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Archive for the ‘relações humanas’ Category

Beatrice Alemagna

Le trésor de Clara

Paris, Autrement Jeunesse, 2000

O tesouro da Clara

 

A Clara vive no Brasil.

Não tem quase nada. Tem uma pele de âmbar e cabelos pretos. Veste uma t-shirt grande e, nos pés, traz sandálias de borracha, faça chuva ou sol.

A Clara tem doze anos. Trabalha num orfanato. Tem de limpar a cozinha e, de vez em quando, pode fazer de mãe dos mais pequeninos. E gosta muito disso.

À quinta-feira, é o dia de descanso da Clara. É então que sai…

A cinquenta metros, perto de um banco que está fechado, estão todos juntos à espera dela. Olham uns para os outros, sorriem, regalam-se de antemão. São os seus amigos: a Lúcia, o Ângelo e a Ana. Não têm casa e dormem onde calha, nas ruas do Rio.

A Lúcia tem oito anos. Os seus cabelos são como ninhos de andorinha. As mãos e os pés mexem-se constantemente e ela está sempre a rir.

O Ângelo é pequeno mas muito forte para os seus onze anos. Um dia, conseguiu mesmo levantar uma bicicleta. Está sempre descalço. Caminha sem problemas sobre as pedras. Canta as canções escritas por aqueles que viajaram e viram muitos países. Canta muito bem, o Ângelo.

A Ana é a mais bem comportada. Não fala muito. Tem doze anos, tal como a Clara, que conheceu há muitos anos, naquele sítio, diante do banco.

Por vezes, a Lúcia, o Ângelo e a Ana vão trabalhar na produção do algodão. Outras vezes, varrem as ruas. Ou então, os pescadores chamam-nos à praia para puxar as redes. Depois, encontram-se, sonham em conjunto, com o nariz no ar, a olhar para as nuvens e a contar os dias até quinta-feira.

O Ângelo, a Lúcia e a Ana têm muitos amigos na rua. Alguns respiram uma cola contida em garrafas de plástico, o que os faz sorrir sem razão nenhuma.

Quando a Clara encontra os amigos, vão todos a correr para a praia. Atiram areia à cara uns dos outros. Cantam Pescadores dos três mares e comem o pão que os turistas lhes dão. A Lúcia, o Ângelo e a Ana não querem daquela cola que faz esquecer os problemas.

Eles têm a Clara. A Clara é a mercadora de sonhos. Não é que os venda realmente; em vez disso, dá-os de prenda.

A Clara sonha muito alto com lugares maravilhosos. Praias compridas e douradas com barcos, papagaios de papel e papagaios de verdade. Montanhas encantadas cobertas de gelo e criaturas estranhas, onde sopra um vento mágico, do norte, que te adormece e te acorda cem anos mais tarde. Cidades futuras cheias de luz. De carros que voam e de parques de estacionamento floridos. E de um fogo de artifício feito de pequenos comboios brilhantes, de pizzarias e de arranha-céus espelhados.

E a Clara fala-lhes de um Rio sem adultos, onde só há crianças, gentis e alegres, que têm os dentes todos. Saltam sobre os carros e invadem as lojas de bombons. Ela oferece-lhes vales inteiros de árvores carregadas de frutos, com quatro sóis amarelos no meio do céu e com camponeses ricos, vestidos como comerciantes. E a Clara transforma os monumentos antigos da cidade em palácios das Mil e Uma Noites, e os gatos que passam em tigres da Malásia.

A Clara conta os seus sonhos durante horas. Ela estudou quatro anos na escola e lê todos os livros que encontra.

Agora, é tarde. A Clara levanta-se, sacode a areia das mãos e volta para o orfanato. Os amigos escutaram-na, de boca aberta. Riram e choraram. E os olhos deles arregalar-se-ão de novo na próxima quinta-feira. Para eles, não há cola.

Eles têm a Clara.

E muitos sonhos bons para viver ainda…

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Rosa Mª Badillo Baena

Contos para “delfins”. Auto-estima e crescimento pessoal. A Didáctica do Ser

Porto, Asa Editores, 2003

Excertos

E fazei aquilo que a vós

não houve quem fizesse para que em cada

geração as árvores cresçam mais direitas.

            Cayetano Arroyo

As folhas da tília

 

 

Quero explicar-vos, amigos, por que motivo escrevo contos. Até há muito pouco tempo não me apercebera da magia que ficou presa às minhas mãos quando, em menina, brincava com as folhas da tília. Não podia guardar por mais tempo este maravilhoso segredo e por isso aqui deixo a minha história.

