Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for the ‘viagem’ Category

Anterior: Psicanálise dos contos de fadas I

  

Os contos de fadas e o dilema existencial

Na criança ou no adulto, o inconsciente é um poderoso determinante do comportamento. Quando o inconsciente é reprimido e ao seu conteúdo é negada a consciencialização, então o espírito consciente da pessoa acabará finalmente por ficar em parte esmagado pelos derivativos desses elementos inconscientes. Ou então, ela ver-se-á forçada a manter um controle tão rígido e compulsivo sobre os mesmos que a sua personalidade pode vir a ser gravemente afectada. Mas quando se permite que esse material inconsciente atinja em certa medida a consciência, e possa ser elaborado através da imaginação, o seu potencial para fazer o mal – a nós próprios e aos outros – torna-se muito reduzido; algumas das suas forças podem então ser dirigidas para fins mais positivos. Contudo, a crença paternal dominante é que a criança tem de ser poupada àquilo que mais a perturba: as suas angústias sem forma e nome, as suas fantasias caóticas, enfurecidas ou mesmo violentas. Muitos pais acreditam que só a realidade consciente ou as imagens agradáveis que satisfaçam os desejos é que devem ser oferecidas à criança – que ela deve ser exposta somente ao lado belo das coisas. Porém, um tal alimento unilateral nutre o espírito também só unilateralmente, e a vida real não é bela na totalidade.

Há uma recusa generalizada em deixar as crianças saberem que a fonte de muito do que vai mal no mundo tem a ver com a nossa própria natureza – com a propensão que todo o homem tem para agir agressivamente, associalmente, egoistamente, por raiva ou angústia. Em vez disso, queremos que os nossos filhos acreditem que todos os homens são bons por natureza. Mas as crianças sabem que eles nem sempre são bons; e muitas vezes, mesmo quando o são, prefeririam não o ser. Isto vem contradizer o que os pais lhes dizem, o que faz com que a criança se veja a si própria como um monstro.

A cultura dominante deseja aparentar, especialmente no que diz respeito às crianças, que o lado sombrio do homem não existe, afirmando acreditar num “melhorismo” optimista. A própria psicanálise é encarada como tendo por fim tornar a vida mais fácil – mas isso não foi a intenção do seu fundador. A psicanálise foi criada para habilitar o homem a aceitar a natureza problemática da sua vida sem ser vencido por ela ou sem se entregar à fuga sistemática.

É esta exactamente a mensagem que os contos de fadas trazem à criança, de múltiplas formas: que a luta contra graves dificuldades na vida é inevitável, faz parte intrínseca da existência humana – mas que se o homem se não furtar a ela, e com coragem e determinação enfrentar as dificuldades, muitas vezes inesperadas e injustas, acabará por dominar todos os obstáculos e sair vitorioso.

Os contos modernos para crianças evitam sobretudo os problemas existenciais, ainda que estes representem questões cruciais para todos nós. A criança precisa muito especialmente de sugestões, em forma simbólica, sobre como lidar com estes obstáculos para chegar sem riscos à maturidade. As histórias “inócuas” não mencionam a morte ou a velhice, nem os limites da nossa existência ou o desejo de uma vida eterna. O conto de fadas, pelo contrário, confronta-nos, sem rodeios, com as exigências básicas do homem.

Por exemplo, muitos contos de fadas começam com a morte da mãe ou do pai; nestes contos, a morte cria problemas angustiantes, como a própria morte ou o medo dela o fazem na vida real. Outros contos falam de um pai idoso que decide que chegou a altura de a nova geração tomar as rédeas. Contudo, antes que isso aconteça, o sucessor tem de provar ser capaz e digno. O conto dos irmãos Grimm As três penas começa assim: Era uma vez um rei que tinha três filhos… Quando o rei já estava velho e fraco, pensando no seu fim, não sabia qual dos filhos deveria herdar o trono. Para se decidir, o rei dá aos filhos uma tarefa difícil; o filho que melhor a desempenhar será rei depois da minha morte.

É característico dos contos de fadas expor um dilema existencial, concisa e directamente. Isto permite que a criança enfrente o problema na sua forma mais essencial, ao passo que um enredo mais complexo seria para ela mais confuso. O conto de fadas simplifica todas as situações. As suas personagens são definidas com clareza e os pormenores, a não ser que sejam muito importantes, são eliminados. Todos os caracteres são mais típicos do que invulgares.

Contrariamente ao que acontece nos modernos contos para crianças, tanto a maldade como a virtude encontram-se omnipresentes nos contos de fadas tradicionais. Em praticamente todos eles, o bem e o mal aparecem sob a forma de personagens e acções, pois o bem e o mal são omnipresentes na vida de cada um de nós. Aliás, a propensão para ambos encontra-se em cada ser. É esta dualidade que coloca um problema moral e que exige uma luta para a resolver.

O mal não deixa de ter os seus atractivos – simbolizados pelo poderoso gigante ou pelo dragão, pelo poder da bruxa, pelo da astuta rainha em Branca de Neve – e muitas vezes está temporariamente em ascensão. Em muitos contos de fadas o usurpador consegue, por algum tempo, apoderar-se do lugar que, por direito, pertence ao herói – como as maldosas irmãs n’ A Gata Borralheira. Não é o facto de o malfeitor ser castigado no fim da história que faz com que os contos de fadas sejam uma experiência de educação moral, ainda que isso também seja uma parte da questão.

Nos contos de fadas, como na vida, o castigo (ou o medo dele) é somente uma dissuasão limitada para o crime. A convicção de que o crime não compensa é uma dissuasão muito mais eficaz, e é por isso que nos contos de fadas os maus perdem sempre. Não é o facto de a virtude ganhar no fim que promove a moralidade, mas sim o facto de que o herói é extremamente simpático para a criança, a qual se identifica com ele em todas as suas lutas. Por causa dessa identificação, a criança imagina que sofre com o herói, que vive todas as suas provações e tribulações, triunfando com ele quando a virtude triunfa também. A criança faz tais identificações por si própria, e são as lutas interiores e exteriores do herói que gravam nela a moralidade.

As personagens dos contos de fadas não são ambivalentes – não são boas e más ao mesmo tempo –, como na realidade o somos. Mas uma vez que a polarização domina o espírito da criança, ela domina também os contos de fadas. Uma pessoa é boa ou má, sem meio‑termo. Um irmão é estúpido, outro inteligente. Uma irmã é virtuosa e trabalhadora, a outra, vil e preguiçosa. Uma é bela, as outras feias. Um dos pais é todo bondade, o outro maldade. A justaposição de personagens opostas não tem por fim dar ênfase ao “bom” comportamento, como seria o caso nos contos de advertência. (Há alguns contos de fadas amorais em que o bem e o mal, a beleza e a fealdade não têm qualquer papel.)

Mas estas personagens polarizadas permitem à criança compreender facilmente a diferença entre ambos os pólos, coisa que ela não poderia fazer facilmente se os protagonistas fossem desenhados mais próximos da realidade, com todas as complexidades que caracterizam as pessoas reais. As ambiguidades têm de esperar até que se tenha estabelecido uma personalidade relativamente firme com base em identificações positivas. Só então é que a criança tem bases para compreender que há grandes diferenças entre as pessoas e que, portanto, tem de fazer uma opção sobre aquilo que quer ser. Esta decisão básica, sobre a qual todo o desenvolvimento posterior da personalidade será erigido, é facilitada pela polarização dos contos de fadas.

