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Archive for the ‘sociedade’ Category

Beatrice Alemagna

Le trésor de Clara

Paris, Autrement Jeunesse, 2000

O tesouro da Clara

 

A Clara vive no Brasil.

Não tem quase nada. Tem uma pele de âmbar e cabelos pretos. Veste uma t-shirt grande e, nos pés, traz sandálias de borracha, faça chuva ou sol.

A Clara tem doze anos. Trabalha num orfanato. Tem de limpar a cozinha e, de vez em quando, pode fazer de mãe dos mais pequeninos. E gosta muito disso.

À quinta-feira, é o dia de descanso da Clara. É então que sai…

A cinquenta metros, perto de um banco que está fechado, estão todos juntos à espera dela. Olham uns para os outros, sorriem, regalam-se de antemão. São os seus amigos: a Lúcia, o Ângelo e a Ana. Não têm casa e dormem onde calha, nas ruas do Rio.

A Lúcia tem oito anos. Os seus cabelos são como ninhos de andorinha. As mãos e os pés mexem-se constantemente e ela está sempre a rir.

O Ângelo é pequeno mas muito forte para os seus onze anos. Um dia, conseguiu mesmo levantar uma bicicleta. Está sempre descalço. Caminha sem problemas sobre as pedras. Canta as canções escritas por aqueles que viajaram e viram muitos países. Canta muito bem, o Ângelo.

A Ana é a mais bem comportada. Não fala muito. Tem doze anos, tal como a Clara, que conheceu há muitos anos, naquele sítio, diante do banco.

Por vezes, a Lúcia, o Ângelo e a Ana vão trabalhar na produção do algodão. Outras vezes, varrem as ruas. Ou então, os pescadores chamam-nos à praia para puxar as redes. Depois, encontram-se, sonham em conjunto, com o nariz no ar, a olhar para as nuvens e a contar os dias até quinta-feira.

O Ângelo, a Lúcia e a Ana têm muitos amigos na rua. Alguns respiram uma cola contida em garrafas de plástico, o que os faz sorrir sem razão nenhuma.

Quando a Clara encontra os amigos, vão todos a correr para a praia. Atiram areia à cara uns dos outros. Cantam Pescadores dos três mares e comem o pão que os turistas lhes dão. A Lúcia, o Ângelo e a Ana não querem daquela cola que faz esquecer os problemas.

Eles têm a Clara. A Clara é a mercadora de sonhos. Não é que os venda realmente; em vez disso, dá-os de prenda.

A Clara sonha muito alto com lugares maravilhosos. Praias compridas e douradas com barcos, papagaios de papel e papagaios de verdade. Montanhas encantadas cobertas de gelo e criaturas estranhas, onde sopra um vento mágico, do norte, que te adormece e te acorda cem anos mais tarde. Cidades futuras cheias de luz. De carros que voam e de parques de estacionamento floridos. E de um fogo de artifício feito de pequenos comboios brilhantes, de pizzarias e de arranha-céus espelhados.

E a Clara fala-lhes de um Rio sem adultos, onde só há crianças, gentis e alegres, que têm os dentes todos. Saltam sobre os carros e invadem as lojas de bombons. Ela oferece-lhes vales inteiros de árvores carregadas de frutos, com quatro sóis amarelos no meio do céu e com camponeses ricos, vestidos como comerciantes. E a Clara transforma os monumentos antigos da cidade em palácios das Mil e Uma Noites, e os gatos que passam em tigres da Malásia.

A Clara conta os seus sonhos durante horas. Ela estudou quatro anos na escola e lê todos os livros que encontra.

Agora, é tarde. A Clara levanta-se, sacode a areia das mãos e volta para o orfanato. Os amigos escutaram-na, de boca aberta. Riram e choraram. E os olhos deles arregalar-se-ão de novo na próxima quinta-feira. Para eles, não há cola.

Eles têm a Clara.

E muitos sonhos bons para viver ainda…

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Rita Pimenta,

in Público, Pública,

5 de Agosto de 2001

Excerto

 

Quem conta um conto…

“Toda a gente sabe contar uma história.” Será? Dois contadores profissionais falam da importância dos contos e de uma ou outra regra para narrá-los bem. Tem de ser um acto de amor, dizem.

Stória, stória

Furtuna di Séu, ámen

As histórias da noite fazem parte de um ritual sagrado para muitas crianças, que muitas vezes é profanado pela falta de tempo, cansaço, má-disposição… Vale a pena não desistir. Todos concordam: os contos são fundamentais para alimentar o imaginário. Contá-los é um acto de amor, dizem os contadores.

E dizem também que o melhor é pôr os livros de lado e contar, olhos nos olhos, que há um menino que ganhou asas para procurar o ó-ó; que um lobo se aproxima do jardim onde brinca o Pedro; que uma carochinha anda à procura de marido. Uma história é sempre melhor quando não há barreiras entre o narrador e o ouvinte.

Também ajuda lembrar as histórias que nos contavam os avós, os pais, os professores. É bom recordar situações de infância, diz António Fontinha, contador de contos profissional. Há um mundo, que tem a ver com a memória, que é aquele que se está a tentar reacender. Temos de fazer arqueologia: ir aos sítios a que a memória está ligada, falar com as pessoas.

O conto é importante para ajudar a desenvolver o espaço da oralidade em casa. Temos de reconstruir o espaço da oralidade para conviver ao nível do imaginário.

