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Archive for the ‘sociologia’ Category

Um esqueleto no armário…

Conhecemos os nossos filhos como a palma da mão. O formato das unhas, o recorte das orelhas, as risadas deles, os caprichos e as cóleras… É natural. No fim de contas fomos nós que os “fizemos”… No entanto, algo começa a escapar-nos desde muito cedo – pela simples razão de que a vida, a verdadeira vida, sempre nos escapa…

Eles têm os seus segredos, os seus “esqueletos no armário”, as suas angústias e perguntas: “Por que é que eu gosto dela e ela não gosta de mim?”, “E o papá, como é que ele se sentirá lá em cima? Estará bem, ao menos?”, “E Deus? Achas mesmo que ele existe?”

E nós, que os imaginávamos ainda na idade dos chupas-chupas, dos escorregões, damos com eles carregados de perguntas, de segredos. Nós, as “mamãs-corujas”, sentimos por vezes um assomo de nostalgia e pensamos: “Ainda tão novo… e já vem com estas perguntas!”

Sim, é verdade. É inútil esperarmos que ele calce 39 para o vermos interrogar-se sobre o curso do mundo. As crianças não se deixam enganar pelos nossos sorrisos postiços nem pelas nossas tentativas para as protegermos do mal. Não estão ao abrigo das pequenas feridas da existência e das questões metafísicas.

Também são picadas pelas urtigas do mundo, mesmo que, a cada dia que passa, nós, pais, tal como o Principezinho, tentemos aplanar os nossos pequenos mundos e expurgá-los de todos os embondeiros que possam vir a feri-las. Não nos deixemos enganar pelo seu silêncio. Mesmo antes do cataclismo da adolescência, os nossos filhos não vivem em nenhum mundo cor-de-rosa.

Aos 3-4 anos começam a ter consciência da morte. Por volta dos 10, sabem que ela é definitiva. Por isso, como falar-lhes da morte, da sexualidade, da amizade, do dinheiro, da tristeza e da angústia, da solidão e da camaradagem? Do divórcio e dos conflitos?

 

 

A criança cósmica

 

Filósofa lá no fundo de si mesma, a criança passa os dias num local, a escola, que responde a tudo… excepto às suas interrogações. Entre as aulas de Geografia, de Matemática ou de Formação Cívica, não há lugar para filosofias!

Cuidado para não sufocarmos à nascença a centelha de filosofia que existe nela. Por vezes, temos muita pressa em fazer das crianças pequenos adultos, cem por cento adaptados ao mundo real, verdadeiros campeões de adaptação, que trazem boas notas e correm do judo para as lições de violino, sempre a sorrir (mesmo que o sorriso seja postiço).

Cuidado com aquelas pressões que, conforme escreve Pierre Péju, mantêm a criança no que é infantil, para depois a precipitarem nos problemas da pré-adolescência, sem nunca terem deixado aflorar as grandes questões . E se deixássemos de a amordaçar… E se nos esforçássemos desde o início por a abrirmos às grandes questões?

 

Período de latência, período de silêncio

A idade da razão é denominada pelos especialistas de “período de latência”. É um momento muito especial. Pressupõe-se que os nossos “ex-pequenos” tenham interiorizado os interditos. Já não choram nem gritam a plenos pulmões. Quando muito, queixam-se de alguma dificuldade em adormecer. Os pais respiram de alívio.

Este período abençoado, depois da fase dos “caprichos ao rubro” e antes da fase conturbada da adolescência, decorre de forma sub-reptícia. E, como não faz barulho, é fatalmente esquecido.

Mas não é pelo facto de a nossa “criança” ter hoje seis ou sete anos que ela se tornou mais sossegada. Pelo contrário: de acordo com os especialistas, a inquietação é o traço dominante deste famoso período. Embora menos espectacular do que o dos quatro anos.

Temos de reconhecer que a escola e a sociedade contribuem para “amordaçar” a criança. A partir da primária, tem de se dizer adeus à fantasia, aos joguinhos e aos escorregões no recreio. E coitados daqueles que não se põem na linha.

Mas as crianças adaptam-se a tudo. Adaptam-se ao papá que chega tarde, à mamã que não tem tempo para lhes responder, ao ritmo escolar que não é o adequado. É quase assustador, se pensarmos bem.

 

 

E a criança lunar?

 

Não critiquemos a escola. Também nós, pais, passamos o melhor do nosso tempo a lisonjear a criança real, a criança “solar”. E que tipo de discurso é o nosso? “O que fizeste nas aulas? Arruma o teu quarto, vai escovar os dentes (pelo menos durante três minutos), come os legumes e despacha-te!”

Uma espécie de “voz de síntese”, um tudo-nada metálica, que soa como um eco longínquo e nos lembra afinal o que detestamos: a repetição inexorável e arcaica dos “deveres” da existência. Mas, e a verdadeira vida? Por que a esquecemos tantas vezes?

Sem dúvida, devido à falta de tempo. Porque é preciso andar depressa! Porque, obcecados pelo desempenho, pelas boas notas e pela visibilidade das coisas, acabamos por só nos dirigirmos ao seu lado menos bom: a criança solar, que dorme, come, trabalha e aprende. E a criança lunar, o poeta que sonha, que pensa, que sofre em segredo? Muitas vezes fica esquecida. Talvez não saibamos como falar com ela…

 

Não ao cerco das perguntas!

 

Ao chegarmos a casa à noite, o que pretendemos é retomar um diálogo que não teve lugar durante o dia.

O nosso filho estava na escola, nós, no escritório. Temos de conversar. O que fazemos então? Recorremos a um interrogatório cerrado, do género: “Então, querido(a)? Como passaste o dia? Comeste bem?” Até ao inevitável: “Tiveste boas notas?”

Claro que tudo é feito com boa intenção. Mas isto soa a interrogatório policial, do género: “Nós temos meios de vos fazer falar!” De resto, os resultados são quase sempre decepcionantes. E o nosso pequeno entrevistado fecha-se no seu mutismo.