As crianças de hoje já não crescem na segurança de uma grande família ou de uma comunidade bem integrada. Assim, mais ainda do que no tempo em que foram “inventados” os contos de fadas, é importante fornecer à criança moderna imagens de heróis que têm de se lançar no mundo sozinhos e que, apesar de não saberem à partida como é que as coisas se vão resolver, encontram lugares seguros, seguindo em frente com profunda confiança interior.

O herói dos contos de fadas tem um percurso solitário durante uns tempos, tal como a criança moderna que frequentemente se sente isolada. O herói recebe ajuda porque está em contacto com coisas primitivas – uma árvore, um animal, a natureza – tal como a criança se sente em contacto com estas coisas, mais do que a maioria dos adultos. O destino destes heróis convence a criança de que, como eles, se pode sentir abandonada no mundo, tacteando no escuro; mas, como eles, no decorrer da sua vida será guiada passo a passo, e receberá ajuda quando necessário. Hoje, mais do que noutros tempos, a criança precisa da confiança oferecida pela imagem do homem isolado, que todavia é capaz de estabelecer relações significativas e compensadoras com o mundo que o rodeia.

Ao mesmo tempo que distrai a criança, o conto de fadas elucida-a sobre ela própria e promove o desenvolvimento da sua personalidade. Tem tantas significações, em tantos níveis diferentes, enriquece a existência da criança de tantas maneiras, que nenhum outro livro é capaz de igualar a quantidade e diversidade de contributos que estes contos trazem à criança.

A maioria dos contos de fadas teve origem em períodos em que a religião era a parte mais importante da vida; assim, eles lidam directamente, ou por dedução, com temas religiosos. As histórias d’As Mil e Uma Noites estão cheias de referências à religião islâmica. Muitos contos de fadas ocidentais têm conteúdo religioso; mas a maior parte destas histórias é hoje desprezada e desconhecida do grande público, porque, para muitos, estes temas religiosos já não despertam, universal e pessoalmente, associações significativas.

O esquecimento em que caiu O filho de Nossa Senhora, uma das mais lindas histórias dos irmãos Grimm, é disso exemplo. Começa exactamente como em Hansel e Gretel: Junto de uma grande floresta vivia um lenhador com a sua mulher. Tal como em Hansel e Gretel, o casal é tão pobre que não pode alimentar-se a si próprio nem à filha de três anos. Comovida com a sua desgraça, a Virgem Maria aparece-lhes e oferece-se para tomar conta da pequena, que leva consigo para o Céu. A pequena vive uma vida maravilhosa até à idade dos catorze anos. Nessa altura, como em variadas versões de Barba Azul, a Virgem confia à pequena as chaves de treze portas, doze das quais ela pode abrir, mas não a décima terceira.

A pequena não resiste à tentação: mente e, em consequência, é mandada de volta para a Terra, muda. Sofre provações severas e está prestes a ser queimada viva quando, desejando confessar a sua má acção, recupera a voz para o fazer. É-lhe dada então pela Virgem a felicidade para toda a vida. A lição da história é esta: uma voz habituada a mentir só nos leva à perdição; é melhor sermos privados dela, como a heroína da história. Mas uma voz habituada a arrepender-se para admitir os erros e dizer a verdade, redime-nos.

Como não é possível saber exactamente em que idade um determinado conto de fadas é importante para uma determinada criança, não podemos decidir qual dos muitos contos deverá ser contado em determinado tempo ou porquê. Só a criança pode determinar isso, através da força das emoções com que reage ao que um conto evoca no seu consciente ou inconsciente.

Naturalmente, os pais começarão por contar ou ler ao filho um conto de que eles próprios gostaram em pequeninos ou de que gostam ainda hoje. Se a criança não mostra entusiasmo pela história, isso significa que os motivos e temas não evocaram nela uma resposta significativa nessa altura da sua vida. Será então melhor contar‑lhe outra história na noite seguinte. Depressa se saberá que determinada história se tornou importante para ela, quer pela sua resposta imediata à mesma, quer por pedir que lha contem mais e mais vezes. Se tudo correr bem, o entusiasmo da criança por essa história tornar-se-á contagioso e a história será importante para os pais, quanto mais não seja porque faz tanto sentido para o filho.

Finalmente, virá o dia em que a criança retirou já tudo quanto podia da sua história preferida, porque os problemas que a tinham feito procurar a história foram substituídos por outros, que encontram melhor expressão num outro conto. Ela pode então perder, temporariamente, interesse por este conto, e gostar muito mais de outro. Para contar contos de fadas é sempre melhor seguir a indicação da criança.

Mesmo que os pais adivinhem correctamente as razões por que o filho se envolveu emocionalmente com determinado conto, deve ser guardada só para si essa descoberta. As experiências e as reacções de uma criança são extremamente importantes e em grande parte inconscientes, devendo permanecer assim até que ela chegue a uma idade em que uma compreensão mais madura seja possível. É sempre inoportuno interpretar os pensamentos inconscientes de uma pessoa, tornar consciente o que ela deseja conservar pré-consciente, e isto é especialmente verdade no caso de uma criança. É tão importante para o bem-estar da criança sentir que os seus pais compartilham as suas emoções, através do gosto pelo mesmo conto, como sentir que os seus pensamentos íntimos não são conhecidos deles até que ela se decida a revelá-los.

Além disso, explicar a uma criança por que razão um conto de fadas é para ela tão cativante destrói o encantamento da história, que depende em grande parte do facto de a criança não saber ao certo porque ficou tão deliciada com ela. E com a perda deste poder de encantamento, vai-se também o potencial da história para ajudar a criança a lutar por si própria e resolver sem ajuda o problema que, em sua opinião, deu sentido à história. As interpretações dos adultos, por mais correctas que sejam, tiram à criança a oportunidade de sentir que foi ela, sozinha, por ouvir e ruminar repetidamente a história, que conseguiu resolver com êxito uma situação difícil. Nós crescemos, encontramos o sentido da vida e confiança em nós próprios por termos compreendido e resolvido os nossos problemas pessoais, e não porque outros no-los explicaram.

Os temas dos contos de fadas não são sintomas neuróticos, algo que importa compreendermos de forma racional, para mais depressa nos vermos livres deles. Esses temas são sentidos como autênticas maravilhas pela criança, porque através deles se sente compreendida e apreciada no seu âmago, nos seus sentimentos, nas suas esperanças e angústias, sem que seja preciso trazer tudo isso à superfície para ser investigado à luz crua de uma racionalidade que ainda está para além da compreensão infantil. Os contos de fadas enriquecem a vida da criança e apresentam‑se com uma qualidade de encantamento, exactamente porque ela não sabe como é que as histórias produziram em si semelhante prodígio.

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas III – Um punhado de magia 

Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

Anúncios

Read Full Post »

Anterior: Psicanálise dos contos de fadas II – Os contos de fadas e o dilema existencial

Um punhado de magia: a vida adivinhada por dentro

A Menina do Capuchinho Vermelho foi o meu primeiro amor. Sentia que se pudesse ter-me casado com ela, teria conhecido a verdadeira felicidade. Esta afirmação de Charles Dickens indica que ele, como incontáveis milhões de crianças por esse mundo fora, também foi encantado pelos contos de fadas. Mesmo já célebre, Dickens reconheceu o impacto formativo que as fantásticas personagens e as diversas ocorrências dos contos tiveram nele e no seu génio criador. Exprimiu muitas vezes desprezo pelos que, em nome de uma racionalidade desinformada e mesquinha, insistiam em racionalizar, expurgar ou proscrever estas histórias, roubando assim às crianças as importantes contribuições que os contos de fadas podem trazer às suas vidas. Dickens compreendeu que as imagens dos contos de fadas ajudam as crianças, mais do que tudo, na sua muito difícil e todavia importante e satisfatória tarefa: a conquista de uma consciencialização mais madura que ponha ordem nas pressões caóticas do seu inconsciente.