Havia na minha escola uma árvore gigante e frondosa cujos ramos cresciam ao longo do grande muro do pátio onde jogávamos nos recreios. O seu tronco era pequeno, mas a sua força era imensa, pois conseguira chegar ao céu. Era pelo menos o que me parecia a mim, que a ia contemplar, enquanto lanchava, para em seguida brincar com as suas folhas. Recordo como me esticava para colher a mais bela das suas folhas, tão larga e verde, de tão requintado perfume, que para meus olhos ela continha em si todo um bosque. Devo dizer que foi esta a única árvore da minha infância, pois cresci numa rua órfã de amigos verdes. Logo que conseguia colher uma folha, acariciava-a por trás e pela frente, consolava-me ao tocar a sua superfície rugosa, depois cheirava-a profundamente, diria mesmo que a escutava através do meu nariz, e um pouco depois começava o ritual. Lentamente, muito lentamente, ia-a despojando da sua carne até lhe deixar apenas as veias que sulcavam a sua enorme superfície. Faziam-me lembrar grandes rios e pequenos afluentes que iam ficando sem o verde-mar dos seus vales e ribeiras para entretenimento de uma menina que brincava a ser feliz sem o saber. Acabado o ritual, a fragrância líquida daquela árvore impregnava as minhas mãos como uma oferenda anónima da vida ardente que palpitava dentro dela.

Cresci e nunca mais tive notícias da árvore da minha infância. Andei no instituto, na universidade, comecei a escrever coisas muito sérias e difíceis de entender para uma criança. Também eu me converti numa mulher muito séria que dava conferências, ensinava, escrevia artigos de carácter social e conhecia muita gente. Fui andando pela vida sem saber que algo despertava em mim, um mistério profundo que me acompanhara desde a infância. Esse mesmo que começou a florescer quando escrevi o primeiro conto. Até eu própria me admirava ao ver a forma como das minhas mãos fluíam as histórias fantásticas de muitos seres que como personagens nasciam do meu coração. Não conformada com isto, comecei também a escrever poesia, e foi exactamente uma amiga poetisa que me deu a primeira pista do que seria o grande segredo da minha vida. A minha amiga Alícia Wagner falou-me um dia de uma árvore venerada pelos alemães, que crescia junto das fontes e das escolas, e que era a tília. Cantou-me depois uma canção sobre ela, cheia de saudade; e despertou em mim uma estranha curiosidade de conhecer essa árvore que inspirava assim tão belos sentimentos.

Foi, sem dúvida, uma porta que se abriu para me dar a conhecer a origem da magia que impregnava as minhas mãos. Um dia, sem contar, abri um livro sobre árvores e deparei com uma grande tília com as folhas desenhadas em ponto grande. A minha memória, que permanecera adormecida, recordou finalmente a árvore que havia impregnado a minha infância de verde esperança. Senti um imenso amor por quem tinha sido a minha companheira de jogos, mas o que eu não sabia é que ia ficar impressionada ao ler as pequenas letras daquela página onde se apresentava a sua silhueta.

Dizia aí que aquela árvore era a favorita das fadas, que nela habitavam desde tempos imemoriais, por um motivo: deixar impressa em cada uma das suas folhas a fórmula mágica que iria impedir que os contos se acabassem no Mundo. Porque a criança que tocasse uma das suas folhas receberia o dom de escrever contos sobre as coisas sagradas deste planeta. E mais, mesmo que não quisesse escrevê-los, mais tarde ou mais cedo, acabaria por contá-los, pois a seiva havia de estimulá-la a imaginar histórias que teria irremediavelmente de parir se não quisesse morrer de tristeza por estar tão prenhe de contos e de lendas e não poder dá-los à luz.

Olhei para as minhas mãos e fiquei apaixonada pelo segredo que elas continham; por ter brincado com as maravilhosas folhas da tília quando era criança tinha agora a profissão mais formosa e luminosa: descobrir a magia sagrada que impregna todas as coisas, o profundo mistério que anima a vida e escrever isso, depois, em forma de conto. Senti-me deveras uma fada, porque agora aquela árvore mágica que crescia dentro de mim podia contar com todas as minhas forças para poder dar fruto. E escreveria um conto por cada uma das folhas com que brinquei.

Posso, pois, afirmar que os contos são um dos maiores tesouros da humanidade. Desde tempos remotos que nos têm ajudado a viver, dando-nos forças para superar os conflitos e encontrar a luz na escuridão. Foram os canais de transmissão de uma sabedoria tão profunda que acabaram por tornar possível passar através dos tempos o calor da humanidade e a importância de continuarmos vivos de geração em geração.

Creio que devemos dar especial atenção aos contos que nos revelam a problemática da existência, embora de forma simbólica, e nos oferecem alternativas; porque hoje, mais do que nunca, há que acreditar no poder da vida. Nós, adultos, sabemos que as condições sociais não oferecem horizontes às novas gerações. Vemos como boa parte da juventude se destrói, absorvida pela espiral do consumismo, da droga e da violência. E perguntamos: que sucederá aos nossos filhos, aos nossos alunos? Como educá-los para o mundo que lhes coube em sorte?