A solidão da criança é mais secreta do que a do adulto diz Bachelard na sua Poética do devaneio [1].

É verdade, senhor poeta, é tão verdade que nós, mães, ficamos irritadas com os segredos dos filhos. Nós que, ao chegarmos a casa, gostaríamos tanto de, integralmente, “recuperar o nosso rebento”, de o ouvirmos contar como foi o seu dia. Só que… o rebento oferece resistência. E a comunicação demora a estabelecer-se.

As crianças detestam a intromissão, a curiosidade dos adultos. São exímias a escapulir-se às nossas perguntas. Fazem lembrar as enguias. Uma expressão de contrariedade, um suspiro: “Chega de perguntas”, “Deixa-me em paz”… “Está bem, desculpa”.

 

As histórias criam laços…

 

É aqui que entra a história contada à hora de dormir. A história cria laços entre os pais e os filhos, sobretudo numa época em que passamos o melhor do nosso tempo longe deles. Através da história contada ao deitar, não lhes falamos com todo o nosso poder de mães dominadoras, mas “comungamos” com eles, deste ou daquele problema.

Por meio do “deslocamento poético” e da distanciação, a história fala-lhes de um outro eu: uma personagem que não os angustia e que os encoraja a falar. Sente o seu filho triste, deprimido? Comece por: “Era uma vez”, uma distanciação no tempo que o “desangustia” e desinibe. Porque a personagem, o coelhinho, o pequeno ratinho, o principezinho ou a fada, é ele e um outro.

Quando ele ouvir a história da princesinha que se tinha fechado na sua torre, de tão triste que estava, ficará tranquilo – era tão longe, foi há tanto tempo – e a distância faz desaparecer a angústia.

Perante um diálogo mais difícil, a história permite recolher confidências de uma forma mais eficaz do que se se abordar os assuntos de uma maneira frontal. Recebe-se mais quando “se dá” do que quando se pretende tirar à força.

Da boca do adulto ao ouvido da criança, os contos são as primeiras confidências filosóficas. Pela primeira vez, a criança vive a experiência do universal: ultrapassa as fronteiras estreitas do “eu”, o gueto do “ego”… As histórias criam uma ponte entre nós e os outros e fazem-nos sair do casulo do nosso pequeno mundo.

Tornar-se adulto, escreve acertadamente Albert Jacquart no prefácio de Qui a lu petit lira grand [2], é ser-se introduzido num novelo de encontros. Sim, a leitura, aberta ao outro, cria um extraordinário mundo de encontros, porque convida à empatia e à emoção.

 

Emoção… e ideias

É a palavra-chave: emoção. E também aquela que diferencia a história do discurso moralizador. Não se imagina a que ponto o livro é capaz de transmitir emoção. À medida que as crianças o vão folheando, sentem a revolta da Cinderela, o medo de Branca de Neve, choram ao ouvirem o que diz a menina dos fósforos (que lhes fala também de Deus e do que está para além da morte).

Deliciosa leitura, aquela que é experimentada pelos primeiríssimos leitores. Daniel Pennac evoca esta maré viva em Comme un roman [3]:  Satisfação imediata e exclusiva das nossas sensações: a imaginação expande-se, os nervos vibram, o coração bate apressado, a adrenalina sobe…

As histórias falam também de subconsciente a subconsciente, e não do córtex ao neo-córtex! A emoção que as crianças sentem diante da leitura de uma história abre nelas como que uma brecha…

Os olhos brilham, os sorrisos abrem-se, o rosto ilumina-se, o queixo treme. Algo se passa, diz o poeta, alguma coisa oscila. Porque a emoção é um inevitável vector de ideias, de longe bem mais eficaz do que qualquer discurso racional!

E, de repente, nesta íntima “oscilação” do ser, sentimo-nos prontos para compreender tudo: as pequenas feridas, as questões sérias, os sofrimentos dos outros. E os nossos. A emoção é uma extraordinária chave de acesso às ideias.

 

Um amorzinho em vez de outro…

 

Aos 5, 6, 7 anos, o nosso filho deixa progressivamente a sua babete, o seu paninho de estimação, o seu velho ursinho de pelúcia. Deixa o mundo do amorzinho exclusivo, para entrar no dos amorzinhos múltiplos, por outras palavras, no da filosofia, no da história, no dos outros. Mas não terão também as histórias a função de permitir uma transição?

Vejam os mais pequenos, que chegam orgulhosamente ao infantário ou à escola, de manhã, trazendo na mão um pequeno livro, uma história que lhes fala deles próprios, uma história com que, durante todo o dia, se deleitarão – mesmo sem saberem ler. E vasculhemos também as nossas sacolas: há sempre um velho livro, de folhas já gastas, ao lado de uma fotografia de férias ou de um pequeno caderno.

A história da noite tem também uma função terapêutica e transicional. Saboreamo-la como uma guloseima, antes de adormecermos. Como uma luz de presença no corredor, que nos une aos outros antes do mergulho na noite.

 

 

O ritual da história da noite

 

Estas histórias da noite são um momento de magia roubado à vida. Instalamo-nos confortavelmente, esquecemos tudo. As discussões, as pequenas feridas, as censuras, os dentes não lavados. Pais e filhos vêem-se pouco? É preciso manter vivo o ritual da história contada antes de adormecer: minimum vital, pausa indispensável.

Lemos à noite: a criança sente-se protegida por múltiplos rituais. Daí as crises de lágrimas quando se vê privada da história da noite – é pior do que ser privada de sobremesa. Adoptamos rituais relacionados com a história, procurando criar um ambiente apropriado: apaga-se a luz, acende-se uma pequena lâmpada, faz-se silêncio.