Durante a maior parte da história do homem, a vida intelectual da criança (além das experiências mais imediatas no seio da família) dependia de histórias míticas ou religiosas e de contos de fadas. Esta literatura tradicional alimentava a imaginação da criança e estimulava a sua fantasia. Simultaneamente, uma vez que estas histórias respondiam às perguntas mais importantes da criança, constituíam o principal agente da sua socialização. Mitos e lendas religiosas (que com eles estão intimamente relacionados) ofereciam material com o qual as crianças formavam os seus conceitos sobre a origem e a finalidade do mundo e sobre os ideais sociais que poderiam imitar. Tais eram as imagens do invicto herói Aquiles e do astuto Ulisses; de Hércules, cuja história mostrava que não era indigno, mesmo para o mais forte dos homens, limpar a mais repugnante das cavalariças; de São Martinho, que cortou ao meio a sua capa para vestir um mendigo.

Nos contos de fadas, os processos internos são exteriorizados e tornam‑se compreensíveis porque são representados por personagens da história e pelas suas ocorrências. Por isso é que, na medicina tradicional hindu, um conto de fadas, que punha em jogo o seu problema particular, era oferecido a uma pessoa psiquicamente perturbada, para meditação. Admitia-se que, através da contemplação da história, a pessoa perturbada seria levada a uma visão da natureza do impasse que vivia na altura e entreveria a possibilidade da sua resolução. Aquilo que determinado conto contivesse sobre o desespero, as esperanças e os métodos de vencer as tribulações, permitia ao paciente descobrir uma saída para a sua aflição e encontrar-se a si próprio, à imagem do herói da história.

Mas a importância suprema dos contos de fadas para o indivíduo em crescimento é qualquer coisa de diferente dos ensinamentos sobre as formas correctas de viver neste mundo (esta sabedoria é bastante suprida pela religião, pelos mitos e pelas fábulas). Os contos de fadas não têm a pretensão de descrever o mundo tal como ele é nem aconselham o que cada um deve fazer. Se o fizessem, o doente hindu seria levado a seguir um padrão de comportamento imposto – o que seria não só má terapêutica, mas o contrário da terapia.

O conto de fadas é terapêutico porque o paciente encontra a sua própria solução, contemplando o que a história parece conter a seu respeito e a respeito dos seus conflitos interiores nesse momento da sua vida. O conteúdo do conto escolhido não tem nada a ver com a vida exterior do doente, mas antes com os seus problemas internos, que parecem incompreensíveis e, portanto, insolúveis. O conto de fadas não se refere claramente ao mundo exterior, ainda que comece de forma bastante realista e contenha temas do quotidiano. A natureza irrealista destes contos (a que tacanhos espíritos racionalistas se opõem) é importante, porque torna óbvio que o objectivo dos contos de fadas não é dar informação útil sobre o mundo exterior, mas sim sobre os processos psicológicos interiores que têm lugar num indivíduo.

As personagens e as ocorrências dos contos de fadas também personificam e ilustram conflitos internos, mas sugerem com extrema subtileza como resolver esses conflitos e quais os passos a dar em direcção a uma humanidade mais nobre. O conto de fadas é apresentado de forma simples, familiar; não se fazem exigências ao ouvinte – o que evita até à mais pequenina das crianças o sentir-se compelida a actuar de uma maneira específica – e nunca faz sentir à criança que ela é inferior. Longe de fazer exigências, o conto de fadas sossega, dá esperanças quanto ao futuro e contém a promessa de um desfecho feliz.

Para compreendermos como é que uma criança julga os contos de fadas, consideremos, por exemplo, os muitos contos em que o jovem herói engana o gigante que o aterra ou até ameaça a sua vida. Que as crianças sabem por intuição o que estes “gigantes” representam, vê-se logo pela seguinte reacção espontânea de uma criança de cinco anos. Animada pela discussão acerca da importância que têm os contos de fadas para as crianças, uma mãe venceu a hesitação em contar ao seu filho histórias “tão sangrentas e ameaçadoras”. Assim, contou-lhe a história de Jack, o mata-gigantes. No final, a resposta do filho foi: “Os gigantes não existem, pois não?”

Antes que a mãe pudesse dar ao filho a resposta tranquilizadora que lhe estava na ponta da língua – e que estragaria o valor da história para ele – o pequeno continuou: “Mas há pessoas crescidas que são como os gigantes.” Com os seus cinco anos, ele compreendeu a encorajadora mensagem da história: apesar de os adultos poderem parecer gigantes assustadores, um rapazinho esperto pode vencê-los.


 

 

 

 

Criança de fronte sem nuvens

E olhos cheios de sonhos e encantos,

Apesar do tempo veloz

E de estarmos separados por meia vida, eu e tu,

O teu amoroso sorriso certamente acolherá

A prenda de amor de um conto de fadas.

C. L. Dodgson (Lewis Carroll) in

Through the Looking Glass

 

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas IV – A necessidade de magia na criança

Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

Read Full Post »

Anterior: Psicanálise dos contos de fadas III – Um punhado de magia

A necessidade de magia na criança

Do ponto de vista dos adultos e em termos da ciência moderna, as respostas que os contos de fadas dão são mais fantásticas do que reais. De facto, estas soluções parecem tão incongruentes a alguns adultos (que se divorciaram já dos caminhos pelos quais as crianças sentem o mundo), que eles se recusam a transmitir às crianças informações tão “falsas”. Contudo, explicações realistas são normalmente incompreensíveis para as crianças, porque lhes falta a compreensão abstracta necessária para lhes dar um sentido.

As explicações científicas exigem um pensamento objectivo. Tanto a investigação teórica como a exploração experimental demonstraram que nenhuma criança em idade pré-escolar pode verdadeiramente aprender estes dois conceitos, sem os quais a reflexão abstracta é impossível. Conheci muitos exemplos em que, especialmente nos últimos tempos da adolescência, foi necessário apelar para os anos de crença na magia para compensar alguém que se viu prematuramente privado dela na sua infância, depois de lhe terem imposto (em vão!) a estreita realidade. É como se estes jovens sentissem estar agora perante a última oportunidade para compensar uma grave lacuna nas suas vidas; ou que, sem terem passado por esse período de crença na magia, não se achavam aptos a enfrentar os rigores da vida adulta.

Muitos jovens que procuram hoje a evasão súbita através dos sonhos proporcionados por drogas, são iniciados por gurus, acreditam na astrologia, praticam “magia negra” ou, por outra qualquer forma, se escapam da realidade através de devaneios sobre experiências mágicas que melhorarão as suas vidas, foram prematuramente pressionados a encarar a realidade de uma forma adulta. A tentativa de evasão da realidade por estas vias tem as suas causas mais profundas nas primeiras experiências formativas, que os impediram de se convencer pessoalmente de que a vida pode ser dominada por meios realistas.

Satisfação indirecta versus reconhecimento consciente

 

A criança sente quais dos muitos contos de fadas são a verdade para a sua situação interior de momento (a qual ela não sabe, por si só, manejar), e sente também em que ponto da história esta lhe dá uma achega para poder enfrentar um problema difícil. Mas isso não é imediatamente resolvido, nem se consegue quando se ouve um conto de fadas pela primeira vez. Alguns dos elementos do conto são demasiado estranhos – como têm de sê-lo, a fim de se dirigirem a emoções profundamente escondidas.