A sociedade exige profundas mudanças e lança-nos importantes desafios no sentido de evoluirmos através dos grandes conflitos que surgem diariamente. A escola e a família também têm de evoluir para uma educação mais consciente. É necessário que comecem a transmitir auto-estima às crianças, de forma a que, quando crescidas, possam enfrentar e transformar a realidade. A meu ver, o valor da auto-estima é o bem mais apreciado dos nossos tempos; permite à pessoa acreditar em si mesma e conhecer os seus recursos, a fim de criar o seu lugar no mundo.

 

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Rita Pimenta,

in Público, Pública,

5 de Agosto de 2001

Excerto

 

Quem conta um conto…

“Toda a gente sabe contar uma história.” Será? Dois contadores profissionais falam da importância dos contos e de uma ou outra regra para narrá-los bem. Tem de ser um acto de amor, dizem.

Stória, stória

Furtuna di Séu, ámen

As histórias da noite fazem parte de um ritual sagrado para muitas crianças, que muitas vezes é profanado pela falta de tempo, cansaço, má-disposição… Vale a pena não desistir. Todos concordam: os contos são fundamentais para alimentar o imaginário. Contá-los é um acto de amor, dizem os contadores.

E dizem também que o melhor é pôr os livros de lado e contar, olhos nos olhos, que há um menino que ganhou asas para procurar o ó-ó; que um lobo se aproxima do jardim onde brinca o Pedro; que uma carochinha anda à procura de marido. Uma história é sempre melhor quando não há barreiras entre o narrador e o ouvinte.

Também ajuda lembrar as histórias que nos contavam os avós, os pais, os professores. É bom recordar situações de infância, diz António Fontinha, contador de contos profissional. Há um mundo, que tem a ver com a memória, que é aquele que se está a tentar reacender. Temos de fazer arqueologia: ir aos sítios a que a memória está ligada, falar com as pessoas.

O conto é importante para ajudar a desenvolver o espaço da oralidade em casa. Temos de reconstruir o espaço da oralidade para conviver ao nível do imaginário.

Não há receitas para contar bem uma história, porque o que serve a um pode não servir a outro. Mas, diz, pode haver algumas técnicas: a repetição é uma regra de ouro. As personagens ganham vida com o tempo. Começa-se a experimentar coisas. Diz-se que quem conta um conto acrescenta um ponto. É esse ponto, o pormenor, que vai evoluindo.

Isso também só acontece com as histórias que dão prazer contar. O que leva à segunda regra: Nunca devemos contar um conto de que não gostamos.

Toda a gente sabe contar uma história, defende o contador cabo-verdiano Horácio Santos. E, recorrendo também ao ditado popular, o contador acrescenta: A forma de contar é que é o ponto. Ninguém conta a mesma coisa da mesma maneira. Horácio Santos prefere também ter as mãos livres de livros e recorrer à memória. Com um livro perde-se a capacidade de recriar. Quando conto, desdobro-me em personagens. O livro prende o contador e parte o entusiasmo.

Para o contador cabo-verdiano, todas as histórias são boas para crianças, mesmo as que têm violência. No original, o Capuchinho Vermelho morreu. Qualquer história tradicional, popular, tem partes violentas. Podem, no entanto, evitar-se certas palavras, procurar outras que acertem melhor.

Horácio Santos começa sempre as suas sessões de histórias com uma tradição trazida de Cabo Verde:

Stória, stória

Furtuna di Séu, ámen

(História, história, dádiva do céu, ámen)

Porque um conto é uma graça divina. Todo o tempo dedicado a contar uma história é um tempo fértil, que germinará, diz por sua vez Fontinha. Tudo o que se dá à terra, a terra devolve. A terra não é madrasta. O imaginário, transmitido pelos contos, também não. É um património que acompanha as crianças, que as cultiva. Um contador de histórias é sempre um educador: os contos passam valores , continua Fontinha.

E é também por isso que Horácio Santos defende um trabalho depois da história: terminado o conto, há que identificar os elementos, ambientes, personagens, para que a criança possa descodificar e recontar o que ouviu: Fazer o exercício da memória. Neste processo, a criança estabelece o diálogo com os pais.

Fontinha sugere que os adultos entrem agora no mundo do narrador e que não o esgotem nos próximos anos, apenas enquanto os filhos são crianças; pelo contrário, defende que este papel deve ser prolongado por toda a vida. O resultado será uma forte cumplicidade entre pais e filhos. E uma recuperação da tradição oral.