Apanhamos o tom, modificando a voz. Uma voz muito grossa, uma muito fininha para os ratinhos, etc. Sobretudo, deixar aflorar a emoção… Em suma: é preciso empenho. Já repararam que, quando lêem uma história “em cima do joelho”, os nossos filhos podem pedir outra, e depois outra? Mas, quando ficam realmente satisfeitos, não costumam pedir mais…

 

 

Pequenas pedrinhas brancas… para pequenos polegares pensantes!

A história é a guloseima, antes da longa separação da noite. É como uma lampadazinha que a criança poderá meter debaixo do travesseiro. Uma ideia, uma imagem para afagar, para chuchar, para remexer em todos os sentidos. É o que os bebés pressentem quando se lhes dá um livro, que eles viram de pernas para o ar vezes sem conta! “Sim”, dizem na sua linguagem. “Há alguma coisa de essencial e de misterioso. O livro é mágico.”

Lendo uma história aos nossos filhos, fornecemos-lhes uma mão cheia de pedrinhas brancas – que os pássaros não comerão. Levá-las-ão consigo, ao longo do caminho, rumo à floresta obscura. Perdidos no escuro, assolados de perguntas, dúvidas e angústias, saberão desenvencilhar-se. E tirar proveito delas.

 


[1] Gaston Bachelard, Poética do Devaneio, São Paulo, Ed. Martins Fontes, 1988.

[2] Causse Rolande, Qui a lu petit lira grand , Paris, Plon, 2000.

[3] Daniel Pennac, Comme un roman, Paris, Gallimard, 1995.

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Rosa Mª Badillo Baena

Contos para “delfins”. Auto-estima e crescimento pessoal. A Didáctica do Ser

Porto, Asa Editores, 2003

Excertos

E fazei aquilo que a vós

não houve quem fizesse para que em cada

geração as árvores cresçam mais direitas.

            Cayetano Arroyo

As folhas da tília

 

 

Quero explicar-vos, amigos, por que motivo escrevo contos. Até há muito pouco tempo não me apercebera da magia que ficou presa às minhas mãos quando, em menina, brincava com as folhas da tília. Não podia guardar por mais tempo este maravilhoso segredo e por isso aqui deixo a minha história.

Havia na minha escola uma árvore gigante e frondosa cujos ramos cresciam ao longo do grande muro do pátio onde jogávamos nos recreios. O seu tronco era pequeno, mas a sua força era imensa, pois conseguira chegar ao céu. Era pelo menos o que me parecia a mim, que a ia contemplar, enquanto lanchava, para em seguida brincar com as suas folhas. Recordo como me esticava para colher a mais bela das suas folhas, tão larga e verde, de tão requintado perfume, que para meus olhos ela continha em si todo um bosque. Devo dizer que foi esta a única árvore da minha infância, pois cresci numa rua órfã de amigos verdes. Logo que conseguia colher uma folha, acariciava-a por trás e pela frente, consolava-me ao tocar a sua superfície rugosa, depois cheirava-a profundamente, diria mesmo que a escutava através do meu nariz, e um pouco depois começava o ritual. Lentamente, muito lentamente, ia-a despojando da sua carne até lhe deixar apenas as veias que sulcavam a sua enorme superfície. Faziam-me lembrar grandes rios e pequenos afluentes que iam ficando sem o verde-mar dos seus vales e ribeiras para entretenimento de uma menina que brincava a ser feliz sem o saber. Acabado o ritual, a fragrância líquida daquela árvore impregnava as minhas mãos como uma oferenda anónima da vida ardente que palpitava dentro dela.

Cresci e nunca mais tive notícias da árvore da minha infância. Andei no instituto, na universidade, comecei a escrever coisas muito sérias e difíceis de entender para uma criança. Também eu me converti numa mulher muito séria que dava conferências, ensinava, escrevia artigos de carácter social e conhecia muita gente. Fui andando pela vida sem saber que algo despertava em mim, um mistério profundo que me acompanhara desde a infância. Esse mesmo que começou a florescer quando escrevi o primeiro conto. Até eu própria me admirava ao ver a forma como das minhas mãos fluíam as histórias fantásticas de muitos seres que como personagens nasciam do meu coração. Não conformada com isto, comecei também a escrever poesia, e foi exactamente uma amiga poetisa que me deu a primeira pista do que seria o grande segredo da minha vida. A minha amiga Alícia Wagner falou-me um dia de uma árvore venerada pelos alemães, que crescia junto das fontes e das escolas, e que era a tília. Cantou-me depois uma canção sobre ela, cheia de saudade; e despertou em mim uma estranha curiosidade de conhecer essa árvore que inspirava assim tão belos sentimentos.

Foi, sem dúvida, uma porta que se abriu para me dar a conhecer a origem da magia que impregnava as minhas mãos. Um dia, sem contar, abri um livro sobre árvores e deparei com uma grande tília com as folhas desenhadas em ponto grande. A minha memória, que permanecera adormecida, recordou finalmente a árvore que havia impregnado a minha infância de verde esperança. Senti um imenso amor por quem tinha sido a minha companheira de jogos, mas o que eu não sabia é que ia ficar impressionada ao ler as pequenas letras daquela página onde se apresentava a sua silhueta.

Dizia aí que aquela árvore era a favorita das fadas, que nela habitavam desde tempos imemoriais, por um motivo: deixar impressa em cada uma das suas folhas a fórmula mágica que iria impedir que os contos se acabassem no Mundo. Porque a criança que tocasse uma das suas folhas receberia o dom de escrever contos sobre as coisas sagradas deste planeta. E mais, mesmo que não quisesse escrevê-los, mais tarde ou mais cedo, acabaria por contá-los, pois a seiva havia de estimulá-la a imaginar histórias que teria irremediavelmente de parir se não quisesse morrer de tristeza por estar tão prenhe de contos e de lendas e não poder dá-los à luz.