Só com a repetição frequente do conto, e quando tenha tido tempo suficiente e oportunidade para se debruçar sobre ele, é que a criança pode aproveitar plenamente o que a história tem para lhe oferecer no tocante à compreensão de si própria e do mundo. Só então as livres associações da criança produzem o sentido mais pessoal do conto; só então o conto a ajuda a resolver os problemas que a oprimem. Por exemplo, quando ouve a história pela primeira vez, a criança não pode projectar-se no papel de uma figura do sexo oposto. É preciso que haja certa distância e colaboração pessoal, durante algum tempo, antes de uma rapariga se poder identificar com o João de João e o Pé de Feijão ou um rapaz com Rapunzel.

Conheci pais cujos filhos reagiam a um conto de fadas dizendo “Gostei”, e assim apressavam-se a contar-lhes outro conto, pensando que mais um conto aumentaria o prazer da criança. Mas o comentário do filho exprimia provavelmente um vago sentimento de que a história tem qualquer coisa de importante para lhe comunicar – qualquer coisa que se perderá se não se ler à criança de novo a história, e se não se lhe der tempo para a aprender. Desviando os pensamentos da criança prematuramente para uma segunda história, poder-se-á desfazer o impacto da primeira, ao passo que, fazendo-se isso mais tarde, se poderá antes aumentá-lo.

Quando se lêem contos de fadas a crianças, numa aula ou em bibliotecas durante a hora de recreio, as crianças parecem fascinadas. Mas, muitas vezes, não se lhes dá a oportunidade para contemplarem os contos ou para reagirem; elas são imediatamente arrebanhadas, ou para outra actividade ou para outra história diferente da que lhes contaram antes, o que dilui ou destrói a impressão que o conto criou. Falando com crianças depois de uma experiência destas, parece que tanto fazia que a história fosse contada como não, pelo efeito nulo que foi obtido. Mas quando o narrador da história dá às crianças tempo suficiente para reflectirem sobre ela, para se submergirem na atmosfera que a narrativa cria, e quando elas são encorajadas a falar no assunto, então conversas posteriores revelam que, emocional e intelectualmente, a história lhes oferece muito.

Tal como os pacientes dos curandeiros hindus eram solicitados a contemplarem um conto de fadas para encontrarem uma saída para a escuridão interior que encobria os seus espíritos, também à criança se deve dar a oportunidade de – vagarosamente – assimilar um conto de fadas, fazendo a junção das suas próprias associações com o conto.

Diga-se de passagem que esta é a razão por que os livros ilustrados, hoje tão preferidos por adultos e crianças, não são o melhor serviço que se pode prestar à criança. As ilustrações distraem em vez de ajudarem. O estudo dos livros ilustrados demonstra que as gravuras desviam o processo de aprendizagem em vez de o fomentarem, porque as ilustrações afastam a imaginação da criança daquilo que, por si próprias, e sem ajuda, elas sentiriam graças à história. A história ilustrada perde muito do conteúdo pessoal que poderia trazer à criança que lhe aplicasse somente as suas próprias associações visuais, em vez das de quem as desenhou.

Também Tolkien pensava que, por melhores que sejam, as ilustrações pouco bem fazem aos contos de fadas… Se a história diz: “Ele trepou a colina e viu o rio no vale, lá em baixo”, o desenhador poderá apreender, ou quase apreender, a sua própria visão da cena, mas cada ouvinte terá formado o seu próprio quadro, que será feito de todas as montanhas e rios e vales que jamais viu, mas especialmente a Colina, o Rio, o Vale que foram para ele a primeira representação da palavra. Eis por que um conto de fadas perde muito do seu sentido próprio quando as figuras e as ocorrências têm a substância dada pelo desenhador e não pela imaginação da criança. Os pormenores, sem igual, derivados da sua vida individual, com os quais o espírito do ouvinte retrata a história que lhe contam ou que lhe lêem, transformam-na numa experiência muito mais pessoal. Tanto os adultos como as crianças preferem frequentemente o caminho fácil de alguém que, por eles, assume a tarefa de imaginar o cenário do conto. Contudo, se deixarmos o desenhador determinar a nossa imaginação, ela será menos nossa e o conto perde muito do significado pessoal.

Perguntar a crianças, por exemplo, como era o monstro de que ouviram falar na história que lhes contaram, dá lugar às mais variadas formas de personificação: enormes figuras pseudo-humanas, pseudo-animais, figuras que combinam certos traços humanos com outros animais, etc. –, e cada um destes pormenores tem enorme sentido para a pessoa que, no seu espírito, criou determinada realização pictórica. Por outro lado, ver o monstro pintado pelo artista, conformemente à imaginação dele, que é bem mais completa se a compararmos com a nossa própria imagem vaga e fugidia, defrauda-nos um pouco. A ideia do monstro poderá então deixar-nos totalmente indiferentes, sem nada de importante para nos dizer, ou poderá amedrontar-nos, não tendo qualquer significado para além da angústia.

Continuação: Psicanálise dos contos de fadas – A importância da exteriorização

Bruno Bettelheim

Psicanálise dos Contos de Fadas

Lisboa, Bertrand Editora, 1991

Excertos adaptados

Read Full Post »

 Anterior: O aliado interior

A criança interior encontra-se com o eu ampliado

 

Antes de despedir-se da adolescência e saltar, com uma confiança cega, para a idade adulta, é útil estabelecer contacto com a criança interior para compreender a nossa continuidade e responsabilidade para com o futuro. Quando temos a oportunidade de reviver o amor e a aceitação que experimentamos como crianças, ou a falta disso, lembramo-nos de quem somos. Saber de onde viemos ajuda-nos a escolher para onde ir, e através das imagens mentais dirigidas podemos sanar qualquer conduta irregular que tenha raízes na tenra infância.

“A criança interior” pode fazer o adolescente lembrar-se do mistério, da maravilha e da beleza da vida, e da curiosidade, da liberdade e da criatividade da infância. Um sonho do passado pode reacender-se; uma relação pode ser compreendida e restabelecida; um problema de personalidade pode apresentar-se para ser solucionado. Para realizar todo o nosso potencial, cada um de nós deve chegar a um acordo com o passado, aprendendo com ele, e avaliar como cada parte da nossa história pessoal influencia o nosso presente e futuro colectivos.

Somos mais do que os nossos corpos, mentes, emoções, necessidades, desejos e sonhos pessoais. Temos uma natureza superior e transcendente e fazemos parte de uma espécie que está paulatinamente a evoluir no sentido da totalidade. A criança pequena não está separada desse eu transcendente, mas o adolescente, em busca do conhecimento racional e intelectual do mundo, acaba por se distanciar da sua natureza espiritual. As imagens mentais dirigidas dão aos adolescentes uma oportunidade valiosa de sanar esta dicotomia entre mente e coração.

Através do contacto com o eu ampliado, é possível lançar um olhar para o futuro e ter uma ideia geral do nosso lugar no todo. O eu ampliado é a parte do eu que já alcançou o seu potencial pleno, o projecto que se converteu em realidade. Realizar o exercício do “Eu Ampliado” pode dar origem a uma percepção capaz de modificar as atitudes dos adolescentes em relação a si mesmos e ao mundo à sua volta. Depois disso, eles podem ver a realidade de modo diferente, valorizar a vida a partir de uma nova perspectiva e perder o medo do futuro.

