, seja ela qual for. Algumas imagens dos contos equivalem a perguntas jamais respondidas. É este desejo de penumbra que nos leva a considerar a floresta como o espaço por excelência do conto e não como um símbolo entre outros ou como um tema de estudo privilegiado.

O conto interessa-me, primordialmente, porque é um desvio necessário do acto de escrita, porque é um desvio de uma certa forma de vida, à semelhança do que acontece com o sonho. Pretendo agir como um amador, não por modéstia, mas por princípio. Um amadorismo ávido e consciencioso, sem dúvida, mas totalmente oposto a esse desgaste de energia que representam os trabalhos e as pesquisas universitárias dos últimos anos sobre o conto.

O amadorismo é uma liberdade: quando um assunto deixa de proporcionar prazer ao amador, este pode pô-lo de parte, mesmo que continue a nutrir por ele uma certa ternura. O especialista não larga a presa: encarniça-se, esgota-se, e acaba por tornar o seu tema de especialização enfadonho para toda a gente.

Lamento que o “público que se interessa pelo conto”, aquele que encontrei nas conferências que fiz, veja no estudo das “histórias que toda a gente conhece” uma compensação para a sua ignorância, diria até desprezo, em relação à literatura em geral. Este público, por vezes muito decepcionante, agarrado à bóia de salvação do folclore ou da pedagogia, contribui para fazer do conto um género literário marginal ou menor, e acaba por ignorar as vantagens que adviriam de suprimir a barreira entre a oralidade e a escrita, entre a tradição e a modernidade, e mesmo entre mitos, contos, lendas, novelas e romances, quando se trata de compreender de que forma as narrativas nos “marcam” – quer remontem à nossa infância ou ao fundo cultural da humanidade – e de que forma as narrativas constituem os únicos espelhos transfiguradores que tornam a vida visível para nós.

Se os contos me seduziram, não foi por gostar de coisas arcaicas, nem para satisfazer uma qualquer nostalgia dos “bons velhos tempos”, quando as narrativas ainda tinham lugar no seio de uma comunidade ideal. Se os contos são apaixonantes, é porque são narrativas completas e amadurecidas que pairam sobre nós, luminosas como frutos na sombra, sempre disponíveis. Subsistem e persistem enquanto referências flutuantes. Constituem um acervo para sempre aberto.

É pela sua “carne”, e não pelo seu “esqueleto”, que os contos são fascinantes. A sua eficácia e a sua elegância são sempre fonte de espanto para nós: o conto exibe uma economia de meios que torna cada elemento necessário e suficiente.

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Um esqueleto no armário…

Conhecemos os nossos filhos como a palma da mão. O formato das unhas, o recorte das orelhas, as risadas deles, os caprichos e as cóleras… É natural. No fim de contas fomos nós que os “fizemos”… No entanto, algo começa a escapar-nos desde muito cedo – pela simples razão de que a vida, a verdadeira vida, sempre nos escapa…

Eles têm os seus segredos, os seus “esqueletos no armário”, as suas angústias e perguntas: “Por que é que eu gosto dela e ela não gosta de mim?”, “E o papá, como é que ele se sentirá lá em cima? Estará bem, ao menos?”, “E Deus? Achas mesmo que ele existe?”

E nós, que os imaginávamos ainda na idade dos chupas-chupas, dos escorregões, damos com eles carregados de perguntas, de segredos. Nós, as “mamãs-corujas”, sentimos por vezes um assomo de nostalgia e pensamos: “Ainda tão novo… e já vem com estas perguntas!”

Sim, é verdade. É inútil esperarmos que ele calce 39 para o vermos interrogar-se sobre o curso do mundo. As crianças não se deixam enganar pelos nossos sorrisos postiços nem pelas nossas tentativas para as protegermos do mal. Não estão ao abrigo das pequenas feridas da existência e das questões metafísicas.

Também são picadas pelas urtigas do mundo, mesmo que, a cada dia que passa, nós, pais, tal como o Principezinho, tentemos aplanar os nossos pequenos mundos e expurgá-los de todos os embondeiros que possam vir a feri-las. Não nos deixemos enganar pelo seu silêncio. Mesmo antes do cataclismo da adolescência, os nossos filhos não vivem em nenhum mundo cor-de-rosa.

Aos 3-4 anos começam a ter consciência da morte. Por volta dos 10, sabem que ela é definitiva. Por isso, como falar-lhes da morte, da sexualidade, da amizade, do dinheiro, da tristeza e da angústia, da solidão e da camaradagem? Do divórcio e dos conflitos?

 

 

A criança cósmica

 

Filósofa lá no fundo de si mesma, a criança passa os dias num local, a escola, que responde a tudo… excepto às suas interrogações. Entre as aulas de Geografia, de Matemática ou de Formação Cívica, não há lugar para filosofias!

Cuidado para não sufocarmos à nascença a centelha de filosofia que existe nela. Por vezes, temos muita pressa em fazer das crianças pequenos adultos, cem por cento adaptados ao mundo real, verdadeiros campeões de adaptação, que trazem boas notas e correm do judo para as lições de violino, sempre a sorrir (mesmo que o sorriso seja postiço).

Cuidado com aquelas pressões que, conforme escreve Pierre Péju, mantêm a criança no que é infantil, para depois a precipitarem nos problemas da pré-adolescência, sem nunca terem deixado aflorar as grandes questões . E se deixássemos de a amordaçar… E se nos esforçássemos desde o início por a abrirmos às grandes questões?

 

Período de latência, período de silêncio

A idade da razão é denominada pelos especialistas de “período de latência”. É um momento muito especial. Pressupõe-se que os nossos “ex-pequenos” tenham interiorizado os interditos. Já não choram nem gritam a plenos pulmões. Quando muito, queixam-se de alguma dificuldade em adormecer. Os pais respiram de alívio.

Este período abençoado, depois da fase dos “caprichos ao rubro” e antes da fase conturbada da adolescência, decorre de forma sub-reptícia. E, como não faz barulho, é fatalmente esquecido.

Mas não é pelo facto de a nossa “criança” ter hoje seis ou sete anos que ela se tornou mais sossegada. Pelo contrário: de acordo com os especialistas, a inquietação é o traço dominante deste famoso período. Embora menos espectacular do que o dos quatro anos.

Temos de reconhecer que a escola e a sociedade contribuem para “amordaçar” a criança. A partir da primária, tem de se dizer adeus à fantasia, aos joguinhos e aos escorregões no recreio. E coitados daqueles que não se põem na linha.

Mas as crianças adaptam-se a tudo. Adaptam-se ao papá que chega tarde, à mamã que não tem tempo para lhes responder, ao ritmo escolar que não é o adequado. É quase assustador, se pensarmos bem.

 

 

E a criança lunar?

 

Não critiquemos a escola. Também nós, pais, passamos o melhor do nosso tempo a lisonjear a criança real, a criança “solar”. E que tipo de discurso é o nosso? “O que fizeste nas aulas? Arruma o teu quarto, vai escovar os dentes (pelo menos durante três minutos), come os legumes e despacha-te!”