Olhei para as minhas mãos e fiquei apaixonada pelo segredo que elas continham; por ter brincado com as maravilhosas folhas da tília quando era criança tinha agora a profissão mais formosa e luminosa: descobrir a magia sagrada que impregna todas as coisas, o profundo mistério que anima a vida e escrever isso, depois, em forma de conto. Senti-me deveras uma fada, porque agora aquela árvore mágica que crescia dentro de mim podia contar com todas as minhas forças para poder dar fruto. E escreveria um conto por cada uma das folhas com que brinquei.

Posso, pois, afirmar que os contos são um dos maiores tesouros da humanidade. Desde tempos remotos que nos têm ajudado a viver, dando-nos forças para superar os conflitos e encontrar a luz na escuridão. Foram os canais de transmissão de uma sabedoria tão profunda que acabaram por tornar possível passar através dos tempos o calor da humanidade e a importância de continuarmos vivos de geração em geração.

Creio que devemos dar especial atenção aos contos que nos revelam a problemática da existência, embora de forma simbólica, e nos oferecem alternativas; porque hoje, mais do que nunca, há que acreditar no poder da vida. Nós, adultos, sabemos que as condições sociais não oferecem horizontes às novas gerações. Vemos como boa parte da juventude se destrói, absorvida pela espiral do consumismo, da droga e da violência. E perguntamos: que sucederá aos nossos filhos, aos nossos alunos? Como educá-los para o mundo que lhes coube em sorte?

A sociedade exige profundas mudanças e lança-nos importantes desafios no sentido de evoluirmos através dos grandes conflitos que surgem diariamente. A escola e a família também têm de evoluir para uma educação mais consciente. É necessário que comecem a transmitir auto-estima às crianças, de forma a que, quando crescidas, possam enfrentar e transformar a realidade. A meu ver, o valor da auto-estima é o bem mais apreciado dos nossos tempos; permite à pessoa acreditar em si mesma e conhecer os seus recursos, a fim de criar o seu lugar no mundo.

 

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A Mãe dos Contos

 

Onde, como e porque nasceram os contos? Houve uma mulher que o soube, no dealbar do mundo. Quem lho contou? A criança que ela trazia no ventre. Quem o contou à criança? O silêncio de Deus. Quem o contou ao silêncio?

A criança que ela trazia no ventre. Quem o contou à criança? O silêncio de Deus. Quem o contou ao silêncio?

Na grande floresta que existia no princípio do mundo, vivia um lenhador rude e a sua mulher triste. Viviam pobremente numa casa térrea, na clareira de uma floresta. Só tinham por vizinhos animais selvagens e, através da fresta que tinham no tecto, viam apenas passar ventos, chuvas e sóis. Mas não era a monotonia dos dias que entristecia a mulher deste lenhador, e que a fazia chorar, sozinha, na cozinha. Se assim fosse, ela ter-se-ia habituado: haveria anos melhores e anos piores.

Infelizmente, o marido tinha a alma tão bravia quanto emaranhadas eram a sua barba e a sua cabeleira. Era isso que perturbava a mulher. Ao toque, o homem era como um arbusto de espinhos. Quando beijava a companheira, fazia-o a resmungar e não sem antes lhe ter batido. Todas as noites se repetia a mesma cena. Quando chegava da floresta, o lenhador empurrava a porta com o ombro. Com um grosso cajado de madeira na mão, arregaçava a manga direita, aproximava-se da mulher, que tremia a um canto, e espancava-a. Era a sua maneira de lhe dar as boas noites.

Mil dias, mil noites e mil sovas se passaram. A mulher aguentou, sem uma palavra de revolta, a pancada de que era alvo todas as noites. Até que chegou uma alvorada de Verão. Nessa manhã, à medida que via o marido afastar-se em direcção às grandes árvores, com o machado a tiracolo, a mulher pôs as mãos nas ancas e, pela primeira vez, desde o dia do seu casamento, sorriu. Sentia que uma nova vida despontava no seu ventre. “Uma criança!” pensou ela a tremer, maravilhada.

Mas a sua felicidade foi efémera, pois logo a assaltou um medo como nunca havia sentido. “Que desgraça! Quem a protegerá se o meu marido me continuar a bater? Pode atingir a criança. Ainda a mata antes de ela nascer. Como hei-de salvá-la? Salvo-a se não for mais espancada. Mas como posso evitar voltar a ser espancada, Senhor?” Reflectiu nisso durante todo o dia com tanta preocupação, tanta força e tanto amor pela vida do filho que iria nascer que, à noite, sentiu que uma luz despontava.

Observou o marido que, como era hábito, regressou dos bosques ao cair da noite. Quando este, a resmungar, levantou o braço nodoso e se preparava para lhe bater com o cajado, a mulher pediu-lhe:

— Espera, meu senhor! Hoje aprendi uma história. É muito bonita. Ouve-a primeiro e bater-me-ás depois.

Não sabia o que ia dizer, mas lembrou-se de um conto. Foi como se uma nascente cristalina e alegre tivesse começado a brotar. O homem ficou como que cativo diante dela, tão espantado e contente que até se esqueceu de lhe bater. A mulher falou durante toda a noite. E durante toda a noite ele a escutou, com os olhos arregalados de espanto, sem sequer se mexer. Quando o dia iluminou de novo a fresta da cabana, ela calou-se por fim. O marido viu a alvorada, suspirou, pegou no machado e foi trabalhar.

Quando a noite caiu, a mulher contou-lhe de novo uma história. Fê-lo durante nove meses, para proteger a vida que trazia no ventre. E quando a criança nasceu, o homem soube o que era o amor. E quando o amor nasceu, os contos daqueles nove meses invadiram a terra. Bendita seja esta mãe que os pôs no mundo. Sem ela, ainda hoje só os cajados falariam.

Henri Gougaud

L’Arbre d’Amour et de Sagesse. Contes du Monde Entier

Paris, Éditions du Seuil, 1992

Adaptação

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 Os contos e os mitos no ensino. Uma abordagem junguiana I

A trama dos contos de fadas e o processo de individuação

EROS E PSIQUE

 

Conta a lenda que dormia

Uma Princesa encantada

A quem só despertaria

Um infante, que viria

De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,

Vencer o mal e o bem,

Antes que, já libertado,

Deixasse o caminho errado

Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida

Se espera, dormindo espera.