A minha conversa com o meu eu ampliado tem sido, para mim, uma fonte de beleza, de inspiração e de energia, especialmente durante os períodos em que duvido de mim mesma:

Uma senhora idosa caminhou na minha direcção a sorrir, com os cabelos brancos presos no alto da cabeça. A minha primeira impressão foi a da sua força. Ela tocou-me no rosto com a mão forte e enrugada e senti, mais do que vi, uma profunda compaixão nos seus olhos. Observei a sala, semelhante a um atelier de tecto alto e paredes de adobe branco. Era tudo muito simples. Da parede pendia uma bonita tapeçaria de tonalidades delicadas que ela tecera no tear. Mostrou-me vasos de cerâmica translúcida, fina como papel, que acabara de cozer. Resplandeciam. Estava a resgatar um antigo processo alquímico. Os vasos eram frágeis como cascas de ovo, delicados embora firmes, à semelhança do equilíbrio que todos devemos ter para caminhar na vida. Ela aproximou-se de mim e disse-‑me que havia ainda muito trabalho para fazer. Mostrou-me muitos grupos de pessoas que esperavam do lado de fora. Formavam ondas iguais aos anéis de água num lago depois de nele ter sido arremessada uma pedra. Quando parti, ela pôs uma pequena pedra branca na minha mão. Enquanto voltava, ainda sentia a sua mão no meu rosto.

Finalmente, se de facto é verdade que ensinamos aquilo que precisamos de aprender, então ainda preciso de me concentrar, relaxar o meu corpo, tranquilizar a minha mente diante das distracções da vida diária, levar-me menos a sério e penetrar mais fundo na esfera de sabedoria e conhecimentos universais onde há esperança, harmonia e unidade cósmica.

Este é apenas o começo. Lembremo-nos de que ensinamos aquilo que somos, e, quando fazemos estes exercícios com os nossos filhos, alunos, família e outros adultos, tornamo-nos todos como crianças, recuperando o milagre, o mistério e a alegria de tudo isso.

IDADE: de 15 anos à idade adulta

EXERCÍCIO: 10 minutos

CONTINUAÇÃO: 15 minutos

Fecha os olhos e começa a concentrar a atenção na respiração, observando o ar que entra e sai das tuas narinas. Dá a ti mesmo a sugestão de que, a cada expiração, o teu corpo fica cada vez mais relaxado. (Pausa) Muito bem. Agora imagina que estás a viajar através do tempo e do espaço para um lugar que é, para ti, um santuário. O santuário é seguro, simples e belo. Pode estar localizado na natureza, nas colinas ou perto do mar, pode estar no quarto da tua casa ou em qualquer outro lugar à tua escolha, onde te sintas seguro e protegido. Vai lá agora e sente as cores, as texturas, os cheiros, os sons, os sabores. Como é que o teu corpo fica nesse lugar. Terás alguns minutos contados no relógio, que é todo o tempo de que precisas para relaxar neste santuário. (Pausa de três minutos)

Agora é hora de voltares para cá, trazendo contigo a sensação de segurança e protecção que sentiste no santuário, pronto para o desenhares ou escreveres sobre ele. Contarei até cinco. Abre os olhos quando eu disser cinco, sentindo-te relaxado e alerta. Um… dois… três… quatro… cinco.

 

Reacções ao exercício do santuário

Eis o que disse Matt, de 18 anos:

O meu santuário é uma clareira fechada, cercada de palmeiras e de outras plantas verdes e cortada por um regato; algumas pedras grandes formam um local de repouso perto do regato. O lugar é silencioso, a não ser pelo rumor dos pássaros e do regato. Um pequeno pagode de pedra está situado do outro lado do regato. O meu aliado, a raposa, está deitado ao meu lado. Circula uma brisa fresca. O céu azul é visível, bem como algumas nuvens brancas, encapeladas e claras acima da abertura no alto das árvores. Parece a fusão perfeita da natureza com um jardim feito pelo homem.

A criança interior

IDADE: de 15 anos à idade adulta

EXERCÍCIO: 10-15 minutos

CONTINUAÇÃO: 15 minutos

Fecha os olhos e começa a acompanhar a tua inspiração e expiração, através das tuas narinas. Enquanto segues o movimento da respiração, deixa o teu corpo relaxar. (Pausa) Agora, prepara-te para acolher a tua criança quando ela surgir. Pode ter cinco, oito ou dez anos, ou qualquer outra idade. Também pode mudar de idade durante a visita. Ei-la que chega. Pousa a tua mão que escreve na mão da criança quando ela chegar. Sente o contacto de ambas as mãos e começa a interagir com ela, deixando-a assumir o comando. Sê o amigo mais velho da tua criança, o amigo que ela sempre quis. Se ela quiser levar-te para o esconderijo secreto, para um jardim ou para o quarto para brincares com ela, acompanha-a. Ela pode querer conversar contigo ou pedir-te que pegues nela ao colo. Sê atencioso com as necessidades e desejos dela e aprende o que ela tem para te ensinar. Terás 5 minutos contados no relógio, que é o tempo de que precisas para ficar com ela. Podes começar. (Pausa de 5 minutos) Agora, é o momento de dizer adeus, por enquanto. Agradece à tua criança o tempo que passaram juntos e diz-lhe que em breve lhe pedirás que volte outra vez. (Pausa)

Contarei até dez. Junta-te a mim quando eu disser seis, sentindo-te bem relaxado e alerta, e pronto para escrever sobre o teu encontro. Um… dois… três… quatro… cinco… seis… sete… oito… nove… dez.

Maureen Murdock

Giro Interior

S.Paulo, Cultrix, 1987

Excertos adaptados

Read Full Post »

Anterior: Aventura com a fada das flores e Uma imagem positiva de si mesmo

 O aliado interior

IDADE: de 5 anos à idade adulta

EXERCÍCIO: 5-10 minutos

CONTINUAÇÃO: 15 minutos

Fecha os olhos e concentra a atenção na inspiração e na expiração das tuas narinas. Continuando a respirar no teu ritmo, imagina que estás a passar por um caminho numa floresta muito densa. À tua volta há belas árvores verdes, e esse caminho desce em direcção a um murmúrio de água. Chegas a um pequeno curso e aproximas-te dele, até ver o teu reflexo na água. (Pausa)

Logo percebes outra presença próxima de ti mas sentes-te inteiramente seguro. Vês outro reflexo junto do teu na água. Essa outra presença pode ser a de um velho sábio, a de um animal ou a de um ser imaginário que sentes como teu aliado, alguém que já conheces há muito tempo, alguém em quem podes confiar. O teu aliado faz um sinal para que o sigas através de uma pequena ponte que cruza o rio. Vais e vês-te a subir um morro que leva a uma gruta. O aliado entra na gruta, senta-se e faz um gesto para que o sigas. (Pausa de um minuto)

É possível que tenhas uma pergunta especial para fazer ao teu aliado e fá-la neste momento. Ouve atentamente a resposta. (Pausa de um minuto)

O teu aliado diz-te que podes voltar à hora que quiseres. Ele estará sempre à tua espera para o ajudares em tudo o que precisar. Agradeces-lhe e fazes o caminho de volta pela ponte, tornando a olhar o teu reflexo na água. Vais percebendo como te sentes enquanto sobes o caminho. Sais da floresta e tornas-te consciente de estar sentado aqui, plenamente presente. Conta para ti mesmo até três e, lentamente, abre os olhos.