Uma espécie de “voz de síntese”, um tudo-nada metálica, que soa como um eco longínquo e nos lembra afinal o que detestamos: a repetição inexorável e arcaica dos “deveres” da existência. Mas, e a verdadeira vida? Por que a esquecemos tantas vezes?

Sem dúvida, devido à falta de tempo. Porque é preciso andar depressa! Porque, obcecados pelo desempenho, pelas boas notas e pela visibilidade das coisas, acabamos por só nos dirigirmos ao seu lado menos bom: a criança solar, que dorme, come, trabalha e aprende. E a criança lunar, o poeta que sonha, que pensa, que sofre em segredo? Muitas vezes fica esquecida. Talvez não saibamos como falar com ela…

 

Não ao cerco das perguntas!

 

Ao chegarmos a casa à noite, o que pretendemos é retomar um diálogo que não teve lugar durante o dia.

O nosso filho estava na escola, nós, no escritório. Temos de conversar. O que fazemos então? Recorremos a um interrogatório cerrado, do género: “Então, querido(a)? Como passaste o dia? Comeste bem?” Até ao inevitável: “Tiveste boas notas?”

Claro que tudo é feito com boa intenção. Mas isto soa a interrogatório policial, do género: “Nós temos meios de vos fazer falar!” De resto, os resultados são quase sempre decepcionantes. E o nosso pequeno entrevistado fecha-se no seu mutismo.

A solidão da criança é mais secreta do que a do adulto diz Bachelard na sua Poética do devaneio [1].

É verdade, senhor poeta, é tão verdade que nós, mães, ficamos irritadas com os segredos dos filhos. Nós que, ao chegarmos a casa, gostaríamos tanto de, integralmente, “recuperar o nosso rebento”, de o ouvirmos contar como foi o seu dia. Só que… o rebento oferece resistência. E a comunicação demora a estabelecer-se.

As crianças detestam a intromissão, a curiosidade dos adultos. São exímias a escapulir-se às nossas perguntas. Fazem lembrar as enguias. Uma expressão de contrariedade, um suspiro: “Chega de perguntas”, “Deixa-me em paz”… “Está bem, desculpa”.

 

As histórias criam laços…

 

É aqui que entra a história contada à hora de dormir. A história cria laços entre os pais e os filhos, sobretudo numa época em que passamos o melhor do nosso tempo longe deles. Através da história contada ao deitar, não lhes falamos com todo o nosso poder de mães dominadoras, mas “comungamos” com eles, deste ou daquele problema.

Por meio do “deslocamento poético” e da distanciação, a história fala-lhes de um outro eu: uma personagem que não os angustia e que os encoraja a falar. Sente o seu filho triste, deprimido? Comece por: “Era uma vez”, uma distanciação no tempo que o “desangustia” e desinibe. Porque a personagem, o coelhinho, o pequeno ratinho, o principezinho ou a fada, é ele e um outro.

Quando ele ouvir a história da princesinha que se tinha fechado na sua torre, de tão triste que estava, ficará tranquilo – era tão longe, foi há tanto tempo – e a distância faz desaparecer a angústia.

Perante um diálogo mais difícil, a história permite recolher confidências de uma forma mais eficaz do que se se abordar os assuntos de uma maneira frontal. Recebe-se mais quando “se dá” do que quando se pretende tirar à força.

Da boca do adulto ao ouvido da criança, os contos são as primeiras confidências filosóficas. Pela primeira vez, a criança vive a experiência do universal: ultrapassa as fronteiras estreitas do “eu”, o gueto do “ego”… As histórias criam uma ponte entre nós e os outros e fazem-nos sair do casulo do nosso pequeno mundo.

Tornar-se adulto, escreve acertadamente Albert Jacquart no prefácio de Qui a lu petit lira grand [2], é ser-se introduzido num novelo de encontros. Sim, a leitura, aberta ao outro, cria um extraordinário mundo de encontros, porque convida à empatia e à emoção.

 

Emoção… e ideias

É a palavra-chave: emoção. E também aquela que diferencia a história do discurso moralizador. Não se imagina a que ponto o livro é capaz de transmitir emoção. À medida que as crianças o vão folheando, sentem a revolta da Cinderela, o medo de Branca de Neve, choram ao ouvirem o que diz a menina dos fósforos (que lhes fala também de Deus e do que está para além da morte).

Deliciosa leitura, aquela que é experimentada pelos primeiríssimos leitores. Daniel Pennac evoca esta maré viva em Comme un roman [3]:  Satisfação imediata e exclusiva das nossas sensações: a imaginação expande-se, os nervos vibram, o coração bate apressado, a adrenalina sobe…

As histórias falam também de subconsciente a subconsciente, e não do córtex ao neo-córtex! A emoção que as crianças sentem diante da leitura de uma história abre nelas como que uma brecha…

Os olhos brilham, os sorrisos abrem-se, o rosto ilumina-se, o queixo treme. Algo se passa, diz o poeta, alguma coisa oscila. Porque a emoção é um inevitável vector de ideias, de longe bem mais eficaz do que qualquer discurso racional!

E, de repente, nesta íntima “oscilação” do ser, sentimo-nos prontos para compreender tudo: as pequenas feridas, as questões sérias, os sofrimentos dos outros. E os nossos. A emoção é uma extraordinária chave de acesso às ideias.

 

Um amorzinho em vez de outro…

 

Aos 5, 6, 7 anos, o nosso filho deixa progressivamente a sua babete, o seu paninho de estimação, o seu velho ursinho de pelúcia. Deixa o mundo do amorzinho exclusivo, para entrar no dos amorzinhos múltiplos, por outras palavras, no da filosofia, no da história, no dos outros. Mas não terão também as histórias a função de permitir uma transição?

Vejam os mais pequenos, que chegam orgulhosamente ao infantário ou à escola, de manhã, trazendo na mão um pequeno livro, uma história que lhes fala deles próprios, uma história com que, durante todo o dia, se deleitarão – mesmo sem saberem ler. E vasculhemos também as nossas sacolas: há sempre um velho livro, de folhas já gastas, ao lado de uma fotografia de férias ou de um pequeno caderno.

A história da noite tem também uma função terapêutica e transicional. Saboreamo-la como uma guloseima, antes de adormecermos. Como uma luz de presença no corredor, que nos une aos outros antes do mergulho na noite.

 

 

O ritual da história da noite

 

Estas histórias da noite são um momento de magia roubado à vida. Instalamo-nos confortavelmente, esquecemos tudo. As discussões, as pequenas feridas, as censuras, os dentes não lavados. Pais e filhos vêem-se pouco? É preciso manter vivo o ritual da história contada antes de adormecer: minimum vital, pausa indispensável.

Lemos à noite: a criança sente-se protegida por múltiplos rituais. Daí as crises de lágrimas quando se vê privada da história da noite – é pior do que ser privada de sobremesa. Adoptamos rituais relacionados com a história, procurando criar um ambiente apropriado: apaga-se a luz, acende-se uma pequena lâmpada, faz-se silêncio.