Não há receitas para contar bem uma história, porque o que serve a um pode não servir a outro. Mas, diz, pode haver algumas técnicas: a repetição é uma regra de ouro. As personagens ganham vida com o tempo. Começa-se a experimentar coisas. Diz-se que quem conta um conto acrescenta um ponto. É esse ponto, o pormenor, que vai evoluindo.

Isso também só acontece com as histórias que dão prazer contar. O que leva à segunda regra: Nunca devemos contar um conto de que não gostamos.

Toda a gente sabe contar uma história, defende o contador cabo-verdiano Horácio Santos. E, recorrendo também ao ditado popular, o contador acrescenta: A forma de contar é que é o ponto. Ninguém conta a mesma coisa da mesma maneira. Horácio Santos prefere também ter as mãos livres de livros e recorrer à memória. Com um livro perde-se a capacidade de recriar. Quando conto, desdobro-me em personagens. O livro prende o contador e parte o entusiasmo.

Para o contador cabo-verdiano, todas as histórias são boas para crianças, mesmo as que têm violência. No original, o Capuchinho Vermelho morreu. Qualquer história tradicional, popular, tem partes violentas. Podem, no entanto, evitar-se certas palavras, procurar outras que acertem melhor.

Horácio Santos começa sempre as suas sessões de histórias com uma tradição trazida de Cabo Verde:

Stória, stória

Furtuna di Séu, ámen

(História, história, dádiva do céu, ámen)

Porque um conto é uma graça divina. Todo o tempo dedicado a contar uma história é um tempo fértil, que germinará, diz por sua vez Fontinha. Tudo o que se dá à terra, a terra devolve. A terra não é madrasta. O imaginário, transmitido pelos contos, também não. É um património que acompanha as crianças, que as cultiva. Um contador de histórias é sempre um educador: os contos passam valores , continua Fontinha.

E é também por isso que Horácio Santos defende um trabalho depois da história: terminado o conto, há que identificar os elementos, ambientes, personagens, para que a criança possa descodificar e recontar o que ouviu: Fazer o exercício da memória. Neste processo, a criança estabelece o diálogo com os pais.

Fontinha sugere que os adultos entrem agora no mundo do narrador e que não o esgotem nos próximos anos, apenas enquanto os filhos são crianças; pelo contrário, defende que este papel deve ser prolongado por toda a vida. O resultado será uma forte cumplicidade entre pais e filhos. E uma recuperação da tradição oral.

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À beira do lume

 

Sossegadas as balbúrdias do dia, já a noite vinha devagarinho deitar pozinhos de sono por aqui e por ali.

Sentadas à lareira da velha casa, a avó e a neta começaram a pensar qual havia de ser a última história do dia.

― Conte lá a história da Carochinha! ― pediu a Mariana.

A avó admirou-se:

― Outra vez?! Mas tu nunca me deixas acabar como deve ser…

― Hoje deixo! ― prometeu a menina.

E a avó contou a história da Carochinha, como ela é conhecida. Falou da Carochinha à janela, toda contente por ter encontrado uma moeda ao varrer sua casinha:

― Quem quer casar com a Carochinha que é formosa e bonitinha?

― “Quero eu, quero eu!” ― tinham dito um cão, um gato, um galo, um boi, um burro…

Mas a Carochinha não tinha gostado da voz de nenhum deles e todos se tinham ido embora. Até que apareceu um ratinho: “Quero eu, quero eu!”

― Oh, como és engraçado! Ora fala um bocadinho, para eu ouvir bem a tua voz!

― Chi… Chi… Chi…

― Que linda fala! Vamos já casar! Vamos já casar!

E assim foi. No dia da boda, já iam a caminho da igreja para o casório, quando a Carochinha deu por falta de uma luva que tinha esquecido na cozinha, ao mexer o panelão que fervia ao lume.

― Vou já buscar a luva! ― disse o ratinho, muito amável.

― Tem cuidado, não te debruces no caldeirão!!! ― avisou a noiva.

― Bem ― continuou a avó ―, o ratinho foi até à cozinha e…

A neta, que ouvia a história com muita atenção, disse de repente:

― Mas a porta estava fechada!!!

A avó continuou:

― Pronto, a porta estava fechada e então o ratinho foi logo a ver da chave…

― Mas não a encontrou!!! ― disse muito depressa a Mariana.

― Bem ― continuou a avó ―, o ratinho então subiu a um postigo de grades que dava para a cozinha, e…

― Viu que não cabia por entre as grades!!! ― acudiu muito aflita a Mariana.

A avó não desistiu:

― Bem, então o ratinho, que era muito esperto e queria ir buscar lá dentro da cozinha a luva da Carochinha, pôs-se à procura de um buraco na porta pelo qual entrasse…

― Mas não encontrou!!! A porta era nova! ― interrompeu a Mariana.

― Bem, então não pôde ir buscar a luva da Carochinha à cozinha e voltou muito triste para junto da sua noiva, que…

― Ó avó, escusa de dizer agora que ela lhe deu a chave da cozinha, porque eu sei que não deu nada!!! ― quase gritou a neta.

― Por acaso era isso mesmo que eu ia dizer… — riu a avó.

E as duas, avó e neta, ali ficaram a rir e a brincar à beira do lume e à beira de uma velha história da Carochinha que a neta não queria, por nada deste mundo, que acabasse

“com o João Ratão

 cozido e assado

 dentro do caldeirão!”

 

Maria Alberta Menéres

Histórias de tempo vai tempo vem

Porto, Ed. Asa, 2002

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 A importância do conto de fadas PDF

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