 ***   ***   ***

Reacções ao exercício “o aliado interior”

 

 

Eis o que disse Bekki, de 16 anos:

 

O meu índio voltou para mim, em intervalos, durante anos. Ele tem estado sobretudo aqui e ali desde que me mudei para Los Angeles. Nunca me fala verbalmente, mas posso ouvir os seus pensamentos. Sugere coisas e diz-me o que pensa que eu devo fazer quando estou perdido ou confuso. Foi a minha mãe que me deu a ideia do índio. Às vezes, não posso interagir fisicamente com ele na minha mente. Às vezes, limitamo-nos a sentar-nos juntos e a fumar um cachimbo. Geralmente vejo-o a fazer várias coisas e a pensar por mim. Por vezes nem sequer o vislumbro ou penso nele, mas ele ajuda-me a racionalizar e a interpretar os meus sentimentos e as minhas acções. Ele é muito simples e está sempre perto de uma tenda. Calça mocassins e veste calças de camurça e uma camisa. Tem longas tranças negras, e em volta da cabeça uma tira feita com penas e contas. Usa em redor do pescoço uma fieira de contas castanhas, brancas, azuis e pretas. Os mocassins são ornados de contas. Parece sempre tranquilo.

A busca da identidade

Nesta sociedade, temos poucos rituais para assinalar o fim da infância e o início da idade adulta. Queremos que os nossos adolescentes assumam cada vez mais a responsabilidade pelas suas vidas, na escolha de empregos, de namorados e de colégios, mas não deixamos de os tratar como crianças. Castigamo-los, negando-lhes regalias, quando pensamos que não estão a comportar-se como adultos responsáveis.

Os adolescentes são principiantes. Estão a enfrentar, pela primeira vez, muitas experiências e problemas de adultos. Subitamente, vêem-se diante de problemas tão diferentes como o significado dos papéis masculino e feminino, a identidade e a actividade sexual, preocupações financeiras, seguro de automóvel, candidatar-se a empregos, decisões sobre a escola e sobre sair de casa e tentar entender quem são. Além disso, ainda queremos que vão deitar o lixo fora e que façam todos os deveres sem demora. Eles precisam de toda a nossa compreensão, orientação, paciência e estímulo e, naturalmente, também queremos a sua cooperação e respeito. O que em geral ocorre é uma luta emocional pela supremacia.

Para encontrar a sua própria identidade, os adolescentes repelem frequentemente as figuras dos pais e de outras autoridades e contam com o apoio e conforto dos amigos. Na adolescência, dos 16 aos 19 anos, a busca da própria identidade intensifica-se. É esta mesma busca que atemoriza pais e professores e os torna mais restritivos.

O adolescente defronta-se com a necessidade de afirmar a sua vontade de conhecer a própria identidade, e receia que, se o fizer, possa perder o amor dos pais. A mensagem por detrás disto é: “Posso correr o risco de afirmar quem sou, ou tenho de me conformar em ser amado por vocês?” Como disse Brett, de dezassete anos: “Quero que o meu pai compreenda que sou jovem apenas uma vez e que preciso de experimentar. Não estou a tentar exasperá-lo. Apenas tenho necessidade de procurar.”

Outros adolescentes sentem-se culpados em relação à dicotomia entre o eu que mostram aos pais e professores e o eu que está a estudar diferentes papéis com os amigos. Tim, de dezoito anos, diz: “Quero que os meus pais saibam quem realmente sou. Eles pensam que sou bonzinho.” Os pais não estão menos confusos do que os filhos. Primeiro queremos prendê-los e, momentos depois, não vemos a hora de os soltar.

Eu mesma dei comigo a transformar-me numa mãe cada vez mais exigente quando o meu filho se preparava para ir para a faculdade. Durante o último ano que passou na escola secundária, tentei impor uma lei marcial cada vez mais rigorosa em relação a chegar cedo, até que Brendan me chamou a atenção para o facto de que podia ficar fora até mais tarde quando estava no nono ano! Compreendi, então, que estava apreensiva não apenas em relação ao comportamento que ele e os amigos estavam a adoptar, mas também em relação ao seu crescimento e afastamento da família.

Dizer adeus a uma relação dependente e tentar encontrar uma nova maneira de se relacionar baseada na independência são as tarefas do adolescente mais velho, assim como dos pais ou do professor. E não é fácil. Este é um período de muitas emoções mescladas. Para os filhos, a alegria, as expectativas e a liberdade que associam à passagem para a idade adulta estão misturadas com o medo de se afastar da segurança e da protecção do lar.

Os pais perguntam-se se incutiram todos os valores “certos” e se prepararam o filho ou filha de maneira suficientemente boa para a vida. Os professores preocupam-se em saber se prepararam os alunos de modo adequado para os estudos futuros ou os deveres profissionais. Pais e professores têm também que se haver com sentimentos de perda quando os adolescentes amadurecem e se afastam do seu convívio diário.

Esta é uma fase difícil para o adulto que não tem consciência do necessário distanciamento pelo qual o adolescente deve passar. Os adultos podem, muitas vezes, sentir-se rejeitados, impotentes e não-amados, e perguntam-se o que aconteceu com a relação afectuosa que existia entre a criança e o adulto.

Lembre-se de que esta é uma fase de desenvolvimento e não durará para sempre. Quanto mais espaço der às crianças para encontrarem a sua própria identidade, mais elas quererão compartilhá-la consigo – no momento certo.

Continuação: A criança interior encontra-se com o seu eu ampliado

Maureen Murdock

Giro Interior

S.Paulo, Cultrix, 1987

Excertos adaptados

Read Full Post »

Anterior:   As artes da linguagem e da leitura

Aventura com a fada das flores

 ** **

IDADE: de 3 a 12 anos

EXERCÍCIO: 5 minutos

CONTINUAÇÃO: 5-15 minutos

Às vezes pode criar-se um exercício de imagens mentais dirigidas com base numa história escrita pelas crianças. Depois de ler a história da minha filha Heather, de 9 anos, que acompanha este exercício, usei o tema dela para criar este exercício sobre as fadas das flores. Estas imagens mentais permitem que as crianças satisfaçam plenamente o seu sentido de magia e de aventura.

Fecha os olhos e concentra a atenção na respiração. Suavemente, inspira… e expira. Enquanto respiras calmamente, o teu corpo torna-se cada vez mais relaxado. Imagina agora que estás sentado ao ar livre na relva, num belo dia de sol quente. Estás a deleitar-te ao contemplar o desabrochar de novas flores. Sentes prazer nas suas cores e aromas. De repente, vês um ser diminuto à tua frente, subindo pela haste de uma linda margarida. Esse ser não é maior do que o teu dedo médio; ao voltar-se para ti, faz um sinal de que deves segui-lo. Percebes que também te tornaste pequeno e apressas-te a acompanhar a tua nova amiga. Tens agora três minutos contados no relógio, que é todo o tempo de que necessitas para realizar uma aventura com esta fada das flores.

(Passados três minutos) Agora é hora de te despedires da tua amiga e de voltares para cá, repleto de lembranças da tua aventura. Contarei até dez. Junta-te a mim quando eu contar seis, e abre os olhos, sentindo-te alerta e revigorado, quando eu chegar ao dez. Um… dois… três… quatro… cinco… seis… sete… oito… nove… dez.

As fadas das flores

Numa pequena aldeia da Irlanda, vivia uma menina chamada Mindy. Ela morava num lindo chalezinho. Do lado de fora do chalé havia todo o tipo de flores que se possa imaginar, e a margear as flores havia caminhos de tijolos. As flores cresciam a toda a volta do chalé num carreiro de quase dois metros de largura. Para lá dos caminhos e das flores, havia um relvado onde Mindy gostava de brincar. Mindy tinha dez anos e cabelos louros compridos. Morava com a mãe, o pai e a sua irmãzinha, Holly.