Apanhamos o tom, modificando a voz. Uma voz muito grossa, uma muito fininha para os ratinhos, etc. Sobretudo, deixar aflorar a emoção… Em suma: é preciso empenho. Já repararam que, quando lêem uma história “em cima do joelho”, os nossos filhos podem pedir outra, e depois outra? Mas, quando ficam realmente satisfeitos, não costumam pedir mais…

 

 

Pequenas pedrinhas brancas… para pequenos polegares pensantes!

A história é a guloseima, antes da longa separação da noite. É como uma lampadazinha que a criança poderá meter debaixo do travesseiro. Uma ideia, uma imagem para afagar, para chuchar, para remexer em todos os sentidos. É o que os bebés pressentem quando se lhes dá um livro, que eles viram de pernas para o ar vezes sem conta! “Sim”, dizem na sua linguagem. “Há alguma coisa de essencial e de misterioso. O livro é mágico.”

Lendo uma história aos nossos filhos, fornecemos-lhes uma mão cheia de pedrinhas brancas – que os pássaros não comerão. Levá-las-ão consigo, ao longo do caminho, rumo à floresta obscura. Perdidos no escuro, assolados de perguntas, dúvidas e angústias, saberão desenvencilhar-se. E tirar proveito delas.

 


[1] Gaston Bachelard, Poética do Devaneio, São Paulo, Ed. Martins Fontes, 1988.

[2] Causse Rolande, Qui a lu petit lira grand , Paris, Plon, 2000.

[3] Daniel Pennac, Comme un roman, Paris, Gallimard, 1995.

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Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

 

 

 

A luta pelo sentido

 

Se queremos viver não somente de momento a momento, mas na plena consciência da existência, então a nossa maior necessidade e a nossa mais difícil realização é encontrarmos um sentido para a vida. É sabido que muitos perderam a vontade de viver e que cessaram até de tentar fazê-lo porque a vida deixou de fazer sentido para eles. A compreensão do sentido da vida de cada um não se adquire de repente, em determinada idade, nem mesmo quando já tivermos chegado à maturidade cronológica. Pelo contrário, a maturidade psicológica consiste na aquisição de uma segura compreensão do que pode ou deve ser o sentido da nossa vida. E esta realização é o resultado final de uma longa evolução: em cada estádio procuramos, e temos de encontrar, um mínimo de sentido, adequado à forma como o nosso espírito e a nossa compreensão já evoluíram.

Hoje, como em tempos idos, a mais importante e a mais difícil tarefa na educação de um filho é ajudá-lo a encontrar um sentido para a vida. Para se conseguir isso são precisas muitas experiências de crescimento. Enquanto se desenvolve, a criança tem de aprender, passo a passo, a compreender-se a si própria; com isso ficará apta a compreender os outros e, eventualmente, a relacionar-se com eles por vias mutuamente satisfatórias e significativas.

Como educador e terapeuta de crianças com severas perturbações, a minha principal tarefa era restituir-lhes um sentido para as suas vidas. Se as crianças são educadas de forma a que a vida para elas tenha significado, não precisam de uma ajuda especial. Vi-me confrontado com o problema de deduzir quais as experiências que, na vida de uma criança, eram mais adequadas para promoverem a sua capacidade para encontrar um sentido na vida; para dotar a vida em geral de maior sentido. Relativamente a esta tarefa, nada é mais importante do que o impacto dos pais e dos que tomam conta das crianças; a seguir, em importância, vem a nossa herança cultural, quando transmitida à criança de forma acertada. Quando as crianças são pequenas, é a literatura que da melhor maneira contém essa informação.

Sendo assim, tornei-me profundamente desgostoso com muita da literatura destinada a desenvolver o espírito e a personalidade da criança, porque não estimula nem alimenta os recursos de que ela mais necessita para enfrentar os difíceis problemas interiores. A esmagadora maioria da “literatura infantil” tenta divertir ou informar, ou ambas as coisas. Mas a maior parte destes livros são tão frívolos de substância que muito pouco de significativo se aprende com eles. A aquisição de habilidades, incluindo a capacidade de leitura, perde o valor quando o que se aprende não acrescenta nada de importante à nossa vida.

Nestes e noutros aspectos, em toda a “literatura infantil”, com raras excepções, nada é mais enriquecedor e satisfatório, quer para a criança quer para o adulto, do que o popular conto de fadas. É verdade que, a um nível inicial, os contos de fadas ensinam pouco sobre as condições específicas da vida da sociedade moderna de massas; estes contos foram criados muito antes desta sociedade aparecer. Mas podemos aprender mais coisas com estes contos – sobre os problemas interiores dos seres humanos e as soluções acertadas para as suas exigências, do que em qualquer outro tipo de história que esteja dentro do âmbito da compreensão das crianças.

Exactamente porque a sua vida é muitas vezes desconcertante, a criança precisa mais do que ninguém que lhe dêem a possibilidade de se compreender a si própria neste complexo mundo que vai enfrentar. Para poder fazê-lo, tem de ser ajudada a criar um sentido coerente no meio do turbilhão dos seus sentimentos. A criança precisa de ideias sobre como pôr a casa interior em ordem e, nessa base, conseguir dar um certo sentido à sua vida. Precisa – e quase não é necessário dar ênfase a isto – de uma educação moral em que, com subtileza, se lhe transmitam as vantagens de um comportamento moral, não através de conceitos éticos abstractos mas através do que parece palpavelmente acertado e, portanto, com sentido para ela.

Ora, os contos de fadas são portadores de mensagens importantes para o psiquismo consciente, pré-consciente ou inconsciente, qualquer que seja o nível em que funcionem. Lidando com problemas humanos universais, especialmente com os que preocupam o espírito da criança, as histórias falam ao seu ego nascente, encorajando o seu desenvolvimento e, ao mesmo tempo, aliviam tensões pré-conscientes ou inconscientes.

Quanto mais eu tentava compreender porque têm estas histórias tanto êxito no enriquecimento da vida interior da criança, mais intuía que elas, num sentido mais profundo do que qualquer outra leitura, “atingem” a criança no seu núcleo psicológico e emocional. Falam das severas tensões interiores de uma maneira que a criança inconscientemente compreende e – sem menosprezar as sérias lutas internas que o crescimento implica – proporcionam exemplos de soluções, tanto temporárias como permanentes, para as dificuldades mais prementes.

A minha esperança é de que uma compreensão apropriada dos méritos ímpares dos contos de fadas possa levar pais e professores a conferir-lhes outra vez o papel central que eles desempenharam durante séculos na vida da criança.