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A Vovó Lobo

 

  Eu tinha um amigo. Chamava-se Artur. Ainda se chama Artur, mas já não é meu amigo.

Desde o início das aulas que eu pensava como é que havia de fazer para o Artur ser meu amigo. O Artur é muito bonito. Gosto muito dos seus olhos castanhos e delicados por detrás dos óculos azuis. O cabelo, cortado à escovinha, faz lembrar erva preta. Tem orelhas pequenas, anda muito bem vestido mas tem tendência para pensar que os outros não valem “um tostão furado”, como diria a minha avó. A propósito da minha avó, eu disse ao Artur na hora do recreio:

— Artur, queres que te conte um segredo?

— Que segredo?

— Uma coisa muito importante. Não vais dizer nada a ninguém?

— Claro que não, achas que sou o quê?

Então disse-lhe ao ouvido:

— A minha avó é bruxa.

Ele até deu um salto.

— Já não há bruxas, isso era antigamente!

No momento em que eu ia dizer: “Mas a minha avó é uma bruxa boa”, Íris, a magricela, aterrou entre nós como se tivesse caído do céu. Olhava para o Artur com ar provocador, com aqueles olhos grandes. A Íris era nova na escola, tinha chegado há dez dias, mas eu não falava muito com ela porque só queria ter o Artur como amigo.

Ela tinha ouvido a conversa. Falava muito depressa e gesticulava.

— Ah, então achas que já não há bruxas, Artur? Nunca ouviste falar da senhora da loja dos animais?

— Não.

— Aquela dos animais, no centro comercial, que dantes era uma loja de brinquedos, não estás a ver?

— Não, e o que é que isso tem a ver com bruxas?

— Vou dizer-te uma coisa, meu menino. A senhora da loja dos animais transformou todos os animais de pelúcia em animais verdadeiros. Não sabias? Todos os cães, os gatos e até a piton do seu terrarium. E, pode voltar a desfazer tudo quando quiser. Portanto, vê lá, nunca te esqueças do teu ursinho na loja dela, meu menino! Até se diz que ela transformou bonecos em bebés verdadeiros e que ela os…

O Artur estava vermelho, e julguei mesmo que ele ia atirar-se à Íris e começar a bater-lhe, mas não.

— Em primeiro lugar, não gosto que me tratem por “meu menino”, — gritou em altos berros, batendo com força o pé no chão – e depois essa história dos brinquedos é ridícula e, quanto às bruxas, elas não existem!

— Existem sim, Artur, existem — disse-lhe eu — porque a minha avó também é!

— E o que é que ela faz para ser bruxa?

— Faz truques extraordinários, tem poderes…

— Que poderes?

— Basta começar a contar uma história e pronto, transforma-se! Pode transformar-se em tudo: em príncipe, em anão das montanhas, em abelha, ou simplesmente em bruxa.

O Artur encolheu os ombros, e a Íris, apontando-lhe o dedo ao nariz, disse-lhe, num ar muito sério:

— Artur, é melhor para ti que nunca te encontres com essa avó.

— Ah! ah! ah! E porquê?

A Íris levou-nos para longe dos outros, para o fundo do pátio, para ninguém nos ouvir.

— Eu conheço bem as bruxas — explicou-nos — e sei que elas existem. Na outra escola eu era especialista nesse assunto. As bruxas, agora, não usam chapéus em bico, não têm verrugas no queixo, podem trabalhar nos correios, na televisão, até as há que são professoras! As bruxas tornaram-se comuns!

Eu e o Artur ouvíamos o discurso da Íris, de olhos esbugalhados.

— Comuns?

— Sim, e sei que há uma coisa que elas detestam acima de tudo.

— Que coisa é essa? — perguntou o Artur.

— Detestam, acima de tudo, os malandros que não acreditam nelas.

O Artur encolheu os ombros.

— Pfff! Que grande palermice!

— Não te julgues assim tão forte, meu menino! — murmurou a Íris. — Eu cá também tenho os meus poderes!

— Não me trates por “meu menino”, que isso irrita-me.

— Ah, estás a ver!

— A ver o quê?

— Estás a ver, eu tenho o poder de te irritar, ah! ah! ah!

E foi-se embora a saltitar nas suas grandes pernas.

O Artur estava furioso.

— Que palerma, aquela rapariga!

— Mas diz-me cá, Artur — perguntei-lhe eu — acreditas ou não que a minha avó é bruxa?

— Não, não acredito nisso.

— Mas juro-te, Artur, que ela é uma bruxa a sério!

— Isso é o que tu dizes!

— Até o meu primo, que tem catorze anos, a trata por “vovó-Lobo”, estás a ver! Só tens de vir comigo, se tiveres coragem, e ficas a saber.