Um dia Mindy estava sentada no relvado, a olhar para todas as flores, quando percebeu um diminuto ser alado de quase dois centímetros e meio de altura, sentado numa graciosa flor branca, a conversar com uma joaninha. Dizia: “Ninguém quer brincar comigo, joaninha. Estão todos muito ocupados.” Mindy assustou a joaninha e a menina quando disse: “Eu brinco contigo; afinal de contas, quem és tu?” A menina disse: “O meu nome é Emília. Sou uma fada das flores.” Mindy brincou com Emília o resto do dia até que a chamaram para jantar. Depois do jantar, leu para Holly e, em seguida, foi dormir.

A meio da noite uma torrente de luz brilhou nos seus olhos. Quando acordou, viu-se num pequeno leito de pétalas de rosa em lugar do cobertor. Mindy olhou para si e viu que tinha asas. Levantou-se e olhou em redor. Estava num lugarzinho onde havia uma escada que subia até a uma porta. Galgou-a e bateu na porta. Emília abriu. “Bom dia”, disse. Mindy perguntou: “Por que estou tão pequena quanto tu?” Emília replicou: “Não há tempo para explicar. Quero que conheças o rei e a rainha das fadas das flores.” Saíram e estavam numa aldeia onde todas as casas e lojas eram feitas de cogumelos. Foi numa casa de cogumelo que Mindy acordou. Nunca as tinha visto quando estava a brincar, porque elas ficam muito bem escondidas debaixo das flores.

Foram para o palácio de cogumelo. De início, andavam, mas depois Mindy aprendeu a voar, de modo que fizeram um voo até chegar ao grande e imponente cogumelo. Ao ver como Emília era pequena comparada com o rei e a rainha, Mindy espantou-se; eles tinham quase dez centímetros e Emília apenas uns dois e meio. Mas, por outro lado, Emília não tinha a idade do rei e da rainha. Estes ficaram muito contentes em ter Mindy como uma fada das flores. Elas não se demoraram muito porque Emília estava ansiosa por mostrar tudo à sua nova amiga. Ao voltarem à aldeia, ela apresentou Mindy ao pai, cujo nome era Tom, à irmã, Elizabete, e à mãe, Maureen. Moravam todos com Emília, mas não estavam em casa de manhã.

Emília e Mindy brincaram uma com a outra todos os dias e divertiram-se imenso até que, um dia, Mindy ouviu a sua mãe a chorar porque pensava que ela tinha ido embora. Dali a alguns dias, Mindy sentiu saudades e quis voltar para casa, mas nenhuma das fadas sabia como fazê-la voltar ao tamanho normal. Um dia, Emília saiu de manhã bem cedo para descobrir como fazer Mindy voltar ao tamanho normal. No caminho encontrou o seu amigo gafanhoto, “Gafanhoto, como posso fazer a minha amiga voltar ao tamanho normal?” “Emília, deves saber que podes ter tudo o que quiseres, se disseres o que queres à flor branca silvestre.” “Muito obrigada, gafanhoto, adeus”, disse Emília. E foi a correr para casa contar tudo a Mindy.

Quando Mindy ouviu isto, disse adeus a todos e foi falar com a flor branca silvestre. Murmurava: “Eu gostaria de voltar ao meu tamanho normal, se tu deixasses, minha linda flor.” Imediatamente se viu de volta à sua confortável cama. Somente ela e as fadas das flores se lembrarão do maravilhoso passeio de Mindy ao país das fadas.

 

 

Uma imagem positiva de si mesmo

 

Um dos mais importantes efeitos secundários do uso de imagens mentais dirigidas é o desenvolvimento de uma imagem positiva de si mesmo. As crianças aprendem melhor quando crêem que podem fazê-lo. Essa atitude positiva comunica-se a tudo o que fazem. A maioria das crianças vale-se das outras para se tranquilizar quanto às próprias capacidades. As crianças que desenvolveram uma imagem de si mesmas como pessoas criativas e capazes não têm constante necessidade de reconhecimento dos outros. Elas sabem que são capazes!

A criança que se imagina a melhorar determinada habilidade, a realizar bem uma prova ou a aprender com facilidade algo de novo, começa a acreditar que isso é, de facto, possível. À medida que a habilidade desejada se aprimora ou a nota desejada num exame é alcançada, a confiança da criança em si mesma fortalece-se. Ela aprende a ter confiança em si, na sua capacidade de aprender e de ser bem-sucedida.

Um facto importante a lembrar é que, quando estamos felizes, tornamos óptima a nossa capacidade de aprender. Devido à maneira como é estruturado o cérebro, é impossível separar as emoções da aprendizagem. Os caminhos neurais entre o neocórtex (o cérebro cognitivo) e o sistema límbico (o cérebro emocional) estão sempre abertos, mesmo nas pessoas que crêem que as suas acções são dirigidas exclusivamente pelo intelecto. Por conseguinte, a primeira coisa que temos a fazer para preparar uma criança a fim de que aprenda é criar uma adequada estrutura mental.

Percebi isto quando coordenei um exercício de imagens mentais dirigidas sobre a ideia de si mesmo com um grupo de índios norte-americanos, do sétimo ano, em British Columbia. No final do exercício, perguntei ao grupo em que habilidades imaginavam que estavam a melhorar. Um dos jovens alunos viu-se a apanhar mais peixe; outra viu-se a pintar com mais destreza; outro viu-se a melhorar em matemática. Uma menina veio no final da aula e, com uma voz quase sussurrada, disse: “Eu não me vi a melhorar na escola ou no desporto. Apenas me vi como alguém feliz.”

O avô dela, de setenta e oito anos, um ancião da tribo e professor da escola, estava presente durante o exercício e ouviu a resposta da neta. Numa reunião de professores, naquela tarde, discutimos os efeitos das imagens mentais sobre a aprendizagem. Ele disse ao grupo que esta era a coisa mais importante que a neta tinha a aprender na vida: ser feliz. Às vezes estamos tão preocupados em encher os nossos filhos de conhecimentos que esquecemos as coisas mais importantes.

 

Enfrentando a tensão

 

A crença de que aprendemos melhor sob tensão não é verdadeira. Quem quer que tenha experimentado a “ansiedade de um exame” sabe como a tensão e o esforço interferem na aprendizagem, assim como na memória. Um simples exercício de relaxamento pode aliviar a angústia que muitas vezes acompanha uma tarefa difícil, seja a representar, a falar em público ou a realizar um exame. A criança pode adquirir controle sobre as desagradáveis emoções de ansiedade através da respiração e do relaxamento muscular.

Num projecto financiado pelo governo federal e realizado na Bell High School, em Los Angeles, alunos do nono ano que estudavam Inglês como segunda língua alcançaram notas significativamente mais altas em testes de competência linguística do que aqueles que tinham o inglês como primeira língua. Isto ocorreu como resultado dos exercícios de relaxamento e do uso de imagens mentais. Visto que se imaginavam como alunos calmos e bem-sucedidos, aprendiam mais depressa e retinham na memória mais informações.

Na sala de aula ou em casa, o uso de um breve exercício de relaxamento pode ser particularmente eficaz antes de uma reunião para resolver problemas de relações interpessoais. As crianças, assim como os adultos, ficam suficientemente relaxadas para falar dos sentimentos de mágoa com bons resultados. Elas aprendem a identificar os seus próprios sentimentos negativos e a dizer como a atitude negativa dos outros as afecta. E as soluções tornam-se mais criativas.

O diálogo que vamos transcrever ocorreu entre duas alunas do jardim de infância. Essas meninas faziam parte de um triângulo cujos membros estavam constantemente a manipular-se uns aos outros. Fizemos um breve exercício de relaxamento antes de discutir o problema em questão. Talvez concordem comigo: este nível de conversa é extraordinariamente maduro para quem tem cinco anos.