 

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas II – Os contos de fadas e o dilema existencial

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Anterior: Psicanálise dos contos de fadas I

  

Os contos de fadas e o dilema existencial

Na criança ou no adulto, o inconsciente é um poderoso determinante do comportamento. Quando o inconsciente é reprimido e ao seu conteúdo é negada a consciencialização, então o espírito consciente da pessoa acabará finalmente por ficar em parte esmagado pelos derivativos desses elementos inconscientes. Ou então, ela ver-se-á forçada a manter um controle tão rígido e compulsivo sobre os mesmos que a sua personalidade pode vir a ser gravemente afectada. Mas quando se permite que esse material inconsciente atinja em certa medida a consciência, e possa ser elaborado através da imaginação, o seu potencial para fazer o mal – a nós próprios e aos outros – torna-se muito reduzido; algumas das suas forças podem então ser dirigidas para fins mais positivos. Contudo, a crença paternal dominante é que a criança tem de ser poupada àquilo que mais a perturba: as suas angústias sem forma e nome, as suas fantasias caóticas, enfurecidas ou mesmo violentas. Muitos pais acreditam que só a realidade consciente ou as imagens agradáveis que satisfaçam os desejos é que devem ser oferecidas à criança – que ela deve ser exposta somente ao lado belo das coisas. Porém, um tal alimento unilateral nutre o espírito também só unilateralmente, e a vida real não é bela na totalidade.

Há uma recusa generalizada em deixar as crianças saberem que a fonte de muito do que vai mal no mundo tem a ver com a nossa própria natureza – com a propensão que todo o homem tem para agir agressivamente, associalmente, egoistamente, por raiva ou angústia. Em vez disso, queremos que os nossos filhos acreditem que todos os homens são bons por natureza. Mas as crianças sabem que eles nem sempre são bons; e muitas vezes, mesmo quando o são, prefeririam não o ser. Isto vem contradizer o que os pais lhes dizem, o que faz com que a criança se veja a si própria como um monstro.

A cultura dominante deseja aparentar, especialmente no que diz respeito às crianças, que o lado sombrio do homem não existe, afirmando acreditar num “melhorismo” optimista. A própria psicanálise é encarada como tendo por fim tornar a vida mais fácil – mas isso não foi a intenção do seu fundador. A psicanálise foi criada para habilitar o homem a aceitar a natureza problemática da sua vida sem ser vencido por ela ou sem se entregar à fuga sistemática.

É esta exactamente a mensagem que os contos de fadas trazem à criança, de múltiplas formas: que a luta contra graves dificuldades na vida é inevitável, faz parte intrínseca da existência humana – mas que se o homem se não furtar a ela, e com coragem e determinação enfrentar as dificuldades, muitas vezes inesperadas e injustas, acabará por dominar todos os obstáculos e sair vitorioso.

Os contos modernos para crianças evitam sobretudo os problemas existenciais, ainda que estes representem questões cruciais para todos nós. A criança precisa muito especialmente de sugestões, em forma simbólica, sobre como lidar com estes obstáculos para chegar sem riscos à maturidade. As histórias “inócuas” não mencionam a morte ou a velhice, nem os limites da nossa existência ou o desejo de uma vida eterna. O conto de fadas, pelo contrário, confronta-nos, sem rodeios, com as exigências básicas do homem.

Por exemplo, muitos contos de fadas começam com a morte da mãe ou do pai; nestes contos, a morte cria problemas angustiantes, como a própria morte ou o medo dela o fazem na vida real. Outros contos falam de um pai idoso que decide que chegou a altura de a nova geração tomar as rédeas. Contudo, antes que isso aconteça, o sucessor tem de provar ser capaz e digno. O conto dos irmãos Grimm As três penas começa assim: Era uma vez um rei que tinha três filhos… Quando o rei já estava velho e fraco, pensando no seu fim, não sabia qual dos filhos deveria herdar o trono. Para se decidir, o rei dá aos filhos uma tarefa difícil; o filho que melhor a desempenhar será rei depois da minha morte.

É característico dos contos de fadas expor um dilema existencial, concisa e directamente. Isto permite que a criança enfrente o problema na sua forma mais essencial, ao passo que um enredo mais complexo seria para ela mais confuso. O conto de fadas simplifica todas as situações. As suas personagens são definidas com clareza e os pormenores, a não ser que sejam muito importantes, são eliminados. Todos os caracteres são mais típicos do que invulgares.

Contrariamente ao que acontece nos modernos contos para crianças, tanto a maldade como a virtude encontram-se omnipresentes nos contos de fadas tradicionais. Em praticamente todos eles, o bem e o mal aparecem sob a forma de personagens e acções, pois o bem e o mal são omnipresentes na vida de cada um de nós. Aliás, a propensão para ambos encontra-se em cada ser. É esta dualidade que coloca um problema moral e que exige uma luta para a resolver.

O mal não deixa de ter os seus atractivos – simbolizados pelo poderoso gigante ou pelo dragão, pelo poder da bruxa, pelo da astuta rainha em Branca de Neve – e muitas vezes está temporariamente em ascensão. Em muitos contos de fadas o usurpador consegue, por algum tempo, apoderar-se do lugar que, por direito, pertence ao herói – como as maldosas irmãs n’ A Gata Borralheira. Não é o facto de o malfeitor ser castigado no fim da história que faz com que os contos de fadas sejam uma experiência de educação moral, ainda que isso também seja uma parte da questão.

Nos contos de fadas, como na vida, o castigo (ou o medo dele) é somente uma dissuasão limitada para o crime. A convicção de que o crime não compensa é uma dissuasão muito mais eficaz, e é por isso que nos contos de fadas os maus perdem sempre. Não é o facto de a virtude ganhar no fim que promove a moralidade, mas sim o facto de que o herói é extremamente simpático para a criança, a qual se identifica com ele em todas as suas lutas. Por causa dessa identificação, a criança imagina que sofre com o herói, que vive todas as suas provações e tribulações, triunfando com ele quando a virtude triunfa também. A criança faz tais identificações por si própria, e são as lutas interiores e exteriores do herói que gravam nela a moralidade.

As personagens dos contos de fadas não são ambivalentes – não são boas e más ao mesmo tempo –, como na realidade o somos. Mas uma vez que a polarização domina o espírito da criança, ela domina também os contos de fadas. Uma pessoa é boa ou má, sem meio‑termo. Um irmão é estúpido, outro inteligente. Uma irmã é virtuosa e trabalhadora, a outra, vil e preguiçosa. Uma é bela, as outras feias. Um dos pais é todo bondade, o outro maldade. A justaposição de personagens opostas não tem por fim dar ênfase ao “bom” comportamento, como seria o caso nos contos de advertência. (Há alguns contos de fadas amorais em que o bem e o mal, a beleza e a fealdade não têm qualquer papel.)

Mas estas personagens polarizadas permitem à criança compreender facilmente a diferença entre ambos os pólos, coisa que ela não poderia fazer facilmente se os protagonistas fossem desenhados mais próximos da realidade, com todas as complexidades que caracterizam as pessoas reais. As ambiguidades têm de esperar até que se tenha estabelecido uma personalidade relativamente firme com base em identificações positivas. Só então é que a criança tem bases para compreender que há grandes diferenças entre as pessoas e que, portanto, tem de fazer uma opção sobre aquilo que quer ser. Esta decisão básica, sobre a qual todo o desenvolvimento posterior da personalidade será erigido, é facilitada pela polarização dos contos de fadas.