Na quarta-feira seguinte fomos a casa da minha avó. Antes de entrarmos, preveni o Artur:

—Durante a história, é preciso estar com os olhos fechados.

— Porquê?

— Se abrires os olhos enquanto ela está transformada em lobo, em papão ou em monstro, ela pode devorar-te!

O Artur levantou os olhos para o céu:

— Tretas!

Eu insisti:

— Vais abrir os olhos?

Ele respondeu:

— Claro, o que é que julgas?

Apertei-lhe o braço com todas as minhas forças:

— Por favor, Artur, não abras os olhos ou vai ser horroroso!

E depois a vovó abriu a porta.

Sentámo-nos no canapé. A vovó disse:

— Que história quereis que vos conte?

Com tanto azar que foi o Artur a pedir:

— A história do Capuchinho Vermelho.

Então, como de costume, ao sentar-se no sofá, a avó disse:

— Clic! Clac! Fechem os olhos para entrarem no conto e sairem dele sem qualquer dificuldade. Clac! Clic!

Depois começou a contar o passeio do Capuchinho Vermelho na floresta.

Não tinha pressa nenhuma, a menina de vermelho, e dizia com a sua voz ingénua:

— Oh! Que linda floriiinha!

E a flor respondia, a voar dali para fora:

— Não sou uma flor, sou uma borboleta! Colhe-me, se fores capaz.

O Capuchinho Vermelho cantarolava, lalalalalala, e de repente exclamou:

— Olha! Um morango silvestre!

E o morango respondia:

— Não sou um morango, sou uma joaninha!

E o Artur ria porque a borboleta e a joaninha tinham voz grossa. Eu pensava: “O Capuchinho Vermelho devia mas era usar óculos!”

De repente, o Capuchinho Vermelho parou de cantarolar e de saltitar. Alguém saiu de trás de um silvado. Ouviu-se o estalido das folhas. Senti que a vovó se transformava.

— Boas taRdes, encantadoRa menina!

Era mesmo o sotaque do lobo que arrastava os “R”. A voz passava-lhe por entre os dentes aguçados. Ouvia-se Flat! Flat! Eu disse baixinho ao Artur:

— Estás a ouvir a cauda do lobo a bater no chão?

Ele respondeu-me:

— Sim, estou a ouvir.

Eu murmurei:

— É assim que os lobos batem com a cauda, quando sabem que vão regalar-se a comer.

Boa tarde, meu senhor! — disse delicadamente o Capuchinho Vermelho na sua voz fina.

Francamente, acho estranho que uma rapariga diga “bom dia, meu senhor”a um lobo.

— Onde vais, gRaciosa menina? — disse o lobo.

A vovó tentava adocicar a voz do lobo mas entre duas palavras ouviam-se fortes clac! clac! junto dos nossos ouvidos.

— Ouves as mandíbulas a bater?

Artur não respondeu. Certamente, começava a ficar com medo.

— Enquanto tiveres os olhos fechados, não tens de ter medo de nada — disse-lhe eu.

Apetece-me dizer a cada instante ao Capuchinho Vermelho: “Não respondas ao lobo! Vai-te embora! Corre depressa, ou trepa a uma árvore.” Mas tenho medo de que o lobo, irritado e cheio de fome, se vire contra mim. Então deixo aquela pateta do Capuchinho Vermelho responder.

— Vou a casa da minha avó que vive na floresta.

Se fosse eu, respondia antes: “Vou a casa do meu tio que joga boxe!”

Senti que o Artur também estava nervoso. Peguei-lhe na mão e disse:

— Chiu! É muito ingénua esta rapariga mas não se pode fazer nada para a ajudar.

E onde é a casa da tua queRida avozinha? É longe daqui? — perguntou o lobo a dar aos dentes cada vez com mais força.

E aquela palerma a dar-lhe as informações todas:

— É fácil, depois do pinheiro grande, vire à direita e depois à esquerda, na quarta nogueira. É uma casinha com sardinheiras à janela.

Evidentemente, o lobo foi a correr para casa da avó. Não devia estar muito treinado na corrida porque arfava de uma forma esquisita.

Affu! Affu! Affu!

Chegou diante da casinha.

— Boas taRdes, avozinha, sou eu!

— Tu, que-quem?

— O Capuchinho VeRmelho!

— En-entra, minha meniina, en-entra.

A avó do Capuchinho Vermelho não é tão robusta como a minha e tem uma voz tremelicante.

E depois deve ser surda para confundir daquela maneira a voz da neta com a do lobo. Disse-lhe:

— Boom diaa, minha menina, coomo és simpááticaaa…

E o lobo cortou-lhe a palavra e o pescoço. Clac!

O lobo tem horror de comer avós, e por isso resmungava:

— Ugh! Esta carne é dura, insossa e fibrosa!