Sonha em morte a sua vida,

E orna-lhe a fronte esquecida,

Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,

Sem saber que intuito tem,

Rompe o caminho fadado.

Ele dela ignorado,

Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino,

Ela dormindo encantada,

Ele buscando-a sem tino

Pelo processo divino

Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro

Tudo pela estrada fora,

E falso, ele vem seguro,

E vencendo estrada e muro,

Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,

À cabeça, em maresia,

Ergue a mão, e encontra hera,

E vê que ele mesmo era

A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa

Para ler um conto sob o ponto de vista da psicologia analítica junguiana, é necessário levar em conta que todas as personagens são uma só – o protagonista diante de todos os aspectos da sua psique e o caminho frequentemente difícil para alcançar a individuação. É a história de nós mesmos a caminho de nós mesmos. Assim como no poema de Fernando Pessoa, nos contos, as personagens somos nós mesmos, vistos através das representações simbólicas ou arquétipos.

 

Os arquétipos

Voltamos, então, à teoria junguiana: vamos conhecer os arquétipos, pois são eles as personagens dos contos de fadas. Para Jung, a psique é constituída por conteúdos conscientes e inconscientes. Os conteúdos inconscientes podem ser pessoais e colectivos. Os primeiros são produto da experiência pessoal, enquanto os segundos são inatos. Jung usou a expressão “colectivo” porque o inconsciente colectivo não tem natureza individual mas universal. Quer dizer que, em contraposição com a psique individual, há também conteúdos e modos de comportamento que são os mesmos em todas as partes do mundo e para todos os indivíduos. Aos conteúdos do inconsciente colectivo deu Jung o nome de arquétipos.

Os contos de fadas são histórias de encantamento: de príncipes transformados em animais ferozes, em lindas aves ou em répteis repulsivos, ou ainda do príncipe que se oculta sob a pele de algum bicho. Frequentemente é uma bruxa ou o próprio diabo que fazem o encantamento. E é para encontrar a princesa e/ou por provas que tem de vencer que o príncipe é redimido. Dependendo do contexto da história e do animal que aparece, o encantamento tem significados diferentes. Mas trata-se sempre de uma interferência de conteúdos inconscientes que invadem a consciência e que têm de ser integrados para a saúde física e mental da pessoa.

O Conto da Rã

 

Era uma vez um menino que, diariamente, ficava sentado no terreiro e a mãe dava-lhe sempre um prato de leite, no qual punha pedacinhos de pão; era esta a sua merenda. Mas assim que começava a comer a merenda, de uma frestazinha da parede surgia uma pequena rã que metia a cabecinha no prato e compartilhava da refeição. A criança ficava muito alegre com essa companhia; se, porventura, a rã não aparecia logo, punha-se a chamá-la:

Vem, rãzinha pequenina,

vem depressa, bichinha;

vem beber o teu leite

e comer a tua papinha!

 

A rã vinha a correr e comia com grande apetite. Mostrava-se, porém, muito reconhecida, trazendo à criança uma porção de coisas lindas do seu tesouro escondido: pedras preciosas, pérolas e brinquedos de ouro. Mas a rã só tomava o leite e deixava sempre o pão; notando isso, a criança, um dia, pegou na colherinha e bateu-lhe levemente na cabeça, censurando-a:

— Vamos, bichinha, come também o pão!

A mãe do menino estava na cozinha e ouviu-o a falar com alguém; saiu para ver quem era e, deparando com o menino a bater com a colher na cabeça do animalzinho, assustou-se. Correu para ele e, com um pau, matou a pobre rãzinha.

Desde esse momento, verificou-se na criança uma mudança radical: enquanto a rã comia junto dela, a criança desenvolvia-se forte e robusta. Mas agora, o seu rostinho rechonchudo e corado perdia o viço e o pequeno emagrecia cada vez mais. Não demorou muito e a coruja começou a piar durante a noite, o pintarroxo pôs-se a colher galhinhos e folhinhas para fazer a coroa de defunto e pouco depois a criança foi levada para o cemitério.

A rã tem nos contos diversas acepções simbólicas. A principal está relacionada com o seu elemento natural: a água. A água simboliza frequentemente o inconsciente. Portanto, pode-se considerar a rã como aquela que traz à consciência conteúdos do inconsciente, e isto devido à sua possibilidade de viver em ambos os elementos, terra e água.

Jung apontava frequentemente para a necessidade de haver a integração do inconsciente no consciente, de modo a assegurar a saúde psíquica da pessoa: se os conteúdos inconscientes permanecerem desconhecidos, eles ficam autónomos no inconsciente, procurando, incessantemente, uma porta para se manifestar. É isto que origina os famosos desconfortos das depressões, angústias e até neuroses.

Este conto simboliza pois essa interferência do inconsciente no consciente, ambos vivendo harmoniosamente, cada um alimentando o outro: o último, com o alimento da terra, o primeiro, com o alimento do conhecimento interior (os tesouros). A mãe do menino, entretanto, interfere nessa harmonia ao matar a rã, isto é, não permitindo que o inconsciente se manifeste. O menino, então, adoece e morre.

Em As Três Penas aparece outra vez a rã, e uma vez mais com essa característica:

Um rei tinha três filhos. Os dois mais velhos eram muito inteligentes e vivos e o mais novo muito simples e pouco amante de desperdiçar palavras. O monarca, já idoso, não sabia a quem deixar o reino. Assim, um dia, chamou os três e disse-lhes que fossem correr mundo. Aquele que lhe trouxesse o tapete mais rico, seria o rei. Para que não houvesse discórdias entre eles, atirou para o ar três penas e ordenou que cada um deles seguisse uma delas. Uma pena foi para oeste, outra para leste e a última caiu no chão.