As crianças de hoje já não crescem na segurança de uma grande família ou de uma comunidade bem integrada. Assim, mais ainda do que no tempo em que foram “inventados” os contos de fadas, é importante fornecer à criança moderna imagens de heróis que têm de se lançar no mundo sozinhos e que, apesar de não saberem à partida como é que as coisas se vão resolver, encontram lugares seguros, seguindo em frente com profunda confiança interior.

O herói dos contos de fadas tem um percurso solitário durante uns tempos, tal como a criança moderna que frequentemente se sente isolada. O herói recebe ajuda porque está em contacto com coisas primitivas – uma árvore, um animal, a natureza – tal como a criança se sente em contacto com estas coisas, mais do que a maioria dos adultos. O destino destes heróis convence a criança de que, como eles, se pode sentir abandonada no mundo, tacteando no escuro; mas, como eles, no decorrer da sua vida será guiada passo a passo, e receberá ajuda quando necessário. Hoje, mais do que noutros tempos, a criança precisa da confiança oferecida pela imagem do homem isolado, que todavia é capaz de estabelecer relações significativas e compensadoras com o mundo que o rodeia.

Ao mesmo tempo que distrai a criança, o conto de fadas elucida-a sobre ela própria e promove o desenvolvimento da sua personalidade. Tem tantas significações, em tantos níveis diferentes, enriquece a existência da criança de tantas maneiras, que nenhum outro livro é capaz de igualar a quantidade e diversidade de contributos que estes contos trazem à criança.

A maioria dos contos de fadas teve origem em períodos em que a religião era a parte mais importante da vida; assim, eles lidam directamente, ou por dedução, com temas religiosos. As histórias d’As Mil e Uma Noites estão cheias de referências à religião islâmica. Muitos contos de fadas ocidentais têm conteúdo religioso; mas a maior parte destas histórias é hoje desprezada e desconhecida do grande público, porque, para muitos, estes temas religiosos já não despertam, universal e pessoalmente, associações significativas.

O esquecimento em que caiu O filho de Nossa Senhora, uma das mais lindas histórias dos irmãos Grimm, é disso exemplo. Começa exactamente como em Hansel e Gretel: Junto de uma grande floresta vivia um lenhador com a sua mulher. Tal como em Hansel e Gretel, o casal é tão pobre que não pode alimentar-se a si próprio nem à filha de três anos. Comovida com a sua desgraça, a Virgem Maria aparece-lhes e oferece-se para tomar conta da pequena, que leva consigo para o Céu. A pequena vive uma vida maravilhosa até à idade dos catorze anos. Nessa altura, como em variadas versões de Barba Azul, a Virgem confia à pequena as chaves de treze portas, doze das quais ela pode abrir, mas não a décima terceira.

A pequena não resiste à tentação: mente e, em consequência, é mandada de volta para a Terra, muda. Sofre provações severas e está prestes a ser queimada viva quando, desejando confessar a sua má acção, recupera a voz para o fazer. É-lhe dada então pela Virgem a felicidade para toda a vida. A lição da história é esta: uma voz habituada a mentir só nos leva à perdição; é melhor sermos privados dela, como a heroína da história. Mas uma voz habituada a arrepender-se para admitir os erros e dizer a verdade, redime-nos.

Como não é possível saber exactamente em que idade um determinado conto de fadas é importante para uma determinada criança, não podemos decidir qual dos muitos contos deverá ser contado em determinado tempo ou porquê. Só a criança pode determinar isso, através da força das emoções com que reage ao que um conto evoca no seu consciente ou inconsciente.

Naturalmente, os pais começarão por contar ou ler ao filho um conto de que eles próprios gostaram em pequeninos ou de que gostam ainda hoje. Se a criança não mostra entusiasmo pela história, isso significa que os motivos e temas não evocaram nela uma resposta significativa nessa altura da sua vida. Será então melhor contar‑lhe outra história na noite seguinte. Depressa se saberá que determinada história se tornou importante para ela, quer pela sua resposta imediata à mesma, quer por pedir que lha contem mais e mais vezes. Se tudo correr bem, o entusiasmo da criança por essa história tornar-se-á contagioso e a história será importante para os pais, quanto mais não seja porque faz tanto sentido para o filho.

Finalmente, virá o dia em que a criança retirou já tudo quanto podia da sua história preferida, porque os problemas que a tinham feito procurar a história foram substituídos por outros, que encontram melhor expressão num outro conto. Ela pode então perder, temporariamente, interesse por este conto, e gostar muito mais de outro. Para contar contos de fadas é sempre melhor seguir a indicação da criança.

Mesmo que os pais adivinhem correctamente as razões por que o filho se envolveu emocionalmente com determinado conto, deve ser guardada só para si essa descoberta. As experiências e as reacções de uma criança são extremamente importantes e em grande parte inconscientes, devendo permanecer assim até que ela chegue a uma idade em que uma compreensão mais madura seja possível. É sempre inoportuno interpretar os pensamentos inconscientes de uma pessoa, tornar consciente o que ela deseja conservar pré-consciente, e isto é especialmente verdade no caso de uma criança. É tão importante para o bem-estar da criança sentir que os seus pais compartilham as suas emoções, através do gosto pelo mesmo conto, como sentir que os seus pensamentos íntimos não são conhecidos deles até que ela se decida a revelá-los.

Além disso, explicar a uma criança por que razão um conto de fadas é para ela tão cativante destrói o encantamento da história, que depende em grande parte do facto de a criança não saber ao certo porque ficou tão deliciada com ela. E com a perda deste poder de encantamento, vai-se também o potencial da história para ajudar a criança a lutar por si própria e resolver sem ajuda o problema que, em sua opinião, deu sentido à história. As interpretações dos adultos, por mais correctas que sejam, tiram à criança a oportunidade de sentir que foi ela, sozinha, por ouvir e ruminar repetidamente a história, que conseguiu resolver com êxito uma situação difícil. Nós crescemos, encontramos o sentido da vida e confiança em nós próprios por termos compreendido e resolvido os nossos problemas pessoais, e não porque outros no-los explicaram.

Os temas dos contos de fadas não são sintomas neuróticos, algo que importa compreendermos de forma racional, para mais depressa nos vermos livres deles. Esses temas são sentidos como autênticas maravilhas pela criança, porque através deles se sente compreendida e apreciada no seu âmago, nos seus sentimentos, nas suas esperanças e angústias, sem que seja preciso trazer tudo isso à superfície para ser investigado à luz crua de uma racionalidade que ainda está para além da compreensão infantil. Os contos de fadas enriquecem a vida da criança e apresentam‑se com uma qualidade de encantamento, exactamente porque ela não sabe como é que as histórias produziram em si semelhante prodígio.