Eu acho que não era lá muito agradável para a vovó, mas o Artur riu-se daquilo.

— E o que é isto? Ah, Os óculos! Quase os engolia! Vamos antes pousá-los em cima da mesa-de-cabeceira.

E ouvimos o pac! ao pousá-los. Quando a velhinha, entre ruídos medonhos, foi engolida, o lobo arrotou. O Artur deu um salto e exclamou:

— Oh!

De seguida, o lobo tentou enfiar o pijama da avó, mas fazia tudo ao contrário: meteu a cabeça numa manga, e gritava, já quase sem ar:

— Eu MoRRo asfixiado! Eu sufoco! SocoRRo!

E o Artur tinha um riso contraído, mas não era capaz de se conter.

Por fim o lobo pôs a touca de banho da avó para esconder as grandes orelhas, uma touca de plástico com flores cor-de-rosa.

Eu tinha muita vontade de ver como é que ele ficava assim vestido, e até me apetecia espreitar pelo canto do olho, mas receava que o Artur abrisse logo os dois, porque ele é muito curioso.

O lobo ralhou com a sua voz grossa:

— O primeiRo que olhaR paRa mim, devoRo-o!

Cerrámos as pálpebras com toda a força.

O Capuchinho Vermelho chegou. Não estranhou que a avó lhe dissesse com voz grossa:

— AbRe a poRta, meu tesouRo!

Debruçou-se sobre o lobo para lhe dar um beijo. Ficou um bocadinho admirada quando viu os olhos grandes e a orelha peluda a sair da touca de banho, mas só quando o lobo abriu a boca é que ela disse:

— Avó, que grandes dentes tu tens! Tens uma dentadura nova?

O lobo respondeu:

— É paRa melhoR te comeR, minha menina!

Gostava que o Artur tivesse gritado: ” Capuchinho Vermelho! Pega num pau e bate no lobo, depressa. Faz-lhe frente, nós estamos contigo!” Eu teria gritado juntamente com ele. Mas ele não dizia nada.

O canapé estremecia. Era o Artur que estava a tremer.

Como sempre, sustive a respiração e esperei que a menina do Capuchinho Vermelho fosse comida.

Aquilo demorava muito tempo.

O lobo saboreava-a e fazia muitos ruídos feios com a boca. E eu sentia que o Artur estava a ficar enervado. De certeza que estava farto daquele lobo.

E se ele lhe mandasse um murro na cara, como fez à Amélia, daquela vez que ela o tratou por ouriço-cacheiro por causa do cabelo curto!? De repente senti que ele ia abrir os olhos como tinha dito que faria.

O lobo iria comê-lo! Depois de uma avó desenxabida, os lobos ainda podem comer um Capuchinho Vermelho delicioso, um Artur com óculos e até uma menina rechonchuda como eu…

Então gritei.

— ARTUR! NÃO! — e atirei-me a ele para impedir que abrisse os olhos. O Artur deu um salto como se tivesse sido mordido por uma serpente.

Então eu abri os olhos.

Ainda bem que a vovó teve tempo de voltar a transformar-se em avó.

O Artur estava com a cabeça escondida debaixo de uma almofada e gritava:

— Nãããão! Nãããão!

A Vovó não parecia admirada e disse num tom de voz muito meigo:

— Clac! Clic! Acabou-se o perigo. Podem abrir os olhos. Clic! Clac!

Então, o Artur correu disparado para o corredor. Queria ir embora, tremia todo e devia estar a ver tudo desfocado porque os óculos tinham voado.

A vovó foi encontrá-los junto do telefone. Quando quis aproximar-se dele, o Artur gritou:

— NÃO!

— Artur, não podes ir assim para a rua sem óculos, é perigoso — disse-lhe ela. — Espera, vou endireitar-tos, estão todos torcidos.

Depois daquilo, ele bem deve ter visto que a minha avó era uma bruxa boa porque ela devolveu-lhe os óculos arranjados, dentro duma caixa com bombons.

Mas ele fazia um sorriso forçado. Ainda não estava calmo. Nem pegou num único bombom! Encostado contra a porta, só queria ir embora.

No dia seguinte disse-me, na escola:

— A tua avó é perigosa!

Aquilo fez-me rir.

— Dizes isso porque tiveste medo, Artur.

— Não, eu não tive medo, mas a tua avó é completamente maluca.

— Se voltas a dizer isso, Artur, deixamos de ser amigos.

— A tua avó é maluca, idiota, doida varrida.

— Acabou, Artur, deixamos de ser amigos.

Eu tinha vontade de chorar.

Fui para o fundo do recreio e eis que Íris, a magricela, apareceu.

Anda quase sempre sozinha porque é nova, e quem fala com ela diz que é estranha. É verdade que às vezes usa palavras esquisitas que fazem rir o sr. Monjol, o nosso professor.