Vendo isto, um irmão seguiu para a direita, outro para a esquerda e o mais novo, chamado Simplório, ficou no lugar onde tinha caído a pena. Triste e abatido, o pobre Simplório reflectia em silêncio ao lado da pena, quando se abriu um alçapão no chão. Desceu por uma escada e encontrou uma enorme rã, cercada de outras menores. Depois de ter contado à rã o que acontecera, esta tirou de uma caixa um tapete e entregou-lho. Como os dois outros irmãos subestimassem o menor, não se esmeraram em procurar um tapete. Simplório apresentou o tapete mais bonito e ia ficar com o reino, quando os outros dois pediram outra oportunidade.

Desta vez o rei pediu um anel. As penas foram lançadas e tudo aconteceu como antes. Simplório contou à rã o sucedido e ela deu-lhe um anel riquíssimo, coberto de pedras preciosas. Simplório ganhou novamente aos irmãos, mas estes pediram uma nova oportunidade. Mas Simplório acabou por ficar finalmente com o reino porque a rã, que estava bem próxima de si [as verdadeiras respostas no caminho para nós mesmos estão por perto!] trazia-lhe tudo o que ele pedia.

Esta história, além de pôr em evidência a feliz intervenção do inconsciente, mostra que esta ocorre no príncipe que não é tão inteligente como os outros. Parece que a inteligência não tem muito a ver com a capacidade de ouvir o que o inconsciente tem a dizer!

Amarilis Pavoni

Os contos e os mitos no ensino. Uma abordagem junguiana

S. Paulo, Ed. Pedagógica e Universitária, 1989

Excertos adaptados

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Jack Zipes

Don’t Bet on the Prince.
Contemporary Feminist Fairy Tales in North America and England

New York, Routledge, 1989

Excertos adaptados

 

 

“Some Day My Prince Will Come” [1]


A aculturação feminina através do conto de fadas

 

Marcia K. Lieberman

Sabemos que a socialização e a aculturação das crianças é feita através de filmes, programas televisivos e histórias que lêem ou ouvem. Gerações inteiras de crianças leram contos de fadas, nos quais aprenderam o que acontecia a príncipes, princesas, lenhadores, bruxas e crianças, ao mesmo tempo que assimilavam padrões de comportamento, sistemas de valores, e formas de prever as consequências de determinados actos ou circunstâncias.

Ao ler um conto, a criança quer sempre saber como a história acaba. Por isso, o destino que é dado às diversas personagens é extremamente importante. Discute-se actualmente se as características femininas são um produto da biologia ou da aculturação. A partir dos contos, milhões de mulheres puderam formar a sua auto-imagem psico-sexual, ter uma ideia do que conseguiam ou não fazer, saber que tipo de comportamento era recompensado, e que recompensa era essa. Se fizermos uma análise de alguns deles, há padrões que emergem desde logo.

Geralmente, deparamo-nos com um concurso de beleza [2]. Seja entre as várias irmãs, seja entre as personagens femininas da história, a mais bela é sempre a escolhida para obter a recompensa, mesmo que antes tenha de passar por provações. As raparigas bonitas nunca são esquecidas: podem ser oprimidas por uma madrasta perversa, como no caso de Branca de Neve, mas acabam sempre por ser premiadas. Aliados à beleza, encontramos invariavelmente o feitio dócil e submisso, enquanto que à fealdade se associa sempre o mau feitio. Pensemos no caso de Cinderela ou em A Bela e o Monstro: a filha é sempre bonita, dócil e gentil.

Este tipo de padrão, associado à respectiva recompensa, pode criar divisões e ciúmes entre as raparigas. As histórias testemunham um espírito competitivo elevado. As raparigas ganham o prémio pela beleza; os rapazes obtêm-no pela coragem, acção e sorte. Se as raparigas se virem como bonitas, tenderão a suspeitar de todas as raparigas feias, que são sempre vistas como cruéis, traiçoeiras e desprovidas de escrúpulos. Se se virem como feias, tenderão a pensar que a beleza não pode ser alcançada pelo esforço, mas que é algo de predestinado. Não temos exemplos de raparigas comuns que sejam amorosas.

Como o resultado imediato de se ser bonito é ser-se escolhido, e como para se ser bonito não tem de se fazer nada porque já se nasceu assim, esta característica acentua a passividade das heroínas, que só têm de esperar que chegue o príncipe que as vai escolher. O casamento é o principal acontecimento dos contos e pode ser uma recompensa ou um castigo. Os rapazes pobres casam-se com raparigas ricas porque fizeram algo para o conseguir. As raparigas pobres só tiveram de ser vistas para se casarem com o rapaz rico.

O casamento está também associado a uma obtenção de riqueza. Neste aspecto, os contos são extremamente mercenários. As raparigas pobres, bonitas e bondosas não casam com rapazes pobres, bonitos e bondosos. Casam com rapazes ricos. A beleza conduz, então, à riqueza, o que lhe confere uma vantagem comercial. Isto acontece mesmo em histórias em que o casamento é um castigo, por exemplo: Barba Azul e A Bela e o Monstro. O sistema de recompensas dos contos equaciona, pois, três factores: ser-se bonito, ser-se escolhido e enriquecer.

Há contos em que as heroínas empreendem a busca dos amados depois de os terem perdido, como no mito de Cupido e Psique. Mas a maioria esmagadora é submissa, passiva e está à mercê dos acontecimentos. A Bela Adormecida pode ser um exemplo extremo do estado de passividade, bem como a Branca de Neve quando morta. Cinderela fica em casa à espera que o sapato chegue, Rapunzel está na torre à espera de ser salva, e A Guardadora de Patos deixa-se vitimizar pela criada sem escrúpulos. A donzela prisioneira e desamparada é a heroína, por excelência, dos contos de fadas.