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas III – Um punhado de magia 

Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

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Um punhado de magia: a vida adivinhada por dentro

A Menina do Capuchinho Vermelho foi o meu primeiro amor. Sentia que se pudesse ter-me casado com ela, teria conhecido a verdadeira felicidade. Esta afirmação de Charles Dickens indica que ele, como incontáveis milhões de crianças por esse mundo fora, também foi encantado pelos contos de fadas. Mesmo já célebre, Dickens reconheceu o impacto formativo que as fantásticas personagens e as diversas ocorrências dos contos tiveram nele e no seu génio criador. Exprimiu muitas vezes desprezo pelos que, em nome de uma racionalidade desinformada e mesquinha, insistiam em racionalizar, expurgar ou proscrever estas histórias, roubando assim às crianças as importantes contribuições que os contos de fadas podem trazer às suas vidas. Dickens compreendeu que as imagens dos contos de fadas ajudam as crianças, mais do que tudo, na sua muito difícil e todavia importante e satisfatória tarefa: a conquista de uma consciencialização mais madura que ponha ordem nas pressões caóticas do seu inconsciente.

Durante a maior parte da história do homem, a vida intelectual da criança (além das experiências mais imediatas no seio da família) dependia de histórias míticas ou religiosas e de contos de fadas. Esta literatura tradicional alimentava a imaginação da criança e estimulava a sua fantasia. Simultaneamente, uma vez que estas histórias respondiam às perguntas mais importantes da criança, constituíam o principal agente da sua socialização. Mitos e lendas religiosas (que com eles estão intimamente relacionados) ofereciam material com o qual as crianças formavam os seus conceitos sobre a origem e a finalidade do mundo e sobre os ideais sociais que poderiam imitar. Tais eram as imagens do invicto herói Aquiles e do astuto Ulisses; de Hércules, cuja história mostrava que não era indigno, mesmo para o mais forte dos homens, limpar a mais repugnante das cavalariças; de São Martinho, que cortou ao meio a sua capa para vestir um mendigo.

Nos contos de fadas, os processos internos são exteriorizados e tornam‑se compreensíveis porque são representados por personagens da história e pelas suas ocorrências. Por isso é que, na medicina tradicional hindu, um conto de fadas, que punha em jogo o seu problema particular, era oferecido a uma pessoa psiquicamente perturbada, para meditação. Admitia-se que, através da contemplação da história, a pessoa perturbada seria levada a uma visão da natureza do impasse que vivia na altura e entreveria a possibilidade da sua resolução. Aquilo que determinado conto contivesse sobre o desespero, as esperanças e os métodos de vencer as tribulações, permitia ao paciente descobrir uma saída para a sua aflição e encontrar-se a si próprio, à imagem do herói da história.

Mas a importância suprema dos contos de fadas para o indivíduo em crescimento é qualquer coisa de diferente dos ensinamentos sobre as formas correctas de viver neste mundo (esta sabedoria é bastante suprida pela religião, pelos mitos e pelas fábulas). Os contos de fadas não têm a pretensão de descrever o mundo tal como ele é nem aconselham o que cada um deve fazer. Se o fizessem, o doente hindu seria levado a seguir um padrão de comportamento imposto – o que seria não só má terapêutica, mas o contrário da terapia.

O conto de fadas é terapêutico porque o paciente encontra a sua própria solução, contemplando o que a história parece conter a seu respeito e a respeito dos seus conflitos interiores nesse momento da sua vida. O conteúdo do conto escolhido não tem nada a ver com a vida exterior do doente, mas antes com os seus problemas internos, que parecem incompreensíveis e, portanto, insolúveis. O conto de fadas não se refere claramente ao mundo exterior, ainda que comece de forma bastante realista e contenha temas do quotidiano. A natureza irrealista destes contos (a que tacanhos espíritos racionalistas se opõem) é importante, porque torna óbvio que o objectivo dos contos de fadas não é dar informação útil sobre o mundo exterior, mas sim sobre os processos psicológicos interiores que têm lugar num indivíduo.

As personagens e as ocorrências dos contos de fadas também personificam e ilustram conflitos internos, mas sugerem com extrema subtileza como resolver esses conflitos e quais os passos a dar em direcção a uma humanidade mais nobre. O conto de fadas é apresentado de forma simples, familiar; não se fazem exigências ao ouvinte – o que evita até à mais pequenina das crianças o sentir-se compelida a actuar de uma maneira específica – e nunca faz sentir à criança que ela é inferior. Longe de fazer exigências, o conto de fadas sossega, dá esperanças quanto ao futuro e contém a promessa de um desfecho feliz.

Para compreendermos como é que uma criança julga os contos de fadas, consideremos, por exemplo, os muitos contos em que o jovem herói engana o gigante que o aterra ou até ameaça a sua vida. Que as crianças sabem por intuição o que estes “gigantes” representam, vê-se logo pela seguinte reacção espontânea de uma criança de cinco anos. Animada pela discussão acerca da importância que têm os contos de fadas para as crianças, uma mãe venceu a hesitação em contar ao seu filho histórias “tão sangrentas e ameaçadoras”. Assim, contou-lhe a história de Jack, o mata-gigantes. No final, a resposta do filho foi: “Os gigantes não existem, pois não?”

Antes que a mãe pudesse dar ao filho a resposta tranquilizadora que lhe estava na ponta da língua – e que estragaria o valor da história para ele – o pequeno continuou: “Mas há pessoas crescidas que são como os gigantes.” Com os seus cinco anos, ele compreendeu a encorajadora mensagem da história: apesar de os adultos poderem parecer gigantes assustadores, um rapazinho esperto pode vencê-los.


 

 

 

 

Criança de fronte sem nuvens

E olhos cheios de sonhos e encantos,

Apesar do tempo veloz

E de estarmos separados por meia vida, eu e tu,

O teu amoroso sorriso certamente acolherá

A prenda de amor de um conto de fadas.

C. L. Dodgson (Lewis Carroll) in

Through the Looking Glass

 

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas IV – A necessidade de magia na criança

Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

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A necessidade de magia na criança

Do ponto de vista dos adultos e em termos da ciência moderna, as respostas que os contos de fadas dão são mais fantásticas do que reais. De facto, estas soluções parecem tão incongruentes a alguns adultos (que se divorciaram já dos caminhos pelos quais as crianças sentem o mundo), que eles se recusam a transmitir às crianças informações tão “falsas”. Contudo, explicações realistas são normalmente incompreensíveis para as crianças, porque lhes falta a compreensão abstracta necessária para lhes dar um sentido.

As explicações científicas exigem um pensamento objectivo. Tanto a investigação teórica como a exploração experimental demonstraram que nenhuma criança em idade pré-escolar pode verdadeiramente aprender estes dois conceitos, sem os quais a reflexão abstracta é impossível. Conheci muitos exemplos em que, especialmente nos últimos tempos da adolescência, foi necessário apelar para os anos de crença na magia para compensar alguém que se viu prematuramente privado dela na sua infância, depois de lhe terem imposto (em vão!) a estreita realidade. É como se estes jovens sentissem estar agora perante a última oportunidade para compensar uma grave lacuna nas suas vidas; ou que, sem terem passado por esse período de crença na magia, não se achavam aptos a enfrentar os rigores da vida adulta.

Muitos jovens que procuram hoje a evasão súbita através dos sonhos proporcionados por drogas, são iniciados por gurus, acreditam na astrologia, praticam “magia negra” ou, por outra qualquer forma, se escapam da realidade através de devaneios sobre experiências mágicas que melhorarão as suas vidas, foram prematuramente pressionados a encarar a realidade de uma forma adulta. A tentativa de evasão da realidade por estas vias tem as suas causas mais profundas nas primeiras experiências formativas, que os impediram de se convencer pessoalmente de que a vida pode ser dominada por meios realistas.