O ar triste da Íris transformou-se imediatamente num sorriso, e correu para mim.

— Magali (que sou eu), queria pedir-te uma coisa.

— Diz lá.

Ela hesitava, parecia que, de repente tinha ficado tímida! Depois lá se decidiu:

— Será que um dia podias fazer-me o obséquio de me apresentares à tua avó?

— Fazer-te o obséquio?

Eu estava tão admirada que não sabia o que responder. Ela julgou que eu recusava. Estava com um ar mesmo desiludido.

— Por favor, mostra-me a tua avó, nem que seja só de longe. Anseio por ver a tua avó Lobo! Gostava tanto de ver uma bruxa a sério! Sabes, é que sou uma especialista no assunto, mas nunca vi nenhuma autêntica e o maroto do Artur tem razão. Não vale a pena termos ilusões, a senhora da loja dos animais não tem nada de bruxa e os porcos da Índia que lá tem são animais verdadeiros. É evidente! Vais mostrar-me a tua vovó Lobo?

Janine Teisson

Mamy-Loup

Arles, Actes Sud Junior, 2003

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Pierre Péju

L’archipel des contes

Paris, Aubier, 1989

Excertos adaptados

 

 

O umbigo do conto

 

La Petite Fille dans la Forêt des Contes é um ensaio que faz a apologia de uma prática viva e poética dos contos, e que nos convida a desconfiarmos das interpretações redutoras da moda do momento.

“E depois?” Esta é a pergunta que me apetece sempre fazer quando deparo com as imensas gavetas ideológicas nas quais críticos e intérpretes dos contos colocam as imagens que encontram nas narrativas, mesmo as mais perturbadoras. (Estou a pensar, concretamente, nas 31 funções de Propp e no modelo actancial de Greimas). É que mesmo as explicações mais argutas não conseguem dar conta daquele brilho próprio do conto, que lhe advém dos lugares mais profundos da nossa infância e da noite dos tempos, embora esta continue espantosamente actual. Esses críticos ficam também muito aquém daquilo a que chamo “o umbigo do conto”, esse ponto misterioso que liga uma narrativa aos segredos da nossa vida íntima e aos enigmas da comunidade humana.

Podemos perfeitamente, dentro da modernidade na qual temos de habitar, estudar e ler os contos, contá-los ou escrevê-los, e continuar abertos ao sempiterno trabalho de revelação que nos proporcionam.

Sempre me recusei a medir – em nome de que ideologia? – o “valor” pedagógico ou moralizador de um conto. Não quero estabelecer uma teoria dos contos: apenas pretendo extrair deles o maior número de significados possível e mostrar o vigor do sentido que brota continuamente destas narrativas, sempre disponíveis.

Longe de me lançar numa caça aos símbolos, convido o leitor a considerar os contos, e as suas versões orais ou literárias, como narrativas muito puras, capazes de preservar, na simplicidade aparente da sua forma, verdadeiros enigmas intemporais. Estou persuadido de que o enigma, o texto obscuro sobre o qual nos questionamos, é sempre mais precioso do que a resposta, seja ela qual for. Algumas imagens dos contos equivalem a perguntas jamais respondidas. É este desejo de penumbra que nos leva a considerar a floresta como o espaço por excelência do conto e não como um símbolo entre outros ou como um tema de estudo privilegiado.

O conto interessa-me, primordialmente, porque é um desvio necessário do acto de escrita, porque é um desvio de uma certa forma de vida, à semelhança do que acontece com o sonho. Pretendo agir como um amador, não por modéstia, mas por princípio. Um amadorismo ávido e consciencioso, sem dúvida, mas totalmente oposto a esse desgaste de energia que representam os trabalhos e as pesquisas universitárias dos últimos anos sobre o conto.

O amadorismo é uma liberdade: quando um assunto deixa de proporcionar prazer ao amador, este pode pô-lo de parte, mesmo que continue a nutrir por ele uma certa ternura. O especialista não larga a presa: encarniça-se, esgota-se, e acaba por tornar o seu tema de especialização enfadonho para toda a gente.

Lamento que o “público que se interessa pelo conto”, aquele que encontrei nas conferências que fiz, veja no estudo das “histórias que toda a gente conhece” uma compensação para a sua ignorância, diria até desprezo, em relação à literatura em geral. Este público, por vezes muito decepcionante, agarrado à bóia de salvação do folclore ou da pedagogia, contribui para fazer do conto um género literário marginal ou menor, e acaba por ignorar as vantagens que adviriam de suprimir a barreira entre a oralidade e a escrita, entre a tradição e a modernidade, e mesmo entre mitos, contos, lendas, novelas e romances, quando se trata de compreender de que forma as narrativas nos “marcam” – quer remontem à nossa infância ou ao fundo cultural da humanidade – e de que forma as narrativas constituem os únicos espelhos transfiguradores que tornam a vida visível para nós.