É sempre a rapariga bonita que está em apuros. Se a criança se associar a esta imagem, pode tornar-se melodramática e exagerar os seus próprios problemas e importância. Uma vez que as heroínas maltratadas acabam sempre por serem salvas, recompensadas e glorificadas, as crianças aprendem que a passividade recompensa e que vale a pena esperar que a fada-madrinha resolva os problemas por elas.

Não esqueçamos que há também uma mais-valia psicológica a ser retirada dos maus‑tratos de que são alvo as heroínas. Se, por um lado, a criança pode experimentar compaixão pelos que sofrem injustamente, por outro lado pode achar que ser uma vítima sofredora é algo de natural. E pode também achar natural que as mulheres sejam sempre as vítimas e os homens os salvadores.

Quando estamos perante uma mulher com poder, trata-se sempre, invariavelmente, de alguém mais feio e mais velho; ou trata-se de uma fada, que é o mesmo que ser não humano, logo, não passível de uma eventual identificação. O contraponto de um rapaz enérgico, valente e ambicioso (características positivas) é sempre uma mulher ardilosa e ambiciosa (características negativas). As mulheres activas são feias e ambiciosas. Nunca temos exemplos de mulheres poderosas e boas.

Há ainda casos de princesas ( O Anão Amarelo e A Princesa dos Caracóis Dourados) que não querem casar e que, por isso, são consideradas caprichosas. Acabam casadas como castigo. Não existe espaço para a liberdade de escolha e preservação da identidade.

Duas outras constantes nas histórias são o facto de não sabermos quase nada sobre a vida conjugal das personagens e o facto de serem filhos de viúvos ou viúvas. O casamento está sempre presente mas nunca é mostrado na sua vivência diária. Ser cortejada é melhor do que ser casada, quase concluiríamos.

A controvérsia entre o que é biologicamente determinado e o que é culturalmente transmitido ainda não terminou. O facto de as histórias mostrarem comportamentos femininos arquetípicos quererá dizer que esses traços são inatos?

E, se o comportamento passivo é um atributo feminino inato, será que o sistema mercantil de recompensas patente nos contos também reflecte valores humanos inatos? Eis uma questão que teremos de continuar a analisar através da leitura dos contos de fadas.


[1] “Um dia o meu príncipe virá”, título da banda sonora original do filme de Walt Disney, Branca de Neve.

[2] Concentrei-me na recolha feita na obra de Andrew Lang, The Blue Fairy Book , publicado em 1889 em Londres.

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Pierre Péju

L’archipel des contes

Paris, Aubier, 1989

Excertos adaptados

A maravilha em fragmentos

 

O dom da narrativa

Disse-se que os românticos alemães tinham o “dom da narrativa”: uma espécie de sentido inato da narração, uma capacidade de contar até ao excesso, de fazer proliferar imagens e episódios, numa perseguição desenfreada. “Era uma vez…” é o mais belo de todos os começos, segundo E.T.A. Hoffmann. Os Irmãos Grimm diziam que Arnim tinha tendência para abrir nas suas histórias “dez portas secretas”, pelas quais podiam entrar e sair todas as narrativas possíveis.

O dom da narrativa é o poder de tomar a palavra, de utilizar a língua para contar o conto como se este fosse uma multiplicação de histórias e uma efervescência de personagens. Tudo o que acontece, aconteceu, e vai acontecer é infinito, uma vez que “os homens viajam por caminhos diversos…”

Ter o “dom da narrativa” é considerar a narrativa como algo que se oferece (a história impõe-se, toma conta de mim e preenche-me), mas que eu também ofereço, gratuitamente, a todos, e que acaba por não pertencer a ninguém em particular. Brentano escreveu contos que gostava de ler, por prazer, aos amigos, às crianças, ou que fazia circular, mas que nunca pensou publicar. Também os Irmãos Grimm pensaram primeiro dar a Brentano os contos que tinham recolhido para que ele os utilizasse.

O “dom da narrativa” consiste em saber misturar as histórias que invento de noite – tanto na noite dos meus sonhos como na noite das minhas vigílias com as narrativas vindas da noite dos tempos, até que pareçam provir todas de uma mesma voz, impessoal, plural, intempestiva. Quando Ludwig Tieck inventou o conto Ekbet, o Louro, uma das mais belas histórias da literatura alemã, pensou-se que se tratava da transcrição de uma lenda antiga e assim foi lido.

Ter o “dom da narrativa” é viver a sua vida como uma história e tornar-se personagem, se não de um conto, de uma “lenda dispersa” (segundo a expressão de J. C. Bailly), na qual os pensamentos circulam e se entremeiam como letras, como o amor e a amizade.

O “dom da narrativa” consiste em introduzir a nossa própria vida nas nossas narrativas, sem que estas se tornem autobiografias. Neste caso, a eficácia narrativa é potenciada por cargas afectivas, pessoais e mesmo íntimas.

Porquê este dom da narrativa? Por que razão os românticos sentiam uma tal atracção pelo Märchen, cujos fragmentos flutuavam à tona da memória do povo? Porque tinham este gosto pelos contos inventados ou redescobertos, que até então só eram contados por gente iletrada, mulheres e crianças?

“Contar é, só por si, maravilhoso!” Eis o que sentiram os românticos. Queriam ver até onde iria a narrativa, sem que a possuíssem, mas sendo transportados por ela, educados pelo que adviria do seu desenvolvimento.

Contar é produzir uma música, e os românticos alemães tiveram essa percepção melhor do que ninguém, porque souberam jogar com as fontes orais e escritas, com esse elemento mandragórico que se insinuava por entre as histórias, as canções, os poemas, as alegorias, as fábulas, as ideias em fragmentos do pensamento e da vida. A espantosa recolha de Arnim e Brentano, Corneta Maravilhosa da Criança (1806-1808), é disto testemunha.