Satisfação indirecta versus reconhecimento consciente

 

A criança sente quais dos muitos contos de fadas são a verdade para a sua situação interior de momento (a qual ela não sabe, por si só, manejar), e sente também em que ponto da história esta lhe dá uma achega para poder enfrentar um problema difícil. Mas isso não é imediatamente resolvido, nem se consegue quando se ouve um conto de fadas pela primeira vez. Alguns dos elementos do conto são demasiado estranhos – como têm de sê-lo, a fim de se dirigirem a emoções profundamente escondidas.

Só com a repetição frequente do conto, e quando tenha tido tempo suficiente e oportunidade para se debruçar sobre ele, é que a criança pode aproveitar plenamente o que a história tem para lhe oferecer no tocante à compreensão de si própria e do mundo. Só então as livres associações da criança produzem o sentido mais pessoal do conto; só então o conto a ajuda a resolver os problemas que a oprimem. Por exemplo, quando ouve a história pela primeira vez, a criança não pode projectar-se no papel de uma figura do sexo oposto. É preciso que haja certa distância e colaboração pessoal, durante algum tempo, antes de uma rapariga se poder identificar com o João de João e o Pé de Feijão ou um rapaz com Rapunzel.

Conheci pais cujos filhos reagiam a um conto de fadas dizendo “Gostei”, e assim apressavam-se a contar-lhes outro conto, pensando que mais um conto aumentaria o prazer da criança. Mas o comentário do filho exprimia provavelmente um vago sentimento de que a história tem qualquer coisa de importante para lhe comunicar – qualquer coisa que se perderá se não se ler à criança de novo a história, e se não se lhe der tempo para a aprender. Desviando os pensamentos da criança prematuramente para uma segunda história, poder-se-á desfazer o impacto da primeira, ao passo que, fazendo-se isso mais tarde, se poderá antes aumentá-lo.

Quando se lêem contos de fadas a crianças, numa aula ou em bibliotecas durante a hora de recreio, as crianças parecem fascinadas. Mas, muitas vezes, não se lhes dá a oportunidade para contemplarem os contos ou para reagirem; elas são imediatamente arrebanhadas, ou para outra actividade ou para outra história diferente da que lhes contaram antes, o que dilui ou destrói a impressão que o conto criou. Falando com crianças depois de uma experiência destas, parece que tanto fazia que a história fosse contada como não, pelo efeito nulo que foi obtido. Mas quando o narrador da história dá às crianças tempo suficiente para reflectirem sobre ela, para se submergirem na atmosfera que a narrativa cria, e quando elas são encorajadas a falar no assunto, então conversas posteriores revelam que, emocional e intelectualmente, a história lhes oferece muito.

Tal como os pacientes dos curandeiros hindus eram solicitados a contemplarem um conto de fadas para encontrarem uma saída para a escuridão interior que encobria os seus espíritos, também à criança se deve dar a oportunidade de – vagarosamente – assimilar um conto de fadas, fazendo a junção das suas próprias associações com o conto.

Diga-se de passagem que esta é a razão por que os livros ilustrados, hoje tão preferidos por adultos e crianças, não são o melhor serviço que se pode prestar à criança. As ilustrações distraem em vez de ajudarem. O estudo dos livros ilustrados demonstra que as gravuras desviam o processo de aprendizagem em vez de o fomentarem, porque as ilustrações afastam a imaginação da criança daquilo que, por si próprias, e sem ajuda, elas sentiriam graças à história. A história ilustrada perde muito do conteúdo pessoal que poderia trazer à criança que lhe aplicasse somente as suas próprias associações visuais, em vez das de quem as desenhou.

Também Tolkien pensava que, por melhores que sejam, as ilustrações pouco bem fazem aos contos de fadas… Se a história diz: “Ele trepou a colina e viu o rio no vale, lá em baixo”, o desenhador poderá apreender, ou quase apreender, a sua própria visão da cena, mas cada ouvinte terá formado o seu próprio quadro, que será feito de todas as montanhas e rios e vales que jamais viu, mas especialmente a Colina, o Rio, o Vale que foram para ele a primeira representação da palavra. Eis por que um conto de fadas perde muito do seu sentido próprio quando as figuras e as ocorrências têm a substância dada pelo desenhador e não pela imaginação da criança. Os pormenores, sem igual, derivados da sua vida individual, com os quais o espírito do ouvinte retrata a história que lhe contam ou que lhe lêem, transformam-na numa experiência muito mais pessoal. Tanto os adultos como as crianças preferem frequentemente o caminho fácil de alguém que, por eles, assume a tarefa de imaginar o cenário do conto. Contudo, se deixarmos o desenhador determinar a nossa imaginação, ela será menos nossa e o conto perde muito do significado pessoal.

Perguntar a crianças, por exemplo, como era o monstro de que ouviram falar na história que lhes contaram, dá lugar às mais variadas formas de personificação: enormes figuras pseudo-humanas, pseudo-animais, figuras que combinam certos traços humanos com outros animais, etc. –, e cada um destes pormenores tem enorme sentido para a pessoa que, no seu espírito, criou determinada realização pictórica. Por outro lado, ver o monstro pintado pelo artista, conformemente à imaginação dele, que é bem mais completa se a compararmos com a nossa própria imagem vaga e fugidia, defrauda-nos um pouco. A ideia do monstro poderá então deixar-nos totalmente indiferentes, sem nada de importante para nos dizer, ou poderá amedrontar-nos, não tendo qualquer significado para além da angústia.

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas – A importância da exteriorização

Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

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A importância da exteriorização: personagens e acontecimentos fantásticos

 

O espírito de uma criança contém uma colecção (que rapidamente se enriquece) de impressões frequentemente mal agrupadas e só parcialmente integradas: alguns aspectos correctamente apreendidos da realidade, mas muito mais elementos completamente dominados pela fantasia. Esta preenche enormes hiatos no entendimento da criança, devido à imaturidade do seu pensar e à sua falta de informações pertinentes. Outras distorções são consequência de pressões interiores que conduzem aos contra-sensos das percepções da criança.

A criança normal começa a fantasiar com um segmento da realidade mais ou menos bem observado, o que poderá evocar nela necessidades e angústias tão fortes que pode deixar-se arrastar por elas. Muitas vezes as coisas tornam-se tão confusas no seu espírito que ela não consegue apartá-las umas das outras. Mas é necessário um certo ordenamento para que a criança regresse à realidade, não enfraquecida nem vencida, mas antes fortalecida por esta excursão pelas suas fantasias.

Os contos de fadas ajudam‑na, mostrando-lhe como uma claridade superior pode emergir, e emerge mesmo, de todas as suas fantasias. Estes contos começam geralmente de uma forma bastante realista: uma mãe que diz à filha para ir sozinha visitar a avó ( A Menina do Capuchinho Vermelho); as dificuldades que um pobre casal tem para sustentar os filhos (Hansel e Gretel); um pescador que não apanha nenhum peixe na sua rede ( O Pescador e o Génio). Isto é, a história começa com uma situação real, mas de certo modo problemática.