Juliana: Ania, feriste de facto os meus sentimentos quando não me deixaste brincar contigo, com a Jennifer e a Michelle.

Ania: Não queria ferir os teus sentimentos; apenas não estava com vontade de brincar contigo.

Juliana: Mas tu disseste que eu podia brincar contigo quando saíssemos e isso fez-me realmente sentir excluída.

Ania: Esqueci-me. Podes brincar connosco na hora do lanche.

Continuação: O aliado interior

Maureen Murdock

Giro Interior

S.Paulo, Cultrix, 1987

Excertos adaptados

Read Full Post »

Anterior:  Confiança no processo

As artes da linguagem e da leitura

 

As crianças gostam de ler as suas próprias histórias e as dos seus companheiros de turma. Aprendem a ler melhor quando lêem algo com implicações pessoais. Depois de um exercício de imagens mentais, podemos sugerir aos nossos filhos mais novos ou à turma que desenhem as figuras que viram na sua imaginação. Podem ditar-lhe as histórias a si ou a uma pessoa mais velha que possa escrever as palavras.

Em seguida, as crianças lêem as histórias em voz alta. Que orgulho sentem ao escrever e ler em voz alta as suas próprias histórias! Pode-se, além disso, aumentar o seu conhecimento do vocabulário, usando as palavras que aparecem na história para ilustrar regras fonéticas e ortográficas.

Depois de um exercício de imagens mentais, a história seguinte foi desenhada e ditada a mim por Taro, um menino de sete anos classificado pelo professor como “incapaz de ler”. Em seguida, ele leu a sua história em voz alta para o grupo, surpreendido pela recém-adquirida capacidade de ler e orgulhoso dela:

Quando olhei para os espelhos, vi um arco-íris a formar-se e no próprio círculo interior do arco-íris havia uma lista preta que estava a ser puxada para baixo. Quando chegou ao centro, transformou-se num pequeno ponto e lentamente desapareceu. Compreendi então que aquele era o ponto dentro de mim onde me faltava a confiança. E quando soube disso, senti-me a sair do chão e pus-me a voar como Jonathan Livingstone Seagull. Comecei então a aprender a controlar o meu corpo, e podia voar rápido ou devagar e de cabeça para baixo. Depois, comecei a sentir como se estivesse a transformar-me numa outra pessoa.

 

A redacção criativa

 

Depois de experimentar uma rica imagem visual, uma criança, Jessica, pôde descrevê-la com as seguintes palavras:

 

A Folha do Ácer

A cor da folha

é como um pôr-do-sol laranja

A textura da folha

é como as pedras redondas da estrada

O aroma da folha

é ainda o mais doce

Mas o gosto da folha

é celestial.

Este poema foi precedido por um exercício de imagens mentais que realizei com a minha turma da terceira classe, levando os alunos a conhecer os prazeres que as folhas de Outono provocam nos sentidos. Numa viagem à Costa Leste, reuni folhas de muitas variedades, cores, formas e tamanhos. Os alunos da minha turma tinham crescido no Sul da Califórnia e nunca tinham visto o magnífico espectáculo das cores outonais. Sem lhes mostrar as folhas, pedi às crianças que fechassem os olhos e usassem todos os sentidos quando examinassem o que estava prestes a oferecer-lhes.

 

Senta-te numa posição confortável e fecha os olhos. Põe as mãos nas coxas, com as palmas para cima. Concentra a atenção na respiração e quando respirares, o corpo e a mente ficarão cada vez mais relaxados. (Pausa) Imagina que estás sentado debaixo da tua árvore predilecta e que começa a soprar uma brisa suave. (Pausa) Sentes as folhas que caem da árvore. (Deixe cair as folhas lentamente sobre as crianças.) Ainda com os olhos fechados, pega numa folha e segura-a nas mãos. Sente as nervuras da folha e percebe a sua forma e tamanho. Imagina de que cor pode ser. Esfrega-a no rosto e repara na sua textura. Cheira-a… O que é que ela te faz lembrar? Imagina qual é o seu gosto. Podes-te levantar, se quiseres, e move-te imitando a queda suave das folhas no Outono. (Pausa) Quando estiveres pronto, abre os olhos devagar.

A reacção a este exercício serviu-me para saber como é importante o uso dos sentidos na aprendizagem. E um aluno disse:

Vejo folhas a dançar na brisa

Algumas são amarelas, verdes e vermelhas,

Outras parecem-se com coisas que jamais vimos antes.

A minha tem cheiro de carvalho e, com certeza, é a melhor.

A textura da folha cheira a vermelho

A forma da folha lembra-me uma mão,

Quando a levanto, posso ver a sombra das nervuras.

Neste poema, a textura cheira a vermelho. Este menino cruzou o sentido táctil com o olfacto e a visão. Este dom, chamado sinestesia, é um instrumento eficaz na ampliação da memória. Este aluno, em particular, apresentava a melhor memória da turma e estava adiantado um ano em matemática.

 As imagens mentais dirigidas são um meio excelente para criar, de acordo com um ponto de vista diferente, as personagens de uma narrativa. As crianças relacionam-se de modo muito intenso com os animais e criam empatia com os seus sentimentos. Elas revelam muito do que têm dentro de si mesmas quando assumem o papel de um animal favorito.

Histórias extraordinárias surgem quando a criança adquire as características e atitudes físicas de uma personagem que encontrou no exercício de imagens mentais. Estas personagens tornam-se multidimensionais, e não meras caricaturas monótonas e estereotipadas. Num exercício de imagens mentais em que os alunos foram instruídos para se transformarem nos seus animais favoritos, uma criança (Jenny, de 10 anos) escreveu a seguinte história:

 

Eu estava a descer um caminho pedregoso. Tinha calor e sede. A minha boca estava cheia de água. De repente, vi surgir um tanque e corri rapidamente na sua direcção. Fui tão depressa que nem reparei que andava sobre quatro pés. E os meus bigodes estavam a fazer cócegas nas minhas bochechas. Ao chegar ao tanque, imediatamente vi que me tinha transformado num dos meus animais favoritos. Um gato! Um gato com longos pêlos castanhos.

Molhei a pata no tanque e lambi-a com a ponta da minha áspera língua cor-de-rosa. Depois de um certo tempo, imaginei que o gato em que me tinha transformado era exactamente como eu. Com a unha, desenhei um gato. Até como gato eu podia desenhar gatos melhor do que ninguém.

Justamente nesse instante senti alguém tocar de leve na minha pata. “Olá”, disse uma vozinha. Olhei em volta e não vi nada nem ninguém. “Olha para baixo”, disse novamente a voz. Olhei para baixo e vi uma joaninha. “Fico contente por alguém me encontrar”, disse a joaninha. “Estou perdida no nevoeiro e preciso de um lar. Quero ser tua amiga”, disse a joaninha. Pensei: gosto de fazer amigos. Sempre gostei. O facto de ser um gato não deve mudar nada. “Se eu for teu amigo, tu serás minha amiga?”

“Naturalmente”, disse a joaninha. “Teremos um longo dia amanhã, Jenny”, disse a joaninha. “Como sou uma joaninha pequena, vais-me contar uma história para dormir.” Eu contei-a porque gosto de inventar histórias. Quando acordei de manhã, já não tinha bigodes. Não tinha longos pêlos castanhos. Era a menina comum de cabelos vermelhos e sardas. Sabia que estava na hora de ir embora. E assim peguei na joaninha e voltei para a sala de aula.

Continuação: Aventura com a fada das flores

Maureen Murdock

Giro Interior

S.Paulo, Cultrix, 1987

Excertos adaptados

Read Full Post »

Older Posts »