Se os contos me seduziram, não foi por gostar de coisas arcaicas, nem para satisfazer uma qualquer nostalgia dos “bons velhos tempos”, quando as narrativas ainda tinham lugar no seio de uma comunidade ideal. Se os contos são apaixonantes, é porque são narrativas completas e amadurecidas que pairam sobre nós, luminosas como frutos na sombra, sempre disponíveis. Subsistem e persistem enquanto referências flutuantes. Constituem um acervo para sempre aberto.

É pela sua “carne”, e não pelo seu “esqueleto”, que os contos são fascinantes. A sua eficácia e a sua elegância são sempre fonte de espanto para nós: o conto exibe uma economia de meios que torna cada elemento necessário e suficiente.

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Serão

 

A noite tinha para nós o atractivo das histórias. Depois da ceia, mamãe arrumava tudo e lavava a cara a Lela e Nanduca. Já não havia o receio de sairmos para a cabritagem da rua. Àquela hora tolhia-nos o medo do escuro… Tudo arrumado e rezadas as orações, mamãe e mamãe velha iam sentar-se na salinha, onde já estávamos, acomodados em bancos. A casa enchia-se de meninos. A nossa imaginação vivia apaixonadamente no mundo variado que as histórias criavam. Acaçapado ao pé de mamãe velha, o Baluca também fazia parte do serão, de orelhas caídas e cabeça pensativa, como se estivesse recordando as roncações da sua mocidade com as cadelinhas levianas que lhe davam trela.

Grande contadeira de histórias era Nhá Rosa Calita, velha pretona a quem os rapazes trocistas chamavam Camões, por lhe faltar um olho em virtude de pau-de-finado mal curado. E que lábia que ela tinha! Era um gosto ouvir-lhe referir aqueles casos todos, contos de meninos presos, a engordar, dentro de caixas grandes, por velhas feiticeiras, pastorinhos que casavam com a filha do rei, rapazotinhos sabidos que tinham enganado Aquele Homem – pelo sinal da Santa Cruz – e as demoniarias das feiticeiras que iam ao Esponjeiro tomar ordens do seu chefe, um diabo trocista, de cara descarada, e depois saíam, transformadas em bichos, a agoirentar a vida da criatura.

― História, história!

― Fartura do Céu, ámen!

― Era uma vez uma princesa que andava a correr mundo à procura de Passo-Amor, seu noivo, mas para o alcançar tinha de furar a sola a sete sapatos de ferro:

Acorda, Passo-Amor,

há mil léguas em procura de ti…

Chegou a casa da mãe do vento, e esta escondeu-a dentro de um cancarã. Entrou o filho, muito malcriado, com grande barulho, catã, catã, e disse:

― Aqui cheira-me a sangue real…

Nós todos queríamos mais e mais histórias. A ouvir Nhá Rosa Calita o sono fugia-nos totalmente…

― Certa ocasião havia grande fome na terra. Desde dois anos o mês de Outubro não dera pinga de água para refrescar a planta, já amorrinhada do léu-léu escasso de Setembro. Um homem de Fajã de Baixo vivia na sua casinha com duas filhas, já raparigas, na vida castigada da pobreza. Vocês sabem, pobre é como cama de chão, todos lhe passam por cima. Um dia, assim que os galos deram a última pousa (tinham dormido sem cear), saiu com as filhas a furar a vida onde Deus fosse servido de mostrar a Sua misericórdia. Andou, andou, passou a Assomada do Mancebo, e ali em direitura de Fragatinha encontrou grande estendal de batata conteira num fundo de quebrada. Encheram os balaios, mas o homem, com a voz cheia de respeito, recomendou às filhas:

― Oh, minhas filhas, vocês não dêem a ninguém conta desta senhora comida!

E seguiam os pormenores da história, em que a humildade e a modéstia eram premiadas com um saco de dinheiro e a cobiça arrogante era castigada com um açoite de pau de tamarindo.

Mamãe velha dormitava na cadeira de balanço, pois, além de ser já pessoa antiga e ter o corpo queixoso, levantava-se logo assim que os galos davam a última pousa, no alvor nascente da antemanhã. Mamãe, essa, entretinha-se na sua renda de duas agulhas, cuja perfeição de acabado era muito gabada pelas menininhas luxentas da vila. Mas nós, os garotos, ficávamos despertos, de sentido cegueirado nas histórias…

Baltasar Lopes

(de Chiquinho)

Luísa Dacosta

De mãos dadas, estrada fora…

Porto, Ed. Asa, 2002

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 A importância do conto de fadas PDF

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