Uma criança, perante os problemas e acontecimentos que, no dia-a-dia, a deixam perplexa, é estimulada pela sua educação a compreender o como e o porquê destas situações e a procurar soluções. Contudo, uma vez que o raciocínio tem, então, um fraco controle sobre o seu inconsciente, a imaginação da criança foge da pressão das emoções e dos conflitos não resolvidos. A habilidade do raciocínio emergente da criança é depressa subjugada por angústias, esperanças, receios, desejos, simpatias e ódios que se entrelaçam com o que quer que seja que a criança tenha começado a pensar.

O conto de fadas, não obstante começar pelo estado psicológico da criança – tais como sentimentos de rejeição quando comparada com os irmãos, como em A Gata Borralheira – nunca principia com a sua realidade física. Nenhuma criança tem de sentar-se sobre cinzas, como a Gata Borralheira, ou ser deliberadamente abandonada num bosque denso, como Hansel e Gretel, porque uma semelhança física seria demasiado assustadora para a criança e “acertaria perto de mais no alvo, para seu conforto”, exactamente quando confortar é um dos propósitos dos contos de fadas.

Uma criança familiarizada com os contos de fadas compreende que eles lhe falam numa linguagem de símbolos e não na da realidade de todos os dias. O conto de fadas diz-nos, a partir do seu intróito, através do seu enredo e pelo seu desfecho, que aquilo de que nos fala não são factos tangíveis ou pessoas e lugares reais. Os acontecimentos reais só se tornam importantes para a criança através do sentido simbólico que ela lhes dá ou que ela neles encontra.

Era uma vez, Num certo país, Há mil anos ou mais, No tempo em que os animais falavam, Uma vez, num velho castelo, no meio de uma grande e densa floresta – estes intróitos sugerem que o que se vai seguir não pertence ao “aqui e agora” que conhecemos. Esta imprecisão deliberada, no princípio dos contos de fadas, simboliza que estamos a deixar o mundo concreto da realidade quotidiana. Os velhos castelos, as cavernas escuras, as portas fechadas à chave onde é proibido entrar, os bosques impenetráveis, todos sugerem que alguma coisa normalmente escondida virá a ser revelada, enquanto o há muito tempo implica que vamos lidar com acontecimentos arcaicos.

Depois dos cinco anos – a idade em que os contos de fadas se tornam verdadeiramente plenos de sentido –, nenhuma criança normal toma estas histórias como a verdade da realidade exterior. A pequenita que imagina ser a princesa que vive num castelo e desfia fantasias complicadas sabe, quando a mãe a chama para jantar, que não é uma princesa. E, se bem que o arvoredo de um parque possa ser visto, às vezes, como uma floresta densa e profunda, cheia de segredos escondidos, a criança sabe que na realidade é somente um arvoredo – exactamente como a pequenita sabe que a sua boneca não é na verdade o seu bebé, por muito que ela a trate como tal.

Os contos que comecem mais próximos da realidade, na sala de estar ou no pátio da criança, em vez de evocarem a cabana de um lenhador junto de uma grande floresta, e que contenham gente muito parecida com os pais da criança, e não com lenhadores pobres ou reis e rainhas (mas que misturem estes elementos realistas com componentes fantásticos, que satisfazem todos os desejos), são capazes de levar a criança a confundir o real com o que não o é. Estas histórias, sem estarem de acordo com a realidade interior da criança, por mais fiéis que sejam à realidade exterior, alargam o fosso que separa a experiência interior e exterior da criança. Elas separam-na ainda dos seus pais, porque a criança começa a sentir que ela e eles vivem em mundos espirituais diferentes; por muito próximo que eles se encontrem no espaço “real”, emocionalmente parecem viver, temporariamente, em continentes diferentes. Isto contribui para uma descontinuidade entre as gerações, o que é doloroso tanto para os pais como para a criança.

Se contarem a uma criança histórias “verdadeiras como a realidade” (o que quer dizer falsas para partes importantes da sua realidade interior), ela pode concluir que muito dessa realidade interior é inaceitável para os seus pais. Assim, há muita criança que se afasta da sua vida interior, e isso depaupera-a. Consequentemente, ela pode depois, já adolescente e, fora da ascendência emocional dos seus pais, vir a detestar o mundo racional e escapar-se completamente para um mundo de fantasia, como que para se desforrar do que perdeu na infância.

Quando for mais velha, isso poderá implicar uma severa quebra com a realidade, com todas as perigosas consequências para o indivíduo e para a sociedade. Ou, menos seriamente, a pessoa poderá continuar esta clausura do seu “eu” interior toda a sua vida, e não se sentir nunca plenamente satisfeita com o mundo, porque, alienada dos processos inconscientes, ela não pode usá-los para enriquecer a sua vida na realidade das coisas. A vida deixa então de ser “um prazer” ou “uma espécie de privilégio excêntrico”. Com tal separação, o que quer que aconteça na realidade deixa de oferecer satisfação apropriada às necessidades inconscientes. O resultado é que a pessoa sente sempre que a sua vida é incompleta.

Quando uma criança não é subjugada pelos seus processos mentais interiores e é bem tratada em todos os aspectos importantes, pode então dirigir a sua vida de maneira apropriada relativamente à sua idade. Nessas ocasiões, ela pode resolver os problemas que se levantem. Mas, se observarmos as crianças nos seus receios, por exemplo, verificaremos como esses períodos são limitados.

Assim que as pressões interiores da criança estão na mó de cima – o que acontece frequentemente –, a única esperança que ela tem de ter algum controle sobre elas é exteriorizá‑las. Mas o problema é como fazê-lo sem deixar que as exteriorizações se apoderem dela. Pôr ordem nas diversas facetas da sua experiência exterior é tarefa muito difícil para uma criança; e, a não ser que consiga ajuda, torna-se impossível desde que as experiências exteriores se baralhem com as suas experiências interiores.

Por si só, a criança ainda não é capaz de ordenar e dar sentido aos seus processos interiores. Os contos de fadas oferecem personagens nas quais ela pode exteriorizar o que se passa no seu espírito, por meios controláveis. Os contos de fadas mostram à criança como ela pode personalizar os seus desejos destrutivos numa só figura, ir buscar satisfações desejadas a outra, identificar-se com uma terceira, ter ligações com uma quarta, e assim por diante, conforme as suas necessidades de momento.

Quando todos os devaneios da criança se personalizam numa fada bondosa, todos os seus desejos destrutivos numa bruxa má, todos os seus receios num lobo voraz, todas as ciências da sua consciência num homem sábio encontrado numa aventura, toda a sua zanga ciumenta nalgum animal que dê bicadas nos olhos dos seus rivais detestados – então a criança pode finalmente começar a pôr ordem nas suas tendências contraditórias. Iniciado este facto, a criança será cada vez menos submergida por um caos incontrolável.

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas VI – Transformações

Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

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