 

 

A maravilha, o fragmento, a noite

 

Antes de mais, o que é a “maravilha”? São fragmentos incríveis arrancados à noite, a proximidade quase íntima de algo que se mantém, ao mesmo tempo, à distância. Um tesouro. Aliás, os Irmãos Grimm e Hoffmann, entre outros, utilizam frequentemente as palavras tesouro e fragmentos para falar do universo dos contos. Escreveu Wilhelm Grimm:

Todos os elementos que encontramos nos contos assemelham-se a fragmentos de uma pedra partida dispersos pelo chão, entre a relva e as flores; só os olhos mais penetrantes os podem descortinar. Há muito que se perdeu o seu significado, mas ainda o sentimos e é isso que confere ao conto o seu valor.

Arrancar tesouros à noite é uma forma de arqueologia. Para os Grimm era a noite dos tempos, esse tempo das origens que a distância obscureceu, e do qual temos de extrair pedaços de lendas e de imagens em fragmentos que, uma vez respeitosamente reconstituídos, darão origem aos Contos da Infância e do Lar (1812, 1822).

Mas o que trazemos nós da noite dos tempos? Personagens imaginárias, por exemplo, com um longo encadeamento de enunciados, de juízos e de crenças: anões, gigantes, príncipes, feiticeiras, reis e rainhas. Trazemos objectos bizarros e pequenas máquinas, com ou sem manual de instruções: varinhas mágicas, dedos de fadas, botas de sete léguas, sombras que se enrolam e desenrolam, autómatos, chapéus de Fortunatus, etc.

Trazemos técnicas: encantar, metamorfosear, tornar invisível ou mais pequeno, ressuscitar… Trazemos situações: pôr-se sob uma árvore mágica que escuta, lançar-se numa busca, deitar-se encostado a um lobo, perder-se na noite… Trazemos lugares: grutas, caminhos, castelos, clareiras…

Este é o conjunto de ingredientes possíveis que os Grimm souberam extrair da memória popular, como se esta fosse um baú mágico. A floresta continua a ser o espaço abstracto, o lugar por excelência onde tudo isto tem lugar. É a história que vai estabelecer um elo de ligação, mais ou menos ténue, entre pérolas de valor desigual, um elo que é frequentemente arbitrário e que é ditado pelos fragmentos, mais do que estruturado por eles.

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Serão

 

A noite tinha para nós o atractivo das histórias. Depois da ceia, mamãe arrumava tudo e lavava a cara a Lela e Nanduca. Já não havia o receio de sairmos para a cabritagem da rua. Àquela hora tolhia-nos o medo do escuro… Tudo arrumado e rezadas as orações, mamãe e mamãe velha iam sentar-se na salinha, onde já estávamos, acomodados em bancos. A casa enchia-se de meninos. A nossa imaginação vivia apaixonadamente no mundo variado que as histórias criavam. Acaçapado ao pé de mamãe velha, o Baluca também fazia parte do serão, de orelhas caídas e cabeça pensativa, como se estivesse recordando as roncações da sua mocidade com as cadelinhas levianas que lhe davam trela.

Grande contadeira de histórias era Nhá Rosa Calita, velha pretona a quem os rapazes trocistas chamavam Camões, por lhe faltar um olho em virtude de pau-de-finado mal curado. E que lábia que ela tinha! Era um gosto ouvir-lhe referir aqueles casos todos, contos de meninos presos, a engordar, dentro de caixas grandes, por velhas feiticeiras, pastorinhos que casavam com a filha do rei, rapazotinhos sabidos que tinham enganado Aquele Homem – pelo sinal da Santa Cruz – e as demoniarias das feiticeiras que iam ao Esponjeiro tomar ordens do seu chefe, um diabo trocista, de cara descarada, e depois saíam, transformadas em bichos, a agoirentar a vida da criatura.

― História, história!

― Fartura do Céu, ámen!

― Era uma vez uma princesa que andava a correr mundo à procura de Passo-Amor, seu noivo, mas para o alcançar tinha de furar a sola a sete sapatos de ferro:

Acorda, Passo-Amor,

há mil léguas em procura de ti…

Chegou a casa da mãe do vento, e esta escondeu-a dentro de um cancarã. Entrou o filho, muito malcriado, com grande barulho, catã, catã, e disse:

― Aqui cheira-me a sangue real…

Nós todos queríamos mais e mais histórias. A ouvir Nhá Rosa Calita o sono fugia-nos totalmente…

― Certa ocasião havia grande fome na terra. Desde dois anos o mês de Outubro não dera pinga de água para refrescar a planta, já amorrinhada do léu-léu escasso de Setembro. Um homem de Fajã de Baixo vivia na sua casinha com duas filhas, já raparigas, na vida castigada da pobreza. Vocês sabem, pobre é como cama de chão, todos lhe passam por cima. Um dia, assim que os galos deram a última pousa (tinham dormido sem cear), saiu com as filhas a furar a vida onde Deus fosse servido de mostrar a Sua misericórdia. Andou, andou, passou a Assomada do Mancebo, e ali em direitura de Fragatinha encontrou grande estendal de batata conteira num fundo de quebrada. Encheram os balaios, mas o homem, com a voz cheia de respeito, recomendou às filhas:

― Oh, minhas filhas, vocês não dêem a ninguém conta desta senhora comida!

E seguiam os pormenores da história, em que a humildade e a modéstia eram premiadas com um saco de dinheiro e a cobiça arrogante era castigada com um açoite de pau de tamarindo.

Mamãe velha dormitava na cadeira de balanço, pois, além de ser já pessoa antiga e ter o corpo queixoso, levantava-se logo assim que os galos davam a última pousa, no alvor nascente da antemanhã. Mamãe, essa, entretinha-se na sua renda de duas agulhas, cuja perfeição de acabado era muito gabada pelas menininhas luxentas da vila. Mas nós, os garotos, ficávamos despertos, de sentido cegueirado nas histórias…

Baltasar Lopes

(de Chiquinho)

Luísa Dacosta

De mãos dadas, estrada fora…

Porto, Ed. Asa, 2002

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